O Meu Juiz

1 Travesseiro de Pedra


Seis horas da manhã. Quarta-feira. 2009.

O celular despertava.

— Droga! – Tateio a cama para encontra-lo, até perceber que o aparelho estava debaixo do travesseiro.

Não que eu não tivesse o costume de acordar cedo. Eu só não queria acordar.

Estava desempregado. Meu pai discutiu comigo na noite passada, chamou-me de imprestável, irresponsável, inconsequente e... “o filho do desgosto” para diferenciar a vogal.

E mais um dia começa.

— Sem graça, sem grana, sem ninguém para ajudar! Belo dia, meu Deus! — Levantei-me gritando, mas quem se importa?

O celular despertou novamente, peguei-o com raiva. Desliguei e o joguei na cama. Meu pai havia me dado àquele celular como presente de formação para professor de Inglês. Ele joga isso na minha cara até hoje por eu ser incapaz de arrumar um emprego.

Esquentei o café de ontem. Olhei para o tempo. Céu azul. Morava em um apartamento vazio de alegria e cheio de angústia. Um sofá de três lugares, uma tevê em cima de uma mesa de vidro, na qual só vivia desligada e só ligava para assistir jogo de futebol com os amigos. A cozinha que só cabe um e meu quarto. O banheiro só entra se for de lado, de tão pequeno que é. Nunca sei se tomo banho ou afasto a cortina. Se escovo os dentes ou evito bater com meu braço na parede. É... A gente tenta viver do modo que dá. O apartamento era maior, mas de um inteiro se fizeram dois, tipo quitinete.

Questiono-me se fiz bem em sair da casa dos meus pais para vir morar num lugar que é tão pequeno para minhas dores.

Sôfrego.

Vida.

Minha vida.

Mas logo lembro os motivos que me tiraram da casa dos meus pais. E sinto um alívio no peito.

Abri a geladeira.

Tive sorte: encontrei uma fatia de queijo, um pão partido pela metade e leite! Amo leite com achocolatado!

Liguei o computador e fui ver minha caixa de e-mails. Mandei alguns currículos para escolas e cursinhos de inglês. Tentei até empresas que necessitam de tradutores, mas sem experiências é muito complicado. Resultado:

Nada.

Mas era quarta-feira, dia de jogo. Felipe, Luís e Marquinhos estariam aqui mais tarde. Umas gargalhadas, juiz xingado e jogador vaiado... Chega a ser meu nebulizador das quartas-feiras para que eu consiga respirar até domingo.

Procurei mais algumas escolas e cursos para os quais pudesse enviar currículo. Depois, voltei a dormir.

Três horas da tarde acordei e fui almoçar.

— Miojo de carne... Não, comi ontem... Galinha! Galinha é bom.

Preparei rapidamente. E, ao me sentar na sala para comer, batem na porta.

Levantei-me, deixando o prato no sofá.

— Pois não, quem é?

— É a sua vizinha daqui do lado.

Olhei para o chão, respirei fundo e abri, tentando inventar um sorriso simpático.

— Olá, em que posso ajudar?

— Estou indo para a igreja e meus filhos ficarão em casa.

— E? – Assustei-me quando ouvi “filhos” e “ficarão” na mesma frase.

— Queria saber se pode dar uma olhada neles, só para saber se estão bem. É porque hoje é vigília e não posso leva-los. — É engraçado como as pessoas que mal falam contigo surgem do nada para pedir algo.

— Ué, contrata uma babá para a senhora quando não puder levar seus filhos para a igreja. – Lancei – Ou melhor, deixe de ir.

Ela abaixou a cabeça, mas não mudou o semblante. Novamente, olhando para mim, respondeu-me:

— Agradeço por ter aberto a porta, não precisa se incomodar. – Ela se virou, pensei que aquela morena forte iria agir de outra forma, mas finalizou – A propósito, não deixarei de ir para a igreja, pois busco primeiramente o Reino do meu Senhor. E... Meus filhos já são bem grandinhos e sabem se virar, eles sabem a hora de jantar, de orar e a hora de dormir, meu marido chega cedo, mas, infelizmente, hoje o patrão dele o prendeu por mais tempo. Só foi por isso que pedi que desse uma olhada nos meninos, só para que meu coração de mãe estivesse despreocupado enquanto meu marido não chega. Mas agradeço mesmo assim. Sei que meu Deus está guardando a vida dos meus filhos e a sua também. Deus te abençoe, meu filho. Boa tarde.

Fiquei boquiaberto.

Ela foi para o apartamento dela e acho que perdi uns trinta minutos meditando naquela situação nada rotineira. Quando voltei para almoçar, o miojo estava frio.

— Ainda bem que os rapazes trazem alguma coisa para comer...

Dito e feito, anoiteceu e eles chegaram com cervejas – para eles, pois não bebo – e alguns tira-gosto.

Nosso time venceu, pelo menos dormirei com uma alegria. Felipe estava bêbado e dormiu aqui em casa. A todo o momento, fiquei atento para ver se o pai dos meninos chegava, mas até a hora que os rapazes foram embora e Felipe caiu quase morto no sofá... Nada.

Despedi-me deles na portaria. Olhei de um lado e de outro. Conheço pouco o rosto do pai dos meninos. Subi correndo. Passei pela minha porta.

— Não faço ideia do que estou fazendo...

Bati na porta. Esperei um pouco. Dez segundos parecia uma hora. Bati novamente, já movendo a maçaneta. Estava trancado. Eles tinham a mania de deixar uma chave de reserva no vão da janelinha. Eu nunca me preocupei com isso e, confesso, já dormi do lado de fora do apartamento. Salvo de manhã pela ajuda do porteiro que chamou e pagou o chaveiro.

Abri a porta devagar. Silêncio. Meu coração acelerou um pouco.

— Meninos? – Bati, antes de entrar. Não obtive resposta e adentrei.

Olhei para cada cômodo da casa, a luz da cozinha acesa, mas a da sala apagada. Caminhei lentamente até um dos quartos. Abri a porta que estava entreaberta e vi os dois de joelhos, virados para a cama de baixo do beliche.

— Boa noite.

Virei-me num susto.

— Boa... Desculpa! Perdoe-me por ter entrado na sua casa, senhor, perdoe-me de coração eu só... – Estiquei minhas mãos para frente, no desespero.

— Tudo bem. – Ele sorriu – Quer jantar? Creio que minha esposa tenha preparado algo. Acabei ficando mais tempo do que imaginei no trabalho. Meu patrão nunca fez isso. Mas agradeço a Deus por ter me guardado, mesmo tendo voltado nessa hora e louvo ao meu Deus, pois com isso, consegui minha promoção.

Caminhei para mais perto da saída.

— Parabéns, senhor.

— Não me parabenize, dê Graças ao Deus que abriu essa porta para mim e pode abrir para você, meu filho. – Ele jogou o paletó no sofá e acendeu a luz do cômodo.

A casa era linda. E a iluminação era muito mais do que as lâmpadas da sala.

— Eu peço desculpas. – Ri sem graça.

— Não se preocupe, minha esposa avisou-me que Deus tocaria seu coração para vir ver os meninos.

Ri novamente, mas sem reação.

— Vocês vivem para esse Deus em tudo, né?

— O sacrifício Dele e o que nós fazemos a cada dia que acordamos nunca ficarão no mesmo peso da balança, mas ao crermos que Ele é o nosso Deus, capaz de tantas coisas em nossas vidas, no mínimo, devemos colocar Cristo em tudo em nossas vidas.

Balancei a cabeça positivamente.

— Um dia que estiver disponível, vá a nossa igreja, ouça a palavra do Senhor, creio que será transformado.

Balancei a cabeça novamente no automático.

Despedimo-nos, ele com um sorriso; eu, com um semblante desnorteado. Entrei em casa e acabei esquecendo que Felipe estava dormindo, bati a porta e só me dei conta quando ele gritou.

— Ei, ei, sou eu! – Alertei-o.

— Cara, não entre mais assim na minha casa.

— Sua? Além de bêbado, está se tornando golpista?

Ele riu sem entender.

— Volta a dormir que eu farei o mesmo.

— Cara... Tive um sonho. – Ele falou, levantando e vindo em minha direção.

Estiquei o braço para impedir a proximidade, o odor que saía da sua boca estava dando ânsia.

— Fala seu sonho daí.

— Eu sonhei com você.

— Eu estava conseguindo um emprego? Porque se for, não conte.

— Não, não... – Seu semblante era de alguém assustado e incrédulo – Você lutava contra um anjo e gritava “Dá a minha bênção! Dá a minha bênção”, mas o anjo balançava a cabeça e dizia “Eu quero mudar a sua história, não quero te dar só uma bênção”, mas você se zangava, não dava ouvidos e lutava com mais sagacidade, até que o anjo te feriu e você caiu no chão agonizando de dor. O anjo se virou e deu a mão para uma menina e a levou.

— Quem era?

— A menina? – Balancei a cabeça positivamente – Eu não vi seu rosto, eu a vi de costas.

Chacoalhei minha cabeça, agora eu fiquei assustado.

— Você tem ido para alguma igreja, levou um choque religioso, o que foi isso, Felipe? Que sonho maluco foi esse?

Ele voltou a sentar no sofá, colocando as mãos no rosto.

— Eu não faço ideia, só sei que sonhei isso tudo aí.

— E como era tudo? O cenário? E o anjo? Ele não falou mais nada?

— Cara, eu não sei. Acho que bebi demais. Estou com dor de cabeça. Tipo, eu não lembro muito de como era o anjo, pois tinha uma luz muito forte, você estava acabado, tipo, fisicamente falando e a menina surgiu do nada e foi embora. O lugar era todo branco, parecia um corredor de hospital. Sério, minha cabeça está dando voltas.

— Então vai dormir, farei o mesmo...

Dei boa noite e fui para meu quarto para trocar de roupa. Felipe voltou a deitar no sofá.

Era notório eu não conseguir dormir de imediato, pensando naquilo. Virava de um lado para o outro.

Quatro horas da manhã. Quinta-feira.

Lembrei-me de um remédio, levantei-me e o tomei, foi quando peguei no sono.