O Mistério da torre de cristal
10 Entre amigos
Apavorada, soltei um berro, a pessoa parou, tão assustada quanto eu.
— Teresa, você precisa parar de fazer isso! – falei, quase sem folego, com a mão no peito, querendo segurar o meu coração, que batia tão forte como se quisesse saltar para fora.
— Desculpe, senhora Rahner, mas tentei não fazer nenhum barulho para não a incomodar – ela fala, com humildade, também levando a mão ao peito.
— Como não fazer nenhum barulho? E as portas batendo?
— Portas batendo?
— Sim, por isso vim verificar, as portas não paravam de bater com força.
— Mas, senhora Rahner, eu acabei de entrar no apartamento, nesse segundo.
— Como você acabou de chegar? Eu ouvi o que estava acontecendo aqui embaixo.
— Eu juro que acabei de passar por aquela porta – ela insiste com veemência, pressinto que fala a verdade, mas, então...
— Devia estar sonhando, só que parecia tão real – Sinto-me uma idiota.
— A senhora deseja um café?
— Sim, obrigada — digo, sem entender o que estava acontecendo.
Só podia ser essa a explicação, um sonho, mas parecia tão real, tinha certeza que estava de pé quando ouvi a porta bater pela última vez. Quem sabe, se o barulho veio do apartamento vizinho, ultrapassando paredes, mesmo querendo ser racional, passei o resto da manhã sobressaltada, sem ninguém para dividir meus anseios, com medo de parecer louca.
Mas, foi na madrugada de domingo para segunda que aconteceu o fato mais estranho. Estava dormindo profundamente, quando despertei, percebendo algo diferente no quarto, não sei como explicar, era como uma presença, uma sensação que preenchia todo ambiente, então abri os olhos e a vi, uma mulher, a mesma mulher que havia visto no lavabo, muito branca e de cabelos escuros e compridos caídos ano longo do corpo, seus olhos entram fundos e tristes, dei um grito e sentei na cama, com o meu coração quase saído pela boca, o quarto se iluminou e Victor me olhava com uma expressão assustada.
— O que houve, Lívia?
— Nada, só tive um pesadelo – respondi, ofegante, me achando uma tola.
— Está bem, agora?
— Sim.
— Então, vamos voltar a dormir – E apagou a luz e deitou-se, fiz o mesmo, mas custei a pegar no sono outra vez, me remexia na cama, sem abrir os olhos, ouvindo o ressonar suave da respiração do meu marido, imaginado se estava ficando louca, achando uma bobagem essa ideia de fantasma que me vinha. No entanto, a imagem daquela mulher não me saia da cabeça, o rosto dela ficou gravado na minha memória, era bem real, não um sonho, contudo, não podia sair por aí, dizendo que estava vendo uma pessoa, um fantasma na minha casa. Quem acreditaria em mim?
Assim que Victor saiu para trabalhar, fui até o fatídico lavabo, vacilei por algum tempo diante da porta, apesar de estar morrendo de medo, entrei e parei de fronte ao pequeno retrato pintado a óleo de uma bonita mulher que deveria ter da minha idade na época, com seus cabelos escuros e o rosto muito claro com as faces rosadas, os olhos iluminados. Apesar dessas pequenas diferenças, reconheci a mulher do meu quadro, era a mesma que me visitou a noite, um arrepio correu a minha espinha, com as mãos trêmulas, tirei uma foto com o meu celular e sai dali bem depressa. Pedi um carro, não queria ficar sozinha naquele apartamento.
O carro já me esperava em frente à portaria, dei ao motorista o meu antigo endereço. Voltar ao meu velho bairro, em um carro de luxo com aquelas roupas bonitas e caras, foi estranho, tudo parecia tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Subi as escadas que levavam ao 4º andar, com um certo saudosismo, parei diante da porta do apartamento em que vivi durante toda a vida e que estava alugado agora, lembrei-me da minha avó, imaginado o que ela pensaria se me visse assim, casada com um homem rico e poderoso usando essas roupas elegantes, talvez, ficasse orgulhosa, mas eu nunca saberei. Toquei a campainha da porta ao lado, Amélia veio atender, apostei que estaria em casa, já que trabalhava como costureira, era alguém para desabafar, já que Monique era muito passional e Eduardo, o oposto, distante e impassível.
— Lívia! Meu Deus, que surpresa! Monique está no trabalho agora, ela vai morrer quando souber que você esteve aqui e ela não estava.
— Oi, Amélia. Eu me desculpo com ela depois, mas precisava ver um rosto amigo.
Amélia me deu um sorriso compreensivo.
— Claro, eu entendo, entre e sente-se, Lívia! Quer um café, uma água?
— Não, obrigada, estou bem. Só preciso conversar com uma amiga – sentei-me no velho sofá tão bem conhecido.
— O que houve, problemas no seu casamento? Como está o seu marido?
— Não, meu casamento está bem, Vitor está bem, só que...
— Só quê...
— Eu não tenho nenhuma razão, mas, não estou tão feliz, como deveria estar.
— Como assim, Lívia?
— Sabe, eu sou bem casada com um homem lindo, rico e que me dá tudo, moro em um lugar maravilhoso, só que falta algo. Eu não entendo, porque não sou feliz como deveria ser.
— Isso é comum no casamento, quando descobrimos que não é exatamente como sonhamos, que nos sentimos sozinha, mesmo morando com outra pessoa. Mas, ainda é muito cedo para você, recém-casada, isso vem com o passar dos anos.
— Então, por que está acontecendo tão cedo comigo?
— Querida, seu marido é um homem importante, que vive ocupado, talvez, se sinta um pouco sozinha. Além de você ter que se adaptar a uma vida totalmente diferente da sua antiga, um novo mundo, com pessoas muito diferentes das que está acostumada.
— Talvez, seja por isso, que eu venho tendo uns sonhos muito estranhos, ultimamente.
— Sonhos estranhos?
— Sonho com uma mulher jovem andando pela casa.
— Sempre a mesma mulher? – Eu concordo com a cabeça. – Você pode me achar uma boba, supersticiosa, que acredito em bobagens, mas, sabe se alguém morreu naquele lugar?
— Não, o apartamento é novo. Victor é o primeiro morador, mas ele coleciona muitos objetos antigos.
— E como é essa mulher?
— Assim – peguei o telefone e mostrei para ela, a foto do retrato do lavabo. – É o retrato dela, que está no apartamento. Victor deve ter comprado em algum leilão.
— Pode ser isso, você deve ter ficado impressionada com o retrato. Você até se parece com ela.
— Pode ser – Olhei para o retrato da outra mulher e ela estava com a razão, ela se parecia um pouco comigo.
— Você almoça comigo?
— Eu não sei, estou com o carro e motorista aí fora.
— Ele também pode almoçar aqui – Amélia disse de modo prático, ela não sabia que essas coisas não funcionavam assim, no mundo em que eu vivia, atualmente.
A porta do apartamento se abriu e Eduardo entrou, ficou paralisado ao me ver ali.
— Lívia! Que surpresa! O que faz aqui? Algum problema?
— Não, só vim conversar com sua mãe, matar as saudades.
— Monique vai ficar muito aborrecida por não encontrar você.
— Depois, eu falo com ela – disse, já sabendo o que iria escutar.
— Você está tão bonita. O casamento lhe fez muito bem.
— Obrigada – Dou um sorriso sem graça, pois, era raro, Eduardo me fazer um elogio desses.
— Estou convidando Lívia para almoçar conosco, mas ela não quer – Amélia comunicou ao filho.
— Fique, Lívia – Eduardo pediu, finalmente, aceitei, liguei para o motorista e o liberei para o almoço.
Foram horas boas, relembrei a familiaridade do convívio entre meus amigos, conversamos bastantes, contei-lhes sobre a minha viagem e a minha nova vida, eles me escutaram interessados, há muito, não falava com gente amigas. Minha vida social atual era com os amigos do meu marido e jantares de negócios, com empresários e políticos e suas esposas, onde passava a maior parte do tempo, calada, ouvindo assuntos que não entendia ou não me interessavam. No entanto, Eduardo precisava voltar para as suas aulas da tarde e eu me despedi para retornar à minha nova vida e tudo o que ela me trouxe.
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