O Milagre de Sunshadow
2 O Leão Mileano
Notas iniciais
Ao contrário do que muitos pensam, não foi Eric Wolfhard Miles o primeiro meio-elfo presente na família real humana. Muito antes dele houve Bradwyn Miles. Contudo, Bradwyn teve seu sobrenome arrancado de si, por não o considerarem digno dele. O segundo nome de sua mãe também não coube a ele, pois todos os registros da vida dela foram apagados. O meio-elfo não teria o direito de portar nem mesmo o nome escolhido por sua genitora, Bradwyn, pois seu verdadeiro nome foi erroneamente escutado como “Bradden” pelo assassino de Hellewy. Também não veria seu nome exposto na árvore genealógica do castelo de Vila Miles, pois toda sua existência era uma vergonha para os valores humanos, que o rejeitaram, o humilharam e, mais importante, o esconderam muito bem. Hoje sua história reside apenas neste conto esquecido pelo tempo.
Eddard Miles foi tomado por uma súbita razão após a morte de sua amada. Nunca mais se encontrou com nenhuma elfa, tampouco voltou a se apaixonar. Contudo, voltou a ter filhos, após acatar o pedido de uma nobre família que ofereceu a mão de sua caçula, que o dera dois meninos: Egbert e Edward Miles VIII, que nasceram pouco tempo após Bradden.
Os garotos não tiveram muito contato com o irmão, que passava a maior parte dos dias enfurnado na mesma ala que sua mãe fora cativa. As aias que cuidavam dele o tratavam de maneira fria e pouco amorosa. Os guardas que mantinham os olhos postos no garoto tinham ordens de vigiá-lo de uma forma que não parecesse que ele era um prisioneiro, entretanto, tinham grande asca do menino e o tratavam mal, considerando o serviço de guardá-lo uma grande desonra.
Ainda que tivesse em teoria herdado igualmente características élficas e humanas dos pais, chamava atenção o quanto ele se assemelhava ao monarca de Vila Miles. Bradden possuía cabelos extremamente negros e espessos, de fios pontudos, que quando mal cortados escondiam a ponta das orelhas. Seu físico também era bastante robusto, ele era um garoto corpulento e mais alto que outros da mesma idade. A única coisa verdadeiramente parecida com a mãe eram os olhos, amarelos, dourados como o sol. Quem o observassecertamente diria que ele lembrava o pai muito mais que os outros filhos, que não eram bastardos.
Mas Bradden não havia herdado apenas as características físicas de Eddard. Assim como o típico esteriótipo humano, ele era um garoto curioso, valente e corajoso, que não se importava, ou não entendia, o mal comportamento daqueles que cuidavam dele. Era comum que Bradden escapasse com frequência da ala oeste do castelo, perambulando escondido pelas cozinhas, salas de reuniões e, principalmente, o pátio de treinamento, seu local favorito de todo palácio, onde sua mãe fora assassinada, um fato ocultado dele.
Muitas vezes ele também se encontrava com os irmãos, que o tratavam com amizade e companheirismo, ainda não infectados pelo ódio que a maioria dos humanos sentiam dos elfos. Na verdade, o consideravam um igual, ainda mais pelas orelhas do garoto estarem sempre cobertas.
Isso enfurecia e entristecia Eddard Miles em igual medida. Seu coração sabia quão injusta era a existência de sua criança, condenada a jamais conhecer o amor de sua mãe ou o conforto de seu pai, que poderia perder tudo o que construiu caso a existência do filho fosse descoberta. Contudo, também se irritava quando os pensamentos o condenavam pela morte de Hellewy, e a personificação de seus erros era aquele menino, que sorria para o pai cada vez que o encontrava, o mesmo sorriso que observou em Hellewy quando ela aceitou seu amor e seu coração.
As vezes a fúria guiava Eddard, que repreendia os guardas que haviam deixado Bradden escapar, maltratando seu filho com duras palavras; mas hora ou outra a compaixão tomava conta do rei, que acabava deixando o meio-elfo brincar com os irmãos, ignorando os avisos de sua corte, que o alertava sobre quão perigoso era qualquer pessoa descobrir a existência de Bradden e sua real ancestralidade.
A ambiguidade do rei seguiu por muito tempo. Quando seu primogênito Egbert completou seis anos de idade, era mais que natural que começasse a tomar costume de treinar com uma espada de madeira, enquanto seu irmão Edward era iniciado nas artes arcanas. E Bradden, na primeira vez que viu o irmão ser treinado, assim como os guardas que ele sempre observava da janela de seu quarto, quis o mesmo; contudo, enfrentou um novo desafio, pois o mestre de armas da família real era Aldo Krestel, que havia adquirido o posto após a morte de Hellewy.
Eddard sentiu ódio quando fitou o assassino de sua amada, e se tivesse seguido o próprio coração, teria mandado enforcar aquele soldado e cuspido em seu túmulo. Contudo, sabia que aquilo não era certo, que Aldo havia feito o que achava ser correto, e que no fundo o único culpado pela morte de Hellewy era ele mesmo. No entanto, não podia negar que odiava muito Aldo por ter sido ele quem perfurou o coração de sua elfa.
Por isso, armou uma arapuca perfeita para punir o soldado, o indicando ao cargo de mestre de armas da família real, o que era, em teoria, uma grande honra, mas, na prática, uma punição; já que um soldado como ele teria alcançado uma posição muito mais alta e glamourosa se tivesse percorrido o caminho tradicional do exército humano.
Aldo esperava, no mínimo, ter se tornado um cavaleiro pessoal do rei, ou ao menos um general da linha de frente na guerra contra Vila Wolfhard. Contudo, seria extremamente desonroso negar aquele pedido do rei. Não foi muito difícil raciocinar e perceber o que realmente havia acontecido. Hellewy não era uma espiã e Bradden não era apenas um garoto elfo. Era meio-elfo, e sua parte humana tinha o sangue do rei. Assim como Eddard, Aldo passou a culpar o jovem por todos os fracassos de sua vida.
Rancoroso, enfureceu-se quando Bradden invadiu sua sessão de treinamento com Egbert, mas encontrou pouca represália por parte dorei, que, ao saber da história, permitiu que Bradden fosse treinado junto ao príncipe, sentindo uma pontada de alegria quando percebeu que aquilo podia ser uma nova punição para Aldo, que seria obrigado a aceitar, assim como era obrigado a aceitar sua posição como mestre das armas. No entanto, decidiu que descontaria suas frustrações sob o bastardo.
Lentamente, Aldo começou a envenenar Egbert com palavras horríveis a respeito da ancestralidade de Bradden, influenciando-o a sentir o mesmo ódio que movia a milenar guerra de homens e elfos amargurados. Dizia que Bradden não tinha o mesmo sangue que ele, e que enfrentá-lo era uma grande desonra a todos os seus títulos reais. Insinuou também que aquele bastardo planejava matá-lo para por fim tomar o trono como verdadeiro primogênito de Eddard Miles. E seus castigos não pararam por aí.
Ao príncipe mileano entregava as melhores espadas e armaduras do arsenal, ordenando que o garoto usasse uma arma de aço muito antes do que seria um período razoável de desenvolvimento. Já Bradden portava armaduras usadas e uma espada de madeira, que frequentemente se quebrava durante os treinamentos e não era reposta, obrigando o bastardo a lutar com a arma quebrada. O único item genuinamente bem feito de Bradden era seu elmo, azul e de aço genuíno, que carregava um emblema do brasão de Vila Miles talhado no aço, um leão que ostentava presas afiadas, animal que lembrava Bradden, já que o garoto crescia muito mais que o irmão e era bem mais corpulento que o mesmo. A única razão para tal item ser visivelmente melhor que o resto do equipamento era para que o capacete não saísse da cabeça de Bradden e revelasse para qualquer transeunte que o garoto era, na verdade, um meio-elfo.
Lentamente, o amor que Egbert sentia pelo irmão se esvaia, dando lugar ao tradicional ódio humano. Os garotos envelheciam e os ataques do primogênito mileano se tornavam mais duros; diversas cicatrizes formavam-se no corpo de Bradden, que, aos poucos, tornava-se amargurado, percebendo a injustiça que sofria, mas nunca, jamais a compreendendo, por não saber da história de sua mãe e de seu pai.
Contudo, começava a ligar alguns pontos a medida que ia crescendo. Os ataques de Egbert não eram mais apenas físicos, como também verbais. Durante as lutas, era comum que ele fosse chamado de bastardo pelo irmão.
Num dia em que se viu indisposto a apanhar, como era costume, acordou mais cedo que o normal e roubou um escudo retangular da forja de guerra. Bradden desconhecia o material que compunha o item, mas sabia que era resistente, pois era muito pesado, até mesmo para ele, um garoto mais forte que a maioria.
E é mais do que óbvio que aquele seria um escudo pesado, pois era de carvalho, revestido com aço nas pontas e em seu centro, feito para um soldado adulto utilizar na linha de frente da guerra. O objeto era decorado por faixas azuis horizontais e tingido de branco no resto de seu corpo. Bradden praticamente o arrastou para o pátio de treinamento, sendo recebido por risadas de Aldo e Egbert.
No início, o meio-elfo até conseguiu se defender dos ataques, mas a luta foi ficando mais dura na medida que o príncipe mileano se aproveitava da lentidão do irmão e atacava seus flancos. A armadura do bastardo naturalmente cedia com os mais simples dos ataques, que o castigavam em dores agudas, que iam se transformando em sangue, tingindo a armadura e seu novo escudode vermelho.
Contudo, Bradden não desistiu, tampouco desanimou. Continuou portando aquele escudo e, luta após luta, tornava-se mais acostumado com ele, mesmo com o item tampando sua visão. Bradden tornava-se mais forte; espiava os movimentos de seu irmão enquanto sua defesa estava armada, movendo a cabeça para o lado, e calculava as investidas que ia fazer antes de atacar; precisava ser rápido, por não ter tempo de olhar o inimigo uma segunda vez; por isso, sua rapidez começou a ser influenciada diretamente por sua força, e ambas cresciam exponencialmente na medida que o garoto tornava-se mais acostumado com o escudo. Pouco a pouco, Aldo e Egbert não achavam aquela situação tão engraçada como antes.
Uma hora ou outra, o item naturalmente cedia, a medida que era castigado pela espada de Egbert, que era aprimorada no menor sinal da perda de seu fio. Contudo, Bradden seguia roubando novos escudos, mesmo quando estes pareciam mais pesados.
Os treinamentos dos irmãos começaram a se assemelhar com uma dança fluída e única. Bradden movia-se como uma água corrente de um rio, escapando de todos os ataques do irmão e o atingindo com força quando o mesmo se cansava; acertando-o com ataques duros, mas necessários para provocar algum dano em sua armadura pesada. Aquilo enfurecia Aldo, que notava como o garoto ficava melhor naquela arte, muito melhor até mesmo que Egbert, mesmo beneficiado com tantos equipamentos.
Aos quase dezesseis anos de idade, Bradwyn havia se tornado um gigante. Tinha quase dois metros de altura, ombros largos, braços gordos de tanta força, peitoral estufado e um vigor descomunal para idade. Seu irmão, aos quinze, não era nenhum tipo de fracote, mas se comparado ao bastardo, poderia assemelhar-se a um boneco de tão menor.
Os quinze anos de idade marcavam o período em que um garoto deixava de ser menino e tornava-se um homem. Na família real, um rapaz que escolhesse viver o caminho da espada era testado em uma cerimônia, uma batalha que marcava a passagem para a vida adulta. Esta batalha poderia ser travada contra qualquer um, mas Egbert insistia que gostaria de lutar contra Bradden, humilhar o bastardo e provar para si que era ele o verdadeiro herdeiro de Vila Miles.
Vila Miles não poderia se dar ao luxo de demonstrar fraqueza, por isso, mesmo em guerra, uma cerimônia festiva foi realizada enobres de todo o reino foram convidados a testemunhar a passagem para vida adulta de Egbert, ainda que a corte de Eddard Miles desaprovasse isso, dizendo que era um risco e que expor o príncipe a uma derrota poderia ser um problema. O rei garantiu que isso não aconteceria, e, como mecanismo de defesa adicional, pediu ao filho Edward, que explorava os caminhos da magia, que fizesse um feitiço na área da luta junto aos seus mestres, feitiço simples, que não permitiria que o povo ouvisse o que quer que fosse comentado entre os lutadores e que também não enxergassem o real rosto de Bradden caso este fosse revelado. Contudo, havia mais um motivo para Eddard permitir o duelo com tanta boa vontade.
Há muito, o ferreiro de Vila Miles havia relatado ao rei um constante roubo dos escudos pesados de sua forja. Ao averiguar, Aldo explicou o que acontecia, e, sem saber, emocionou Eddard, que se lembrou do próprio pai, que, no passado, também foi conhecido por portar um escudo. Isso liberou o amor de Eddard, que, sob sigilo, pediu para que o equipamento de Bradden fosse forjado com o mesmo capricho que o de seu irmão.
Para isso, o rei humano estudou as lutas dos filhos e analisou o garotosobre o qual ele não sabia dizer se era seu primogênito legítimo ou bastardo. Bradden era alto, forte, mas uma observação mais detalhada repararia que sua principal característica era a rapidez. O meio-elfo fluía habilmente pelos flancos do irmão, sem se importar com o peso do próprio corpo ou do escudo pesado.
Com tudo isso em mente, decidiu que forjar uma armadura pesada seria uma grande estupidez, já que a mesma limitaria os movimentos de Bradden. No lugar da armadura, mandou que fosse forjada uma duradoura cota de malha, que serviria como uma segunda pele, protegendo Bradden sem o impedir de realizar movimentos hábeis. Esta cota de malha foi rebitada com perfeição e pintada com as cores preto e amarelo, lembrando um leão.
No lugar de grevas, mandou que fossem forjadas guardas de joelho em aço, que protegiam as pernas até as coxas. O elmo tradicional do meio-elfo havia sido remanejado para que ficasse confortável em sua cabeça, além de ter sido reforçado, mas não havia nada em sua estrutura que fosse necessário alterar.
Então viriam as peças mais importantes do material de Bradwyn: sua espada e novo escudo. Sua lâmina tinha o maior tamanho possível para uma espada que ainda pudesse ser manejada comapenas mão; era muito mais fina que outras armas tradicionais, mas não ao ponto em que se assemelhasse a um sabre. Havia sido criada para ser usada com facilidade, sendo uma extensão da defesa do meio-elfo; capaz de perfurar e cortar com maestria enquanto um golpe era aparado. E isso seria fácil para aquela arma, que teve seu aço fabricado pelos capazes anões de Nogothrim; sendo, em Vila Miles, apenas acoplada a um cabo ornamentado com a figura de um leão negro. Também foram feitos protetores para as mãos que se assemelhavam a dentes de leões, afiadíssimos, apontados para o inimigo.
Já seu escudo era uma arte a parte. O rei havia decidido abolir o formato retangular por considerar que, apesar de cumprir bem o papel de proteger o usuário, o escudo tirava muito da mobilidade do garoto. Um inimigo astuto poderia se utilizar do momento em que seu oponente está “cego” para mudar a direção do corpo e finalizar a batalha com um golpe surpreendente. O novo item de defesa de Bradwyn mantinha alguns alicerces tradicionais: era um escudo grande e muito maior que os tradicionais, protegendo o gigante menino em toda extensão de seu corpo; contudo, tinha formato circular, o que permitia que Bradden enxergasse um inimigo e seus movimentos mesmo com a guarda posta. Apesar de ser um item pesado, sendo constituído por madeira wolfhardiana, um componente praticamente exclusivo em tempos de guerra, com ripas de aço em sua borda, o novo escudo era muito mais leve do que o bastardo estava acostumado a usar.
Havia grande charme no centro do item. No lugar do espigão em que muitos soldados gostavam de alocar espinhos, que transformavam o escudo em uma arma também ofensiva, foi desenhada a bocada de um leão, cujos dentes eram quase tão afiados quanto a espada de Bradwyn, sendo capazes de prender uma arma ali ou até mesmo uma mão ou braço de um inimigo. Já a boca do leão em si também era de material resistente e poderia ser usada para aplicar golpes contundentes em capacetes e armaduras, sendo capaz até mesmo de nocautear um inimigo desprotegido, se aplicada com a força que o rapaz certamente tinha de sobra.
Chegado o dia da cerimônia, Bradden foi levado para uma torre da ala norte do castelo, bem próximo de onde sua mãe perdera a vida ao tentar escalar aquelas muralhas. O local, improvisado, guardava o novo equipamento de Bradden, que brilhou os olhos ao reparar na qualidade dos itens, por um momento acreditando que se destinavam ao seu irmão, e não a ele. Por um segundo se sentiu ainda mais lisonjeado, quando achou que os escudeiros que lá estavam para auxiliá-lo fizeram uma referência a ele, mas assustou-se ao perceber que tal cumprimento era destinado a seu pai, o rei, que vinha logo atrás dele.
Os dois tinham a mesma altura, mas a postura de Eddard, um homem de quase sessenta anos, o fazia olhar Bradwyn de baixo para cima. No entanto, era o meio-elfo quem se sentia pequeno. Pequeno e confuso.
— Vossa… Majestade… — Ele disse, na mesma medida em que ponderou fazer um cumprimento igual aos escudeiros, mas desistiu, por corretamente acreditar ser muito desajeitado para tal.
— Olá… — Eddard falou e ergueu a mão direita na direção do rosto do menino, na mesma medida em que deu um passo a frente e se aproximou dele, fitando seus olhos e percebendo como havia ali o antigo olhar de sua amada Hellewy.
Aquilo constrangeu Bradden, que não soube o que fazer. Pareceu ser uma eternidade o tempo em que o rei passou fitando seus olhos tão de perto.
— Me desculpe… — Ele falou, recolhendo a mão e dando um passo para trás. — Eu estou aqui apenas para desejar-lhe boa sorte nesta batalha.
— Sou grato, Majestade — E estou surpreso, pensou. — Mas não compreendo o motivo da honraria. Não é seu filho quem deveria ser digno dela?
— Sim. E é por isso que estou aqui. Tenho dois filhos prestes a batalhar hoje, e estou desejando boa sorte a um deles. — Ele falou e retirou todo ar dos pulmões de Bradwyn. — Independentemente do resultado da justa de hoje, tu serás reconhecido por mim. Meu filho… Lute como o leão que é.
Eddard disse e beijou a testa do meio-elfo, que, por mais que tivesse tanto a dizer, nada conseguiu falar. O rei saiu da presença dele e os escudeiros logo trataram de vestir Bradden, o que não foi uma tarefa assim tão difícil, já que o mesmo mal se moveu depois da saída de seu pai.
A cota de malha foi colocada em seu corpo como uma segunda pele, seguida de uma camisa estufada azul, grevas, manoplas e o elmo. Os escudeiros então entregaram a nova espada e escudo para Bradden, que longamente observou os itens, encantado com a qualidade; logo os manejando e sentido seu peso.
O coração do elfo se preencheu com a felicidade da sua aceitação. Não sentia apenas orgulho, como também esperança. Não sabia exatamente do que se tratava a esperança, mas a sentia. Considerando sua vida, aquele sentimento em específico era realmente complexo para ele.
Os escudeiros então o guiaram para duas áreas a frente da que o vestiram e lá o deixaram para se preparar. Um portão de madeira o separava da “arena”, que era o pátio de luta onde Hellewy perdera a vida. Ele conseguia escutar o coro dos nobres lá presentes, que vibravam com a voz e os tamboretes de um bardo, encarregado de fazer as devidas apresentações do príncipe Egbert, que saudava as pessoas ali presentes, já completamente preparado para a justa, trajando uma armadura bastante pesada, adornada com joias azuis, portando uma espada de uma mão e um escudo oval de aço acoplado em seu antebraço.
Bradden olhava o irmão pelos vãos do pequeno portão de madeira. Sorriu sem perceber. Começava a imaginar como seria recebido e como se apresentaria aos ali presentes. Até que se assustou, pois das sombras, Aldo Krestel surgiu e anunciou sua presença batendo palmas. Sem ter a intenção, Bradden segurou um pouco mais forte a espada que repousava em sua mão.
— É um trabalho magnífico que fizeram com este escudo. — Aldo falou, cessando as palmas. — Bravo. Você deve estar muito contente.
— Estou… — Bradden disse, desconfiado. — Nunca tive o prazer de portar uma arma como esta. É bem mais leve do que tudo que estou acostumado a usar.
— Aposto que um bastardo como você nunca imaginou que possuiria um item como este… — Aldo falou e cuspiu no chão. Aquilo havia irritado Bradwyn bem mais do que as ofensas de costume.
— Não sou um bastardo… — Ele sussurrou, como um segredo.
— Como? — Aldo questionou, mesmo tendo escutado perfeitamente.
— Não sou um bastardo. — Dessa vez disse firmemente. — O rei esteve aqui e falou comigo. Sou seu filho.
— Você ao menos sabe o que significa a palavra? — Ele disse, com um sorriso no canto do rosto. — Você realmente acha que é filho legítimo de Vossa Majestade?
— Sou filho de Eddard Miles! O que mais deveria importar?
— Não! Você é o filho de uma puta! E uma puta elfa! — Ele falou, e uma estranha sensação tomou conta do peito de Bradden.
— O quê?
— Você não sabe? Ou anda se enganando todos esses anos? — Aldo falava enquanto circulava Bradden, que, mesmo com todo seu tamanho, transparecia sua idade juvenil naquela discussão. — Já viu suas orelhas? Ao menos sinta a ponta delas, se é assim tão imbecil ao ponto de não ter percebido isso até hoje. — Bradwyn não precisou fazer isso. Sentia a ponta das orelhas roçarem contra o elmo em sua cabeça. Comparar essa sensação com as orelhas nuas de Aldo, visíveis a sua frente, o fez perceber o que era tão óbvio.
— Eu não… Eu não entendo…
— Olhe para o seu irmão. Veja-o por um breve momento.
Bradden voltou a olhar para trás. O portão de madeira estava totalmente erguido, e a arena o aguardava, impacientemente. Egbert começou a gesticular para a arena, como se seu oponente tivesse desistido da disputa.
— Ele é filho de Vossa Graça. Filho do rei e da rainha de Vila Miles. Suas orelhas são curtas. Seu sangue é humano. Acha mesmo que são iguais?
O meio-elfo então foi tomado por memórias da infância, quando ainda era amado e respeitado pelos irmãos. Por mais que o comportamento deles na época fosse diferente, havia uma coisa que permaneceu inalterada. Ambos tinham as malditas orelhas curtas.
— Por mais patético que você seja, eu fico feliz de ter descoberto isso, ainda que tarde. Fico feliz que tenha sido aqui, também. — Ele falou, na mesma medida em que o portão de madeira começava a se abaixar, considerando que Bradden havia desistido da peleja. — Bem aqui, onde eu matei a puta da sua mãe.
Antes que o meio-elfo pudesse reagir, Aldo o chutou com força, o que o fez cair para dentro da “arena”. Não era uma arena de verdade. A ala sul do castela havia sido remanejada para que se parecesse com uma; haviam sido erguidas estruturas de madeira e tecido branco tinha sido posto onde nobres se sentavam para assistir a luta, havendo um local especial para o rei, um espécie de camarote, onde ele observava o ambiente com incerteza, agora um pouco mais tranquilizado ao ver o filho.
Depois de cair, Bradden tentou se levantar o mais rápido possível, mas não o fez antes do portão ter se abaixado novamente, protegendo Aldo, que ria cinicamente olhando o rapaz.
Uma fúria tomou conta de si. Durante todos os anos que viveu naquele palácio, foi apenas naquele momento que percebeu que o local era, na verdade, uma prisão. Prisão essa que executou sua mãe. As vezes ele pensava nela, quando via os irmãos perto da rainha, que, como a maior parte da corte, o detestava grandemente.
Imaginar a mãe ali foi imaginar amor. E isso era ainda mais raro que esperança na vida de Bradwyn. Por isso, era muito doloroso imaginar que ele teve isso tirado de si tão cedo. E, aparentemente, eram muitos os culpados. Aldo, o declarado assassino, era o pior de todos, é claro, mas ao menos naquele momento ele era intocável. Seu pai, o rei, estava em um local tão perverso da mente de Bradden que ele nem pensou em machucá-lo. O único alvo que podia provar de sua vingança era seu irmão, que, sem ter ciência de sua entrada na arena, voltava para seus escudeiros, afim de retirar aquela armadura.
Bradden não pensou muito. Andando a passos rápidos, alcançou o meio da arena antes de Egbert olhar para trás, alertado pelos nobres que ainda não tinham deixado seus assentos. O bardo deixou o ambiente mais suspeito ao tamborilar seu instrumento, acreditando que ali seria travada uma batalha épica, mas estava errado.
Bradwyn largou a espada no meio da arena. Não iria precisar dela para o que estava prestes a fazer. Egbert tinha uma postura confiante, de quem estava alegre por achar que o oponente quase desistiu da luta, e isso o custou caro, pois seu irmão, que havia passado o novo escudo para a mão direita, atacou seu rosto com o item. A boca do leão bateu na cabeça de Egbert, cujo crânio tremeu dentro do metal do capacete. O príncipe mileano desmaiou no mesmo instante, e sua armadura fez um alto clanc ao cair.
No entanto, Bradden não parou. Seguiu golpeando o irmão no rosto com toda força e fúria que tinha naquele momento. Pouco a pouco a armadura se desfez como se fosse papel. Cavaleiros passaram a adentrar a arena, afim de impedir um assassinato. Até mesmo o rei saiu de sua posição e correu na direção dos filhos. Nenhum deles foi rápido o bastante. Ao deixar o rosto do irmão desprotegido, Bradden lançou o escudo mais uma vez em sua face, dessa vez deixando os espinhos o atingirem, cravando e rasgando sua pele no processo.
O rei gritou um sonoro não!, completamente imponente. No entanto, tudo aquilo estava sendo calculado por Aldo, que no momento certo correu, rápido e desprovido de armadura, tendo sucesso em desarmar Bradden e torcer um de seus braços, rendendo-o no chão, quase quebrando sua mão.
Eddard colocou o filho em seu colo e observou que os ferimentos eram graves, profundos na face, tendo desconfigurado parte do rosto do príncipe. Ele então fitou a arena, a procura de qualquer curandeiro que pudesse fazer algo por Egbert antes que fosse tarde demais. Foi então que viu a espada de Aldo Krestel ser erguida acima de sua cabeça e então ser jogada com violência na direção das costas do bastardo, no mesmo ponto em que sua amada Hellewy também fora morta pelo mestre de armas.
Os olhos amarelos de Bradwyn encaravam o pai. A fúria havia saído de seu corpo. Sentiu remorso pelo que fez ao irmão, ciente de que ele não era o culpado pelo seu sofrimento. O que ele não sabia era que seu pai conseguia ler perfeitamente tudo que passava em sua mente, graças aos seus olhos, lindos e dourados, o mesmo de sua elfa. Ali, naquela arena, ele percebeu que já havia perdido uma mulher e que estava prestes a perder dois filhos.
— Pare! — Ele gritou bem a tempo de salvar a vida do bastardo. Aldo o fitou com muita confusão, assim como o restante dos cavaleiros que ali estavam. — É uma ordem!
— O quê...? — Aldo não havia previsto Eddard complicando seus planos. — Vossa Majestade… Esse homem… — Ele falou e então retirou o elmo de Bradden. — Essa coisa! Tentou matar o príncipe Egbert!
— Pelo meu direito de nascença eu ordeno que abaixe sua espada neste momento, mestre de armas! — Ele falou e viu Aldo lentamente obedecer. Os nobres que estavam na plateia não entendiam nada do que ocorria, graças ao feitiço realizado por Edward Miles e seus mestres.
— Com todo respeito, Vossa Graça, este homem tentou matar seu filho. Eu…
Aldo continuou falando doces palavras para que seu sonho de ver aquele bastardo morto se concretizasse, mas o mundo havia parado para Eddard. Bradden não havia se mexido. Não estava mais sob a ameaça de morte da espada de Aldo, mas permanecia rendido, com os olhos imutáveis sob o rosto de pai, que deixou cair uma lágrima. Por tantos, tantos erros, desde sua paixão desmedida até sua inevitável hipocrisia, ele já havia decretado que só tinha um filho muito antes daquele momento. Já o havia excluído, segregado e tratado como um erro, assim como, inconscientemente, também havia feito com Hellewy. Naquele momento, ambos perceberam tudo que sempre foi tão claro.
— Exílio. — Eddard falou e cortou as palavras fúteis de Aldo como uma faca. — Nunca mais pise em Vila Miles ou em qualquer território nosso, para todo o sempre.
Aldo quis dizer algo, mas Eddard o fitou com um assustador olhar, que decretava sua decisão; sem permitiro questionamentode ninguém, quem quer que fosse.
Bradden se levantou, observando Aldo, que, incrédulo, foi obrigado a soltá-lo. Fitou o pai uma última vez e, assim como ele, deixou uma lágrima correr pelo rosto. Foi embora com o escudo pendendo de seu antebraço, sem saber para onde partir, até ouvir a voz do pai pela última vez em sua vida.
— Por favor… Foi um presente… Leve a espada também.
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