Leah acordou no quarto de Adrian Thorne com o corpo agradavelmente cansado e a cabeça perigosamente leve.

A chuva ainda batia suave contra os vidros altos da mansão, e por alguns segundos ela permaneceu imóvel sob os lençóis, tentando entender por que o mundo parecia diferente naquela manhã.

Então lembrou.

O carro.

Os beijos.

A forma como Adrian a olhou quando disse que ela já era dele havia muito mais tempo do que percebia.

O peito dela apertou imediatamente. Não de medo. Ou não só.

Porque felicidade também podia assustar. Especialmente alguém como Leah Clearwater.

Ela virou o rosto devagar e encontrou o outro lado da cama vazio, embora ainda quente. O cheiro dele permanecia preso aos lençóis, à camisa escura jogada no chão e até na própria pele dela. Aquilo era novo também. Essa intimidade silenciosa. Essa sensação quase doméstica de acordar dentro da vida de outra pessoa.

Com Sam, tudo tinha sido intensidade antes de ser calma. Amor antes de construção. Dor antes de escolha.

Com Adrian... era diferente. Parecia que estavam construindo alguma coisa tijolo por tijolo, mesmo quando tudo entre eles pegava fogo rápido demais.

Ela saiu da cama enrolada no lençol e caminhou até a porta ainda sonolenta. Encontrou Adrian na poltrona perto da janela, já vestido, barbeado e irritantemente composto, lendo enquanto tomava café como se não tivesse desfeito completamente a sanidade dela poucas horas antes.

A luz cinza da manhã atravessava o perfil dele, desenhando as cicatrizes sem suavizá-las. E Leah percebeu outra vez, com aquela estranha firmeza que ainda a pegava desprevenida, que nunca enxergaria aquelas marcas como defeitos.

Elas eram simplesmente... Adrian. Parte do homem por quem estava começando a construir um caminho praticamente sem volta.

— Você é suspeitamente civilizado de manhã — murmurou, a voz rouca de sono.

Os olhos claros dele ergueram imediatamente do livro.

E mudaram na mesma hora ao encontrá-la seminua enrolada no lençol.

Leah percebeu... e gostou.

— E você é suspeitamente barulhenta ao acordar.

Ela caminhou até ele sem vergonha alguma, pegando a xícara da mão dele e bebendo um gole antes mesmo de pedir.

— Meu carro ficou na festa.

— Já providenciei.

Ela parou no meio do gole.

— O quê?

— Mandei buscar.

Ela abaixou lentamente a xícara.

— Você mandou alguém pegar meu carro?

— Sim.

— Sem me perguntar?

— Você estava ocupada ontem à noite.

O canto da boca dele quase se moveu.

Quase.

Leah tentou parecer indignada.

Falhou miseravelmente porque estava sorrindo.

— Controlador.

Ele fechou o livro e finalmente se levantou. Alto demais. Bonito demais. Presente demais.

As mãos dele pousaram automaticamente na cintura dela assim que se aproximou, puxando-a para perto com uma naturalidade que ainda fazia o coração dela acelerar.

— Vista-se. Vamos sair.

— Pra onde?

— Seattle.

— Por quê?

— Porque esta noite há a festa de gala anual da Thorne Foundation.

Leah piscou.

— E daí?

— E eu preciso comparecer.

— Ótimo. Boa sorte.

Adrian a encarou.

— Você vai comigo.

Ela soltou uma risada curta.

— Não vou.

— Vai.

— Eu não tenho roupa para gala beneficente de gente rica e assustadora.

— Vamos resolver isso.

— Eu não sei me comportar numa gala beneficente de gente rica e assustadora.

— Isso é exatamente parte do apelo.

— Você quer me exibir? — Leah cruzou os braços.

A boca dele curvou-se de leve.

— Quero você ao meu lado.

O peito dela apertou traiçoeiramente.

Porque ele dizia aquelas coisas com uma simplicidade brutal. Como se já tivesse decidido tudo sozinho enquanto ela ainda tentava entender em que momento tinha começado a pertencer à vida dele daquele jeito.

— Isso foi baixo.

— Funcionou?

Leah bufou.

— Talvez.

*****

Duas horas depois, estavam em Seattle.

Leah ainda se sentia em um surto leve por estar no banco do passageiro de um Aston Martin absurdamente caro, sendo levada para comprar vestido com um homem que parecia saído de um problema emocional elegante.

A cidade se movia do lado de fora em vidro, chuva e luzes borradas, enquanto Adrian dirigia com uma mão no volante e a outra descansando distraidamente sobre a perna dela como se aquele toque já fosse hábito.

Talvez estivesse virando. E isso mexia mais com ela do que deveria.

Porque Leah nunca tivera normalidade.

Nem antes da transformação. Muito menos depois dela.

Sua vida sempre foi marcada por extremos: amor demais, raiva demais, dor demais, pensamentos demais dentro da cabeça compartilhada da matilha. Até mesmo o imprinting sempre lhe pareceu cruel justamente porque removia a escolha das pessoas.

Mas, aquilo com Adrian era escolha.

Todos os dias.

Toda vez que ele olhava para ela.

Toda vez que ela permanecia.

E talvez fosse justamente isso que tornava tudo mais importante.

Mais assustador também.

Porque Adrian não era um lobo.

Não era imprinting.

Não era destino sobrenatural.

Era um homem.

Um homem humano, quebrado, difícil e absurdamente gentil que estava lentamente fazendo a loba dentro dela aquietar de um jeito que ninguém jamais conseguiu.

E Deus.

Como ela precisava contar a verdade para ele.

Antes que se apaixonasse tanto a ponto de não conseguir mais imaginar a própria vida sem aquilo.

— Eu podia ter recusado. — murmurou enquanto observava os prédios altos surgirem pela janela.

— Ainda pode.

— Você ficaria insuportável.

— Já sou.

Leah riu baixo.

Então o carro parou diante de uma boutique silenciosa e elegante o suficiente para fazê-la desejar imediatamente dar meia-volta.

— Não.

— Sim.

— Thorne, uma meia aqui custa meu antigo aluguel.

— Então escolha algo que valha dois aluguéis.

— Você é ofensivo.

Ele saiu do carro e abriu a porta para ela antes que pudesse continuar reclamando.

— Desça, Clearwater.

Ela desceu.

E imediatamente se arrependeu.

O lugar inteiro parecia caro demais para permitir que ela respirasse normalmente.

Duas consultoras surgiram em segundos, sorridentes e impecáveis, como se tivessem sido convocadas por magia e comissão de venda.

Leah tentou se esconder atrás das araras de roupa.

Adrian sentou-se numa poltrona discreta ao fundo, perfeitamente calmo, como se levar mulheres para comprar vestidos fosse parte rotineira da vida dele.

Talvez fosse.

A ideia incomodou Leah por aproximadamente três segundos até perceber a forma como ele a observava.

Como se nem notasse mais o resto da loja.

— Odeio você — murmurou.

Vieram vestidos demais. Brilhos. Fendas.

Tecidos delicados demais para alguém que sabia desmontar um motor e correr descalça pela floresta.

Leah experimentou o primeiro e saiu do provador já irritada.

— Pareço uma cortina triste.

— Concordo.

O segundo:

— Parece que estou indo casar com um banqueiro corrupto.

— Estranhamente específico.

O terceiro:

— Não consigo respirar.

— Elimine.

Ela entrou no provador pela quarta vez já sem paciência alguma. O vestido azul-escuro parecia simples no cabide, mas o tecido caiu pelo corpo dela como água quando o vestiu, abraçando suas curvas sem exagero, deixando as costas nuas e fazendo sua pele morena parecer ainda mais quente sob a iluminação suave.

Leah saiu distraída, tentando ajeitar o cabelo.

— Horrível?

Adrian levantou-se tão rápido que nem percebeu.

O silêncio da loja mudou instantaneamente.

Leah ergueu os olhos para ele através do espelho.

E então viu.

Aquela expressão outra vez.

Como se ele tivesse esquecido por um instante onde estava. Ou como respirar.

— Adrian?

— É esse. — A garganta dele moveu antes da resposta sair.

— Você nem fingiu analisar. — Ela sentiu calor subir imediatamente pelo pescoço.

— Não preciso.

Uma das consultoras sorriu discretamente.

A outra parecia pronta para organizar casamento e filhos.

E Leah... Simplesmente ficou parada olhando para o homem à sua frente enquanto tentava entender por que aquilo tudo parecia tão maior do que um vestido.

Porque não era só sobre beleza. Nem sobre dinheiro. Nem sobre Adrian levá-la para um evento importante.

Era sobre o fato de que ele estava ali.

Ali.

No meio de uma boutique iluminada, cercado de consultoras, tecidos caros e pessoas observando discretamente o rosto que ele passou anos escondendo do mundo. Adrian Thorne odiava ser olhado. Leah já tinha percebido isso fazia tempo — o jeito como evitava eventos, fotógrafos, encontros sociais, qualquer situação em que precisasse sustentar os olhos de desconhecidos sobre suas cicatrizes por muito tempo.

Mas ainda assim, estava ali.

Por ela.

E Leah percebeu outra coisa então: Adrian talvez estivesse mudando também.

Não de forma óbvia. Ele continuava o mesmo homem controlado, elegante e absurdamente difícil de ler. Mas, existiam pequenas rachaduras aparecendo naquele isolamento cuidadosamente construído ao redor dele.

Ir até uma festa universitária. Buscá-la pessoalmente.

Entrar numa loja cheia.

Planejar que ela o acompanhasse numa festa lotada de empresários, políticos e gente rica o suficiente para transformar aparência em esporte competitivo.

Aquilo não era pequeno.

Principalmente para um homem que passou anos praticamente escondido do próprio sobrenome.

E Deus.

Talvez fosse isso que mexesse tanto com Leah.

Porque Adrian não estava tentando transformá-la numa mulher adequada ao mundo dele.

Mas, também não fingia que aquele mundo não existia. Ele simplesmente parecia querer encaixá-la dentro dele.

Como se estivesse construindo espaço.

Para ela.

E aquilo era assustador de um jeito muito específico. Porque ninguém nunca tinha feito isso antes.

Sam a amou dentro do universo da reserva, da matilha, da vida que os dois já compartilhavam. Tudo entre eles nasceu no mesmo território. Nos mesmos medos. Nas mesmas regras.

Com Adrian era diferente.

Ela era a estranha agora.

A mulher que carregava monstros dentro do corpo enquanto experimentava vestidos de gala sob luz dourada.

A loba tentando aprender onde colocar as mãos enquanto um homem aristocrático a olhava como se ela fosse a única coisa importante da sala.

E o pior era que começava a gostar da sensação.

Gostar da leveza.

Gostar de vê-lo saindo da própria sombra aos poucos por causa dela.

Porque havia carinho naquele esforço silencioso de Adrian. Um carinho tão profundo que ele nem parecia perceber o tamanho das próprias mudanças.

Ele não gostava de multidões.

Mas, enfrentaria uma sala inteira se isso significasse segurá-la pela cintura em público.

Não gostava de olhares.

Mas, estava disposto a ser visto outra vez se Leah estivesse ao lado dele.

E aquilo desmontou alguma coisa dentro dela.

Porque de repente a verdade pareceu ainda mais urgente.

A matilha.

As transformações.

Os vampiros.

O imprinting.

Tudo.

Ela precisava contar.

Precisava olhar para aquele homem e entregar as partes monstruosas de si mesma antes que fosse tarde demais para voltar atrás.

Antes que ele a olhasse daquele jeito mais uma vez.

Porque cada vez que Adrian Thorne a observava como estava observando agora — parado no meio daquela loja elegante, completamente rendido à visão dela naquele vestido azul-escuro — Leah sentia o próprio coração caminhar mais alguns passos em direção a um lugar perigosamente definitivo.

*****

Depois vieram sapatos, bolsa pequena, joias discretas emprestadas pela própria loja e, por insistência absoluta de Adrian, o salão ao lado para cabelo e maquiagem.

Leah descobriu rapidamente que mulheres ricas eram guerreiras silenciosas.

Porque ficar sentada por horas enquanto estranhos puxavam cabelo, ajustavam maquiagem e discutiam tons de nude deveria contar como tortura psicológica.

— Isso é humilhação pública — reclamou enquanto uma cabeleireira passava os dedos por seus fios curtos.

— Isso é investimento social.

Ela encontrou Adrian pelo reflexo do espelho. Ele estava sentado alguns metros atrás, perfeitamente calmo, folheando alguma revista sem realmente ler uma única página.

Observando-a.

Sempre observando-a.

— Você está se divertindo.

— Muito.

Leah estreitou os olhos.

— Acho que você gosta de me ver desconfortável.

— Não. — Adrian ergueu os olhos lentamente. — Eu gosto de ver você descobrindo coisas novas.

Aquilo a pegou desprevenida de um jeito irritante.

Porque não havia arrogância na frase.

Nem superioridade.

Só... sinceridade.

Como se ele realmente gostasse de apresentar o mundo para ela.

E talvez gostasse.

Leah permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto a maquiadora trabalhava em seu rosto.

Então algo lhe ocorreu.

Ela sorriu devagar.

Perigosamente devagar.

Adrian percebeu na mesma hora.

— O que foi?

— Nada.

— Leah.

— Você já comeu cachorro-quente de posto?

O silêncio dele foi imediato.

A cabeleireira quase riu.

— Isso não pode ser uma pergunta séria.

— É extremamente séria.

Ela virou um pouco a cadeira para olhá-lo melhor.

— Aquele com molho suspeito, purê e refrigerante ruim às duas da manhã.

Adrian parecia genuinamente ofendido.

— Absolutamente não.

Leah abriu um sorriso tão satisfeito que ele quase perdeu a linha de raciocínio.

— Meu Deus. Você é mais rico do que eu imaginava.

— Isso é critério social agora?

— Definitivamente.

Ela cruzou as pernas na cadeira, divertindo-se pela primeira vez desde que entraram ali.

— Tá vendo? Eu estou conhecendo seu mundo hoje. Você também vai conhecer o meu.

— Seu mundo envolve intoxicação alimentar?

— Envolve viver perigosamente.

Adrian soltou um riso baixo.

De verdade dessa vez.

Não aquele quase-sorriso raro e controlado.

Um riso real.

E Leah sentiu o peito aquecer imediatamente ao perceber que tinha sido ela quem arrancara aquilo dele.

A maquiadora sorriu discretamente para o espelho.

Porque até estranhos conseguiam perceber quando duas pessoas estavam completamente perdidas uma na outra.

Horas depois, Leah saiu pronta.

Os cabelos curtos caíam em ondas suaves e brilhantes ao redor do rosto. A maquiagem destacava seus olhos escuros sem apagar a força natural deles. O vestido azul profundo abraçava suas curvas com elegância suficiente para fazê-la quase não se reconhecer.

Ela parou diante de Adrian de repente sem graça.

O salto a deixava mais alta. O vestido deixava pele demais à mostra para alguém acostumada a esconder o próprio corpo sob praticidade e jeans gastos.

Por um instante, sentiu-se deslocada outra vez.

Como se estivesse usando a versão de outra mulher.

— Tá exagerado?

Adrian ficou em silêncio por tempo suficiente para preocupá-la.

Os olhos dele percorreram cada detalhe dela lentamente, sem qualquer tentativa de esconder o impacto.

Então ele se levantou.

Devagar.

Como se tivesse esquecido que existia qualquer outra coisa ao redor.

Parou diante dela e tocou uma mecha do cabelo curto, colocando-a atrás da orelha num gesto tão delicado que fez o coração de Leah apertar inteiro.

— Está perigosa.

Ela tentou rir.

— Isso não é adjetivo de moda.

— É o único disponível no momento.

Mas, Adrian continuava olhando para ela daquele jeito.

Como se estivesse genuinamente afetado.

E talvez estivesse.

Porque durante anos ele se acostumara a sobreviver aos próprios dias. Apenas isso. Trabalhar. Existir. Evitar pessoas. Evitar espelhos longos demais. Evitar imaginar futuro.

Agora estava ali, parado no meio de um salão elegante, observando Leah Clearwater pronta para atravessar o mundo ao lado dele.

E sentindo orgulho. Um orgulho quase absurdo.

Leah percebeu.

Então fez a única coisa que parecia natural naquele momento: segurou a gravata dele e o puxou para baixo até conseguir beijá-lo.

As funcionárias do salão imediatamente fingiram interesse profundo em pincéis e secadores.

Adrian soltou uma respiração surpresa contra a boca dela antes de segurar sua cintura com firmeza automática.

Leah sorriu durante o beijo.

— Isso também faz parte do investimento social?

— Agora faz.

Ela riu baixo, ainda perto demais dele.

Ele ofereceu o braço.

— Vamos?

Leah hesitou apenas um segundo antes de segurá-lo.

Sentiu-se estranha.

Bonita.

Nervosa.

Como se estivesse entrando num mundo que ainda não entendia completamente.

Adrian percebeu imediatamente. Inclinou-se perto do ouvido dela enquanto caminhavam para fora do salão.

— Se alguém olhar torto pra você, eu compro a empresa da pessoa e fecho na segunda.

Leah soltou uma gargalhada.

— Você é absurdo.

Ela apertou o braço dele enquanto saíam para a noite iluminada de Seattle.

— Tudo bem, milionário. Mas, depois dessa gala você vai comer cachorro-quente de posto comigo.

Adrian abriu a porta do carro para ela.

— Isso é uma ameaça?

— É um encontro.

E, pela primeira vez em muitos anos, Adrian Thorne percebeu que estava genuinamente ansioso por algo simples.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.