Dois anos haviam se passado desde a última vez que Tyler e Dylan haviam se visto de verdade. Não uma troca rápida de mensagens, não um comentário jogado nas redes sociais, mas um reencontro real, daqueles em que o silêncio ainda carrega peso e as palavras precisam encontrar o próprio caminho.

Eles estavam sentados na sala do pequeno apartamento de Dylan, a televisão ligada no volume médio transmitindo o jogo anual de beisebol. A narração esportiva preenchia os espaços vazios da conversa, ajudando a disfarçar o desconforto inicial. A cada jogada mais empolgante, um comentário surgia; a cada pausa, o silêncio voltava a se acomodar entre eles.

— Parece que foi ontem — disse Tyler, quebrando o gelo, enquanto apoiava o cotovelo no braço do sofá.

Dylan soltou um meio sorriso, sem tirar os olhos da tela.

— Ou parece que foi em outra vida.

A conversa seguia assim: fragmentada, cautelosa, como se ambos ainda testassem o terreno. Havia coisas demais que não foram ditas, e outras que jamais seriam.

Em um momento de distração, Dylan pegou o celular e abriu a caixa de e-mails, mais por hábito do que por interesse real. Entre propagandas e mensagens ignoradas, um nome chamou sua atenção: Blair.

Ele abriu o e-mail.

“Oi, Dylan! Você tinha comentado comigo que estava pensando em viajar para espairecer um pouco. Encontrei essa promoção que parece bem básica, mas interessante. Vai que dá sorte, né? Boa sorte! XD”

Curioso, Dylan clicou no link indicado. Era um cadastro simples: nome, e-mail, documentos básicos. Nada que parecesse suspeito demais. Ele preencheu os campos rapidamente e enviou o formulário, sem grandes expectativas.

— Promoção? — Tyler perguntou, de boca cheia, sem desgrudar os olhos da televisão.

— É… coisa de internet — respondeu Dylan. — Provavelmente nada.

Pouco depois, Tyler levantou-se para buscar as sacolas de comida chinesa que havia trazido. Espalhou os recipientes sobre a mesa de centro enquanto Dylan se levantava para pegar copos na cozinha.

— Fica à vontade — disse Dylan, quase automaticamente. — E ignora a bagunça.

Tyler deu uma olhada ao redor. Roupas jogadas sobre uma cadeira, papéis espalhados, uma mala antiga encostada no canto do quarto, ainda fechada.

— Tá tudo bem — respondeu. — Parece… vivido.

Eles se acomodaram novamente. Tyler pegou um dos recipientes, os hashis ainda embalados, quando percebeu o celular de Dylan vibrar sobre a mesa. Um novo e-mail havia chegado.

— Chegou resposta — comentou Tyler, curioso. — Posso ver?

Dylan deu de ombros.

— Vai lá.

Tyler abriu a mensagem. Seus olhos começaram a correr pelas linhas, e, conforme lia, a expressão em seu rosto se transformava lentamente.

— Dylan… — começou, contendo um sorriso. — Acho que isso não é nada.

— O quê foi agora?

Tyler pigarreou e leu em voz alta, sem conseguir esconder a empolgação:

“Parabéns! Você acaba de ganhar uma viagem para Hollywood, com hospedagem no melhor hotel de Los Angeles, com vista privilegiada para Venice Beach.”

O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo.

— O quê?! — Dylan gritou, arrancando o celular da mão de Tyler.

Ele leu a mensagem uma, duas vezes, como se precisasse confirmar que não estava interpretando errado. Então, sem aviso, começou a pular no meio da sala.

— Não acredito! — gritava. — Não acredito nisso!

Tyler acompanhou o surto de alegria, rindo, pulando junto, os dois quase derrubando a mesa de centro no processo.

— Hollywood, cara! — Tyler disse, eufórico. — Isso é insano!

No meio da comemoração, o celular de Dylan vibrou novamente. Desta vez, não era um e-mail, mas uma mensagem de voz. O número era desconhecido.

Dylan apertou o play.

Parabéns… — disse uma voz masculina, baixa, arrastada, com um tom sombrio demais para combinar com a ocasião.

O sorriso de Dylan desapareceu no mesmo instante.

Tyler franziu a testa.

— Ué… quem será?

Os dois se entreolharam, a empolgação dando lugar a um leve desconforto. Dylan ouviu a mensagem novamente, como se buscasse algum detalhe que tivesse escapado da primeira vez.

— Deve ser alguém da promoção — disse, tentando soar despreocupado. — Marketing estranho, só isso.

Tyler respirou fundo e forçou um sorriso.

— É… deve ser isso. Vamos deixar pra lá. — Fez uma pausa. — A gente vai pra Los Angeles, Dylan. Isso que importa.

Dylan assentiu, mas algo dentro dele permanecia inquieto.

Mesmo assim, a empolgação venceu. Ele foi até o quarto e começou a separar algumas roupas, tirou a velha mala do canto, abriu o guarda-roupa, pegou o passaporte esquecido na gaveta.

Pouco depois, passaram rapidamente na casa de Tyler para buscar o que faltava. A noite avançava, e a estrada se estendia à frente deles, iluminada pelos faróis do carro.

Nenhum dos dois percebeu que, naquele instante, a viagem já havia começado.

E que Hollywood não era exatamente o prêmio que parecia ser.

Notas finais
Então eles partiram ao grande e último inferno da vida deles.