O Meu Ídolo - Sem Cortes
9 O Hospital
Júlia entregara-se a um profundo abatimento. Mesmo duas semana depois da resposta do pai, ela ainda não tinha se recuperado. Já conseguia pensar no ocorrido sem chorar, mas ela havia canalizado a tristeza de forma diferente: passava noites sem dormir e muito tempo sem comer. As olheiras profundas e repentina perda de peso denunciavam que a situação já ia longe demais.
Ela era o tipo de pessoa altamente emocional, melindrava-se fácil, todo acontecimento que ela julgasse ser ruim era o bastante para deixá-la sensível.
Os hábitos que Júlia estava adotando não eram nem um pouco saudáveis, e só prejudicavam a ela mesma. Os pais notavam os comportamentos estranhos da filha, mas preferiam fazer "vista grossa", já que pensavam que era só birra e que não duraria muito, pois ela veria que não iria resolver, por isso, não adulariam a garota.
...
Em mais um dia normal, Júlia segue para a escola, completamente desanimada, — ela pode estar com qualquer ânimo — mas, assim que chega, trata de apresentar-se melhor. Entra para a sala-de-aula, procura acomodar-se na primeira fila e presta o máximo de atenção nas explicações dos professores.
Quando todas as aulas são dadas, chega o momento de entrar na quadra para a matéria de educação física. Júlia começa a sentir uma leve dor de cabeça, mas não dá importância, ao invés disso, faz o usual aquecimento, juntamente com seus colegas, que logo combinam-se para uma partida de futsal, acompanhados pelo professor.
Com a partida iniciada, Júlia corre freneticamente atrás da bola, ignorando a dor de cabeça que insiste em aumentar. Uma enorme sensação de fadiga toma conta do corpo da garota, que se vê obrigada a parar. Ela se afasta para algum lugar próximo às arquibancadas e põe as mãos nos joelhos tentando apoiar-se. O professor percebe e aproxima-se:
- Júlia, você está se sentindo bem?
- Um pouco de dor de cabeça, mas já está passando.
- Tem certeza?
- Sim, vou voltar a jogar.
Júlia voltou a correr ainda mais, — o que tornava-se desnecessário, já que estavam jogando uma partida por brincadeira — pois o time estava perdendo. Quando sua acelereção chegou ao ápice, seu coração batia em ritmo muito rápido, Júlia já não aguentava mais a dor e sua vista escureceu-se, atingindo o ponto em que se apagou por completo.
O professor e os colegas imediatamente correram ao encontro da garota que estava desfalecida ao chão. Em poucos instantes, a direção chama uma ambulância para socorrê-la, com medo ser algo grave. Logo, o telefone da casa de Júlia toca:
- Alô.
- Bom dia, eu sou secretária do colégio mundo. Quem fala é a mãe de Júlia?
- Sim, o que a Júlia aprontou?
- Nada, qual é o seu nome?
- Roberta.
- D. Roberta, a Júlia passou mal hoje na aula de educação física. Ela desmaiou, então achamos melhor chamar uma ambulância para socorrê-la, caso fosse algo grave.
- Aconteceu alguma coisa grave com ela?
- Não... quer dizer, não sabemos.
- Ela foi para qual hospital?
- Hospital das Flores.
- Obrigada, tchau.
- Não há de quê, tchau.
...
[Júlia]
Acordo em um quarto com paredes claras, iluminado artificialmente. Sinto um cheiro que está me incomodando, parece álcool ou éter, não sei. É um odor característico de hospitais, espera... Olho em volta e vejo que estou ligada em frasco de soro, através de uma seringa. Meu Deus, eu estou em um hospital. Mas... fazendo o quê? E sozinha ainda por cima. Cadê meus pais?
Só consigo lembrar que eu estava na quadra da minha escola, jogando, quando, de repente, uma escuridão tomou conta da minha visão. Agora estou aqui, e isso está me deixando impaciente. Eu quero sair.
- AAAAAHHHH. EU QUERO SAIR DAQUI! — Grito o mais alto que posso.
Puxo o soro e, quando faço menção de sair do quarto, a enfermeira entra. Pacientemente, ela me pergunta:
- Estava pensando em fugir do hospital?
- Acho que sim. Eu estava muito impaciente neste quarto. Cadê meus pais?
- Sua mãe está no café. Ela já deve estar voltando. Bom, Júlia, se você não se incomoda, eu vim aqui dar a sua medicação.
A enfermeira dá a medicação e retira-se. Em seguida, mamãe adentra o ambiente:
- Mãe, por que eu estou aqui?
- Porque você deu um piripaque ontem na escola. O médico falou que você teve um esgotamento físico. Também pudera, não come, não dorme. Em casa quando estiver recuperada, a gente conversa melhor.
- Quanto tempo eu vou ficar aqui?
- Mais uns dois dias.
- Tudo isso?
- Sim, é o tempo em que você toma um soro vitaminado para repor as suas energias.
- Ai meu Deus, eu vou ficar gorda com tanto soro.
- Pare de frescura, parece que você quer que sintam pena. Escute aqui: eu sei que você fez isso só para chamar a atenção do seu pai, talvez ele até acredite no seu sofrimento, mas eu não, você não me engana.
- Mãe, desarma pelo menos hoje. Eu não estou tão bem, como você mesma pode ver. E se eu estou aqui, é porque não consigo comer, nem dormir direito mais, não tem nada a ver. Falando no pai, cadê ele?
- No trabalho.
Nós não permanecemos conversando por muito tempo. Preferi evitar uma chuva de sermões.
O barulho de batidas na porta me acorda, estava quase pegando no sono. Mamãe autoriza a entrada e quando olho, surpreendo-me ao constatar de quem se trata.
[Júlia]
Notas finais
Deixem reviews, seu eu merecer, é claro.
Beijos, até o próximo.
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