O Meu Juiz
5 Salmos 23?
Ao terminar meu milagroso jantar, escovei os dentes e fui para o quarto. Coloquei algumas músicas no MP3 e deitei na cama.
Encarei o teto. Aquele era o meu limite? Fiquei alguns minutos, submerso em pensamentos, olhando para a pintura branca.
Adormeci sem perceber.
Acordei com o celular despertando. Oito da manhã. Sexta-feira.
Levantei-me mansamente. Peguei alguma roupa no armário e fui tomar um banho.
Eu estava feliz. Feliz?! É, feliz! Quanto tempo... Eu nem saberia soletrar essa palavra se fosse umas horas atrás.
Depois de uma luta acirrada com a cortina, consegui tomar um bom banho... Gelado. Estava calor mesmo.
Quando pensei em tomar um café, o celular tocou no quarto. Saí correndo para atendê-lo.
— Alô? — Dei uma pausa – Fala aí, Felipe! — Não via a hora de contar para alguém – Aham... Sei, que horas? – Ele estava avisando que teria uma social na casa de um amigo nosso da época do ensino médio – Tá, mas... Aham... Cara... Tá, mas eu não tenho dinheiro para ajudar, cara. – Ele avisou que iria ao supermercado e que compraria um refrigerante para mim, já que era a bebida que talvez só eu tomaria – Po, fechou então, se você for comprar para mim, depois eu te pago. – Felipe falou que não precisava – Poxa! Tu é firmeza mesmo, cara!
Desliguei o celular quando me dei conta que não havia contado a ele sobre a notícia maravilhosa.
Joguei o celular na cama e voltei para a sala. Bateram na porta.
— Quem é? – Gritei.
— Rodrigo!
Peguei as chaves perto da televisão e abri.
— O que você faz a essa hora aqui? – Indaguei surpreso.
— Duda passou mal agora de manhã antes de ir para a creche, vim no hospital aqui perto. – Ele passou a mão no rosto, apreensivo.
— Entra aí, cara.
— Não, não, deixei Denise lá sozinha, só passei aqui para te pedir para usar seu telefone. Meu celular descarregou e a Dê esqueceu o dela em casa. E voltar pra casa, vinte minutos, para buscar um carregador é dose, então vim aqui, mais pertinho.
— Tudo bem, mas não tenho crédito. – Alertei, dando passagem para ele entrar, mesmo tendo dito que não. Ele é maluco.
— É só para eu ligar para a firma. Duda ficou com falta de ar do nada! Saímos iguais uns loucos de casa. A menina ficou roxa.
— Que isso!? – Assustei-me – Mas ela está melhor?
— Está no quarto, com ajuda de aparelhos para respirar.
— Mas ela estava bem, cara. – Lembrei-me de ontem.
— Pois é! – Ele sentou no sofá e o silêncio pairou.
Aproveitei para buscar o aparelho.
— Os médicos acham que foi alergia a alguma coisa. Sendo que ela não comeu nada anormal. – Rodrigo passou a mão no rosto, preocupado.
Que sensação estranha... Como um homem, ainda mais como o Rodrigo, que não ligava nem para a própria vida na juventude, agora está todo preocupado com uma criança? Okay... É a filha dele, mas... Como isso é possível? Como um ser humano pode mudar tanto ao ser pai? Ao ponto de sair correndo de casa com uma criança nos braços para salva-la? É um instinto que não vem de nós, porque nunca nos ensinaram isso, então... Como sabemos e sentimos?
— Dan! – Chamou-me.
Fui para a sala e entreguei o aparelho. Ele tirou o chip do celular dele e colocou no meu.
— Mas e a Denise, está bem?
— Que nada... – Disse ele, olhando para o aparelho, esperando o mesmo ligar.
— Avisou à nossa mãe?
— Nem deu tempo. – O celular ligou e Rodrigo se levantou, já digitando alguns números.
Dei um espaço para ele. Minha barriga roncou.
Não ouvi muito bem a conversa dele, mas foi rápida.
— Dan, vamos lá fora comigo, preciso que leve um documento para a empresa, pode fazer isso?
— Claro! Vamos.
Rodrigo desfez os chips, devolvendo-me o celular. Contou-me que hoje teria reunião e que precisava levar os tais documentos para mostrar aos fornecedores.
Tranquei a casa, pequei meu carregador para emprestar ao Rodrigo e saímos. Minha vizinha Sarah estava voltando, provavelmente deixara seus filhos na escola.
— Bom dia. – Disse ela.
Rodrigo deu um sorriso e eu parei.
— Bom dia. – Respondi. Ela sorriu e foi para a sua casa.
— Vamos, Dan! – Meu irmão já descia as escadas.
Saímos do prédio. Entramos em seu carro e ele pediu que eu pegasse uma pasta que estava no banco traseiro. Ele ligou o carro, esperou um pouco, ligou a seta e saiu.
— Preciso que leve isso e entregue para o Sr. Mauro. Ele é meu supervisor. Pedi que esperasse ao lado de fora da firma.
— Mas como eu faço para chegar lá? – Indaguei, já com a pasta na mão.
Rodrigo virou a rua e logo vimos o hospital infantil. Ele sequer olhava para mim, ansiando chegar logo onde sua filha estava.
— Pega o trem e solta naquela estação que fomos juntos para você entregar o currículo, lembra?
— Aham. – Assenti.
— É só atravessar a rua e você verá onde eu trabalho.
— Ah, sim! Estou lembrando.
Rodrigo encostou o carro.
— Tem dinheiro de passagem?
Gelei.
— Cara, eu nem peguei minha carteira. – Passei a mão no rosto.
— Você é louco de sair sem documento, rapaz? – Advertiu-me.
Olhei-o e ele me reprovou com o balançar da cabeça. Tirou uma quantia de sua carteira e me deu.
— Pode ficar, aproveita e lancha. Tirei você de casa muito cedo, nem me liguei que não tinha tomado café.
E eu não tinha mesmo. Esse acontecimento salvou minha barriga, digo, vida.
Eu só concordava. Saímos do carro e ele acenou em despedida, entrando correndo no prédio. Preocupei-me também.
Meu pai também agiu assim no dia do acidente, lembro-me bem dele correndo para dentro do hospital com Gabi nos braços.
Fechei meus olhos e apertei a pasta em minhas mãos.
Despertei com uma freada brusca. Voltei para a realidade e segui meu rumo. A estação não era muito longe, uma rua depois do Hospital Infantil.
Acelerei os passos. Chegando à estação, estava vindo um trem. Corri pela escada e comprei a passagem. Desci para a plataforma e pedi que segurassem a porta. Um rapaz, vendedor ambulante, segurou para mim.
—Valeu. – Agradeci ofegante.
O rapaz continuou empatando a porta e gritava “Vem, vem! Eu seguro!”. Encostei-me no outro lado do trem, pois foi o espaço que encontrei.
Não demorou muito e entrava uma menina grávida e outra moça ao lado.
— Obrigada. – Ela pediu, sorrindo.
O rapaz, finalmente, saiu da porta e a mesma se fechou, dando partida ao trem.
Quando a menina entrou, alguns a olharam, mas ninguém se levantou. Talvez por não terem visto sua barriga, ainda que pequena.
— Bora dar lugar pra mina aqui, ó. – Pediu o camelô.
Um rapaz, nada agradável, levantou-se bufando. A menina grávida o encarou.
— Não precisava levantar não, meu filho não irá adoecer se eu ficar em pé essa viagem. — Ela passou a mão na barriga, dando forma à gravidez.
O rapaz ficou sem graça e pediu desculpas, insistindo que ela sentasse. A moça que estava com ela, falou para que a menina se acalmasse.
Mudando de humor, a grávida sorriu para o rapaz e se assentou. Ambas falavam sobre a ultrassom, mas não me atentei totalmente para a conversa. No decorrer da viagem, o trem foi esvaziando e o rapaz que levantara para dar seu lugar, bufando para a grávida, acabou sentando ao lado da mesma.
Cheguei a minha estação. Saí do trem. Vi o vendedor ambulante, que segurou a porta, correndo para o outro trem.
Saí da estação, atravessei a passarela e logo vi o prédio da empresa. Como tinha muita gente em frente, não pude discernir quem era o Sr. Mauro. Ao descer a passarela, esperei o sinal fechar para atravessar. Não muito distante de mim, tinha um mendigo com um carrinho de supermercado e uma placa de papelão escrito “O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ” e “JESUS TE AMA E SÓ ELE SALVA”. Sem pensar, pus os pés na pista e recebi uma buzinada de um carro que passou por mim. Voltei para a calçada, num susto! Que agarrei a pasta em minhas mãos.
Aquele senhor do carrinho me olhou, também assustado. Ele olhou para o semáforo, como se fosse a maneira de me avisar que o sinal havia fechado. Assenti para ele e atravessei.
Não tive mais dificuldade em achar o tal supervisor o qual tive que entregar a pasta. Chamei-o e acenei e ele veio em minha direção.
— Você deve ser o irmão do Rodrigo, estou certo? – Perguntou-me com um aperto de mão.
— Sou sim. – Sorri – Aqui está a pasta, ele falou que era importante para a reunião, espero ter chegado a tempo.
— Ah, não se preocupe, os fornecedores, os donos mesmo, são de fora, mas eles já se adaptaram ao ritmo atrasado do brasileiro.
Eu ri simpaticamente. Mas achei tal "adaptação" uma forma de nos negligenciar. Apesar de eu mesmo ser um grande descompromissado com a hora.
— Realmente, os brasileiros têm esse defeito... – Lembrei-me de mim mesmo.
— Mas você chegou cedo, a reunião é só daqui a uma hora. — Disse ele, tirando um peso de minhas costas.
As pessoas passavam e me olhavam, mas, até então, não me dava conta do porquê.
— Mande melhoras para a filhinha dele. Eu sou pai de três meninas e sei o desespero que é. Mês passado mesmo a minha mais nova caiu da rampa andando de skate e quebrou o braço.
Sorri sem saber como é.
— Criança é imprevisível. – Comentei para sair do assunto.
— E muito... – Ficamos em silêncio – Muito obrigado. – Agradeceu.
Eu assenti e nos despedimos. O ambiente daquele lugar era tão... Tão... De outro mundo! Eu me senti até importante naquele meio de homens e mulheres com roupas sociais. Olhei para mim mesmo: bermuda, camisa de manga e chinelo. CHINELO?!
Eu nem me dei conta de como eu estava aparentemente. Devem ter pensado que eu era um office-boy, ou algo do tipo. Que vergonha!
Antes de voltar para casa, passei em uma lanchonete perto da empresa que meu irmão trabalha. Quando olhei para os valores de um lanche, quase caí para trás.
— Bom dia, senhor. – Abordou-me uma garçonete – Gostaria de uma mesa?
Eu estava com os olhos esbugalhados.
— Um copo de café é três e cinquenta?
— Uma xícara de café, senhor.
Abri a boca.
— Não, obrigado, irei ao meu amigo China mesmo.
As pessoas entravam e passavam por mim, muito deles com terno e penteados engomados e olhavam diretamente para as minhas vestes.
Se eu colocasse óculos escuro na cabeça, poderiam me confundir com um vendedor ambulante.
Eu me sentia estranho. As pessoas não deveriam ser assim, sabe? Diferenciarmo-nos por causa da roupa.
Despedi-me da garçonete simpática e voltei para a estação. Lá realmente tinha uma pastelaria do China. E foi lá mesmo que comi dois pastéis e tomei um refresco de maracujá. E só o refresco com o pastel era o preço da “xícara de café” daquele ambiente. Dei-me conta de que vivo em um mundo com acepção de pessoas passando por isso na pele. Isso é entristecedor.
— Não é? – Fiz dos meus pensamentos uma pergunta ao vento.
Um senhor miúdo que estava ao meu lado, comendo um pastel com caldo de cana me olhou duvidoso.
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