Notas iniciais
Oi! Tudo bem? Primeiro, eu gostaria de dizer que agora O Mercado ao Lado tem uma capa! O desenho de Eliza foi feito por mim, espero que gostem da aparência dela. Esse foi o principal motivo pro primeiro capítulo não ter sido postado antes, eu gastei um tempinho nessa capa... Enfim, desculpem qualquer erro e boa leitura!

Eliza sentia o suco cítrico fugir pelos cantos de sua boca, escorrer por seus pulsos e até mesmo pingar em sua barriga; uma mordida na pequena laranja bastava para que a jovem ficasse toda grudenta, um detalhe que não a incomodava, era a primeira vez em algum tempo que provava uma laranja tão suculenta.

Ela olhava pela janela de sua casa enquanto saboreava a fruta, sentada em seu sofá, com a porta da frente aberta para que a brisa entrasse e, quem sabe, a poeira se fosse.

Ah, como queria que fosse fácil assim. Vez ou outra, seus olhos se desviavam para a velha vassoura no canto da sala — dos antigos moradores — e voltavam a encarar a janela quase de imediato; o que os olhos não veem, o coração não sente, então por que se sentia julgada por aquele objeto inanimado?

Suspirou, seu corpo já não possuía a mesma energia de antes, e após uma longa viagem de carro sem conforto algum, Eliza só pensava em uma coisa: Cama. Seu corpo reclamava, sua mente reclamava e, seu bebê, também.

— …Vamos, dê pra mamãe algum apoio — Eliza se levantou do sofá entre resmungos, segurando o bagaço da laranja em uma mão e foi até a cozinha ao lado, jogando-o na lixeira —, quanto mais forte a chuva, mais doce será o sol.

A jovem falava com sua bela barriga enquanto abria a torneira da pia e lavava suas mãos, livrando-se do suco da laranja. Havia deixado o saco com as demais frutas em um balcão próximo, ainda não tinha onde guardá-las, mas isso era algo para se preocupar depois.

Eliza balançou as mãos no ar rapidamente, respingando água para todos os lados; não era a forma mais eficiente de se secar, mas a melhor dada as opções. Ela teria que voltar naquele mercado, afinal, claro, faltava quase tudo em sua casa!

Terminando de passar os dedos ainda úmidos na saia do vestido, ela voltou para a sala e pegou a vassoura antes encostada na parede. Retirando as teias de seu cabo — com certa agonia —, ela estava pronta para ser sua nova companheira de faxina.

A jovem começou por aquele mesmo cômodo, sem se dar ao trabalho de abaixar o corpo para varrer embaixo dos móveis ou arredá-los, além de sua própria mala. Ela apenas varria aquilo que seus olhos podiam enxergar, jogando a poeira porta afora de pouco em pouco.

(...)

O piso cinzento já começava a mostrar suas verdadeiras cores conforme Eliza o livrava da grossa camada de sujeira. Ora ou outra, ela se via soltando um espirro e coçando o nariz, além das fisgadas em suas costas devido ao esforço.

Ocasionalmente, Eliza era obrigada a parar de varrer, voltar à cozinha, pegar uma laranja do saco e sair chupando para recuperar suas energias. Cascas no lixo, gomos na boca e vassoura em mãos, ela continuou aquele processo para todo o resto da casa, até que seus lábios estivessem ácidos e, o saco de laranjas? Praticamente vazio.

Para ela, as horas da tarde passaram tão rápido quanto os movimentos da vassoura. O céu visto da janela da sala já havia se tornado alaranjado e a brisa vinda da rua lhe causava arrepios de frio.

O que mais lhe roubava a atenção, no entanto, eram os momentos que seus pés pisavam do lado de fora de casa, para expulsar a poeira recém varrida. Eliza podia ouvir os barulhos ao lado com clareza e a curiosidade guiava seu olhar para o mercado, mais uma vez.

Vozes altas que ainda não reconhecia, risadas contagiantes, passos de um lado para o outro e sacolas; era convidativo, ao mesmo tempo que intimidador. Ela se encostava por poucos minutos na porta e apenas escutava, perguntando-se quando iria se familiarizar com aquilo.

Quando Eliza voltava sua atenção para dentro de casa, sorria orgulhosa, contente. Algumas horas de faxina e seu lar já parecia mais vivo, era um bom começo, embora ainda houvesse muito para se fazer.

Ela deu suas costas para a rua e fechou a porta, largou a vassoura em um canto da sala e pegou uma toalha de dentro da mala enquanto ia em direção ao banheiro; seu corpo dolorido e suado pedia por um banho. Ao entrar e olhar com mais calma, percebeu como era pequeno, para não dizer minúsculo. Tentou não se estressar — muito — sobre, despindo-se e aproveitou o momento para se olhar no espelho sobre a pia enquanto o fazia.

Eliza foi obrigada a se colocar na ponta dos pés para enxergar o que queria, encarando o reflexo de sua barriga. Suas mãos deslizaram gentilmente pela região, fazendo voltas com os dedos ao redor de seu umbigo. Riu sozinha, afinal, cada toque seu causava uma reação do pequenino em seu ventre.

— Vamos pro banho, meu amor? — Perguntou. Eliza sentiu seu corpo esfriando e decidiu se apressar para debaixo do chuveiro, ligando a água quente, mas os primeiros jatos vieram gelados, acertando seu corpo e a fazendo dar pulinhos desesperados para longe.

A temperatura se estabilizou sem demora após o susto, a jovem pôde aproveitar seu momento de sossego sentindo a água quente correr por seu rosto e corpo; seu bebê também se agradou do banho, movendo-se de um lado para o outro e causando desconfortos para a mãe.

Ao fim de seu banho, os movimentos em sua barriga cessaram, permitindo que Eliza secasse o corpo e saísse com tranquilidade do banheiro, lembrando-se de arrastar a mala consigo para dentro de seu novo quarto. Era espaçoso o suficiente, havia uma bela cama de casal, mesinhas ao lado, um grande armário e uma cômoda.

Sentada na beira da cama, ela começou a tirar as roupas dobradas de dentro da mala e colocá-las ao seu lado, escolhendo o que vestir; a maioria eram vestidos, para garantir seu próprio conforto.

Escolhendo o que mais lhe agradara, ela vestiu-se e saiu do quarto às pressas, passando pela sala e puxando a bolsa de cima do sofá. O vento jogou as mechas úmidas da jovem para trás ao sair de casa, o sol já estava se pondo.

Eliza caminhava pela calçada em seu próprio ritmo. A luz de dentro do mercado iluminou seu rosto após poucos passos, seus olhos se voltaram para dentro do comércio à procura de alguém mas, de repente, tudo estava silencioso.

Ela entrou no estabelecimento e observou as fruteiras. Estavam mais vazias do que quando havia chegado de manhã, mas não faltavam opções; enquanto pegava um dos sacos plásticos para ir atrás dos legumes, Eliza pôs-se a pensar… O que poderia cozinhar?

Poucas ideias vieram à mente, mas ao combiná-las poderia fazer um jantar decente. Quando encheu o saco em mãos de cenouras, um aroma sutil de outra direção veio até seu nariz, era doce, tão doce. Eliza guiou seus olhos para o fundo do mercado, dando um firme nó no saco e se foi para além dos caixas, adentrando os pequenos corredores.

Encantada pelo cheiro, até mesmo seu estômago havia feito presença, constrangendo a jovem com seus pequenos roncos. Ao fim do corredor, Eliza teve visão do que se parecia com uma pequena fiambreria, o vidro expositor do longo balcão mostrava os mais diversos produtos, mas não eram o que ela estava procurando. Logo ao lado, via-se uma escada que levava para o andar de cima do prédio.

Eliza olhou ao redor. Não estava entendendo nada. Não havia ninguém ali, então de onde vinha aquele cheiro saboroso?

A dúvida foi sanada com o súbito som de passos acima de sua cabeça, que guiavam-se até às escadas. A jovem seguiu o barulho com o olhar, até ver uma figura descer os degraus da escada; uma mulher de corpo esguio e que, do ângulo de Eliza, o rosto era tapado pela grande assadeira que carregava nos braços.

A mulher cuidadosamente desceu o último degrau da escada e seus olhos escuros se encontraram com os de Eliza após se virar, fazendo-a dar um pulo de susto — que foi acompanhado pela jovem — e quase levar a assadeira ao chão.

— Misericórdia! — Gritou exasperada.

— Me desculpe! — Eliza disse surpresa. Suas bochechas aos poucos se tornavam tomates. — E-Eu estava esperando alguém vir atender e…

A mulher apoiou a assadeira em um único braço e ergueu a mão para que a jovem se calasse, parecia precisar de um minuto para acalmar seus nervos. Seus cabelos batiam um pouco abaixo do queixo, uma cor escura semelhante aos do rapaz que Eliza conhecera.

— Por que você tá parada aí, igual um fantasma, menina!? — perguntou de olhos arregalados. — Quase me mata do coração!

A mulher balançou a cabeça e carregou a assadeira até o balcão da fiambreria, largando-a sobre o móvel de uma vez. Eliza manteve seu olhar sobre ela de bico calado, ombros encolhidos e uma expressão envergonhada.

— …Ai, desculpa, é que — a mulher se apoiou no vidro passou uma das mãos pelo rosto, bufando, então voltou sua atenção à jovem — não é corriqueiro entrar cliente essa hora aqui… E você parada aí no meio, em silêncio…

— Eu sinto muito, não era minha intenção assustar a senhora… — Eliza murmurou. Não sabia onde enfiar a cara.

— Não, não, não peça desculpas — retomando sua compostura, a mulher apoiou a mão sobre o quadril e respirou fundo. — Então, o que vai querer? O pão de ló acabou de sair do forno.

— Pão de ló? — Eliza indagou. Sua atenção foi para a assadeira posta sobre o balcão, um cheiro maravilhoso emanava daquela massa recém assada e atiçava o apetite da jovem.

— A especialidade da casa, fazemos ao fim da tarde para vender pela manhã — a mulher explicou, passando por Eliza para o outro lado do balcão. Pegando os utensílios da fiambreria, ela se preparou para desenformar o assado e colocá-lo em um prato de vidro.

— Não me diga que nunca comeu, é um bolo tradicional.

— Eu já ouvi falar… — Eliza engoliu a saliva na boca — mas nunca experimentei.

O bolo foi colocado com cuidado sobre o prato, mostrando sua real beleza fora da assadeira. O olhar da mulher caiu sobre Eliza novamente, não apenas por notar como a jovem parecia prestes a avançar no bolo, talvez no prato, mas pelos roncos de sua barriga.

— Que tal levar um pedaço? — sugeriu a mulher de cabelos curtos. Agora com um sorriso de quem continha a risada, ela ergueu a espátula de bolo em sua mão direita. — Fatia extralarga, já que você levará por dois.

— O quê? Não, não! — riu Eliza constrangida. — Eu não terei como pagar por isso, um pedaço pequeno está bom.

— E quem disse que eu cobro caro de vizinho? — indagou faceira. O suficiente para calar Eliza e a deixar com um olhar de espanto.

(...)

As luzes da casa já estavam acesas, uma vez que o céu do lado de fora se despedia do sol e se deixava ser enfeitado por estrelas. O cheiro de comida começava a se espalhar pelos cômodos e trazer uma certa nostalgia para Eliza.

Ela picava os legumes na tábua de cortar e os jogava para dentro da panela, mexendo o ensopado com uma colher e logo depois aumentando o fogo. O restante das compras estavam espalhadas em sacolas pela mesa, incluindo seu precioso pão de ló.

A jovem, nada boba, sabia que uma novidade como uma moradora nova não demoraria a se espalhar pela vizinhança, porém se surpreendeu com a hospitalidade logo ao chegar. Pensava sobre o ocorrido no mercado enquanto cozinhava, parte feliz, parte confusa. Não estava acostumada.

Eliza mexeu o caldo dentro da panela mais uma vez após alguns minutos e levou a colher até a boca, soprando, então provando. Fez uma careta.

— Salgado… — murmurou com decepção, desligando o fogo. Ela pegou um prato no armário e serviu uma porção do ensopado, ao menos estava com uma cara boa. Empurrando as compras para o lado da mesa, sentou-se com seu jantar no espaço vago, olhando para a cadeira vazia à frente.

Sua mente de repente lhe pregou uma peça; um olhar entristecido tomou conta de seu rosto quando percebeu que o único som que impedia o silêncio completo dentro da casa era o de suas próprias colheradas na comida. Um déjà vu que ela desejava não ter notado.

Abaixou o rosto, afastando sua emoção e concentrando-se no ensopado. Eliza acariciou sua barriga e continuou a comer, assim passara sua primeira noite, jantando ao som do silêncio.