Notas iniciais
Boa leitura! '')

Foi como se eu estivesse morta.

Mas não avistei nenhuma luz branca, ou algum ser me esperando de braços abertos. Por outro lado, a estranha claridade parecia me abraçar com um calor amistoso. Aos poucos, ela foi diminuindo e abrindo espaço para uma imagem que se formava.

A primeira coisa que vi foi uma praça. Várias crianças brincavam alegres. As meninas usavam vestidos de cetim e laços na cabeça. As mães — com aqueles vestidos retrôs dos anos 20 -, conversavam sentadas em bancos. Chegando mais perto, vi que o lugar estava cheio.

Se tratava do centro de Scarabas na época de Natasha.

Logo notei a longa estrada que levava à fazenda onde ela supostamente morava. Ali perto, lá estava a escola, onde vários alunos paqueravam e conversavam. As lojas estavam cheias de gente. Tudo parecia tão convidativo...

Até que Annie e Natasha desceram as escadas da escola e pararam no portão. De fato, Natasha era elegante, e aparentava ser mesmo o tipo de garota cheia de posses. Uma fita amarela em seu cabelo contrastava com o uniforme simples e acinzentado.

Mas Annie foi quem me chamou a atenção.

Ao contrário da imagem trépida e débil de sua alma perturbada e suja, Annie não estava abaixo dos padrões de beleza. A meu ver, ela era linda — e, sinto admitir, talvez pudesse até mesmo competir com Natasha. Tinha cabelos pretos lustrosos e uma franja frontal curta. Seus olhos castanhos eram um impasse, que combinavam perfeitamente com o uniforme cinza.

Elas conversavam alegremente enquanto eu me aproximava.

– Natasha. — eu me pus entre as duas, que continuaram a conversar, me ignorando totalmente. Então eu me dei conta de que estava invisível.

Eram as memórias de Annie.

– Não sei o que fazer para o dia do baile. — disse Natasha; discretamente.

– Drew convidou você? — Annie quis saber. Era a primeira vez que ouvia sua voz sem ser aquela voz sombria e gasta.

Como resposta, Natasha e Annie viraram a cabeça. Foi quando vi Drew pela primeira vez.

Ele era alto e bonito; de cabelos dourados e desgrenhados, muito parecido com aqueles garotos atléticos do time de futebol. Ele sorriu para as duas, fazendo-as derreter.

Então, fui tomada por outra memória: Annie e Drew, no agitado parque de diversões. Logo depois, Annie foi dispensada por Drew. Em seguida, ela flagra, escondida, Natasha com ele. Annie jura vingança contra Natasha. Sem se dar conta, ela já planeja o assassinato dos dois.

Já sufocada de tantas memórias, nem me dei conta de que o cenário tinha mudado novamente. Minhas suspeitas se confirmaram: os corpos de Natasha e Drew deviam estar próximos.

As memórias pareciam estar se esgotando. Eu não tinha tempo a perder.

Tudo mudou novamente, e fui jogada de um lado para o outro. Aquilo só poderia significar uma coisa: era a parte mais turbulenta da vida de Annie.

Estava de volta à escola. Dessa vez, ela estava vazia. Tudo estava silencioso. Me assustei quando escutei passos apressados atrás de mim. Em seguida, risadinhas maliciosas. Não demorou para que Natasha aparecesse elegantemente vestida. Logo atrás dela, um grupo de rapazes; inclusive o tal Drew. Ao contrário dele — que parecia excitado com algo que aconteceria em breve — ela parecia aflita; angustiada. Olhava pelos cantos, preocupada.

– Para com isso, Natasha. — disse Drew. — Foi você mesma quem teve a ideia. Nós só vamos fazer uma brincadeirinha... — e riu, acompanhado dos amigos.

Natasha engoliu em seco.

– Não sei não. Ela pode reagir de uma maneira que não esperamos.

Drew revirou os olhos.

– Anda logo. Ela já deve estar chegando.

Se acomodaram atrás de uns destroços, perto da piscina. Então, vi Annie chegar. Ela os chamava, olhando pelos corredores.

– Drew? Drew! Onde você está?

Até que apareceu na área dos fundos, e se assustou quando avistou os demais.

– Natasha...? — murmurou, com os lábios tremendo de raiva. — Mas o que é isso? Você...

– Não se faça de santa, Annie — Drew interrompeu. — Sabemos que você quer nos destruir. Viemos aqui apenas para...uma surpresinha. — e sorri.

Annie fulmina Natasha com o olhar.

– Você vai me pagar! Todos vocês!

Quando ela foi jogada na piscina, a imagem se desfez.

Valerie...Valerie...

De quem era aquela voz?

Uma luz estranha penetra em minha visão, me fazendo ficar tonta. Quando dou por mim, vejo vários rostos me observando. Embora esteja tudo embaçado, tudo o que eu quero é ser resgatada por aqueles rostos.

– Valerie.

Dessa vez, estou em um lugar tranquilo. Natasha surge do nada, sorridente; mas, logo depois, ela se aflige.

– Você tem que correr — suplicou ela. — A Vingativa tem grandes planos! Acorde, Valerie!

– Hã? — é tudo o que consigo dizer.

– Tenha cuidado, filha! — minha mãe aparece ao lado dela. Eu estico a mão, tentando alcançá-la, mas não consigo. Uma força tremenda me puxa na direção contrária. Vejo a luz ficar cada vez mais distante e tudo voltar a escurecer. Grito um "Não!", mas nada acontece.

– Acorde, Valerie...! Acorde!

Acorde...acorde...acorde...!

A última imagem que tenho é de uma lágrima de Annie.

Volto à mim num arquejar intenso.

– Valerie! — Steve me puxa e me abraça com força. Quando volta a me olhar, vejo a preocupação em seus olhos. Ele dá um fraco sorriso ao me ver consciente. — Você apagou! Fiquei aqui tentando trazer você de volta!

– Onde estão todos? — disse, grogue, olhando ao redor. Ainda estávamos no porão. — Ainda estão nos caçando?

Steve suspirou.

– É o que me preocupa. Está tudo quieto demais e não quero ir lá fora pra conferir.

– Vou ver.

– Não! — ele me segura. — Você acabou de acordar desse...transe. Além disso, a Vingativa ainda está aqui.

Eu me sentia um tanto mole, como se tivesse dormido por muito tempo. As memórias de Annie foram pesadas. Steve tinha razão. Eu não tinha a menor chance de defesa assim.

– Mas não podemos ficar aqui pra sempre. — sibilei. — Vai ver eles acordaram também.

Steve ponderou por um momento e concordou. Antes de abrirmos a porta, ouvimos um estrondo vindo de dentro da casa. Sem demora, abri a porta e saímos, e nos deparamos com nossos amigos caídos no chão, e corremos pra ajudá-los. Eles despertaram tão grogues quanto eu.

– Aw... — gemeu Sara. — Mas que...

Ao olhar lá fora, vi que a névoa venenosa parecia estar se dissipando, como se fugisse de algo com muito medo. Quando abri a porta, suspirei aliviada ao ver que a Vingativa havia baixado a guarda.

Mais à frente, vi uma movimentação na entrada da fazenda. Logo vi que se tratava de vovó, chegando do centro. Mas havia mais pessoas com ela.

– Venham ver. — eu chamei todos.

Quando pudemos ver melhor, notei mais dois desconhecidos acompanhando meus avós. E eles pareciam extremamente alegres com eles.

Vovó veio na frente.

– Meninos. — ela nos chamou, sorridente. — Vamos entrando. Quero que conheçam a visita.

Notas finais
Gostaram? deixem reviews, por favor!
quem será essa visita, hein? preparem-se! ¬¬
até o prox cap.