O Meu Ídolo - Sem Cortes
6 Doença assintomática
Na mesma noite da briga com Mariana, Júlia teve um pesadelo. Ela sonhou que alguém telefonava para a sua casa, chamando sua mãe para fazer o reconhecimento de seu corpo. Era como se Júlia fosse invisível, ela via a mãe atendendo o telefone, mas ninguém a via. Tentava gritar, mas a voz não saía. Em seguida, acordou assustada. Sentiu-se muito impressionada com o sonho, mas preferiu pensar que era fruto de um dia conturbado.
Procurando acalmar-se, foi até a cozinha e pegou um pouco de água. Voltou para o quarto e tentou dormir de novo, mas não conseguiu conciliar o sono. Passou horas rolando na cama, de um lado para o outro. Só conseguiu adormecer quando o dia estava quase clareando.
[Júlia]
Meu sono estava tão pesado que levei um susto quando minha irmã me acordou. Demorei tanto a adormecer, que quando consegui, já era quase manhã. Agora estou aqui, atrasadíssima para a escola, e, para melhorar a situação, hoje terá teste de química.
[Júlia]
Júlia chegou atrasada na escola. O porteiro tentou barrá-la, mas ela convenceu-o de que naquele dia precisaria muito assistir a aula. Ele, por fim, se deu por vencido e permitiu a entrada da garota.
Passou quase voando pelos corredores, até alcançar a sala de aula, parou na porta e o professor lançou sobre ela um olhar fuzilante.
- Professor, desculpe pelo atraso. Será que eu poderia assistir à sua aula?
- Atrasada de novo. É a segunda vez na semana.
- É que, acontecem alguns imprevistos.
- Eu já estava quase aplicando o teste. A sua sorte é que você é uma boa aluna, tem algum crédito comigo.
- Obrigada.
- Agora, sente-se.
O professor distribui todos os testes.
[Júlia]
Finalmente, eu pus as mãos no teste. Percorri meu olhar sobre o papel, com a intenção de sondar se as questões eram difíceis. Meu Deus, não pude acreditar que só caíram as questões que eu tinha maior dificuldade.
- Droga — falei tão alto, que quando me dei conta, todos os olhares estavam voltados para mim.
- Façam silêncio, por favor — disse meu professor.
Eu deveria ter estudado mais com a Mariana. Pensando nela, hoje senti um enorme vazio sem a minha amiga, mas não posso voltar atrás, ela me ofendeu, e meu orgulho fala mais alto nessas horas.
Não soube responder as perguntas. Cheguei em casa transtornada, e não teria ninguém a quem culpar. Da próxima vez, me empenharei mais. Por hora, eu só quero escutar o Bill cantando, quem sabe, colocar uma foto para eu poder viajar dentro daquele olhar.
Será que algum dia eu poderei vê-lo de perto? Será que eu teria capacidade de conquistá-lo? Iria ser muito louco se eu fugisse para a Alemanha só para encontrá-lo. O que se passa naquela cabeça? É tão incomum ver um homem como ele, com um estilo tão próprio. Eu queria ter o poder de ler seus pensamentos.
Enquanto eu não tenho a oportunidade de estar perto dele pessoalmente, bem que eu poderia ter o dvd zimmer, mas eu sou tão pobre, que se eu quiser, terei que pedir ao meu pai. Vou procurá-lo para pedir, afinal, farei aniversário daqui a duas semanas, ele não pode negar.
De uns meses para cá, meu pai quase nunca estava em casa. Assim que chegava do trabalho, logo saía, dizendo que ia fazer caminhada, alegando que elas tinham o poder de relaxá-lo.
Percorri a casa no intuito de encontrá-lo. Entrei no quarto dele e lá estava, calado como sempre. Entrei.
- Pai.
- Diga.
- Pai, eu vim aqui pedir uma coisa que estou querendo há muito tempo.
- Peça.
- Eu quero um dvd de uma banda que gosto.
- Aquela do cabeludo-maquiado?
- É Tokio Hotel.
- Sim. Você quer um dvd do Tokio Motel?
- Tirando a brincadeira, sim, eu quero.
- Está bem, darei no seu aniversário.
- Pai, tem mais uma coisa.
- Hum... a facada é agora né?
- Eu te amo.
- Eu também.
- Boa noite.
- Durma bem.
Incrivelmente, o meu pai era mais carinhoso do que a minha mãe. Na verdade, ela me amava muito, só não sabia demonstrar, às vezes, ela tomava atitudes para me proteger, mas pelo seu jeito de durona, acabava me magoando, mesmo desejando o bem para mim. Acho que ela era assim por sua mãe ter morrido na infância e ela ter sido criada só pelo pai. E se às vezes eu dizia que queria ir embora de casa, é porque eu sinto necessidade de liberdade e de uma vida-própria oras, estou quase completando dezessete. Sei que ser independente tem lá suas desvantagens, mas, um dia eu terei que descobrir como é ser dona do meu nariz, ir e vir a hora que quero — sem ser questionada.
Por hora, eu tenho mais é que me preparar para a escola, depois da prévia que tive hoje. Não sei o porquê, mas tenho o pressentimento de algo muito ruim que está por vir...
[Júlia]
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