Alguns segredos devem permanecer escondidos.

A frase ecoava como um sussurro antigo.

Era sempre a mesma. Sempre dita pela mesma voz.

Nos sonhos de Tyler, ela vinha acompanhada do frio. Uma igreja vazia, de pedras antigas, iluminada apenas por velas fracas que tremulavam como se tivessem medo de continuar acesas. O bispo — ou padre, Tyler nunca soubera ao certo como chamá-lo — permanecia imóvel diante do altar, o rosto parcialmente encoberto pelas sombras.

Alguns segredos devem permanecer escondidos.

A cada repetição, Tyler sentia um arrepio percorrer a espinha.

Havia uma área interditada naquela igreja. Uma porta antiga, marcada com símbolos que ele não compreendia, mas que o atraíam como um ímã. Em todos os sonhos, ele tentava se aproximar. Em todos, algo o impedia.

Até que, naquela noite, o sonho mudou.

Ele avançou.

E viu algo que jamais deveria ter visto.

Tyler despertou bruscamente.

O som seco dos disparos o trouxe de volta à realidade com violência.

Ele e Dylan estavam caídos no chão do clube, protegidos apenas pelo balcão destruído, enquanto homens armados saqueavam o local com rapidez brutal. Garrafas estilhaçadas cobriam o piso. O cheiro de pólvora misturava-se ao de álcool e sangue.

Dylan mantinha os olhos fechados, os lábios se movendo em silêncio.

Rezava.

Tyler não rezava. Observava.

Observava Dylan e sentia um peso esmagador no peito. Três anos mais novo. Mais frágil do que parecia. Mais novo do que qualquer um ali deveria ser para viver aquilo.

A responsabilidade o consumia.

Se algo acontecesse com Dylan, não importaria o que dissessem. Não importaria que ele fosse maior de idade. Tyler saberia: a culpa seria dele. Por tê-lo trazido. Por tê-lo protegido mal. Por tê-lo deixado amar, confiar, viver.

Os homens saíram tão rápido quanto chegaram.

O silêncio que ficou foi ainda pior.

— Brandon… — Dylan murmurou, abrindo os olhos de repente.

Ele se levantou num pulo e correu até o corpo estendido no chão. O sangue se espalhava lentamente, formando uma poça escura sob o peito de Brandon. Seus olhos estavam abertos, mas já sem foco.

— Não… não, por favor… — Dylan se ajoelhou ao lado dele, pressionando o ferimento com as mãos trêmulas.

Brandon respirava com dificuldade. Cada suspiro parecia o último.

— Sinto muito… — murmurou, a voz quase inaudível.

— Não fala isso — Dylan respondeu, desesperado. — Aguenta. A ambulância vai chegar.

Brandon balançou a cabeça com esforço.

— Olhe… no bolso… — disse, cuspindo sangue. — Vá… até ele…

Os olhos se fecharam antes que Dylan pudesse responder.

O corpo relaxou.

E o mundo de Dylan quebrou.

Com mãos trêmulas, ele revistou o bolso inferior da calça de Brandon. Seus dedos tocaram um cartão rígido. Um crachá.

Ao ler o nome da empresa, o sangue de Dylan gelou.

C.D.T.

Ele levantou o olhar lentamente até Tyler, que já havia entendido tudo apenas pela expressão do amigo.

As memórias voltaram como lâminas.

Um integrante da empresa morto após cair de um helicóptero em movimento.

Stacey ainda solta.

Vingança.

Nada daquilo havia acabado.

Hotel

O quarto parecia pequeno demais.

Dylan entrou em silêncio e se trancou no banheiro. Abriu o chuveiro, deixando a água cair com força, como se o som pudesse abafar seus pensamentos.

Tirou a roupa lentamente.

O espelho refletia um rosto que ele mal reconhecia. Olhos vermelhos. Mandíbula tensa. Um vazio que parecia não ter fundo.

— O que eu fiz… — murmurou.

A raiva veio primeiro. Depois o desespero.

Seu punho atingiu o espelho com força. O som do vidro se partindo ecoou pelo banheiro. A dor veio logo depois, quente, pulsante.

Dylan não se importou.

Ele se deixou escorregar até a banheira, enquanto a água continuava correndo. O vermelho se misturava lentamente, diluindo-se, como se sua dor estivesse sendo lavada — mas não ia embora.

Tyler, do outro lado da porta, sentiu o pânico crescer.

— Dylan? — chamou, batendo na porta. — Abre isso agora!

Nenhuma resposta.

O silêncio era ensurdecedor.

Tyler arrombou a porta.

Encontrou Dylan inconsciente, submerso, o corpo imóvel.

O mundo parou.

Tyler o puxou com urgência, trazendo-o para fora da água, deitando-o sobre a cama. O coração parecia querer rasgar o peito enquanto ele iniciava a respiração boca a boca, contando os segundos, implorando para que o amigo voltasse.

— Não… não agora… — sussurrou. — Fica comigo. Por favor.

Dylan tossiu.

Um sopro de vida.

Tyler chorou em silêncio enquanto improvisava curativos, as mãos ainda tremendo.

Naquela noite, enquanto Dylan respirava com dificuldade, Tyler entendeu algo que o gelou por dentro:

Os segredos que haviam tentado enterrar estavam voltando.

E, desta vez, não pediriam permissão para destruir tudo.