O Monstro dentro de mim
17 Dúvidas
Leah não chegou até o fim do corredor.
Adrian a alcançou antes.
Segurou seu braço com firmeza suficiente para pará-la, mas não para machucar.
— Não.
Ela virou o rosto imediatamente.
— Me solta.
— Não. — A resposta veio mais baixa. Mais firme.
Leah puxou o braço. Não conseguiu. O corpo dela ainda estava acelerado demais, a mente indo mais rápido do que as decisões.
— Eu tenho coisas pra fazer.
— Você está fugindo.
— Eu estou trabalhando.
— Você está vestindo a minha camisa.
Silêncio. Curto.Pesado.
Ela evitou olhar para ele.
— Isso não significa nada.
Adrian deu um passo mais perto.
— Significa.
Leah finalmente levantou o rosto. E ali estava de novo. Aquela mistura perigosa de desafio e vulnerabilidade.
— Você quer que signifique o quê? — A pergunta saiu mais afiada do que ela pretendia. Mais honesta também.
Adrian demorou um segundo. Como se estivesse escolhendo não fugir dessa vez.
— Quero que você pare de agir como se o que aconteceu fosse um erro.
Aquilo a atingiu. Leah engoliu seco.
— Eu não disse que foi um erro.
— Mas, está tratando como se fosse.
— Eu estou tentando entender.
— Então fica.
O silêncio cresceu entre os dois.
Respiração contra respiração.
Leah soltou um riso curto. Nervoso.
— Ficar é a parte difícil.
— Eu sei.
Ela passou a mão pelo cabelo, frustrada.
— Eu não faço isso.
— Isso o quê?
— Isso de... — fez um gesto vago entre eles — de "a gente".
Ela travou de novo.
Percebeu.
Tarde demais.
Adrian notou.
Claro que notou.
— Você já está fazendo — ele disse, mais suave e perigoso.
Leah deu meio passo para trás.
Ele não deixou. A mão dele subiu para a cintura dela, firme.
Presente.
— Adrian...— A voz saiu mais baixa agora.
— Você voltou pra na minha vida — ele continuou — e em dois dias está reorganizando tudo.
— Eu não pedi isso.
— Nem eu.
Outro silêncio.
Mas, agora quente.
Leah olhou para a mão dele na cintura. Depois para o rosto dele. Depois para a boca dele.
Erro. Bem grave.
— Você pensa demais — ele murmurou.
Ela deveria se afastar agora, se realmente quisesse o manter distante.
Não se afastou.
Adrian percebeu antes mesmo de agir. A forma como ela parou. A respiração mudando. O olhar descendo.
Ele puxou. Leah veio.
O beijo veio mais rápido dessa vez. Sem pedido. Sem preparação. Sem desculpa.
Ela respondeu na mesma intensidade.
Como se já estivesse ali antes. Como se só estivesse esperando alguém admitir primeiro.
As mãos dele subiram pelas costas dela, puxando-a mais perto. As dela agarraram a camiseta dele, como se precisasse de apoio.
Leah encostou-o na parede sem perceber.
Ou percebendo demais.
— Isso não ajuda — murmurou contra a boca dele.
— Não é pra ajudar.
Ela riu.
Sem fôlego.
E então desistiu.
De tentar entender, organizar ou nomear.
A mão dele desceu pela lateral da coxa dela, puxando-a contra o corpo. O contato fez o corpo dela responder de imediato.
Sem negociação.
— Você faz isso de propósito — ela disse, já sem convicção.
— Você também.
Outro beijo.
Mais lento.
Mais profundo.
Mais consciente.
A conversa tinha acabado.
Não porque foi resolvida.
Mas, porque já não era prioridade.
Adrian a ergueu com facilidade.
Leah envolveu a cintura dele automaticamente, como se o corpo soubesse antes dela.
— A gente precisa conversar — ele tentou mais uma vez.
— Depois. — ela envolveu os braços em torno do pescoço masculino.
— Que não vire hábito você fugir de conversas assim.
— Não sei se posso prometer isso.
Ele parou por um segundo.
Olhou para ela.
— Mas, posso tentar.
E isso foi o suficiente, por enquanto... Quando a porta do quarto se fechou, não havia mais fuga.
Nem dela. Nem dele.
Era uma reiteração da escolha já anteriormente feita. Mas, mais intensa. E muito mais difícil de ignorar depois.
Adrian adormeceu primeiro.
Leah percebeu no momento em que o corpo dele, antes atento a cada movimento dela, finalmente cedeu. A respiração desacelerou, profunda, regular. O braço ainda estava pesado sobre a cintura dela, como se mesmo dormindo não estivesse disposto a soltá-la.
Ela ficou ali por alguns minutos.
Sem se mexer.
Só sentindo.
O calor dele.
O peso.
A segurança estranha de estar presa a alguém que, em teoria, não deveria significar nada.
Devagar, ela levantou o olhar.
O rosto dele, relaxado, parecia diferente. Menos duro. Menos calculado. As linhas de tensão suavizadas, as cicatrizes ainda lá — sempre estariam — mas agora sem defesa, sem postura.
Humano.
Mais humano do que ele jamais permitiria acordado.
Leah estendeu a mão sem pensar.
Parou antes de tocar.
Como se aquilo fosse íntimo demais.
Como se atravessasse uma linha que ela ainda fingia que existia.
Recolheu a mão.
Respirou fundo.
— Isso não é nada — murmurou para si mesma, tão baixo que nem o silêncio respondeu.
Mas, não convenceu nem a própria mente.
Com cuidado, levantou-se da cama.
O braço dele escorregou pela cintura dela, mas ele não acordou. Só se moveu o suficiente para buscar o calor que já não estava ali.
Aquilo fez algo dentro dela apertar.
Idiota.
Dessa vez, ela procurou suas próprias roupas e as vestiu devagar, ainda usando a camisa dele, antes de tirá-la, ponderou: O cheiro ainda estava ali. E isso... não ajudava em nada.
Parou na porta do quarto. Olhou para trás.
Ele ainda dormia.
Grande demais para aquela cama parecer suficiente. Forte demais para parecer vulnerável, e ainda assim, naquele momento, completamente exposto.
E ela sabia.
Sabia exatamente o que aquilo significava.
Não para ele.
Para ela... Encostou a testa no batente da porta por um instante, tentando se recompor.
Ele era rico. Rico de verdade. Do tipo que não pergunta preço. Do tipo que constrói o próprio mundo e espera que ele funcione.
E ela?
Ela trabalhava na casa dele. Não era sofisticada. Não era elegante. Não era o tipo de mulher que frequentava o mundo dele. Não falava como aquelas mulheres falariam. Não se comportava como elas se comportariam. Nem sequer saberia por onde começar.
Então o que ele queria?
A resposta mais fácil veio primeiro.
Um passatempo. Algo inesperado, diferente. Algo... temporário.
Ela cruzou os braços, irritada consigo mesma.
— Claro.
Fazia sentido.
Homens como Adrian Thorne não se envolviam com mulheres como ela.
Eles experimentavam.
Depois voltavam para o que fazia sentido.
Leah respirou fundo.
E ali estava o problema.
Ela deveria estar tranquila com isso.
Deveria conseguir manter distância.
Deveria tratar aquilo como ele provavelmente tratava: momentâneo.
Mas, ela não era assim. Já estava envolvida até o último fio de cabelo. E tinha medo de que, dessa vez, não houvesse mais salvação para seu coração.
Leah abriu a porta.
Saiu. Em seguida, a fechou devagar.
No corredor, o ar parecia mais frio. Mais claro. Mais fácil de respirar.
Porém, não transmitia nada de resolutividade.
Porque, mesmo longe dele, a sensação continuava presente.
Ela começou a descer as escadas, já prendendo o cabelo, já organizando o dia, já vestindo a armadura de sempre.
Funcional.
Direta.
Segura.
Mas, no fundo, uma parte dela sabia. Não importava o quanto tentasse racionalizar, do quanto se lembrasse de quem ele era — e de quem ela não era.
Aquilo já tinha passado do ponto de ser só físico, antes de se tornar físico.
E, pior ainda, já tinha passado do ponto de controle. E Leah não tinha nem ideia de como recuperá-lo.
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