O Mistério De Scarabas
17 No Trem-Fantasma
Notas iniciais
Boa leitura.
Fiquei petrificada; sem reação. Alice deu um passo à frente e eu recuei. Vi a faca brilhante que ela segurava, pronta pra me atacar. Seu olhar estava fixo no meu. Qualquer movimento brusco...
- Alice, não faça isso — murmurei, na defensiva.
- Ah, mas eu vou fazer sim. — disse ela, diminuindo a distância entre nós. — Não sei como descobriu nosso plano, mas não vai nos atrapalhar.
- Seu irmão me contou a história de vocês — resolvi apelar para seu lado sentimental. — Sei que querem fazer isso pelo seu pai.
Ela revirou os olhos.
- Rony não pode ver uma garota bonita que ele não enxerga mais nada. — ela falou para si mesma. Quando notou que eu havia baixado a guarda, ela voltou a mostrar a faca. — Sabe como é feita?
Permaneci em silêncio, e ela suspirou; impaciente.
- Uma arma contra fantasmas. É capaz de acabar com eles literalmente.
A fantasma presa na roda gigante gemeu, com medo. A corda que a amarrava brilhava e parecia machucá-la de verdade.
- Sei que pretendem fazer os fantasmas de escravos, mas por quê? O que eles fizeram à vocês? — falei.
Alice trincou a mandíbula.
- Nossa família foi ridicularizada por causa dos fantasmas! Agora, nós vamos ridicularizá-los!
Sua voz ficou mais firme, e seu tom me assustou. De repente, seu semblante mudou de uma só vez.
- Você deveria se juntar à nós — ela deu passos ao redor de mim; sedutora. — Sei o mal que a Vingativa fez à você. Podemos nos livrar dela pra sempre. Vamos fazê-la pagar por tudo.
- A Vingativa precisa de ajuda. — não me deixei levar pelo papinho dela. — Falta pouco para que ela deixe a cidade em paz.
Ela riu sarcasticamente. A fantasma tentava se soltar da corda.
- E você acha que pode ir ao encontro dela e simplesmente ter uma conversinha amigável? — Alice continuou.
Ponderei, pensando; mas, por fim, respondi sorrindo:
- Sim, eu acho que posso.
Aquilo pareceu afetá-la.
- Você não vai conseguir. Ela não vai deixar a cidade em paz.
- Não é verdade. — contestei. — O que fez com os outros? Foi algum tipo de hipnose?
Ela sorriu.
- Fazer truques de hipnose requer um pouco de astúcia e prática. — ela ergueu a faca. — Agora isso é pura física quântica.
- Você é louca! — eu voltei a me afastar.
- Nada disso, querida. Apenas realista. — Alice fez um gesto de mesura. — Todos aqueles idiotas nunca vão acreditar no que disser!
- Como pode falar assim? — esbravejei, com raiva. — Minha avó acolheu você!
- Chega de papo!
Ela ergueu a faca em riste, mas uma ventania intensa tomou conta do parque de diversão. Acima de nossas cabeças, as nuvens foram se embolando até formarem uma caricatura.
Ela.
- Vingativa! — exclamou Alice. — Finalmente nos conhecemos!
Eu não sabia o porquê da Vingativa ter aparecido ali pra me salvar, mas me aproveitei da distração para libertar a fantasma.
- De que é feita essa coisa? — disse enquanto tentava desamarrar a corda que me queimava.
- Não sei. — respondeu a fantasma, tentando me ajudar também.
- Escute — eu lhe disse. — Acha que pode encontrar Natasha ou Jennie e dizer pra me encontrar?
Ela olhou para os lados, nervosa.
- Eu não devia nem estar visível. Não sei se posso encontrá-las. Estamos todos com medo.
- Pode tentar, pelo menos?
Ela balançou a cabeça, afirmando e sumiu.
Foi quando senti algo gelado tocar minha nuca.
- É bom dizer suas últimas palavras. — Alice sussurrou.
Me virei devagar; sentindo o poder sombrio que emanava daquela faca.
Alice riu; nervosa.
- À essa hora, meu irmão já deve ter pego seus amigos estúpidos.
A Vingativa pareceu ter urrado de raiva, e nós duas olhamos quando a figura dela apareceu.
- Que foi? Tem medo que eu a mate no seu lugar? — debochou Alice.
- Ela é minha vítima. — foi o que a Vingativa sussurrou.
Por que ela estava me ajudando?
Me arrastei de fininho por trás de Alice, mas ela percebeu e me puxou pela perna, fazendo-me cair no chão. Com força, dei-lhe um empurrão com o pé, que a fez largar a faca venenosa, a qual peguei e joguei longe o bastante.
- Você não escapa! — gritou ela.
Aproveitei pra correr e entrei dentro da escuridão do Trem-Fantasma. De uma só vez, o brinquedo começou a funcionar sozinho, e apressei o passo. Estava tudo escuro e eu procurava tatear às cegas. O desespero tomou conta de mim. Além de Alice, teria que me esconder da Vingativa. Os outros teriam se saído bem? Teriam sido pegos?
- Valerie! — Alice cantarolou dentro do brinquedo. — Vou achar você! Gosta de brincar?
Escutando minha respiração ofegante e confiando em meu instinto, consegui chegar do outro lado, onde vi os outros.
Sara, Steve e Rebecca estavam presos em um dos carrinhos da montanha-russa. Sara estava pálida e parecia a mais assustada. Ao lado dela, Rony segurava o que parecia ser o controle; pronto pra apertar o botão.
- Fim da linha. — Alice disse pra mim. — Mais um passo e seus amigos vão brincar sem você.
Me virei devagar.
- Por que estão atrás de mim? Deviam caçar fantasmas, não?
Alice fez muxoxo.
- Caçar espíritos é muito mais do que somente ir e capturá-los. Ás vezes, é necessário interceptá-los primeiro; explorar os seus pontos fracos.
- Mas eu não sou o ponto fraco da Vingativa.
- Aí que você se engana. — ela riu. — Annie quer se vingar de Natasha. E nós queremos capturá-la.Você e ela. Faça as contas, Valerie. Se entregarmos você à ela, será fácil prendê-la.
- Como sabe de tudo isso?! — fui pega de surpresa.
- Fiz a lição de casa. — ironizou ela, imitando minha voz.
Eu sorri, um tanto nervosa, tentando contornar a situação.
- A Vingativa é mais esperta do que pensa.
Ela deu de ombros, e, de uma só vez, me deu uma chave de braço, me enforcando e com a faca em meu pescoço.
- Não quero cortar sua cabecinha — disse ela. — Porque ela será muito útil.
- Como assim? — falei meio sem ar.
- Sabemos que você teve acesso às memórias de Annie através do diário dela — contou. — Sabemos de tudo desde o início. — ela sorriu ao ver minha expressão de surpresa.
- Você sabe mesmo sobre isso! — arquejei.
- Falei que fiz a lição de casa. — ela voltou a imitar minha voz.
- Você não vai me obrigar! — falei por dentes trincados. — E o diário não está aqui!
- Ah, mas não será necessário — ela tirou a faca do meu pescoço. — Está no seu DNA através de Natasha. Várias pesquisas falam que descendentes guardam memórias de seus ancestrais. Tudo o que precisa fazer é...
Sua fala foi interrompida quando a figura da Vingativa apareceu na neblina. Distraída, Alice não notou quando empurrei a faca, mas notou-me assim que apareci no seu campo de visão.
- Ela está aqui! — ela disse para a Vingativa, segurando meu pulso.
Em seguida, tudo aconteceu em câmera lenta.
Alice sacou a faca, ao mesmo tempo que a Vingativa avançou. Em questão de segundos, Alice trespassou a faca em meu pulso, me queimando e enviando uma dor trucidante. Assim que as gotas de sangue pingaram no chão, a Vingativa me tocou, e foi como se fôssemos um só corpo.
Uma luz me cegou por completo e fui tomada pelo silêncio.
Coloquei a mão no rosto para amenizar o desconforto da luz do sol. Me vi sentada em uma praça com algumas pessoas que passeavam em frente à escola de Scarabas.
Estava de volta aos anos 20.
Mas não vi Natasha e Annie em lugar algum. O mais engraçado é que tudo parecia novo pra mim. Eu estava maravilhada com tudo o que via e sorria para as pessoas que me cumprimentavam. Estava completamente alegre e feliz.
Mas não sabia o porquê.
Voltei caminhando para a casa distante do centro. Assim que vi quem me esperava na varanda, tomei um susto.
Natasha.
Em um vestido justo e elegante, ela sorria pra mim. Em seguida, me puxou pelo braço para entrarmos.
- Soube de sua mudança e decidi auxiliá-la — disse Natasha, sorridente. — Scarabas é uma cidade um tanto fofoqueira enão queria que ficasse falada. Minha casa é perto. — ela apontou para um casarão não muito distante.
- Hmm...obrigada. — falei e me surpreendi. Não era a minha voz. O que estaria acontecendo?
- Sua família me recebeu — Natasha disse enquanto subíamos as escadas. — Você tem sorte por não ter irmãos.
Entramos animadas no quarto e senti uma felicidade desconhecida e repentina por estar sendo bem recebida. Fui primeiro olhar a escrivaninha toda trabalhada e com um grande espelho.
Mas assim que me vi refletida, quase desmaiei.
Eu era a própria Annie.
Os mesmo cabelos pretos e a franja pequena na testa que destacavam seus olhos miúdos e cor de avelã. Alisei meu vestido cinzento e sem graça com as mãos da Vingativa.
- O que foi? — Natasha quis saber.
- Hã... — gaguejei com a nova voz. — Estou...feliz por estar...aqui. — engoli.
Natasha sorriu. Olhando-a, senti um inveja súbita pelas suas belas roupas.
Assim que saímos, ela me levou à sua casa e passamos a tarde juntas, onde vi que sua amizade parecia sincera. Mas algo dentro de mim — eu "Annie" — não gostava da presença dela. Ela parecia me ameaçar de alguma forma, mas não reconheci de imediato o que era.
Mas era o amor.
O amor por Drew Granth — um rico fazendeiro — me fazia sentir mais forte que tudo, até mesmo que a amizade com Natasha.
De repente, tudo mudou outra vez.
Estava em outra casa, só que dessa vez estava no completo silêncio. Despertei da minha cama ao ouvir um barulho estranho. Quando me arrastei até o espelho, me vi na pele de Natasha.
Era Annie e agora minha ancestral? Por quê?
Outro barulho me deixou mais tensa. Uma dor pesada se estendia por meu peito, como se me sentisse culpada por algo.
Agora sabia porque. A morte de Annie. Eu estava com medo dela.
Barulhos vindos da escada me fizeram correr pelo corredor, mas fui pega pelo espírito de Annie — agora a Vingativa.
- Annie, por favor, não! — implorei, chorando.
- É tarde pra pedir perdão — disse Annie com a voz de outro mundo. — Vou fazê-la sofrer. Mas não vai ser tão fácil assim. Vai se arrepender além da morte!
- Você não pode fazer isso! — Eu voltei a pedir, me ajoelhando.
Grunhindo, ela me agarrou pelos cabelos, arrastando-me até o banheiro, onde ligou a banheira.
- Não, isso não! — eu me desesperei, olhando no fundo de seus olhos, agora negros.
- Até breve...Natasha.
Dito isso, ela pôs minha cabeça na água. Nunca lutei tanto pra respirar e viver. Batia os braços, mas não adiantava.
Por fim, fechei os olhos.
A última lembrança que restou foi o som de passos.
Depois disso, flashes muito rápidos tomaram minha visão. Eram de uma casa desconhecida, mas só então foi que percebi.
Natasha. Annie. Morte. A casa desconhecida.
O próximo corpo a ser resgatado.
O corpo de Natasha estava na casa de Annie.
O próximo passo seria dar de cara com a Vingativa.
Notas finais
Até mais.
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