O Meu Juiz

4 Quando tudo parece dizer não.


O pequeno Davi começou a responder. Não pude me atentar ao que ele disse de fato, abri o inbox.

Prezado Daniel Mendes,

É com prazer que solicitamos sua presença para uma entrevista no Colégio Paulo Romero II, cujo corpo administrativo pedagógico demonstrou interesse em te conhecer.

A entrevista está prevista para Segunda-Feira. Caso esteja interessado, estaremos no aguardo de um telefone até Quinta-Feira, às 18:30.

Att. Maria Aparecida Romero Santos.

*Tels para contatos: 2701-0009/9000-6554.

Olhei para o relógio na tela do computador, marcava 18 horas de 28 minutos.

Minha respiração parou. Comecei a tossir freneticamente. O pai das crianças se levantou e veio em minha direção.

— O que foi, rapaz?

Respirei fundo. Eu não acreditava.

— Impossível. – Foi o que consegui pronunciar.

O dono da casa dirigiu seu olhar para a tela do monitor. Leu o que estava escrito, pegou o telefone fixo da mesinha e completou sua ação, dizendo:

— Fale-me o número.

Eu estava em choque, mas não me demorei a olhar e ditar o número que deixaram no e-mail.

— Alô? – O pai dos meninos olhou para mim, chamando-me – Sim, eu gostaria de falar com a Sra. Maria Aparecida Romero, acerca de uma entrevista para segunda. – Ele deu uma pausa, parei ao seu lado – Sim, eu estarei no aguardo.

Ele colocou o telefone no peito e sussurrou para as crianças ficarem quietas, pois as mesmas cochichavam.

— Ela estava retirando o carro da garagem, a menina foi ver se conseguia encontra-la, toma.

E me entregou o aparelho. Meu coração acelerou.

— E se ela já tiver ido embora? – Temi, mudando meu semblante para preocupado.

— Se você continuar conversando comigo e não colocar esse telefone na orelha, não vai saber se ela foi ou não. – Senti que ele queria falar mais alguma coisa, mas se calou, provavelmente colocaria Deus nesse meio.

Eu assenti, inocentemente.

Ouvi uma conversa de fundo, mas não entendi muito, até que uma voz firme disse “Alô?”.

— Oi, oi! – Passei a mão no rosto – É a senhora Maria Aparecida? Aqui é o rapaz que a senhora enviou um e-mail de uma entrevista para segunda. – Rapaz? Eu esqueci meu próprio nome! – Isso, é o Daniel Mendes. – Eu ri sem graça — Isso, estou ligando para confirmar nosso encontro na segunda-feira.

Ela me pediu para anotar o local e o horário da entrevista, gesticulei para o dono da casa, que entendeu e logo me entregou um bloquinho e uma caneta. Tirei a tampa com a boca.

— Pode falar. Aham... Sim... Conheço, conheço sim. Oito horas da manhã? Tudo bem. Estamos combinados. – A senhora me falou mais algumas coisas, desejou-me “boa sorte”, “boa noite”, “fica com Deus” e desligou.

Não tive tempo de respirar. Nem de me despedir decentemente.

Coloquei o aparelho no gancho.

O homem a minha frente sorriu.

— Aprenda uma coisa, que eu ia explicar aos meus filhos em nosso debate vocacional: Nada é impossível para Deus. – Ele olhou para os meninos – Mesmo que a tempestade se levante e Jesus esteja descansando, Ele não nos abandona nos momentos de tribulação. – Olhou novamente para mim – Quando é impossível para nós, o Deus dos Impossíveis começa a agir. Você crê?

— Creio em Deus, sim, mas... Eu só consegui uma entrevista, não quer dizer que minha vida vai mudar.

— Sua vida não vai mudar, realmente, ela já mudou. – Ele se virou e voltou a sentar com seus filhos e não disse mais nada. Talvez já tivesse jogado para fora o que havia ficado preso em sua garganta quando me deu o telefone.

Eu ignorei aquilo tudo. Era a minha entrevista! Eu tinha conseguido!

— É melhor eu ir para casa. Mas agradeço pela ajuda, de coração.

Nessa hora, a Sarah abriu a porta e entrou sorrindo.

— Encontrei a irmã Sônia. A nora dela está grávida, ela está feliz da vida. – Contou, com algumas sacolas nos braços.

Parece que eu não fui o único a receber boas notícias.

— Já está de saída, meu filho? – Perguntou a mim, passando ao meu lado.

— Sim, sim, já resolvi tudo, agradeço.

— Não vai ficar para jantar? – Ela se dirigiu para a cozinha – O que farei é coisa rápida.

— Não, não. Já atrapalhei muito por hoje. – Passei a mão no cabelo, sem graça.

— Que nada, menino! Dá tempo de você jantar conosco, só sairemos sete e meia daqui.

— Deixe o menino ir, Sarah, hoje foi um dia apreensivo para ele. – Olhou-me o marido de Sarah, se ele soubesse que eu estava faminto, insistiria mais um pouco.

Por educação, concordei.

— Tudo bem. – Ela já estava lavando algumas verduras – Davi, acompanhe o moço até a porta.

O menino se levantou, deixando a bíblia na poltrona, seu pai lhe deu um molho de chaves que estava na mesinha de centro e Davi veio em minha direção.

Acompanhou-me, como lhe fora ordenado e, com ele, um sorriso.

Despediu-se de mim, assim como os demais de sua casa quando atingi a porta.

Saí. Que paz... Que alegria!

Corri para casa. Tinha certeza de tudo o que eu vivi hoje não tiraria um sono bom que eu teria, com certeza. Nenhum problema me vinha à mente.

Só tinha um “porém”: minha barriga roncava.

Peguei uma roupa, toalha e fui para o banheiro, lutar contra a cortina para tomar um banho decente.

Demorei-me uns 20 minutos, ao som de Bon Jovi, The 1965 e Maroon 5, minha playlist do MP3.

Consequentemente, passei em frente à cozinha e minha barriga roncou.

— Você aguenta até amanhã.

Estava tão feliz. Deu vontade de correr até a janela e gritar para quem quisesse e quem não quisesse ouvir que eu finalmente conseguira uma entrevista, depois de meses tentando. Eu só queria expor minha alegria. Talvez eu devesse ligar para o meu pai, tendo a oportunidade de lançar em sua face que não sou um imprestável como ele me ver. Ou ligaria para o Rodrigo contando as boas novas. Mas... Minha decisão final foi ficar no silêncio de meu pequenino apartamento.

Decerto, eu compartilhei com os meus nobres vizinhos essa experiência. Contudo, algo neles ainda me incomodava.

— Espero não ter que ir a casa deles tão cedo... Muita religião para uma cabeça só.

Liguei a tevê, uns programas banais de quinta-feira, novela, eu acho. Desliguei. Fui brincar com alguns jogos do computador.

Bateram na porta.

Estranhei. Poderia ser um dos meus amigos, o que seria estranho, pois o próximo jogo de futebol é domingo. Poderia ser o Rodrigo, mas essa hora?

Será que era alguma coisa com a filha dele? Ou com a nossa mãe?

Levantei-me preocupado.

— Quem é?

— É o Luiz.

Luiz?

— Marido da Sarah. – Parecia que ele tinha lido meu pensamento.

Fiquei boquiaberto. Será que o colégio havia ligado para a casa dele desmarcando tudo?

— Já vai!

Peguei as chaves perto da televisão e abri a porta. Meus “Serás” se silenciaram. Ele estava com uma marmita na mão, a bíblia debaixo dos braços e a família atrás dele.

Engoli a seco.

— O que o senhor quer? – Perguntei de forma branda, quase caindo para trás. Meu estômago sentiu o cheiro da comida, pra quê!?

Passei a mão no rosto e a resposta dele parecia não sair de sua boca de tão demorada que foi, ao meu ponto de vista.

— Você saiu pálido lá de casa, como estava aparentemente desconfortável, permiti que fosse embora, mas meu coração ficou apreensivo quanto a você, ainda mais quando vi sua expressão depois que leu o e-mail, então pedi que Sarah preparasse algo para você, mesmo se tiver algo em sua casa, peço que aceite.

Estendeu para mim a marmita com um copo de guaraná natural.

Em seu olhar, eu via um homem que me enxergava por dentro. Meus ossos estremeceram e me deu um arrepio.

Não tive reação. Minha mente gritava para eu recusar. Mas como eu queria... Estava ficando difícil disfarçar meu olhar sedento. Eu não passo por necessidades, meu irmão sempre me ajuda com a compra do mês e com o aluguel e eu fico com as contas, mas minha reserva na poupança estava se esgotando. E comecei a ver que meu irmão estava arcando com toda a despesa, então vinha pedindo para ele gastar menos nas compras, assim como eu gastaria menos energia.

Minha mente lutava contra minha vontade. Meu corpo estava a explodir. Nunca! Jamais passei por uma situação dessas!

— Não precisa se preocupar comigo, eu só levei um susto. – Ri sem graça.

— Não demonstrei na hora, mas fiquei preocupado, filho. – Ele me estendeu novamente a marmita.

Não relutei, não dava.

— Agradeço, comerei e sei que estará uma delícia.

— Ah, está mesmo! Mamãe faz a comida mais gostosa do mundo! – Exclamou o pequeno, que levou um cascudo do maior por ter gritado.

Sarah repreendeu ambos.

Quando a marmita estava em minhas mãos, junto com o copo de guaraná natural, minha vontade era de chorar. Não sei de onde tirei forças para ouvir mais algumas coisas do senhor Luiz, até que ele e a esposa se despediram de mim.

Estava absorto com tudo. Entrei em casa, tranquei a porta, coloquei a marmita e o copo no sofá e sentei no chão.

As lágrimas desceram.

Passei as mãos no rosto, para enxuga-lo.

— O que foi isso? – Perguntei a mim mesmo.

Abri a tampa do recipiente. Um sorriso brotou em meu rosto, em meio a algumas lágrimas que ainda desciam.

Deleitei-me com aquele jantar impensável, de comer hoje, por mim. Eu nem sabia o que dizer daqueles vizinhos.