A casa amanheceu errada.

Leah sentiu isso antes mesmo de descer as escadas.

Não era um detalhe visível. Nada estava fora do lugar. Os móveis permaneciam onde sempre estiveram, o silêncio era o mesmo, a luz atravessava as janelas com a mesma indiferença de todos os outros dias.

Mas, ainda assim... algo estava deslocado.

Ela.

Dormira pouco, mal e sozinha. O quarto parecia grande demais sem o peso silencioso de Adrian Thorne ocupando metade do espaço. O travesseiro mantinha o cheiro dele, o que só piorava tudo. A forma como ele preenchia o ambiente sem esforço, como se o mundo tivesse sido desenhado para acomodá-lo.

O travesseiro ainda guardava o cheiro dele. E aquilo não ajudava em nada.

A discussão da noite anterior não tinha terminado. Não tinha sido resolvida.

Tinha apenas... parado.

E pausas, Leah sabia bem, eram mais perigosas do que explosões. Explosões limpavam o ar. Pausas deixavam tudo suspenso, fermentando, ganhando forma dentro da cabeça.

Quando chegou à cozinha, Margaret Vale já tomava chá. Quase imune ao tipo de desordem que pessoas como Leah carregavam por dentro.

- Dormiu mal — observou a governanta, sem levantar a voz, mas vendo tudo.

- Você também.

- Eu não discuti com ninguém ontem.

Leah abriu a geladeira sem necessidade. Não procurava comida. Procurava qualquer coisa que a impedisse de responder.

- Nem eu.

Mentira.

Margaret deixou a xícara na mesa.

- Leah.

- Não.

- Excelente argumento.

Leah pegou o café antes que aquilo virasse conversa. Antes que virasse análise. Antes que alguém colocasse em palavras algo que ela ainda não queria nomear.

Saiu.

*****

Adrian não apareceu no café da manhã.

Nem no almoço. Nem em lugar algum durante o dia.

Saiu cedo, segundo Margaret, para resolver assuntos externos.

E fez questão de permanecer fora o máximo possível.

Leah percebeu a intenção imediatamente.

Ele precisava de distância. Talvez dela. Talvez de si mesmo. Talvez do que estava começando a existir entre os dois — algo que nenhum dos dois sabia exatamente como sustentar.

Porque não era simples.

Ele vinha de um mundo onde tudo era estruturado, calculado, protegido por contratos, paredes e dinheiro suficiente para manter o caos do lado de fora.

Ela vinha de um mundo onde nada era garantido.

Onde sobreviver exigia instinto.

E ainda havia mais. Coisas que não eram ditas. Mas, estavam ali. Sempre.

O corpo dele carregava cicatrizes visíveis. As dela... não. Mas, isso não significava que não existiam.

Ele tinha sido quebrado por um acidente. Ela tinha sido moldada por algo mais antigo. Mais selvagem. Mais difícil de explicar.

E, ainda assim, estavam tentando. Sem admitir. Sem planejar. Sem entender.

*****

O dia passou arrastado. Tudo que Leah fazia parecia fora de ritmo. O resultado foi miserável.

Tentou estudar e não absorveu uma linha. Tentou organizar estoque e esqueceu o que estava contando no meio. Tentou limpar a despensa e quase chorou por causa de latas.

Ridículo.

Mas, não era sobre as latas.

Porque, por mais que tentasse racionalizar, uma coisa não saía da cabeça: ela tinha ido longe demais. E, ainda assim... ele também.

*****

No fim da tarde, o telefone vibrou. Grupo da faculdade. Mensagens acumuladas desde cedo.

Hoje tem festa dos calouros.

Você VAI.

Sem desculpa de mulher misteriosa que mora longe.

Leah, a gente nunca te viu em nada social. Isso preocupa.

Ela quase ignorou. Quase.

Porque parte dela queria exatamente isso: ficar. Esperar. Ver se ele voltava.

Depois pensou que ficar em casa vazia esperando um homem orgulhoso aparecer seria ainda pior.

Ficar parada esperando a escolha de alguém sempre foi um luxo que ela nunca teve. E, dessa vez, não seria diferente.

Quando decidiu ir à festa, não foi por vontade própria. Foi por sobrevivência.

Respondeu apenas:

Vou.

*****

Subiu para se arrumar sem pensar demais.

Nada exagerado:jeans escuros, ajustados o suficiente para marcar as curvas sem esforço. Bota. Blusa preta simples, mas que desenhava o corpo com precisão inesperada.

O cabelo solto caía mais vivo do que ela lembrava, e a maquiagem leve só destacava o que já estava ali.

Quando parou diante do espelho, ficou alguns segundos a mais, observando.

Bonita.

E aquilo a irritou profundamente. Porque beleza, naquele contexto, era perigosa. Era interpretável. Era... negociável.

Porque ele não a veria. E, se visse... o que exatamente veria?

Uma mulher? Ou uma distração conveniente?

Leah desviou o olhar primeiro.

*****

Antes de sair, deixou um bilhete sobre a mesa do hall.

Fui à festa da faculdade. Não me espere acordado.

Pensou em rasgar. Pensou em não deixar nada. Pensou em fingir que ele não importava o suficiente para justificar explicações.

Deixou ali mesmo.

Porque, no fundo, importava.

Margaret a encontrou já com as chaves na mão.

- Vai sair?

- Percepção aguçada.

- Está chateada.

Leah não respondeu. E isso já era resposta suficiente.

Margaret aproximou-se. Ajeitou uma mecha do cabelo dela com um cuidado inesperadamente maternal. Um gesto pequeno. Mas, cheio de significado.

- Existe uma diferença — disse, com calma — entre fugir de alguém... e fugir de si mesma.

Leah desviou os olhos.

- Eu não estou fugindo.

Silêncio.

- Divirta-se de verdade — Margaret continuou — não como forma de provar algo para ele... ou para você.

Leah respirou fundo. Porque aquilo era exatamente o que ela estava fazendo.

Leah desviou os olhos.

- Boa noite, Margaret.

- Boa sorte, criança.

Leah saiu.

E, enquanto fechava a porta atrás de si, uma coisa ficou clara, mesmo que ela não quisesse admitir: aquilo entre ela e Adrian não era o problema.

O problema era o que aquilo exigiria dela... se continuasse.

Não era só desejo — embora ela admitisse, com uma honestidade quase irritante, que sentia demais. Também não era curiosidade, essa fase já tinha ficado para trás. E, para Leah, nunca seria sobre passar o tempo. Ela não era esse tipo de pessoa. Nunca foi.

O problema era outro.

Adrian exigia dela coisas que ninguém antes tinha conseguido. Exigia que ela ficasse... justamente quando o instinto de sobrevivência gritava para correr.

Porque ele a via. Não de relance. Não pela metade. Não como alguém útil ou conveniente.

Ele a via inteira. E isso... amedrontava. Leah já tinha sentido algo parecido antes. Com Sam. Mas, aquilo tinha sido outra coisa. Outra lógica. Outro tipo de ligação.

Com Adrian tinha um peso de escolha, e escolhas sempre têm consequências.

Ela poderia ir embora. Podia cortar antes que se tornasse profundo demais. Podia proteger a si mesma como sempre fez.

Mas também podia ficar. E isso... custava muito mais.

Por um segundo, um pensamento atravessou sua mente com uma clareza desconfortável:

E se ela tivesse um imprinting?

Talvez fosse mais fácil.

Talvez fosse mais simples culpar o destino, a natureza, qualquer força maior que decidisse por ela.

Talvez fosse mais confortável não ter escolha nenhuma.

Mas, não era isso. Com Adrian não havia imposição. Não havia magia obrigando a permanência. Não havia garantia.

Havia apenas... vontade. E, de algum modo, isso era mais forte. Mais assustador. Mais real. Porque a loba dela sabia. Não se agitava perto dele. Não se armava. Não preparava fuga.

Se aquietava.

Como se reconhecesse algo que Leah ainda tentava entender. E talvez isso fosse o mais perigoso de tudo. Porque não era destino. Era... consentimento. E, se ela escolhesse ficar, não poderia culpar nada além de si mesma.

Além do mais exigia que ela acreditasse em algo ainda mais difícil. Que alguém como Adrian Thorne pudesse escolhê-la... não apesar de quem ela era, mas exatamente por isso.

Leah fechou a porta atrás de si.

*****

A festa acontecia numa casa alugada perto do campus da Universidade de Washington.

A festa era exatamente como ela esperava. Barulho demais. Gente demais. Risos altos demais para serem naturais.

Leah quase voltou no portão.

Não porque não pertencesse ali.

Ela pertencia. Tinha a mesma idade que todos ali. Vinte e poucos anos, recém inserida naquele mundo universitário, oficialmente no mesmo ponto da maioria.

Mas, não parecia. Porque, enquanto eles estavam descobrindo tudo pela primeira vez, Leah já tinha passado tempo demais sobrevivendo para chamar aquilo de novidade.

Foi arrastada para dentro por duas colegas que conhecia das aulas introdutórias.

- Ela veio! Milagre!

- Sabíamos que você existia!

- Você é sempre tão séria pessoalmente também?

- Pior — respondeu Leah.

Elas riram e a puxaram para a cozinha.

No começo, Leah ficou à margem. Observando. Analisando.

Como sempre fazia. Mas, diferente deles, não era curiosidade.

Era hábito.

Ali, as pessoas se permitiam ser descuidadas. Ela nunca tinha aprendido isso. Mas, o álcool ajudou. Não para perder o controle. Mas para... suavizar.

- Cara, você bebe e não muda nada — comentou uma das meninas, rindo, após umas duas horas.

Leah girou o copo na mão.

- Deve ser genética.

Não explicou qual...

Aos poucos, o ambiente começou a parecer suportável. Conversou com alguns colegas, recusou bebida ruim, aceitou outra melhor, ouviu histórias absurdas de calouros tentando parecer adultos.

Eles estavam tentando parecer mais velhos. Ela até sorria, tentando esquecer que já se sentia velha demais para aquilo.

Respondia.

Interagia.

Mas, não esquecia. Porque esquecer Adrian Thorne não era uma opção real.

Cada gesto lembrava ele:

Um homem encostado na parede → postura errada.

Um sorriso → sem peso.

Um toque casual → vazio.

Nada se comparava.

Nada sequer chegava perto.

- Como que esquece um homem desses... — murmurou, para si mesma.

Ela apoiou o copo na bancada, olhando para o líquido restante. Bebeu mais um gole. Não estava bêbada. O corpo processava rápido demais.

Malditos genes.

Não serviam nem para isso. Nem para dar o alívio simples de desligar a mente.

- Ei — um rapaz apareceu ao lado dela, inclinando-se demais para ser confortável. — Você dança?

Leah não respondeu imediatamente. Porque, por um segundo, ela não estava olhando para ele.

Postura firme. Braços cruzados. Olhar atento demais para o ambiente. O peito dela apertou.

Era ele... Ou parecia.

O tipo de presença que não precisava de esforço para dominar um espaço. O tipo de homem que não ria alto, não gesticulava demais, não se misturava.

O tipo de homem que observava. Como Adrian Thorne faria.

Leah deu meio passo na direção dele sem perceber.

- Você tá me encarando faz uns dois minutos. — O rapaz insistiu, segurando o braço dela com leveza

Ela piscou.

Voltando.

Não era ele.

Só mais um cara alto, rosto comum.

Só mais um corpo ocupando espaço.

O coração ainda acelerado não acompanhou a lógica.

- Vamos — ele puxou, sorrindo — você não disse não.

Leah deixou-se levar por reflexo.

Um passo.

Dois.

A música alta.

Luzes.

Gente.

A mão dele veio para a cintura.

Errado.

A pressão leve demais. O toque indeciso. A falta de presença. Nada ali reconhecia ela. Nada ali a fazia sentir...vista.

Leah travou.

Por um segundo, tentou. Tentou ignorar. Tentou fingir. Tentou se adaptar ao ritmo, ao toque, à situação.

Mas, o corpo não colaborou. Porque já conhecia o contraste.

Sabia como era ser puxada de verdade. Como era ter uma mão firme demais para ser ignorada. Como era alguém que não perguntava...mas sabia.

Leah se afastou abruptamente.

- Não.

O rapaz franziu a testa.

- Ei, calma-

Ela já tinha soltado o braço.

- Foi mal.

E saiu rápido demais para ele insistir.

Rápido demais para explicar.

Encostou na parede por um segundo.

Respirando.

Ridículo.

Ela sabia disso. Mas, não conseguia evitar.

Porque, agora que conhecia o padrão... todo o resto parecia insuficiente.

Leah passou a mão pelo cabelo, irritada consigo mesma. Então fez o que sempre fazia quando não queria pensar: procurou distração.

Voltou para a cozinha.

Para o barulho.

Para a rodinha de colegas que falavam alto demais e riam fácil demais.

Então alguém perguntou:

- Aí está você! — disse uma das meninas, puxando-a de volta. — Sumiu!

- Fui respirar.

- Tá fugindo da gente?

- Tô sobrevivendo.

Risos.

Leah pegou outro copo. Apoiou-se na bancada. Fingiu normalidade. E funcionou.

Por fora.

Por dentro... o corpo ainda lembrava. E recusava qualquer coisa que não fosse ele.

A festa continuou até alguém lhe perguntar:

- Você mora onde mesmo? Muito longe, né?

- Trabalho numa propriedade afastada — disse Leah.

- Ah! Naquela mansão na estrada velha?

Outro rapaz se intrometeu:

- Dizem que aquela casa é assombrada.

- Que um cara deformado mora lá escondido.

- Que luzes acendem sozinhas.

- Que ninguém fica empregado muito tempo.

Leah pousou o copo devagar.

O grupo percebeu tarde demais que havia pisado onde não devia.

- Não é assombrada — disse calmamente.

- Ah, fala sério-

Ela ergueu os olhos.

- Casas não assustam metade do que seres humanos assustam.

Silêncio.

Leah continuou, firme.

- Madeira velha range. Vento faz barulho. Gente inventa histórias porque tem medo do que não conhece.

Olhou um por um. Sem pressa. Sem recuo.

- Maldade de verdade é abandonar quem sofre. Julgar aparência. Transformar dor alheia em entretenimento.

Ninguém respondeu.

Uma colega tossiu.

- Certo... alguém quer mais gelo?

O assunto morreu ali.

Rápido demais.

Como sempre morria quando alguém dizia a verdade sem disfarce.

Mas, dentro dela, não morreu. Porque...Era sobre ele. Sobre a forma como falavam dele sem saber.

Sobre a facilidade com que reduziam dor a história de festa. Sobre o quanto era simples, para quem nunca tinha visto de perto, transformar alguém em lenda... e esquecer que aquilo era uma pessoa.

Leah apertou o copo por um segundo a mais. Ela não costumava defender ninguém. Não daquele jeito. Não com aquela urgência. Mas com ele... não conseguia não fazer.

Antes que alguém tentasse retomar a conversa, ela saiu.

- Já volto.

Não esperou resposta.

A varanda estava mais vazia. Mais silenciosa. O ar frio bateu no rosto, limpando um pouco o calor acumulado da casa.

Leah apoiou as mãos no corrimão. Respirou fundo.

O peito ainda apertado, não pela discussão, quer dizer, não só por ela, mas por tudo o que vinha junto.

A forma como ele tinha sido visto.

Julgado.

Abandonado.

E, pior, a forma como aquilo a afetava.

Porque, ao defender Adrian, não tinha apenas corrigido um grupo de desconhecidos. Tinha revelado o quanto aquilo importava. O quanto ele importava.

Leah fechou os olhos por um instante.

Era mais fácil quando era só físico. Mais fácil quando podia reduzir tudo a impulso, a química, a momentos roubados entre um dia e outro.

Mas, aquilo... não cabia mais nisso. Porque não era só o toque que ficava. Era a presença. O silêncio dele preenchendo espaço. A forma como ele olhava, como se não precisasse de explicação para entendê-la.

Ela estava baixando a guarda, devagar, sem perceber.

Leah abriu os olhos.

O olhar perdido na escuridão do jardim. Sentia falta dele.

*****

Na mansão, Adrian não teve um dia melhor. Ele tentou trabalhar.

Falhou.

Sentou diante do computador, abriu três relatórios, respondeu dois e-mails com respostas que nem ele acreditava e fechou tudo em menos de vinte minutos.

Ficou olhando para a tela apagada como se ela fosse culpada.

Não era.

Tentou se convencer de que precisava de distância, que aquilo estava ficando fora de controle.

Que Leah estava certa em parte. Funcionou por... talvez cinco minutos.

Mas, cada argumento terminava no mesmo lugar: ela.

Sempre ela.

Quando encontrou o bilhete, leu mais vezes do que deveria admitir.

A caligrafia dela.

Simples.

Direta. E ainda assim, carregada.

"Não me espere acordado."

Ele releu. E não gostou.

Não pelo significado literal. Não pelo fato de ela sair. Mas, pelo que estava implícito ali.

Distância.

Adrian passou o polegar pelo papel como se aquilo fosse mudar o conteúdo.

- Festa da faculdade — repetiu, baixo, como se as palavras fossem pessoalmente ofensivas.

Conseguiu imaginar.

Barulho.

Gente.

Mãos demais.

Olhares demais.

Gente da idade dela. Aquilo incomodou mais do que deveria.

Margaret apareceu no corredor lateral, como se tivesse sido convocada pelo desconforto dele.

- Boa noite.

- Há quanto tempo ela saiu?

- Algumas horas.

- Sozinha?

- De carro.

- Onde?

- Se eu disser que não sei, mentirei.

Ele a encarou.

- Margaret.

Ela não se moveu. Não desviou. Não suavizou.

- O senhor passou o dia inteiro fora por orgulho — disse, com a mesma calma de sempre. — Agora parece surpreso que ela tenha vida própria.

- Onde. — Ele apertou o maxilar.

Margaret suspirou, mas não como quem se incomoda. Como quem já esperava exatamente isso.

Caminhou até uma mesa lateral, pegou um papel dobrado e entregou.

- Vá buscá-la antes que faça algo tolo.

Adrian pegou o papel.

- Estou indo apenas para garantir segurança.

- Claro.

- E porque está tarde.

- Evidente.

- E porque festa de calouros soa infernal.

Margaret inclinou levemente a cabeça. Um brilho quase divertido no olhar.

- O senhor está com ciúmes até da palavra "calouro".

Adrian não respondeu imediatamente. Porque não gostou da precisão.

- Isso é ridículo.

- Sim. — Silêncio. — E ainda assim, está indo.

Ele desviou o olhar. E saiu antes de responder. Ele pegou o casaco, e parou por um segundo.

Não por dúvida, por hábito. O reflexo de sempre vinha automático: evitar.

Preparar-se. Controlar o ambiente antes de entrar nele.

Lugares cheios significavam olhares. Olhares significavam reações. Reações significavam aquilo que ele já conhecia bem demais: curiosidade disfarçada, desconforto mal escondido e pena... ou pior.

Adrian não gostava de ser visto. Por isso escolhia onde ir. Quando ir. Como aparecer. E aquela festa... não oferecia controle nenhum.

Ele poderia trocar de roupa. Escolher algo que o tornasse menos visível. Mais neutro. Mais... aceitável.

Poderia não ir. Seria mais fácil, mais coerente com tudo que ele construiu depois do acidente.

Mas, pela primeira vez em muito tempo,isso não foi suficiente. Porque ficar...significava imaginá-la ali. E isso era pior.

Dessa vez, não importava como seria visto. Importava apenas... chegar até ela. E isso, por si só, já dizia mais do que ele estaria disposto a admitir.

*****

Dirigiu rápido demais. Sem prestar atenção no caminho. Sem se importar com nada além do endereço.

Quando chegou, a casa vibrava. Música atravessando as paredes em batidas irregulares. Luzes piscando em cores artificiais, mal sincronizadas. Gente demais ocupando espaço demais, vozes sobrepostas, risos altos, corpos encostando sem pensar.

Ele desligou o carro.

Observou por um segundo.

Ele não se encaixava.

E, ainda assim, saiu. Assim que entrou, o ambiente reagiu. Não de forma direta. Mas, perceptível.

Conversas diminuíram meio tom. Olhares se voltaram rápido demais e se desviaram rápido demais. Curiosidade. Avaliação. Desconforto.

Algumas pessoas olharam. Outras cochicharam. Ele não percebeu metade. E não ligaria se percebesse. Porque levou menos de cinco segundos, para encontrá-la.

Leah estava na varanda lateral da casa da festa, encostada no corrimão.

Cabelo solto, caindo pelos ombros com movimento vivo demais para aquele lugar.

A blusa escura desenhava o corpo sem esforço, o jeans marcava a firmeza das pernas, e havia algo nela — uma presença — que não combinava com o ambiente.

Ela parecia... mais. Mais do que aquilo tudo.

E foi nesse momento que a loba dela — silenciosa, antiga — reconheceu. Não com barulho. Mas, com certeza.

Ela virou antes de vê-lo. O corpo reagindo primeiro. A respiração mudou. O pulso acelerou. Algo dentro dela se alinhou.

E então ouviu a voz atrás de si.

- Não gostei de imaginar você aqui sem mim.

A voz veio baixa. Perto demais.

Adrian Thorne estava ali. Mas, não foi vê-lo que a desarmou. Foi o toque. A mão dele encontrou a dela.

Sem pressa. Sem hesitação.

Certa.

Como se soubesse exatamente onde ficar. Como se já pertencesse ali.

O efeito foi imediato. A tensão que ela carregava desde cedo — desde a briga, desde a ausência dele — simplesmente... dissolveu.

Os ombros relaxaram. A respiração escapou mais lenta. Leah não tentou se afastar. Não tentou se recompor. Porque não queria. Mas, era ele. E o corpo dela reconhecia isso melhor do que qualquer argumento.

Os dedos dele se entrelaçaram nos dela, firmes.

Seguros.

E, por um segundo, Leah esqueceu completamente onde estava. Porque, ali, com a mão certa tocando a dela, todo o resto parecia irrelevante demais para importar.

Adrian estava diante dela como se aquele lugar não existisse.

Casaco escuro, presença grande demais para caber naquela varanda estreita. Ele destoava de tudo — da música alta, das luzes artificiais, das risadas fáceis que vinham de dentro da casa.

Algumas pessoas já observavam. Curiosas. Cautelosas.

Ele não ligou, não conseguiu. Porque os olhos dele estavam nela.

Ele parecia uma tempestade em meio a decoração barata.

Leah piscou, como se precisasse se reajustar à realidade.

- O que você está fazendo aqui?

- Vim resgatar o patrimônio da casa.

- Engraçadinho.

Ele deu um passo mais perto. O suficiente.

- Você estava demorando.

- Não sabia que tinha toque de recolher.

- Não tem.

- Então?

Os olhos dele desceram por ela.

Dessa vez sem pressa. Sem tentativa de esconder.

O cabelo solto.

A boca pintada.

O corpo desenhado pela roupa simples demais para o efeito que causava.

E voltou ao rosto.

- Eu não gostei de imaginar qualquer idiota aqui olhando para você.

O coração dela tropeçou. E porque, pela primeira vez naquela noite... aquilo importou.

- Isso soa possessivo.

- Isso soa honesto.

Leah cruzou os braços para esconder o efeito que ele causava.

- E eu achei que você estava ocupado demais hoje.

A culpa atravessou o rosto dele rápido, quase invisível.

- Eu fui covarde.

Ela respirou fundo.

- Eu também fui cruel.

A música continuava atrás deles. Mas, parecia distante agora. Quase irrelevante.

O silêncio que veio não era desconfortável, era cheio de significados.

De tudo que não foi dito.

De tudo que ainda precisava ser.

Adrian a puxou pela mão.

- Vamos para casa?

Leah olhou para a mão entrelaçada à sua, por alguns segundos.

Não era ordem nem pedido. Era uma escolha.

Sabia o que aquilo significava. Sabia que, ao aceitar, não estava só indo embora da festa. Estava voltando para ele. Para a tensão. Para o que ainda não tinha nome.

E, ainda assim, segurou a mão dele com as suas duas.

- Só se você admitir que festa universitária te assustou.

Ele a trouxe para mais perto, até passar as mãos por seus ombros.

- Casas assombradas parecem mais seguras.

Leah soltou um pequeno riso.

Baixo.