Notas iniciais
Oi! Já faz um tempinho que eu não posto uma história de múltiplos capítulos, na verdade eu ando bem sumida daqui... Essa é uma das poucas ideias que eu senti a vontade de postar aqui, é uma história simples, mas que eu me senti bem escrevendo e queria compartilhar. Espero que você goste, boa leitura!

Há muitas coisas que eu gostaria de te dizer, mas acho que já não te devo essas palavras há muito tempo, então serei breve.

Eu estou indo embora.

A jovem bateu a porta do carro, sem tanta força, mas o barulho serviu para tirá-la de seus devaneios. Ela encarou seu próprio reflexo na janela do veículo, estava séria, enquanto seus delicados dedos ajeitavam suas mechas claras e castanhas para trás de suas orelhas.

Já havia se passado do meio dia. A rua em que estacionou era estreita, pequena, miúda e tão apertada! Flores e pequenas árvores decoravam as frentes das casas ao redor, altas e juntinhas com seus segundos ou mais andares, porém eram adoráveis aos olhos da jovem.

O sol iluminava o caminho pela calçada e trazia um ar reconfortante àquela rua, uma segurança que ela sentia falta. O silêncio era apreciado, vez ou outra interrompido pelo canto dos pássaros no alto dos postes.

"Sei que fui um incômodo para você, então não me procure mais, Eu também não vou voltar atrás. Espero que viva bem e aproveite a paz que tanto me cobrou... Eu sinto muito por tirar isso de você."

A jovem andou até a parte de trás do carro, balançando o pequeno molho de chaves até ter entre seus dedos a certa, encaixando-a na fechadura. Alguns brutos empurrões…

— Lata-velha… — e resmungos frustrados depois, ela finalmente conseguiu abrir o porta-malas, soltando um suspiro cansado. Com uma mão posta sobre sua própria barriga e a outra se aventurando no fundo do compartimento, ela fez força para tirar a grande e pesada mala de dentro, largando-a na calçada da melhor forma que conseguia.

Outro suspiro, seguido de uma respiração profunda para recuperar as energias. Sua mão acariciou sua barriga, uma mania, movimentando o delicado tecido laranja; o grande volume na região forçava a saia do vestido a se erguer mais do que o normal, e a coluna e os pés da mulher a fazerem esforço em dobro.

Um árduo trabalho apenas para seu próprio bebê não a fazer cair de testa no chão. Ainda que exaustivo, a jovem sorria ao se lembrar do “pequeno detalhe".

Ela olhou para o lado e logo atrás de sua mala podia enxergar a grande placa de "vende-se", cobrindo parte da porta da única casa, naquela rua, que não possuía um segundo andar. Cores desbotadas, algumas teias de aranha nos cantos das janelas, vidros empoeirados e, do pouco que a jovem conseguia enxergar do telhado da residência, telhas quebradas.

A mulher subiu na calçada, aproximando-se da porta. Ela levou suas mãos e sem hesitar descolou a placa que a tapava, largando-a na calçada; seus olhos logo encaravam a maçaneta.

"Eu tenho algo muito mais precioso do que eu mesma para proteger agora, algo que não posso arriscar perder.

Essa é uma das coisas que eu sou grata por você ter me dado, obrigada."

Mais uma vez balançando o molho de chaves em sua mão, ela então segurou com firmeza a chave prateada. Encaixando-a na fechadura da porta, ela girou uma, duas vezes… E ouviu o estalo.

Ela virou a maçaneta e empurrou a porta para frente; um ar empoeirado acertou seu rosto antes que fizesse algo mais, fazendo-a abanar a mão e mexer o nariz. Após uma rápida olhada no interior, a jovem deu seus primeiros passos para dentro de seu novo lar.

— Quanta poeira… — pensou alto, deslizando seu indicador pela superfície de um dos móveis e observou a sujeira grossa cobrir seu dedo. Os móveis deixados para trás estavam em boas condições, os quais não eram muitos, a casa possuía uma sala espaçosa como entrada e uma pequena cozinha logo à frente; o corredor do lado esquerdo levava ao quarto e banheiro.

Não havia espaço para uma uma área de lazer ou para decorar, uma casa pequena sem caprichos ou mimos. Apenas para duas pessoas, no máximo.

— ...Perfeita — a mulher sorriu de orelha a orelha. Batendo algumas palminhas, ela se livrou da poeira nas mãos e voltou para o lado de fora, arrastando sua mala para dentro da casa.

E a porta se fechou. A jovem andava ao redor de seu novo lar como uma criança; até mesmo a rachadura no lado esquerdo da janela era interessante aos seus olhos, ou a forma como o sol atravessava os vidros e iluminava o interior de forma tão aconchegante.

— ...Poxa — ela se sentou no sofá da sala após algumas voltas ao redor. Descansando suas mãos sobre a barriga, a mulher suspirou contente — Temos muito a fazer por aqui, não é?

E então a jovem ouviu um som alto vindo do lado de fora, familiar, e a curiosidade de uma grávida não é algo a ser subestimado. Ela se levantou e foi até o sofá ao lado, subindo de joelhos sobre o assento e se escorou na janela com os braços, espiando a rua.

O som permanecia, mas ela não enxergava nada irregular daquele ângulo. Decidiu se levantar então; a mulher foi até a porta de casa e saiu para o lado de fora.

A casa ao lado chamou a atenção, a fonte do barulho que a jovem ouvia. O portão de enrolar na frente da construção era erguido aos poucos, só então ela percebeu ser um comércio.

Aos poucos, a mulher teve visão das pequenas fruteiras de madeira, cheias de frutas frescas e maduras. Ao fundo, pequenas caixas sem atendentes e minúsculos corredores, com suas prateleiras repletas de produtos. Tratava-se de um mercado, afinal.

Quando o portão terminou de subir, a jovem se aproximou da entrada do mercado. Ela então sentiu uma batida contra seu braço, repentina e bruta que a fez dar passos desajeitados para o lado.

Suas orbes cor chocolate se encontraram com as azuis de um jovem rapaz. Ele estava de costas para ela, encarando-a por cima do ombro enquanto segurava a corrente responsável por levantar o portão do mercado; seus cabelos morenos estavam presos a um coque mal feito e ele usava um avental por cima de sua roupa.

— Você está bem? — ele perguntou. Prendendo a corrente no chão e se virando para a jovem, seus olhos instintivamente baixaram para o volume em sua barriga, mas logo voltaram para o rosto da mulher; ele parecia sem graça. — Desculpa, eu não te vi.

— Não, tudo bem… Não tem problema — ela disse, tão sem graça quanto, recuperando-se do susto —, com licença, é… Você trabalha aqui?

— Hã? Sim, trabalho… Precisa de alguma coisa? — ele andou para dentro do mercado, deixando apenas a mulher na calçada. — Acabamos de abrir, pode ficar à vontade.

— É que… Eu acabei de me mudar pra cá, eu comprei a casa ao lado — a jovem fez um gesto com a mão que o rapaz seguiu com os olhos, surpreso —, eu não sabia que tinha um comércio do lado…

— Ah, então você é a nossa nova vizinha? A gente mora aqui em cima — o rapaz apontou para o teto do mercado, referindo ao segundo andar do prédio — esse é o mercado da minha família.

— Ah… Entendi — a jovem respondeu simples. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, um constrangedor silêncio, sem saberem como seguirem a conversa.

— O… O meu nome é Eliza, aliás — ela complementou após segundos, sorrindo para o rapaz.

— Jim, prazer — ele devolveu o sorriso, mas seus olhos não puderam evitar de encarar a barriga da jovem novamente. Dessa vez, não passou despercebido.

— ...Sete meses — ela disse, recebendo um olhar confuso — de gravidez.

— Ah! Desculpa, eu não…

— Tudo bem, todo mundo olha — Eliza ergueu os ombros, rindo. Então passou pela entrada do mercado e ficou de costas para o rapaz, olhando as frutas expostas; não podia negar, todas pareciam ótimas, mas deveria levar alguma?

— Eu até fiquei feliz de saber que tem um mercado pertinho… Facilita as coisas pra mim.

— O seu marido não te ajuda com esse tipo de coisa? — Jim perguntou, tentando prosseguir com o assunto.

A expressão no rosto da jovem esfriou e seu sorriso se desfez, então o rapaz percebeu que havia dito algo que não devia. Ele olhou de relance para a nova vizinha, depois para as frutas.

— ...As laranjas estão boas — o rapaz murmurou, chamando a atenção de Eliza novamente —, as menores.

Ela olhou em direção às laranjas. Um sorriso fraco escapou de seus lábios e ela riu, caminhando para perto da fruteira e pegando um dos sacos plásticos disponíveis, enquanto sua outra mão limpava seus olhos.

— Obrigada — Eliza o olhou de canto, então começou a escolher as frutas que lhe agradavam, colocando-as dentro do saco.

Jim acenou com a cabeça, ainda olhando para a jovem por poucos segundos antes de dar as costas; caminhando para se sentar em um dos caixas vagos. Respirou fundo, com a cabeça largada para trás no encosto da cadeira e os braços sobre as pernas.

"Foi uma decisão muito difícil, parte de mim queria ficar… Mesmo que já não fosse bem-vinda, eu ainda tinha esperança que as coisas iriam melhorar.

Eu vou me mudar para uma casa distante. Em uma cidade vizinha."

Eliza olhou para as laranjas dentro do saco, satisfeita com suas escolhas; o aroma cítrico era delicioso, convidativo. A jovem fez seu caminho até o caixa onde o rapaz estava, ambos trocaram olhares amigáveis, mas nada disseram um para o outro, preferiram assim.

E enquanto Jim pesava as frutas, Eliza levou as mãos à cintura para pegar o dinheiro, então percebeu.

— Eu não trouxe minha bolsa — ela disse, tateando o quadril. Jim pôde notar as bochechas da jovem se avermelhando. — Ai, que avoada…

— Relaxa, tá tudo bem — ele respondeu sorrindo, colocando o adesivo de preço no saco e o largou sobre o caixa —, você mora ao lado.

Eliza o olhou surpresa. Então desviando o olhar para a entrada do mercado e colocando as mechas castanhas para trás das orelhas, ela disfarçou sua vergonha.

— Você não se importa se eu for buscar a minha bolsa?

— Pode ir, o mercado não tá tão cheio assim — ele brincou, olhando em volta como se procurasse clientes, o suficiente para fazer Eliza se acalmar e rir do comentário. Em passos apressados, ela foi para fora do mercado até seu carro estacionado, sumindo da vista de Jim.

"Acredito que será melhor assim, poderemos seguir nossas vidas sem medo de esbarrarmos um no outro. Sermos felizes de novo.

A porta do veículo abriu após um bom puxão de Eliza. Ela apoiou-se no banco do motorista e inclinou seu corpo para dentro, esticando a mão para pegar a pequena bolsa largada no banco do passageiro.

Logo, a fina alça do acessório já se apoiava em seu ombro. Ela empurrou a porta do carro com seu quadril e voltou até o mercado, dessa vez com sua bolsa.

— Pronto! Desculpa… — ela chamou a atenção do rapaz de orbes azuis, aproximando-se do caixa. Eliza enfiou sua mão para dentro da bolsa e retirou a pequena carteira, contando seu dinheiro.

— Não tem problema — ele disse enquanto abria a caixa registradora com um simples toque do dedo. Ao ter o dinheiro entregue em suas mãos, Jim o colocou na pequena gaveta e pegou uma sacola ao lado, para pôr o saco de laranjas.

Ele hesitou antes de entregar a compra para Eliza, porém, deixando a jovem confusa.

— Você quer ajuda pra levar? — ele perguntou, oferecendo-se. — Tá meio pesada.

— Tá tudo bem — ela respondeu, pegando nas alças da sacola e a tirou das mãos do rapaz —, eu moro ao lado.

Jim observou a mulher enquanto ela o deixava para trás, sentado no minúsculo caixa, com cara de bobo e bochechas vermelhas.

Eliza se virou para o mercado ao dar o primeiro passo na calçada, com um sorriso em seus lábios.

— Bom dia, vizinho! — ela acenou para Jim, do lado de fora.

“Espero de verdade que entenda minha decisão. Você sempre disse que eu era alguém ambiciosa, não é? Mesmo que fosse em forma de insulto.

...Cuide-se.

Com carinho, Eliza.”

Notas finais
Os capítulos não terão uma data para serem lançados, mas eu vou tentar não demorar muito com os primeiros. Obrigada por ler!