O Meu Juiz

2 Encontros no Deserto


Acordei com pancadas na porta do meu apartamento.

Levantei-me e cacei meu celular. Não o encontrei. Estranhei que não tivesse despertado. Olhei para a janela e o sol penetrava já o meu quarto.

Corri para a sala. Felipe estava dormindo ainda.

— Quem é?

— Abre a porta! — Aquela voz eu reconheceria em qualquer lugar.

— Pai?

Procurei as chaves e abri a porta, meu coração acelerou.

— Bom dia, eu acho...

— Boa tarde, irresponsável! Você sabe que dia é hoje?! Ficamos esperando você por duas horas! Não pensa mais na sua vida, mas pense em quem te deu a vida!

Era o aniversário da Gabriela, minha irmã mais velha. Fechei os olhos e demorei uns dez segundos para voltar para minha órbita. Fui consumido pela dor, cansaço e desprezo.

— Quanta falta de consideração!

Os olhos do meu pai quase pulavam em cima de mim.

— Eu peço desculpas, eu...

— Se embriagou?! Ah, é claro, a farra com os amigos é muito melhor que trazer a memória alguém que morreu por você! – Sua voz aumentava a cada palavra.

— Eu não bebo! E... Desculpa, o que mais quer que eu faça? Eu realmente esqueci, meu celular não despertou! Mas que droga! — Passei a mão no rosto, em desespero.

— Coitadinho... Eu... – Meu pai olhou para Felipe – Eu não sei por que ainda me importo.

A raiva subiu, junto com dor, memórias...

— Também não entendo porque eu não morri no lugar dela, te pouparia desgosto de ter um filho como eu! – Fechei a porta e caí no chão.

Felipe acordou.

— Nossa... Sonhei com os gritos do seu pai... – Colocou a mão na cabeça e se sentou.

Olhei-o.

— Eu não aguento mais, Felipe. Não dá... – Suspirei.

— Eu não sei o que aconteceu, minha cabeça ainda dói e estou atrasado para trabalhar, mas... As coisas irão melhorar, eu não sei como, mas...

— Meu pai veio aqui jogar na minha cara que não tive responsabilidade de comparecer ao cemitério no aniversário da Gabi. – A primeira lágrima escorreu – Às vezes a voz do meu pai vem em minha mente dele gritando no hospital “Deus, não tire a vida da minha princesa, dela não!”, como se a minha vida não valesse... Nada.

Felipe abaixou a cabeça. Abriu a boca, mas não emitiu um som.

— Acho melhor eu ir para casa tomar um banho.

Balancei a cabeça, levantando-me do chão.

Não demorou muito, Felipe foi ao banheiro, voltou, despediu-se em silêncio com um aperto de mão, mas ao abrir a porta, encerrou:

—Estou contigo, cara.

E foi embora, deixando sua voz ecoar vazia em meu cubículo apartamento.

O dia precisava começar assim...?

Fui tomar um banho, refrescar a mente, o corpo, melhorar o semblante. Deixar a água gelada escorrer em meu rosto foi a melhor sensação de estar vivo possível. Coloquei a roupa, escovei os dentes, procurei os sapatos, peguei as chaves, a carteira semivazia e saí.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

Disseram os meus dois vizinhos oradores com sorrisos nos rostos e mochilas nas costas.

Sorri com os lábios, sem demonstrar muito ânimo e continuei a descer as escadas. Cheguei ao portão. Respirei. Infelizmente, senti-me mais sufocado ainda. Pessoas andando de um lado para o outro correndo, carros buzinando como se o barulho pudesse abrir a passagem para eles. Um mendigo na outra calçada me fitando. Talvez ele estivesse vendo em mim algo semelhante a ele, não por fora; por dentro.

E o céu azul, não se importando com o momento nublado da minha vida. Ou talvez se importasse ao ponto de estar assim...

Seguindo o ritmo apressado de todos, andei da mesma forma, esbarrando em um e em outro, de tão desnorteado que estava.

— “Ei! É, você mesmo que está passando aqui na calçada! Não perca as promoções imperdíveis, só hoje, você leva um conjunto completo de cozinha e banheiro pela metade do preço, é isso aí! Pela metade do preço! Corre, porque já está acabando!”.

De tudo o que o anunciador estava dizendo, atentei-me a última frase:

— “ 'Tende bom ânimo!' Assim como nosso patrão teve em oferecer essa oferta imperdível, se eu fosse você, garantia logo o seu!”. – Completou o rapaz, voltando para o seu anúncio.

Quando voltei a minha caminhada ritmada, ouço uma voz familiar.

— Tio Dan! Tio Dan!

Senti um abraço em minhas pernas.

— Duda! – Peguei-a no colo – Como a minha espoleta está?

— Feliz! – Ela ergueu os braços, mas logo em seguida mudou a feição.

— O que houve?

— Hoje foi o aniversário da dindinha, mas ela não estava aqui. Papai disse que agora ela comemora o aniversário dela no céu — A pequena esticou o braço para cima — e que não dá para entregar mais presente pra ela.

Fechei os olhos. Respirei fundo. Olhei novamente para a pequena, pondo-a no chão.

— Cadê o seu papai?

— Maria Eduarda!

Automaticamente eu e a menina olhamos para frente.

— Não faça mais isso, Maria Eduarda! Você quer matar a mamãe do coração!? – Denise se aproximou, puxando a menina pelo braço para mais perto de si.

Duda riu com a mão na boca. Meu irmão apareceu logo atrás desesperado. Ao nos ver, aliviou-se e sorriu.

— Maria Eduarda, você nos deixou preocupados, não pode sair do nosso lado assim! – Repreendeu meu irmão – Peça desculpas para a mamãe e prometa que nunca mais fará isso.

Duda balançou a cabeça, abraçou a mãe, que a pegou no colo; e pediu, da forma mais inocente, desculpas. Denise a beijou.

— Vocês se preocupam de uma forma assustadora. – Eu ri, e parecia que tudo dentro de mim doeu.

— Quando você tiver o seu, entenderá. – Retrucou Denise.

— Jamais.

Silenciamo-nos e meu irmão me abraçou.

— Como está?

— Depois que nosso pai foi lá em casa, estou destruído. – Afastei-me.

Rodrigo suspirou.

— Você deu mole.

— Eu sei... – Abaixei a cabeça – Está tudo tão difícil e ainda preciso carregar esse peso sozinho...

— Ei! Estamos aqui. Sabe que pode contar conosco.

Assenti. Mas as palavras não vieram confortantes para mim e meu irmão percebeu.

— Conseguiu um emprego, pelo menos?

— Nem entrei no meu e-mail ainda.

— Já tentou mandar currículo para a escola da Duda?

— Já, mas lá eles trabalham com uma empresa de professores de inglês, na qual eu fiz uma entrevista e ficaram de me ligar há... – Fiz uns cálculos – Há um mês.

Rimos. Até Maria Eduarda riu sem entender nada, mas o sorriso dela acendeu em mim.

— Você só tem 24 anos, vai conseguir algo.

— Só?! Irmão, você é otimista demais.

— Alguém nessa família deveria ser como a Gabi. — Ele riu olhando para outro ponto qualquer — As coisas vão mudar, você precisa acreditar nisso, senão... Nada valerá a pena.

— Palavras de autoajuda, é? – Olhei-o desconfortavelmente.

— Não. A verdade é que ficar para baixo não te edificará em nada. Ser consumido por essas afrontadas não te fortalecerá para caminhadas mais difíceis.

— Mais difíceis?! Você acha que suporto mais do que isso?! — Equivoquei-me na rua — Como se fosse simples sorrir no meio dessa situação toda! Como se valesse, realmente, a pena demonstrar ser forte quando estou mais do que fraco!

— Aí que você se engana. Porque nossas fraquezas só nos controlam quando permitimos, porque quem toma as atitudes é você e mais ninguém. Se você entregou a chave da sua vida para os problemas, as consequências virão diante disso e você realmente não terá forças para combate-los. Quando você se faz mais forte que o problema, mostra que está no controle. Você tem estado no controle, Dan? — Rodrigo enfatizou.

Parei um pouco. Duda puxava a mãe para ver uma boneca, o rapaz anunciava a mesma promoção, pessoas passavam por nós e tudo seguia seu ciclo natural e eu estava preso em minha vida medíocre. Respirei e fitei meu irmão. Sorri descontraído.

— Precisarei pagar essa consulta psicológica? Porque ainda estou te devendo quatro meses do apartamento. — Mudei o foco para não me perder em pensamentos.

Meu irmão sorriu. Duda pediu colo, pois cansara de insistir por algo que não estava tendo êxito. Senti-me assim, querendo colo... Querendo desistir... Sem êxito em nada!

— Quer ir lá para casa?

— Não, é melhor não, Rodrigo. Preciso espairecer.

— Vamos, tio Dan! Vamos! – Duda me chamou com as mãozinhas, mas recusei.

Despedimo-nos.

Duda ficou olhando para mim e dando “tchau” à medida que se afastava. Um rapaz esbarrou em mim por eu estar parado na calçada. Não se desculpou. Reclamei em pensamento.

— Já disse que não dá mais! – Falava ao celular – Estou indo para o aeroporto. Acabou! Não quero saber dessa criança. – Esperou um pouco e ele parou, alguns metros, distante de mim, olhava freneticamente para os dois lados da rua, talvez a espera de um táxi, parecia normalmente apressado – Estou pensando no meu futuro! Estou há três anos esperando por isso, já estou preparado mais que o suficiente para vencer todos os meus desafios. E eu vou alcançar uma vida de sucesso e isso só incluía você, não essa criança. – Fez um sinal frenético para o táxi e, antes de adentrar o carro, olhou para mim.

Estava boquiaberto, mas desviei o olhar rapidamente para disfarçar. Ele continuou a falar no celular e eu continuei a andar.

— Nossa... – Estava abismado — E eu pensando que era o único com problemas...

Parei de frente para uma praça. Gabi gostava de vir aqui. Atentei-me a um episódio recente para mim: um grupo dando o que beber e o que comer para um grupo de mendigos, inclusive aquele que estava do outro lado da calçada do meu apartamento.

— Messias! – Chamou uma menina que passou por mim, ela corria com uma bíblia na mão. Continuou a falar, mas não ouvi muito bem, o tal Messias olhava atentamente para quem passava por eles.

Estou começando a me sentir um fofoqueiro. Continuei a caminhada mais lentamente agora, passando pelo grupo.

— Meu jovem, a paz do Senhor! – Olhei para trás subitamente – Não quer ficar? É um evangelismo, daremos uma palavra de Jesus Cristo, nosso Salvador, para todos aqueles que precisam de uma palavra, não só de ajuda, mas de restauração.

— Ah... Eu não sou crente. Não gosto muito disso também... – Fui o mais sincero possível para ver se saía dali.

— Tudo bem, nós não evangelizamos somente para os que creêm, mas para aqueles que não conhecem o Amor e a Palavra de Cristo. A propósito, qual é o seu nome?

— Daniel.

— O meu é Messias, Daniel, prazer. Daniel é um bom nome...

Não entendi muito e suspirei para dar a entender que estava querendo sair dali, mas...

Algo dentro de mim ardia e me instigava a ficar, entretanto minha mente estava turbinada querendo ir embora.

— Eu preciso realmente ir.

— Okay, Deus sabe o momento certo do encontro de vocês. Estamos aqui todas as quintas e sábados. Quando quiser, é só chegar. Nossa igreja fica nessa rua direto, depois da praça, é a única da rua. Qualquer coisa é só chamar o Messias, todos me conhecem. – E me entregou um planfetinho.

— Pode deixar, quando puder, eu venho.

O rapaz me abraçou.

Que abraço! Parecia que minhas dores deram lugar a uma explosão dentro de mim, que fez meus olhos arderem e minha garganta secar.

Ele bateu em minhas costas e se afastou. Mostrou-me um caderno de oração, mas eu disse que não precisava e que estava atrasado.

— Vai na Paz e que o Senhor te abençoe! – Ele disse com um sorriso.

Despedi-me apenas com um aceno. Dobrei o planfeto para jogar fora, mas não encontrei nenhuma lixeira, então guardei no bolso da calça e voltei para casa.