O Monstro dentro de mim
18 Passado
Os dias tinham encontrado um tipo perigoso de equilíbrio. Durante o dia, Leah era impecável. Rápida. Eficiente. Incansável.
Organizava cronogramas, antecipava problemas, resolvia falhas antes que se tornassem visíveis. Discutia com fornecedores com uma precisão quase agressiva, como se precisasse provar constantemente que merecia ocupar aquele espaço.
Como se ainda estivesse tentando justificar a própria presença ali.
À noite... Ela subia para o quarto de Adrian.
Às vezes tarde, quando a casa já estava em silêncio e ninguém poderia questionar.
Às vezes cedo demais, como se fosse natural simplesmente... estar ali.
E era isso que mais a assustava.
A naturalidade.
Dormiam juntos mais do que separados. Sem conversas sobre isso. Sem acordos.
Sem nome.
Havia beijos roubados em corredores escuros, rápidos e famintos, como se nenhum dos dois tivesse paciência para esperar a próxima porta fechada. Beijos que começavam com provocações e terminavam com respirações curtas, a testa dela encostada no peito dele enquanto tentavam fingir compostura.
Havia mãos se encontrando em silêncio sob a mesa durante o café da manhã — os dedos dele buscando os dela como reflexo, acariciando a parte interna de seu pulso enquanto conversavam sobre assuntos banais. Leah fingia normalidade, mas o simples toque bastava para aquecer seu rosto e tirar qualquer atenção da conversa.
Adrian a procurava pela casa.
Sempre.
Pelo som.
Pela presença.
Pela ausência.
Leah percebia.
E fugia.
Sempre que ele tentava transformar aquilo em algo maior que o instante.
Porque, na cabeça dela, a lógica era simples demais para ignorar:
Ela era a funcionária. Ele era... tudo o resto.
Em poucos dias, ele aprendeu a reconhecê-la antes mesmo de vê-la.
E Leah percebia.
Percebia quando ele surgia casualmente em cômodos onde ela estava. Quando inventava motivos ridículos para chamá-la ao escritório. Quando aparecia na cozinha no exato instante em que ela preparava café, como se coincidências fossem convincentes.
Ao longo do dia, rendiam-se em pequenas doses ao desejo que nenhum dos dois sabia mais esconder.
Na biblioteca, enquanto ela organizava livros, Adrian a puxava pela cintura entre uma estante e outra, beijando-a até Leah esquecer em que prateleira estava trabalhando.
Na lavanderia, ela o empurrava contra a bancada só para provar que também sabia surpreender, arrancando dele aquele olhar escuro que sempre a deixava sem fôlego.
Na escada principal, bastava cruzarem sozinhos para ele segurar sua mão e trazê-la para perto, como se precisasse confirmar com o toque que ela ainda estava ali.
E toda vez que se afastavam, voltavam às tarefas com a mesma expressão séria de antes.
E, ainda assim, Leah fugia de qualquer conversa que pudesse nomear o que existia entre eles.
Se Adrian dizia "precisamos falar", ela lembrava de uma entrega atrasada.
Se ele perguntava sobre o fim de semana, ela citava inventário.
Se ele começava frases com "nós", Leah desaparecia atrás de tarefas urgentes que não eram urgentes.
*****
Naquela sexta-feira, o equilíbrio que ela fingia controlar rachou.
Margaret entrou na sala de jantar com a expressão de quem carregava notícia ruim embrulhada em seda.
Margaret Vale pousou uma bandeja sobre a mesa.
— Temos visita.
Leah não levantou o olhar imediatamente.
— Diz que não estou.
— Infelizmente não é para você.
Leah ergueu os olhos.
— Quem?
Margaret demorou um segundo.
O suficente.
— A ex-senhora Thorne.
Silêncio.
Leah piscou.
Uma vez.
— Ex-esposa — Margaret completou, com precisão cirúrgica.
O pano parou na mão de Leah.
Devagar.
— Ah.
Mas não era só um "ah".
Era um impacto.
Porque aquilo mudava tudo.
Margaret observou-a com atenção clínica.
— Controle o rosto, querida.
Leah respirou fundo.
— Eu estou ótima.
— Naturalmente.
*****
Vanessa entrou como quem ainda se considerava dona de portas, como quem nunca deixou de pertencer.
Alta, loira impecável, roupas caras escolhidas para parecer casuais e joias discretas demais para serem realmente discretas. Bonita de uma forma fria e treinada. Perfume forte o bastante para chegar antes dela.
Leah estava no hall quando a mulher entregou o casaco a um funcionário sem sequer olhar para ele.
As roupas não chamavam atenção.
Mas, custavam mais do que Leah ganharia em meses.
E era exatamente esse o ponto.
Elegância que não precisava provar nada.
Presença que não precisava pedir espaço.
Leah soube na hora.
Aquela mulher fazia sentido ali. Ela... não.
— Adrian está me esperando.
A voz era suave.
Controlada.
Treinada.
Margaret respondeu antes que Leah pudesse pensar algo venenoso.
— O senhor Thorne não recebe visitas sem aviso.
Vanessa sorriu como quem apenas tolerava empregados.
— Adrian sempre me recebe.
Leah sentiu vontade instantânea de derrubar algo caro.
Do alto da escadaria, a voz grave desceu.
— Não mais.
Todos olharam.
Grande.
Imóvel.
Controlado demais.
Adrian permanecia na meia-luz do corredor superior, imenso e imóvel.
Vanessa ergueu o rosto, modulando doçura imediata. Mas, ali, por um segundo, algo verdadeiro apareceu: não saudade, não carinho... Avaliação.
— Adrian... você está diferente.
— Você não.
Leah quase sorriu. E odiou isso.
— Precisamos conversar. Em particular.
— Adrian... — ela ajustou o tom — não transforme isso em algo maior do que é. Por favor.
O "por favor" parecia ensaiado. Adrian permaneceu em silêncio por um instante.
Depois:
— Biblioteca menor. Dez minutos.
Antes de subir, Vanessa lançou um olhar rápido ao redor, notando Leah pela primeira vez de verdade.
Os olhos dela desceram e subiram em avaliação breve e demorada.
— Nova funcionária?
Leah respondeu antes que Margaret pudesse salvar civilizações.
— E você, visita antiga?
Margaret fechou os olhos por um segundo.
Vanessa sorriu sem humor e seguiu escada acima.
Sem pressa. Sem hesitar. Como se aquele espaço ainda fosse dela.
Vanessa subiu alguns degraus lentamente.
— Adrian, você e sua fases de caridade. — Balançou a cabeça lentamente.
Aquilo foi calculado.
Preciso.
Cruel.
E o pior de tudo: funcionou.
Leah não respondeu.
Mas, sentiu.
*****
Leah tentou voltar ao trabalho.
Falhou miseravelmente.
A prataria, refletia apenas a imagem dela franzindo a testa.
Na cozinha, queimou pão.
No escritório administrativo, leu a mesma linha três vezes.
Finalmente largou tudo e foi para o corredor próximo à biblioteca menor sob o pretexto transparente de levar correspondências.
A porta estava fechada.
As vozes, baixas.
— ...situação temporária — dizia Vanessa.
— Não é meu problema. — A voz de Adrian era fria.
Mais fria do que Leah já tinha ouvido.
— Não seja assim. — A voz dela mudou, mais íntima agora. — Nós tivemos uma vida juntos.
Leah sentiu o estômago apertar.
— Tivemos — ele respondeu. — E você foi embora dela.
Depois a voz dela, mais macia:
— Podemos lembrar do que tivemos.
Leah congelou.
— Não insulte minha memória com oportunismo — respondeu Adrian, frio.
— Eu era jovem — Vanessa disse, com leve impaciência. — Não estava preparada para aquilo.
— Para o quê? — ele perguntou.
E então veio.
Sem emoção.
— Para cuidar de um homem destruído.
A frase atravessou a porta como lâmina.
Leah sentiu o peito apertar.
Vanessa baixou o tom, quase um sussurro.
— Você estava irreconhecível, Adrian — Vanessa continuou. — Ferido, instável... eu não me casei para aquilo.
A crueldade não estava no tom. Estava na naturalidade.
— Você foi embora enquanto eu ainda estava no hospital — ele disse.
Baixo.
Controlado.
— Eu fui embora porque não queria me tornar sua enfermeira.
Silêncio.
Pesado.
— Mas, eu posso compensar isso agora.
Leah fechou os olhos por um segundo.
— Com o quê?
Pausa.
Quando ela falou de novo, havia algo pegajoso na doçura.
— Seja honesto — Vanessa continuou. — Você também não quer uma mulher por perto para cuidar disso tudo?
Ela fez um gesto leve.
Casa.
Império.
Vida.
— Eu posso ser isso. Posso voltar a ser sua esposa quando convém. Sua companhia quando quiser. Posso ser discreta... eficiente.
A voz desceu.
Mais baixa.
Mais calculada.
— Só preciso que você resolva alguns problemas financeiros meus.
Leah ficou imóvel.
Choque primeiro.
Depois nojo.
Dentro da sala, houve um silêncio tão longo que chegou a assustar.
Então Adrian falou.
Baixo. Mortal.
— Saia da minha casa.
— Adrian—
— Agora.
A porta abriu de repente.
Vanessa surgiu pálida, porém ainda tentando preservar a dignidade. Deu de cara com Leah no corredor.
Os olhos da mulher estreitaram.
— Escutar atrás de portas é falta de classe.
Leah cruzou os braços.
— Negociar afeto por dinheiro também.
Vanessa empalideceu ainda mais. Mas, então sorriu, pequeno e frio.
— Você não faz ideia do tipo de homem com quem está lidando.
Leah respondeu sem hesitar:
— Faço.
Vanessa inclinou a cabeça.
Como quem observa algo... inferior.
— Não. Você não faz.
Margaret apareceu como magia disciplinar.
— O carro da senhora já está à espera.
Vanessa desceu o corredor em passos rápidos e duros.
Leah permaneceu parada.
A porta da biblioteca ainda aberta revelava Adrian de costas, mãos apoiadas na mesa, cabeça baixa.
Não era raiva. Era algo mais antigo. Mais profundo
Ela entrou devagar.
— Thorne.
— Não agora.
A voz saiu áspera demais.
Leah fechou a porta atrás de si. Caminhou até ele.
— Ela não merece estragar seu dia.
Ele riu.
Sem humor.
— Você ouviu.
— Ouvi.
Ele virou-se bruscamente.
Os olhos carregavam raiva, humilhação antiga e algo pior: cansaço.
— Você sabe o que é ouvir alguém calcular quanto vale dormir com você?
Leah sentiu a própria raiva mudar de forma.
Aproximou-se até parar diante dele.
— Eu sei o que é gente confundir valor com preço.
Adrian riu sem humor.
Ela se aproximou.
Segurou o rosto dele.
Sem delicadeza.
Sem medo.
— Escuta bem. Aquela mulher não mede nada sobre você.
A respiração dele vacilou.
— Leah—
— Não. Minha vez.
Os olhos dela brilharam de fúria sincera.
— O acidente não define quem você é, você definitivamente não é o que sobrou ou alguém que simplesmente precisa ser tolerado.
Ela respirou.
Mais perto.
— E, se você não consegue ver isso agora... eu vejo por nós dois.
O silêncio que veio depois era vivo demais.
Adrian tocou o pulso dela lentamente.
— "Por nós dois"? — repetiu. Como se testasse o peso.
Leah percebeu tarde demais o que dissera.
Tentou recuar.
— Eu... quis dizer...
Ele não deixou. A mão dele subiu para a cintura dela. Firme. Decidida.
— Eu sei o que você quis dizer.
Ela engoliu em seco.
— Não sabe nada.
— Sei que você foge quando sente demais.
Leah abriu a boca para discutir.
Adrian a puxou pela cintura e a beijou antes.
Longo.
Profundo.
Desarmando argumentos inteiros.
Quando se afastou, a testa encostada na dela, falou baixo:
— E sei que você vai dormir no meu quarto hoje.
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