O Monstro dentro de mim
21 O que já somos
Leah ainda segurava a mão de Adrian Thorne quando decidiram entrar apenas para pegar sua bolsa e ir embora. O calor da casa voltou como um impacto: música alta demais, corpos próximos demais, gente demais ocupando espaço demais. Mas, dessa vez, nada daquilo importava. Eles estavam alinhados, e isso mudava tudo.
Tinham dado apenas alguns passos corredor adentro quando um rapaz, surgiu cambaleando da cozinha com um copo plástico na mão e confiança alcoólica demais para alguém que mal conseguia andar reto.
Ele viu Leah primeiro. E só Leah. O sorriso apareceu imediatamente.
— Caramba... — o garoto riu, aproximando-se sem perceber o tamanho do erro. — Você é ainda mais bonita de perto.
Leah já reconheceu o tipo no mesmo instante. Bêbado inconveniente. Excessivamente confortável com a própria falta de noção. Ela já estava prestes a desviar quando ele se aproximou mais, inclinando-se perto demais enquanto tentava, sem cerimônia alguma, tocar a cintura dela.
Só então pareceu perceber Adrian ao lado. E se arrependeu...
Porque a presença dele vinha como impacto. O tipo de homem que ocupava espaço sem esforço, alto demais, largo demais, elegante demais para aquele ambiente universitário.
O garoto travou tarde demais. O copo escapou da mão dele no movimento brusco, e o líquido gelado atingiu Leah em cheio, escorrendo pela frente da blusa preta.
O silêncio ao redor veio imediato.
— Merda. Foi sem querer, eu—
Adrian não respondeu.
E aquilo foi pior do que qualquer reação explosiva teria sido.
Ele apenas olhou para o rapaz.
Calmo.
Frio.
Com aquele controle absoluto que fazia qualquer pessoa minimamente sóbria perceber o perigo imediatamente.
O garoto empalideceu.
Porque agora estava vendo direito. Não só o tamanho de Adrian, mas o olhar.
O tipo de olhar que dizia claramente que ele estava escolhendo não transformar aquilo em problema.
— Saia do caminho — Adrian disse, baixo.
O rapaz obedeceu na mesma hora.
Leah segurou o braço dele antes que o silêncio pesado da sala virasse algo maior.
— Vamos antes que você traumatize universitários.
Os olhos dele desceram imediatamente para a roupa molhada dela, para o tecido grudado na pele, e o maxilar tensionou de leve.
— Ele tentou colocar a mão em você.
— E agora provavelmente vai passar os próximos seis meses revendo as próprias escolhas — respondeu ela, puxando a bolsa do sofá.
Isso quase arrancou um sorriso dele.
Quase.
— Casa. Agora.
Adrian deixou que ela o conduzisse para fora, mas ainda sentia o incômodo queimando sob a pele. Não pelo garoto. O rapaz não significava absolutamente nada. O problema era outro. Era perceber quantas pessoas olhavam para Leah quando ela entrava num lugar. Quantas se aproximavam sem pensar. Quantas viam nela a mesma coisa que ele via.
E aquilo despertava nele um instinto perigosamente possessivo para um homem que sempre acreditou ter controle sobre si mesmo.
*****
O Aston Martin preto esperava na rua molhada como um animal caro demais para aquele bairro universitário.
Leah percebeu isso imediatamente.
Não entendia muito de carros, mas entendia presença. E aquele carro tinha a mesma energia do homem que o dirigia: silencioso, elegante e intimidador sem precisar chamar atenção.
Adrian abriu a porta para ela, e Leah hesitou por um segundo. Não por nervosismo. Mas, porque aquilo parecia... íntimo de um jeito diferente.
A mansão dele era enorme. Tinha corredores demais, quartos demais, espaço suficiente para esconder sentimentos atrás de portas fechadas e rotinas silenciosas. Mas o carro era outra coisa. Fechado. Próximo. Sem distância possível entre eles. O tipo de espaço onde não existia muito para onde fugir quando Adrian olhava daquele jeito.
Ela entrou mesmo assim.
O interior cheirava a couro escuro, coisa cara e ao perfume dele, aquele cheiro limpo e masculino que Leah já associava automaticamente a segurança, calor e tesão. As luzes discretas do painel iluminavam o interior sofisticado sem exagero, e tudo ali parecia absurdamente bonito, absurdamente caro e absurdamente pertencente ao mundo dele.
Um mundo que ainda não parecia combinar com ela.
— Meu Deus — murmurou, passando os olhos pelo painel iluminado. — Isso aqui parece mais caro do que minha faculdade inteira.
Adrian fechou a porta ao redor dela.
— Provavelmente é.
Leah lançou um olhar ofendido na direção dele.
— Você não devia dizer isso em voz alta.
O canto da boca dele se moveu quase involuntariamente.
Quase um sorriso.
E aquilo mexeu mais com ela do que deveria.
Porque Adrian raramente sorria daquele jeito. Pequeno. Verdadeiro. Como se ela arrancasse dele reações que o resto do mundo não conseguia alcançar.
Leah afundou no banco de couro macio e respirou fundo. Era ridículo o quanto tudo nele parecia excessivo. O carro. A voz. A presença. Até o silêncio dele parecia caro.
E talvez fosse exatamente por isso que ela ainda não conseguia entender por que aquele homem olhava para ela daquela forma.
Porque Leah nunca se enxergava direito.
Em La Push, crescera cercada pela matilha, pelos meninos que a conheciam desde criança, pelas brigas, transformações e dramas sobrenaturais grandes demais para permitir vaidade. Durante anos, Leah tinha sido "a filha do Harry", "a irmã do Seth", "a ex do Sam", "a loba irritada". Bonita nunca parecera a característica mais importante.
E talvez fosse justamente esse o problema. Ela não percebia os olhares. Não percebia quando homens viravam o rosto para acompanhá-la passando. Não percebia o efeito que causava porque crescera aprendendo a sobreviver, não a ser admirada.
Mas, Adrian percebia.
Tudo.
A maneira como o cabelo curto dela emoldurava o rosto forte e bonito. O jeito como os olhos escuros pareciam ainda mais vivos quando ela estava irritada. As pernas longas dentro do jeans justo. A boca impossível de ignorar quando sorria sem querer.
E talvez o mais perigoso de tudo fosse que Leah não fazia esforço algum.
Ela simplesmente existia daquele jeito.
Assim que entrou no carro, arrancou o casaco e o jogou no banco de trás. O tecido caiu pesado e úmido. A blusa estava pior: encharcada, grudando na pele de um jeito frio e desconfortável.
— Que nojo.
Adrian ligou o aquecimento imediatamente.
Sem cerimônia, Leah puxou a blusa pela cabeça e a jogou para trás também.
Ficou apenas de sutiã preto.
E Adrian precisou desviar o olhar por um segundo para reorganizar os próprios pensamentos.
Porque havia alguma coisa enlouquecedora nela naquele instante. Talvez o contraste entre a naturalidade com que se despia e a completa falta de consciência do efeito que causava. Leah não fazia aquilo para provocar. Não calculava poses, olhares ou reações. Estava apenas irritada, com frio e desconfortável.
Mas, para Adrian, aquilo era quase pior. Porque tornava tudo involuntariamente íntimo.
A pele dela arrepiada pelo frio. O cabelo curto bagunçado pela chuva e pelos dedos dele. O sutiã preto contrastando com a pele morena quente.
Ela era linda de um jeito perigosamente real.
E não fazia ideia disso.
O silêncio dentro do carro mudou instantaneamente.
Adrian ficou imóvel por um segundo longo demais.
Os olhos dele desceram sem qualquer tentativa de disfarce, percorrendo devagar a curva dos ombros dela, o colo descoberto, a pele arrepiada pelo frio e o contraste do tecido preto contra o corpo quente demais para aquele ar gelado da noite. Depois voltaram ao rosto dela com um esforço visível, como se permanecer olhando fosse ao mesmo tempo inevitável e perigoso.
Leah percebeu.
Claro que percebeu.
Ela não era inocente. Nunca tinha sido. Crescera cercada pelos homens da matilha, por olhares masculinos, por corpos enormes ocupando espaço ao redor dela desde adolescente. Sabia reconhecer desejo quando via.
Só não se lembrava mais que ela podia causar esse tipo de reação.
Durante muito tempo, Leah tinha sido vista através das próprias dores. A namorada de Sam. Depois, a ex. A loba amarga. A mulher irritada demais, intensa demais, difícil demais. Mesmo quando os rapazes de La Push olhavam para ela — e olhavam — aquilo parecia pequeno, distante, irrelevante. Eram só meninos que tinham crescido ao redor dela. Parte da paisagem da própria vida.
Com Adrian era diferente.
Porque ele a olhava como um homem olha para algo que realmente deseja.
E pior: como alguém que tentava desesperadamente não desejar tanto.
Aquilo mexia com ela num lugar perigoso. Porque não era só físico. Não era superficial. Adrian prestava atenção nela inteira, como se cada detalhe importasse. O jeito como o cabelo curto caía bagunçado no rosto, a curva da boca quando ela estava prestes a provocar alguém, a forma como seus olhos escureciam quando ficava nervosa.
Ele via tudo.
E Leah não estava acostumada a ser vista daquele jeito.
E talvez fosse justamente isso que fazia o calor subir pela pele dela daquela maneira.
O sorriso surgiu devagar no canto da boca de Leah.
— O quê?
Adrian apertou o volante por um instante antes de responder.
— Você sabe exatamente o quê.
A voz saiu baixa, rouca, carregada daquele autocontrole que parecia sempre à beira de romper quando estava perto dela.
Leah inclinou levemente a cabeça, observando-o melhor agora. O maxilar dele estava tenso. Os dedos grandes firmes demais no volante. Os olhos claros voltando para ela repetidamente, como se desviar fosse um esforço consciente.
Então ela entendeu, ele estava se contendo. Porque homens normalmente avançavam. Pegavam. Insistiam. Adrian fazia o oposto. Recuava constantemente de coisas que claramente queria, como se precisasse ter certeza de que ela escolheria cada passo junto com ele.
O silêncio voltou, pesado de tudo que tinham passado o dia inteiro tentando ignorar: orgulho, saudade, ciúme, medo e aquela tensão absurda que parecia pior sempre que ficavam separados.
Leah virou mais o corpo na direção dele, apoiando o cotovelo no banco, mas a necessidade de proximidade pareceu crescer rápido demais para aquele espaço pequeno. O olhar dela permaneceu preso no dele por mais um segundo, escuro, quente, decidido. Então se moveu.
Uma perna de cada lado do corpo dele, encaixando-se sobre o colo de Adrian num movimento desajeitadamente perfeito entre o volante e o banco de couro caro demais para aquilo. O Aston Martin definitivamente não tinha sido projetado para comportar uma loba impulsiva tentando subir no dono.
O ar pareceu abandonar os pulmões dele imediatamente.
As mãos de Adrian encontraram a cintura dela por puro reflexo, firmes, grandes demais, segurando-a como se o próprio corpo já soubesse exatamente o que fazer antes da mente acompanhar.
Leah sentiu.
Sentiu tudo.
A tensão dele.
O controle se desfazendo aos poucos.
A respiração mudando quando ela se acomodou melhor sobre ele.
E Deus... aquilo mexeu com ela de um jeito perigosamente viciante.
Porque Adrian Thorne passava a maior parte do tempo tentando parecer inabalável. Frio. Contido. Difícil de alcançar.
Mas ali, com ela no colo dele, os olhos claros escurecendo lentamente enquanto as mãos apertavam sua cintura quase sem perceber, Leah conseguia enxergar cada rachadura daquele controle impecável.
E adorava saber que era ela quem causava aquilo.
A testa dela encostou na dele por um instante, os dois respirando o mesmo ar agora, próximos demais para qualquer mentira sobreviver.
— Leah... — o nome dela saiu baixo, quase cansado.
Não como aviso.
Como rendição.
Ela beijou o canto da boca dele devagar, sentindo o arrepio que atravessou o corpo dele inteiro sob suas mãos.
— Você sempre olha assim pra mim... — Leah murmurou perto demais da boca dele, a respiração dos dois já misturada naquele espaço pequeno demais.
Adrian soltou um riso curto, baixo, os olhos ainda presos nela.
— Assim como?
Ela sustentou o olhar dele por um instante antes de responder.
— Como se estivesse tentando se segurar.
As mãos dele apertaram sua cintura quase sem perceber.
— Você prefere que eu não tente?
O coração dela tropeçou imediatamente.
Porque havia verdade demais naquela pergunta.
Leah aproximou o rosto só mais um pouco, roçando a boca na dele sem beijá-lo ainda.
— Comigo... não.
A frase caiu entre os dois como pólvora.
Por um instante, Adrian apenas a observou, os olhos claros demorando no rosto dela como se ainda procurasse algum sinal de hesitação. Alguma chance de ela mudar de ideia. Recuar. Voltar a transformar tudo em provocação.
Mas, Leah sustentou o olhar. E alguma coisa nele cedeu.
Adrian inclinou-se devagar, dando a ela tempo suficiente para escapar se quisesse.
Ela não quis.
Quando ele a beijou, Leah já o puxava pela gola do casaco, sem paciência para qualquer versão controlada daquilo. O beijo começou quente e imediatamente se tornou mais intenso, porque os dois carregavam o peso inteiro do dia nas costas: orgulho, ciúme, saudade, medo, vontade demais acumulada em silêncio.
As mãos dele seguraram sua nuca e sua cintura ao mesmo tempo, trazendo-a para mais perto apesar do volante, do freio de mão e do espaço absurdamente pequeno. Leah riu contra a boca dele quando tentou se mover e acabou parcialmente sobre o colo dele.
— Seu carro é ridiculamente pequeno.
Adrian soltou um riso baixo contra os lábios dela.
— Você que resolveu escalar o motorista.
Mas, Leah mal ouviu direito.Porque alguma coisa dentro dela parecia ter mudado de eixo.
Talvez fosse o álcool, embora soubesse que não estava bêbada. Seu corpo processava bebida rápido demais para isso. Talvez fossem os meses longe da matilha, longe das patrulhas, longe da tensão constante que viver como loba exigia. Talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, ela estava deixando a si mesma sentir alguma coisa sem culpa.
Ou talvez fosse Adrian.
Porque aquilo era novo.
Aquela normalidade.
Aquela sensação estranha e quase adolescente de querer ficar em cima de alguém só porque gostava da companhia dele. De rir no meio dos beijos. De provocar. De não pensar no amanhã por cinco minutos inteiros.
Com Sam tudo tinha sido intenso demais cedo demais. Amor, dor, imprinting, perda. Leah nunca teve espaço para viver a parte leve das coisas. Nunca teve a chance de simplesmente gostar de alguém antes do mundo desmoronar em cima dela.
Mas ali, dentro daquele Aston Martin absurdamente caro, com Adrian segurando sua cintura como se ela fosse algo precioso e perigoso ao mesmo tempo, Leah percebeu uma coisa quase desconcertante:
Ela gostava da mulher que se tornava perto dele.
Mais impulsiva.
Mais leve.
Mais viva.
E talvez fosse exatamente isso que a tornasse tão incapaz de se afastar.
Ela sorriu contra os lábios dele antes de descer os beijos lentamente pela mandíbula, sentindo a tensão do corpo de Adrian mudar sob suas mãos conforme se aproximava da cicatriz.
Parou ali.
Por um instante, apenas olhou.
A marca atravessava parte do rosto dele de forma irregular, misturando cicatriz antiga e queimadura curada demais para desaparecer completamente. Leah lembrava da primeira vez que a viu direito, da forma como Adrian desviou o rosto naquele dia quase por reflexo, como alguém acostumado a antecipar repulsa antes mesmo que ela existisse.
Mas, nunca existiu. Nem por um segundo.
Ela beijou a cicatriz devagar. Sentiu o efeito imediatamente. O ar dele falhou de verdade, profundo, involuntário, como se aquilo atingisse um lugar muito mais vulnerável do que qualquer toque no resto do corpo.
As mãos grandes apertaram sua cintura com mais força. E Leah entendeu. Não era sobre desejo.
Ou não só.
Havia memória ali. Dor. Vergonha antiga. O peso de anos escondendo o próprio rosto do mundo, acostumado a ver pessoas desviarem os olhos rápido demais ou olharem tempo demais.
Mas, ela não conseguia imaginar fazer nenhuma das duas coisas. Porque quando olhava para Adrian, não via pedaços separados dele. Não via "antes" e "depois" do acidente. Não via um homem bonito apesar das cicatrizes.
Via apenas ele.
Inteiro.
E talvez fosse justamente isso que a assustasse tanto.
Porque Leah percebeu, naquele instante, com uma clareza quase desconcertante, que não estava apaixonada pela tensão entre eles, nem pelo mistério, nem pela forma como ele a tocava.
Ela estava apaixonada pelo homem. Pelo homem difícil, silencioso, quebrado e absurdamente gentil que tentava esconder o próprio coração atrás de controle e ironia.
Aquilo deveria assustá-la mais.
E assustava.
As mãos dele deslizaram lentamente pelas costas nuas dela, aquecendo sua pele fria como se precisassem confirmar que ela ainda estava ali. Leah arrepiou inteira e mordeu de leve o lábio dele em resposta, incapaz de suportar a intensidade daquele olhar por tempo demais.
— Você está com gosto de ciúme e arrogância — murmurou perto demais da boca dele, tentando aliviar a própria vulnerabilidade com provocação.
Adrian soltou um riso baixo, ainda afetado demais pelo beijo na cicatriz para esconder completamente.
— E você de bebida barata e problema.
Leah sorriu.
O vidro começava a embaçar com a respiração acelerada dos dois enquanto a chuva abafava o resto do mundo lá fora. Dentro do carro não havia mais distância, só calor, mãos inquietas e a sensação cada vez mais clara de que nenhum dos dois queria parar.
Leah puxou Adrian pelo colarinho até fazê-lo esquecer completamente qualquer intenção de dirigir. Ele a segurou firme contra si, a testa encostando na dela por um instante, como se precisasse recuperar o próprio fôlego antes de continuar beijando-a daquele jeito.
— Se continuar assim, não sairemos daqui tão cedo.
— Excelente notícia.
Ele riu baixo, sem fôlego e a mão deslizou involuntariamente pelas costas nuas dela outra vez, apertando sua cintura quando Leah se esfregou ainda mais nele.
Foi nesse momento que bateram no vidro. Os dois se separaram abruptamente.
Do lado de fora, um universitário desconhecido ria enquanto dois amigos observavam atrás dele.
— Ei! Arranjem um quarto!
Leah ficou imóvel por meio segundo antes de cair na gargalhada.
Adrian fechou os olhos lentamente, profundamente ofendido.
— Eu odeio universitários.
— Mentira. Você só odeia ser interrompido.
O rapaz fez sinal de positivo antes de se afastar ainda rindo.
Leah finalmente saiu do colo dele, embora mais devagar do que deveria, ajeitando-se no banco do passageiro enquanto tentava recuperar a respiração. O cabelo curto estava bagunçado, a boca inchada pelos beijos e a pele ainda quente demais sob o sutiã preto.
Adrian acompanhou cada movimento dela com os olhos. Como se já estivesse arrependido da distância.
Ela percebeu. E sorriu de lado antes de encostar a cabeça no banco.
Ele respirou fundo. Longo demais. As mãos ainda firmes no volante como se estivesse reunindo força mental para voltar a funcionar como um ser humano minimamente racional.
— Você é uma ameaça pública.
Leah soltou uma risada baixa, olhando o para-brisa embaçado à frente.
— E você veio me buscar mesmo assim.
O carro não se moveu.
As mãos dele permaneceram no volante por alguns segundos antes de Adrian finalmente virar o rosto para ela.
— Olha pra mim.
A voz saiu baixa, mas definitiva.
Leah virou imediatamente.
E dessa vez não havia provocação no olhar dele. Nem ironia. Nem o controle elegante que Adrian usava para sobreviver ao resto do mundo.
Só verdade.
O coração dela desacelerou estranho dentro do peito.
— Eu não quero que você tenha dúvida nenhuma.
Ela ficou imóvel. Porque alguma coisa na forma como ele falou mudou completamente o ar dentro do carro.
— Você já é minha há mais tempo do que percebe.
O coração dela tropeçou dentro do peito. Adrian sustentou o olhar dela sem desviar.
— E não é sobre controle. Não é sobre te prender. Eu tentei te dar espaço, Leah, mas dar espaço pra você é deixar você sozinha com pensamentos que não são reais.
A mandíbula dele tensionou de leve antes de continuar.
— Você pensa que isso aqui é temporário. Que eu vou acordar um dia e perceber que somos diferentes demais. Que meu mundo é grande demais pra você entrar nele ou complicado demais pra você ficar.
Leah abriu a boca, mas ele não deixou.
Não de forma rude. Só... determinada.
— Você é minha namorada. Minha mulher. O que for preciso ser pra você parar de agir como se eu ainda estivesse decidindo se quero isso. Porque eu quero.
A respiração dela falhou. Porque Adrian não dizia coisas da boca pra fora. Nunca.
Ele continuou olhando diretamente para ela, firme, sério, quase vulnerável na própria honestidade.
— E se você quiser, eu caso com você amanhã.
Leah sentiu o peito apertar tão forte que chegou a doer.
Ele soltou um riso curto, pequeno, como se percebesse o tamanho absurdo da própria declaração.
— Não porque eu precise te prender. Deus sabe que ninguém prenderia você. Mas, porque eu estou cansado de agir como se isso aqui fosse menos importante do que é.
A mão dele finalmente deixou o volante.
Subiu devagar até tocar o rosto dela.
O polegar acariciou sua pele quente com uma delicadeza que sempre destruía Leah mais do que deveria.
— Então para de procurar distância onde ela não existe. Porque eu não vou acordar amanhã menos apaixonado por você só porque você decidiu entrar na minha vida feito um furacão.
Leah ficou em silêncio.
Completamente.
Porque, de repente, todas as inseguranças que carregava pareciam pequenas diante da forma como aquele homem a olhava.
Como se já tivesse decidido.
Como se não existisse volta possível.
E talvez não existisse mesmo.
Fale com o autor