O Mistério da torre de cristal

11 Revelações surpreendentes


Não podia negar que tinha um certo receio, na verdade, era medo mesmo, de voltar para o apartamento, sozinha, meu coração estava acelerado, minhas mãos frias. No entanto, minha surpresa foi maior, quando entrei no elevador, encontrei uma pessoa, não um fantasma, mas uma senhora idosa de cabelos louros muito bem penteados e elegantemente vestida. Estranhei, porque nesse tempo todo que frequentava aquele prédio, jamais esbarrei em nenhum vizinho. Dei-lhe boa-tarde, porém, ela não respondeu e me encarou de um modo estranho, não com arrogância, mas parecia perdida, seu olhar estava vazio e confuso.

— A senhora não apertou o botão do seu andar – afirmei, ela olhou para mim e para o painel e, depois, para mim, novamente, como procurando uma resposta.

— Eu não me lembro qual é o meu andar – Enfim, disse, com a voz débil.

— Então, vamos fazer o seguinte, eu a levarei para a minha casa, prepararei um chá para nós duas e, depois, ligarei para o porteiro para me informar onde mora, certo? — Ela assentiu com a cabeça, com seus olhos opacos.

E assim fiz, logo em seguida, coloquei uma xícara de chá na frente dela e me sentei ao seu lado no sofá. Percebi que suas mãos trêmulas se acalmaram um pouco com a bebida quente.

— Está melhor? – Outra vez, ela assentiu com a cabeça.

— Às vezes, eu fico meio tonta e esquecida, deve ser da idade. Desculpe-me, mas eu não me apresentei, sou a senhora Eleonor Valdez.

— Lívia Rivera, quer dizer, Rahner, às vezes, eu me esqueço disso, também.

Nós duas rimos.

— Foi muita gentileza sua, salvar uma velha tonta e perdida.

— Não foi nada.

— Quer dizer que você é a senhora Victor Rahner. Eu nunca esperaria conhecer a esposa desse rapaz. – Eu a interroguei com o olhar, franzindo a testa. – Sempre achei que Victor seria um solteiro convicto, nunca se casaria, e essa também era a preocupação da avó dele.

— Como assim?

— Victor era um rapaz... como direi? Muito reservado. E Estela era bastante controladora, por isso se preocupava muito se, um dia, Victor se casaria, para perpetuar o nome da família Rahner. Espero que estejam cuidado disso, atualmente. – Ela me deu um olhar indiscreto, senti o meu rosto corar.

— Victor e eu não pensamos em filhos ainda.

— Mas, deveriam, precisam levar o nome do Rahner à frente, e garantir o seu futuro e da dinastia – Eu me senti como uma égua reprodutora.

— Meu futuro?

— Sim, como a mãe do herdeiro da Rahner, você terá um futuro garantido, sem mais preocupações na vida.

Fiquei chocada com aquela afirmação, queria lhe dizer que não casei com Victor por dinheiro.

— Então, como sabia dessa questão de família? A senhora conheceu a avó de Victor? – Retomei o assunto anterior.

— Sim, eu conheci Estela, mas só superficialmente. Ela era uma mulher muito dura e determinada, nunca aceitou a minha situação de segunda esposa do senhor Valdez. Entretanto, conheci melhor o avô de Victor, Rodolfo, um homem extraordinário, másculo, vigoroso cheio de energia – ela complementou sua fala com uma voz grave e o punho fechado, ela levantou o antebraço, para enfatizar a virilidade do avô do meu marido, depois, me deu um sorriso malicioso e tomou mais um gole do seu chá. Era isso mesmo que estava entendendo? Essa senhora e o avô do meu marido foram...íntimos. Não era possível!

— A senhora gosta de morar aqui? – Novamente, mudei de assunto, curiosa em saber se fatos estranhos, também, aconteciam no apartamento dela.

— Sim, eu o escolhi esse lugar por causa das amenidades e serviços, fica mais fácil para alguém na minha idade ter esse conforto. Eu comprei esse apartamento logo após o lançamento.

— Há quanto tempo?

— Há uns cinco anos. Antes, havia uma casa extraordinária aqui, nesse local. Um palacete que pertenceu a uma família muito importante no passado, mas que após a morte do seu único herdeiro, ficou abandonada e os parentes distantes o venderam para a empresa construtora desse edifício. O lustre e a escultura da recepção são remanescentes dessa antiga propriedade e foram reaproveitados na decoração.

Seria essa a resposta para a minha visitante noturna?

— Uma casa? A senhora sabe o nome da família dona dessa casa.

— Claro que eu sei, todo mundo sabia. Chamava-se Lyon.

Quis fazer uma gentileza a mais, não queria perder o contato, por isso, levei a senhora Valdez até seu apartamento, dois andares abaixo do meu, e recebi um convite para o chá, algum dia desses.

Voltei para casa e meu telefone tocou, olhei para a tela e me preparei antes de atender.

— Sua safada, como se atreveu vir na minha casa, quando eu não estava?!

— Desculpe, Monique, mas precisava conversar com alguém, sair um pouco desse apartamento.

— Ela me contou – minha amiga falou em um tom mais brando.

— Contou?

— Falou por alto que você está se sentindo muito sozinha, para darmos uma força.

— Pois é, mas você não acha que estou ficando maluca?

— Claro que não! Como posso ajudar você?

— Venha a minha casa, no domingo, Victor sempre joga tênis e podemos conversar com calma.

— Pode deixar. A gente fala. Beijos

— Beijos.

Assim que desliguei, fui direto para o escritório e para o computador, precisava saber mais, digitei o nome Lyon, vieram várias imagens antigas, inclusive do imponente palacete, que já não existia mais, em estilo gótico de aparência escura e sombria. Eram várias fotos em preto e branco, eu as olhei com cuidado, até achar uma delas que me interessou e cliquei sobre ela.

— Mariane Lyon, é você? — perguntei ao vazio, podia jurar que a temperatura caiu alguns graus em resposta, um arrepio percorreu minha espinha, tinha certeza que era a mesma mulher do quarto e que me visitava a noite. – Diz aqui que desapareceu, fugiu com outro homem, nunca mais se ouviu falar de você. Estranho, então o que faz aqui, nesse lugar?

— Ei, o que está fazendo aí? – Victor entrou no escritório, com ar surpreso, dei um pulo assustada – Calma! Não sou um fantasma – Sorriu, divertido.

— Oi, não ouvi você entrar, estava pesquisando?

— Pesquisando? — Ele ergueu as sobrancelhas, sem entender.

— Sobre a família, dona da casa que existia nesse local, antes da construção desse prédio.

— Por que essa curiosidade?

— Porque, hoje, conheci uma senhora, uma vizinha, a senhora Eleanor Valdez e ela me falou sobre essa casa.

— Eleanor Valdez?

— Você a conhece?

— Só de nome, minha avó já me falou dela, pelo que parece, no passado, ela era muito bonita e tinha fama de se envolver com homens casados, e roubou o marido de uma amiga dela.

Você nem imagina, pensei comigo mesmo, mas não era hora de revelar fatos escusos da família dele.

— Ela me perguntou quando teremos filhos? – Dei uma risadinha, achando graça.

— Não é uma má ideia, podemos pensar nisso, em breve.

— Você deve estar brincando, acabamos de nos casar?!

— Eu quero uma família que nunca tive, e você não?

— É claro que eu quero, mas... Só mais um detalhe, sabe aquele quadro, o retrato da mulher que está no lavabo?

— Sim, eu sei.

— Você se lembra onde o comprou?

— Claro que me lembro, em um leilão dos objetos da antiga mansão do Lyon. Eu comprei muitos objetos nesse leilão. Podemos jantar agora?