Era cedo quando Tyler e Dylan desembarcaram em Hollywood.

O sol ainda subia por trás dos prédios, refletindo tons dourados nas fachadas e fazendo a cidade parecer um cartão-postal vivo. Para os dois, aquilo era quase irreal. Hollywood sempre fora um nome repetido em conversas jogadas fora, em sonhos ditos sem muita convicção — e agora estavam ali, respirando o ar quente da Califórnia.

— A gente realmente conseguiu — disse Tyler, rindo enquanto ajustava o celular para mais uma selfie.

Dylan aproximou-se, puxando-o pelo ombro.

— Marca bem o lugar — falou. — Quero que todo mundo veja isso.

Eles tiraram fotos, gravaram pequenos vídeos, postaram nos stories. Sorrisos largos, comentários empolgados, emojis exagerados. Por alguns minutos, pareciam apenas dois garotos vivendo algo que sempre imaginaram, sem qualquer sombra à espreita.

A limousine os aguardava logo à frente, reluzente, contrastando com a informalidade do momento. O motorista abriu a porta com um sorriso ensaiado, e os dois entraram, trocando olhares de incredulidade.

O trajeto até o hotel foi silencioso, mas confortável. A paisagem passava pelas janelas escuras enquanto Dylan encostava a cabeça no banco, absorvendo tudo.

O hotel se erguia imponente diante deles, de frente para a praia. Um prédio elegante, moderno, com linhas limpas e grandes paredes de vidro. Do saguão, era possível ver o mar se estendendo até onde a vista alcançava.

— Isso aqui parece coisa de filme — murmurou Tyler.

Após deixarem as malas no quarto, seguiram para o andar superior, onde funcionava o café da manhã. O espaço era amplo, iluminado naturalmente, misturando arquitetura moderna com detalhes clássicos que davam um ar sofisticado ao ambiente.

No centro do salão, uma enorme mesa dividia o espaço, coberta por uma variedade absurda de comidas: frutas exóticas, pães artesanais, doces finos, pratos que nenhum dos dois saberia nomear.

Dylan observava tudo com curiosidade, enquanto Tyler coçava a nuca.

— Cara… — disse Tyler. — Vou ser honesto. Isso tudo parece incrível, mas eu só quero um hambúrguer.

Dylan riu.

— Eu também.

No fim, escolheram o que sempre escolheriam. Tyler ficou com um hambúrguer, suco de laranja e batatas fritas. Dylan optou por outro hambúrguer, refrigerante de soda e alguns nuggets. Sentaram-se próximos à janela, com vista direta para a praia.

— Hollywood pode ser chique o quanto quiser — comentou Dylan — mas a gente continua sendo a gente.

Depois de comerem, desceram novamente ao saguão, onde um ônibus já os aguardava. Era parte do passeio oferecido pela empresa responsável pelo concurso: um tour pelos principais pontos turísticos de Los Angeles.

O ônibus partiu pouco depois. A cada parada, novas pessoas entravam; a cada ponto famoso, algumas desciam. O clima era leve, turístico, quase banal. Risadas, fotos, comentários empolgados.

Com o passar das horas, o grupo foi diminuindo.

Quando perceberam, Tyler e Dylan estavam sozinhos.

— Acabou o passeio? — perguntou Dylan, olhando em volta.

O ônibus seguia em silêncio pelas ruas quase vazias. A cidade já não tinha o mesmo brilho da manhã. As luzes artificiais criavam sombras longas nas esquinas.

Foi então que Tyler sentiu algo estranho.

— Dylan… — chamou, em voz baixa.

— O quê foi?

Tyler apontou discretamente pela janela.

— Você viu aquele cara?

Na esquina, um homem estava parado, imóvel, observando o ônibus passar. Havia algo errado em sua postura. Algo que não combinava com o resto da cidade.

— Para o ônibus — disse Tyler, de repente, estendendo dinheiro ao motorista. — Agora. E segue aquele cara.

— Tyler, o que você tá fazendo? — Dylan perguntou, alarmado.

O motorista não respondeu. Apenas acelerou.

A perseguição começou sem aviso. O ônibus avançava pelas ruas, o estranho correndo à frente, sem parecer cansado. O coração de Tyler batia forte demais.

— Isso não tá certo… — murmurou Dylan.

O homem virou uma esquina e, por um instante, pareceu desacelerar, como se estivesse exausto. Não percebeu o ônibus se aproximando.

O impacto foi seco.

Violento.

O corpo se chocou contra o veículo, o som abafado ecoando pela rua vazia. O ônibus parou bruscamente. O para-brisa estava manchado de sangue.

— Meu Deus… — Dylan sussurrou, em choque. — O que você fez?!

O motorista virou-se lentamente. O sorriso havia desaparecido.

— Tyler… Dylan… — disse ele, em tom frio. — Me entreguem seus celulares.

Ele sacou uma arma.

— Que porra tá acontecendo? — Dylan gritou.

Tyler sentiu um nó no estômago.

— Dylan… — disse, com a voz trêmula. — Ele só pode ser daquela empresa… da mesma que atormenta quem eles querem. Eles não desistem. Não depois do que fizemos.

— Exato — respondeu o motorista. — Bom acerto, Tyler.

Antes que qualquer um pudesse reagir, o homem levou a arma à própria cabeça.

O disparo ecoou pela madrugada.

Silêncio.

Tyler e Dylan ficaram parados por alguns segundos, incapazes de processar o que tinham acabado de ver. O sangue escorria pelo asfalto, misturando-se às luzes refletidas da cidade.

— Vamos sair daqui — disse Tyler, finalmente.

Eles desceram do ônibus e se afastaram o mais rápido possível. Não ligaram para ninguém. Não olharam para trás.

Hollywood parecia diferente agora.

De volta ao hotel, entraram no quarto em silêncio. Não trocaram palavras. Apenas se jogaram nas camas, exaustos demais para pensar.

O sono veio pesado, mas inquieto.

E, mesmo dormindo, ambos sabiam:

a viagem mal havia começado.

Notas finais
''Nada escapa, nem um olhar camuflado'' Será que apenas as cameras ou alguém a mais viu a tragédia do motorista ? Descubra no próximo capítulo.