O Milagre de Sunshadow
1 Prólogo
Ser um governante, um monarca, um imperador ou mesmo apenas um líder, em qualquer cultura de tantos reinos e continentes de Oitarrna, sempre foi um desafio. No entanto, durante a guerra de Vila Wolfhard contra Vila Miles, este desafio se tornara ainda maior.
A guerra dos elfos contra os humanos foi a mais longínqua de todo o mundo, e também uma das mais brutais. Incontáveis vidas foram destruídas por um confronto descrito como sem sentido. Para os elfos, a resiliência humana em permanecer de pé durante tantos anos era símbolo de uma força extraordinária, quase admirável. No entanto, a superioridade élfica, que permanecia imóvel durante tantas vidas humanas completas, era absolutamente brutal.
Quando muito, um homem poderia chegar no máximo aos cem anos de idade. É claro que, na prática, soldados e reis deviam agradecer aos deuses se chegassem saudáveis aos sessenta anos. E na realidade, não importava se passavam sessenta anos ou cem, pois ambos os números eram apenas um sopro da vida de um elfo.
Em média, precisava-se de mais de trinta monarcas humanos para que chegasse o fim do reinado de um único soberano elfo. Em uma guerra, isso criava muitos problemas. Um rei que dedicasse a vida para matar seu grande inimigo morreria ciente de que era extremamente improvável que seus filhos, netos, ou mesmo bisnetos, vissem o fim de seu nêmesis.
Eddard Miles nasceu diante deste dilema. Seu pai havia preparado tudo para que seu primogênito pudesse assumir seu cargo da melhor maneira possível, mesmo diante do ápice da guerra. Acompanhando o rei no que seria seu leito de morte, Eddard chorou ao notar o ódio nos olhos do pai, que amaldiçoaria Elaavil Wolfhard se ao menos tivesse força para isso. Mais um rei mileano morria ciente de que sequer fora notado pelas forças do inimigo.
Coroado, Eddard decidiu que seria lembrado pelos livros de história — se não por seus feitos, por suas ideias — pois dele viria o implacável objetivo de ceifar a vida do rei elfo.
Era tentador perseguir essa ideia. Elaavil, o Wolfhard conhecido pelo título de “O Milagre”, começava a demonstrar sinais de seu envelhecimento. Não poderia evitar, pois estava perto dos cinco mil anos de idade. Ainda assim, matar o rei demonstraria grande mudança na guerra, e, quem sabe com muita sorte, o seu fim. No entanto, isso não seria uma tarefa simples, pois durante os quatro mil quinhentos e sessenta anos de guerra, não havia nenhum registro de regicídio.
Determinado a fazer o que nenhum de seus antepassados fora capaz de realizar, Eddard resolveu ler as planícies de Megiro não como um campo de batalha, mas como um tabuleiro de xadrez tridimensional.
As batalhas mais brutais do conflito ocorriam onde Vila Wolfhard e Vila Miles se encontrariam diretamente, em termos geográficos, especialmente onde hoje se localiza a cidade turística de Boa-Viagem. Pelo norte, onde as montanhas se tornavam gélidas e os anões tentavam não ter parte na guerra, os conflitos eram reduzidos. Pelo sul a batalha se tornava marítima, então os bosques que precediam as praias viam pouquíssimo sangue despejado em suas gramas. Eddard decidiu que se aproveitaria deste ponto.
Quando longas tropas humanas reabasteciam o centro da guerra, grupos menores de homens se separavam e invadiam o bosque, com furtividade e silêncio, fazendo de tudo para que patrulhas élficas jamais os vissem ou sequer os farejassem.
Esses homens, no entanto, não infiltravam aquele local visando surpreender os elfos ou conquistar territórios. Eles jaziam em segredo nos bosques, crescendo exponencialmente, apenas aguardando novas ordens de seu rei, que buscava a todo custo descobrir uma brecha no sistema Wolfhardiano em que pudesse matar o tirano rei.
Internamente, os humanos não gostavam da postura de Eddard, que arriscava o controle do centro da guerra ao dispor uma parte de suas tropas onde não havia conflito. Muitos viam o ato como uma vingança pessoal contra Elaavil, advinda da frustração do rei mileano anterior, seu pai. Esses pensamentos eram, sobretudo, uma grande verdade. Contudo, um rei humano jamais perderia sua posição por tais motivos, mas sim por outros.
Eddard tinha um segredo obscuro, que pouquíssimas pessoas de sua corte tinham conhecimento sobre. Seu pai, quando Eddard era apenas um garoto, havia capturado uma tropa de elfos e,dentre eles, havia uma mulher.
Eddard nunca havia visto nenhuma elfa antes. Era extremamente raro avistar uma nas infantarias Wolfhardianas. Esta se chamava Hellewy, seus cabelos eram loiros, com mechas alaranjadas, a pele era parda, e a elfa era marcada por ter um porte físico musculoso; em batalha, era conhecida por bradar uma espada longa e portar uma armadura pesada.
Enquanto o pai discursava para o filho, falando sobre como a captura de inimigos poderia ser importante para a guerra, Eddard não conseguia parar de prestar atenção nos olhos de Hellewy, que brilhavam num maravilhoso tom de amarelo claro. A elfa, por outro lado, estranhou o garoto a encarando. Para ela também havia surpresa em tudo aquilo, pois nunca antes havia visto uma criança humana.
Eddard, escondido, chorou por dias quando alguns dos prisioneiros haviam conseguido escapar, incluindo sua adorável Hellewy. Em seu âmago, nunca conseguiu negar a admiração que tinha pela beleza élfica e, mesmo com o passar dos anos, essa sensação nunca lhe abandonou.
Quando tornou-se rei, ele se certificou de que visitaria cada um dos campos de prisioneiros de guerra. Era muito raro, mas vez ou outra havia uma mulher entre os soldados. Eddard sempre se certificou de convidá-las para o castelo, de maneira amigável, fazendo cada uma delas desconfiar grandemente daquele ato. Ele garantia que não faria mal a nenhuma das moças, assim como também não as rechaçaria caso negassem os pedidos. Vez ou outra, uma moça aceitava o convite. Estas mulheres eram levadas para uma ala específica do castelo mileano, onde apenas homens e aias de maior confiança podiam transitar. Eddard as alimentava com o melhor que Vila Miles podia oferecer e, depois disso, perguntava se a elfa da vez aceitava dormir com ele.
Às moças que não aceitavam o tal convite, Eddard nada fazia, tampouco se alterava. Dizia que elas poderiam continuar naquela ala do castelo pelo tempo que desejassem, sendo cuidadas pelas aias, mas mantidas em cárcere pelos guardas. Da mesma forma, também poderiam voltar para o campo de prisioneiros a qualquer momento, se assim desejassem.
No entanto, era de se esperar que algumas elfas aceitassem o acordo. Depois da consumação do ato, Eddard oferecia quase as mesmas opções, mas com uma leve mudança: conforto pleno no castelo, ou liberdade. Mas para estas a liberdade era real, de volta à sua terra e às suas famílias.
Aquilo, por diversos motivos, que variavam entre assassinato até rebelião popular, era deveras arriscado. Por mais raro que esses encontros fossem, bastava que uma elfa, livre, revelasse o comportamento de Eddard para que tudo que ele construiu fosse destruído. De nada bastaria apenas pessoas confiáveis saberem de seu segredo.
O governo de Eddard Miles bambaleava com a constante possibilidade de sua intimidade ser revelada, até este mesmo segredo tomar outros rumos. Pois quarenta anos após seu primeiro encontro, Hellewy voltara a pisar em campos de batalha humanos, outra vez como prisioneira.
Eddard não conseguia acreditar no que via. Era como se ela fosse uma miragem, tirada diretamente de seus sonhos infantis. Ela não havia envelhecido nada; os cabelos continuavam da mesma cor e o rei não conseguia ver uma única ruga em seu belo rosto.
Hellewy, no entanto, não poderia dizer que Eddard havia mudado, pois jamais o reconheceria. O rei humano sentiria frio na barriga pensando nisso, mas ela tinha memória dele quando garoto, um príncipe mileano, a encarando com tanta paixão. Contudo, jamais poderia reconhecê-lo agora, tão mudado. Na realidade, demorou até demais a ligar os pontos e lembrar-se que eram a mesma pessoa. Diferentemente do primeiro encontro dos dois, em que a elfa apenas estranhou o comportamento do monarca, agora ela tinha repulsa de ver o rei perante si.
Entretanto, este sentimento não durou muito tempo; pois como já é sabido, a rixa entre humanos e elfos não é assim tão lógica. E mesmo o mais odioso dos corações se amolece perante o amor, quando este é genuinamente verdadeiro.
Eddard retirou Hellewy da prisão conjunta, desesperando seus companheiros, que acreditavam que a colega seria torturada pelo rei, ou pior. No entanto, o monarca nem ao menos ofereceu o que costumava ofertar as outras mulheres elfas; ele separou Hellewy pois desejava confessar seu amor as escondidas.
Dela não ocultou absolutamente nada. Citou todos os aspectos que considerava adoráveis em Hellewy e disse que vê-la uma segunda vez o fizera relembrar mais uma vez de toda sua paixão infantil, que agora não era nada infantil.
A ela não gostaria de propor nenhum acordo. Depois de ter confessado todos os seus sentimentos, disse que ela poderia fazer com suas palavras o que quisesse, e ela poderia. Conseguiria facilmente destruir o rei e talvez até acabar com aquela guerra, de uma vez por todas, destruindo os sistemas e valores humanos por dentro.
Contudo, seu coração era feito de carne, e estava encantado pelas palavras de Eddard. Hellewy, orgulhosa, não falou uma única palavra a ninguém durante uma semana, semana esta em que seus pensamentos visavam destruí-la, por estar considerando trair seu povo e seus costumes de tal maneira.
Dominando sua própriamente, Hellewy aceitou entregar seu coração ao rei. Ele a levou as pressas até Vila Miles e lá eles desposaram. Logo após isso, pretendia formalizar seu relacionamento, levando-a até o altar; contudo, foi pego de surpresa por uma reunião de seu conselho, que, com aquele ato, praticamente o desafiava publicamente.
Se não fossem as grossas paredes do palácio humano, todo reino teria escutado seu monarca bravejar sobre a audácia daqueles nobres e sua insolência de dizer o que o rei poderia ou não fazer. Por sorte, não havia nenhum espião infiltrado no alto escalão de Vila Miles, pois, se houvesse, a guerra teria terminado naquele dia.
Os conselheiros do rei sabiam que não poderiam lutar contra o amor do rei. Contudo, poderiam inflamar seu ódio. Ao contrário da infundada raiva de Hellewy pelos humanos, Eddard sentia real fúria por um elfo específico: O Milagre.
Ao se recordar de Elaavil, via os olhos do pai, cheios de raiva, ira, mas também, ao seu fundo, profunda dor e frustração. Se perguntava então quantos de seus antepassados passaram pela mesma coisa e ainda assim ficaram diante O Milagre, ainda de pé, triunfante. De repente, notou que seu casamento seria não só uma prova de que Elaavil sempre venceria, como também o fim de todas as suas tentativas de destruí-lo.
Então Eddard se dividiu. Uma parte sua queria amar e ser amada de volta, enquanto a outra queria destruir e vingar-se de seu oponente. Hellewy se viu diante deste dilema. Arrependeu-se profundamente de sua decisão de tomar o coração do rei, pois este não tinha mais apenas amor, mas sim uma parcela maior de ódio. Ela teria fugido assim que teve notícia de que ficaria escondida e enclausurada numa parte do palácio, no entanto, não o fizera, pois sentiu em seu âmago que não poderia, teve uma súbita certeza de que estava grávida, e pior, estava correta.
Sentindo-se humilhada, ela aceitou os termos do rei e de seus nobres, que tiveram de se contentar com aquela mulher no palácio real, ainda que escondida.
Todos que tinham conhecimento sobre Hellewy perdiam a cabeça ao pensar sobre o “bastardo” do rei. Meio-elfos eram extremamente incomuns, ainda mais naquela época, por isso, muitos temiam que uma criatura terrível saísse do ventre daquela elfa.
Contudo, nenhum pesadelo ocorreu. O filho de Eddard era saudável, tinha herdado os cabelos negros do pai e os olhos amarelos da mãe; enquanto as orelhas eram mais pontudas que as de humanos e mais curtas que as de elfos. Aquele garoto fazia Eddard esquecer-se momentaneamente de seus mundos de responsabilidade, mas Hellewy não se esquecia de nada. Ela havia colocado na própria mente que agora sua responsabilidade aumentara, pois ela deveria afastar seu amado filho de ser criado por aqueles homens. Para isso, precisaria fugir.
Em uma noite que parecia ser tão comum como todas as outras, Hellewy enrolou sua criança perto de seu seio e calculou um momento em que as aias e os guardas não a vissem. Fugiu como um vento amarelo.
Mas é claro que ela não teria muitos problemas escapando da ala oeste do castelo, que naquele momento era ocupada por pessoas específicas e tinha pouco fluxo. Contudo, assim que chegou no pátio do palácio, que precedia muros altos que separavam o Palácio de Pedra de uma floresta em que ela facilmente passaria despercebida, ela foi notada por uma grande porção de guardas, que não sabiam da presença dela no castelo e imediatamente imaginaram que ela era uma espiã ou assassina.
Hellewy era bastante rápida, especialmente para uma elfa que guerreava na linha de frente. Talvez fosse o coração de mãe tomando conta. Contudo, enquanto ela começava a escalar os muros que prometiam a ela liberdade e um futuro bom ao seu menino, seu coração foi perfurado pela lâmina de um soldado.
Seu nome era Aldo Krastel, e ele era apenas um garoto, recém saído de seus vinte anos de idade, que correra na direção de Hellewy gritando “assassina!”. Sua espada deslizou pelas costas da elfa e a fez cair. Usando suas últimas forças vitais, ela segurou seu filho para que o mesmo não absorvesse nenhuma força do impacto da queda. Olhando nos seus olhos, que refletiam os dela, Hellewy proferiu suas últimas palavras.
— Bradwyn. Seu nome será Bradwyn.
Ela disse enquanto posicionava o corpo de uma maneira que o garoto ainda tivesse onde se apoiar depois de sua morte, e assim aconteceu. Aldo estava chocado, pois em nenhum momento antes de atacar a elfa havia reparado que ela carregava uma criança. O choro de Bradwyn tinha sido abafado pela correria e os gritos.
Logo houve uma grande comoção de guardas ao redor do corpo, e não demorou muito até que o rei ouvisse um burburinho sobre o assunto, lentamente percebendo o que realmente devia ter acontecido. Ao chegar até o corpo, controlou-se para não chorar na frente dos soldados.
Sua criança, que não havia sido tocada ou consolada por nenhum dos homens ali presente, tampouco pelo assassino de sua mãe, chorava compulsivamente, ainda sentindo o calor do corpo de sua genitora. Eddard recolheu o filho em seus braços e perguntou quem havia matado a elfa. Aldo se apresentou.
— Ela disse alguma coisa, qualquer coisa, antes de morrer? — Eddard perguntava com o coração destroçado, mas com a mente astuta, o castigando, explicitando como era ele o culpado por toda aquela situação e como não poderia culpar o jovem soldado por toda aquela tragédia.
— Apenas o nome da criança, Vossa Majestade. — Aldo falou e os olhos de Eddard se encheram de água. — Bradden. O nome do garoto é Bradden.
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