Notas iniciais
Oi! Tudo bem? Partes desse capítulos foram reescritas várias vezes, eu simplesmente não conseguia ficar satisfeita com ele! Mas... Acho que agora consegui passar o que queria. Espero que gostem e me desculpem por qualquer erro. Boa leitura!

O restante da noite passou despercebido. Eliza apenas se recordava da água gelada correndo por suas mãos ao lavar a louça e do frio que se prendeu à elas, das sacolas sendo amassadas dentro da lixeira após guardar as compras e dos pensamentos vagos que a acompanharam e puseram para dormir momentos depois.

Quando se deu por conta, já estava abrindo seus olhos cansados para a manhã do dia seguinte.

Remexeu-se na cama, com um travesseiro macio sob sua barriga e outro onde afundava o rosto. Usava o mesmo vestido de ontem e as sapatilhas escuras permaneciam em seus pés, sequer deu-se o trabalho de puxar as cobertas ou arrumar as roupas empilhadas na beirada da cama.

Ela apoiou seu cotovelo no colchão e ergueu o corpo, reclamando e puxando o ar entre os dentes, sentia dores por todo o lugar. Eliza passou a mão por seus olhos inchados e soltou um bocejo, olhando ao redor de seu quarto, até o lado vazio da cama. Ela ainda não era capaz de se sentir confortável no novo ambiente, sequer sonhara, mas acreditava que seria uma questão de poucos dias até que isso mudasse.

Fez esforço para se sentar, tirando as sapatilhas e as lançando para cantos diferentes do quarto. Apertou os dedinhos de seus pés enfim livres e os esticou, suspirando em alívio. Pisando descalça no chão da casa, Eliza levantou-se sem preocupação e caminhou até o banheiro para fazer sua higiene diária.

Poucos minutos depois já se via saindo do pequeno cômodo, com uma aparência melhor. Eliza prendeu seus cabelos castanhos para trás em um rabo de cavalo, pequenas mechas ainda assim escapavam e lhe faziam cócegas no pescoço. Olhou para baixo enquanto andava até a cozinha, percebendo que a faxina no chão do dia anterior não havia sido nada mal, realmente, mesmo custando-lhe um dia sem dores.

Discutindo em seu interior se deveria ou não se arrepender das escolhas de um dia que já passou, sua atenção mudou para a mesa da cozinha, até que sua mente se calasse e focasse no que estava no topo dela: Bolo!

Havia deixado a fatia de pão de ló no centro da mesa, ainda embalada na caixinha de papel que a mulher do mercado tão educadamente colocou; não havia perguntado o nome dela, ainda. Eliza apressou-se para pegar um garfo da gaveta do balcão enquanto devorava o bolo com os olhos, não faminta, porém gulosa. Não era a primeira vez que começava pela sobremesa e nem seria a última.

Feito isso, foram questões de segundos para que descobrisse como arrancar a embalagem de papel, encantando-se pela segunda vez com o cheiro doce que invadiu seu nariz; um aroma sutil de canela e mel. A jovem se sentou na cadeira sem mais delongas e deu a primeira garfada no bolo, levando à boca cuidadosamente.

— Hmm… — murmúrios de deleite e balanços de cabeça. O sabor era delicioso, delicioso, como se derretesse em sua boca, um pequeno pedaço do paraíso. Seus olhos chegavam a se fechar apenas para aproveitar melhor cada garfada, um gesto um tanto infantil, mas não havia ninguém ali para julgar sua alegria, não mais.

Eliza olhou em direção à sala enquanto comia, observando a janela com as persianas fechadas. Sentiu um certo desconforto por estar no escuro. Ela se levantou, não sem antes comer mais uma generosa garfada do bolo, então foi até a janela.

Abrindo suas persianas e deixando a luz do sol iluminar sua casa uma vez mais, semicerrou os olhos devido à claridade. Aproveitou para observar a rua por alguns minutos; vazia, monótona e quieta. O céu estava coberto por nuvens e não se via o sol, uma manhã nublada. Não tinha noção de que horas eram, ainda assim acreditava não se passar do meio dia, já que não havia escutado o som do portão ao lado sendo aberto.

Eliza não sabia dizer se o mercado era barulhento ou se o silêncio da rua o dava destaque, mas era curioso como ele sempre lhe chamava a atenção. Não tinha nada de peculiar, tampouco extraordinário, era sua simplicidade que cativava sua mais nova cliente. Perdida nesses pensamentos, por muito pouco não se esqueceu do resto de bolo que a esperava na mesa.

Dando ouvidos aos roncares de sua barriga, Eliza voltou à cozinha para terminar seu café da manhã e se arrumar para um novo dia.

(...)

O sol já era capaz de aquecer sua testa e bochechas com fervor quando Eliza pôs os pés fora de casa. Uma rajada de vento jogou seus cabelos para o lado e a obrigou a segurar a saia do vestido, ou voaria para cima. Tal vestido era mais fresco que o anterior, mas começava a se arrepender da escolha. Usava chinelos em seus pés; seus pobres dedinhos ainda reclamavam da noite presos em sapatilhas.

Ela olhou em direção ao mercado, que para sua surpresa e desapontamento seguia fechado. De repente, tudo pareceu uma memória distante: os risos, os passos e as sacolas.

Em uma das mãos, segurava o cabo de sua nova companheira de faxina, a velha vassoura. Usaria muito de sua ajuda pelos próximos dias, pois por mais que quisesse — e precisasse — descansar, uma casa suja lhe dava nos nervos. Eliza tirou seus olhos do mercado e se virou para a frente da casa, observando a sujeira que a tomava.

Erguendo a vassoura até que alcançasse debaixo das telhas expostas, em fracos movimentos de um lado para o outro tirou desajeitadamente as teias de aranha que se acumulavam. Prestava atenção nos próprios dedos, com medo que alguma aranha os escalasse, mas felizmente eram teias abandonadas.

Não demorou muito para que terminasse, ela se viu abaixando a vassoura antes de ficar pesada e seus braços doerem; olhava satisfeita para as telhas limpas, ganharam um aspecto muito melhor. Então abaixou o rosto, encarando o vidro da janela logo à sua frente, a camada espessa de poeira tornava a visão de dentro da casa cinzenta e seu próprio reflexo difícil de se enxergar. Não era algo que resolveria com uma vassoura.

Eliza se preparou para entrar em casa e ver o que tinha à disposição, quando um vulto que vira pelo canto dos olhos chamou sua atenção. Virou seu rosto na direção do mercado, enxergando o jovem rapaz de cabelos escuros aproximando-se lentamente pela calçada. Usava uma roupa esportiva e uma jaqueta por cima, cujo capuz ele insistia em puxar para cima, mas o vento o derrubava de volta.

Conforme se aproximava do mercado, o olhar de Jim se ergueu do chão, buscando ver o que estava à frente. Deparou-se com os olhos castanhos e curiosos de sua nova vizinha sobre ele, e ela com os azuis quase fechados de cansaço dele. Eliza pôde notar como o rosto do rapaz pingava suor e como ofegava, parecia ter corrido uma maratona.

— …Bom dia — ele a cumprimentou primeiro, passando o pulso pelo queixo.

— Bom dia — respondeu ela, olhando de relance para o comércio —, o mercado vai abrir hoje?

Jim demorou a responder, mais preocupado em mexer no bolso da jaqueta, até ter em mãos um pequeno molho de chaves.

— Talvez mais tarde, já que é domingo — dito isso, o rapaz enfiou a chave certa na fechadura da porta camuflada do portão, destrancando-a. Eliza se constrangeu, abaixando o olhar para o cabo da vassoura em suas mãos.

— Por que a pergunta? — ele indagou, empurrando a porta para trás. — Se precisa de algo, posso te atender rapidinho.

— Ah não, não! Imagina — Eliza exclamou surpresa, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha —, o que eu preciso acho que não vende aqui.

— Que seria? — Jim a encarou, cansado.

— Um… — ela olhou de relance para a janela — balde.

— Balde? — ele franziu a testa, pondo-se a pensar. — Olha… Balde, a gente não vende mesmo.

Eliza sorriu sem graça, abrindo a boca para falar, porém o rapaz atropelou suas palavras ao continuar: — Mas posso te emprestar um.

— Tudo bem, eu vou ver se… — parou, surpresa. — Mesmo?

— Claro, sem problema nenhum. — Jim ergueu os ombros, lançando um sorriso fraco para ela enquanto abria o fecho da jaqueta. — É só do balde que precisa?

— É… De um balde e de um pano, mas pode ser só o balde.

— Eu vejo os dois, um segundo. — Ele fez um gesto com a mão para que a jovem esperasse, então sumiu de vista, deixando-a sozinha na calçada.

— Obrigada — Eliza murmurou, encostando suas costas na parede de casa e deixou a mão sobre a barriga. Esperou pacientemente o rapaz voltar, erguendo seu olhar para o céu; as nuvens brancas que vira mais cedo se tornaram densas e sombrias, escondendo a beleza do dia — que já não era tanta. Logo choveria, pensou inocentemente.

Passou-se um tempo, longos minutos de silêncio. O suficiente para Eliza se perder em pensamentos e o vento da rua se tornar mais forte, causando-lhe frio com aquele fino vestido. Antes que pudesse ir pegar um casaco, escutou passos vindos do mercado.

Ela voltou sua atenção à porta escancarada do portão, vendo Jim sair para a rua segurando um balde cheio d’água e um pano em sua borda, andando em sua direção.

Sua aparência fez Eliza acreditar que ele havia tomado um banho antes de voltar; usava uma roupa fresca e seus cabelos estavam molhados, embolados no que, para ela, parecia-se com um coque extremamente mal feito. Não tinha certeza se era, não pretendia perguntar também.

— É isso? — perguntou ele. — Precisa de ajuda com mais alguma coisa?

— Não, só isso. Muito obrigada — sorrindo, Eliza deixou a vassoura encostada na parede e levou as mãos até o balde.

— Tá pesado — Jim avisou, cuidadosamente afastando a alça dos dedos da vizinha —, onde eu deixo?

— Ah, pode... Pode deixar aqui no chão mesmo — disse surpresa, recolhendo as mãos. — Obrigada.

— Pode ficar com o pano se quiser. — O rapaz largou o balde próximo dos pés de Eliza. — Minha velha tem vários desse.

Ao se erguer, ambos trocaram olhares. A diferença de altura entre ambos não era tamanha, mas chamativa; precisaram inclinar suas cabeças para encararem um ao outro. Eliza sorriu, desviando seu olhar e negando com a cabeça.

— Não, imagina — disse ela, sem graça, abaixando-se para pegar o tecido levemente encardido na beirada do balde. — Eu posso passar numa loja depois e comprar um.

— Considere uma gentileza de vizinho.

— Igual a das laranjas? — Eliza lhe lançou um olhar curioso, apoiada na parede.

— Depende, vai negar essa também? — perguntou ele, arrancando uma risada dela.

— Bom... Obrigada, então — disse risonha, mergulhando o pano na água do balde. Sentiu arrepios percorrerem seu braço. Estava gelada!

— …E como estavam?

— O quê?

— As laranjas.

— Ah, deliciosas! — Ela torceu o pano para tirar o excesso de água, erguendo o corpo com certa dificuldade, então continuou a dizer: — As melhores que comi em… Sabe-se lá quanto tempo.

O rapaz sorriu contente, observando Eliza deslizar o pano úmido pelo vidro da janela. Percebendo que a jovem não falaria mais nada, ele tampouco, Jim deu as costas à ela, caminhando para dentro do mercado. Eliza o seguiu com os olhos brevemente, então voltou a limpar a janela.

Esfregou o pano de um lado para o outro, para cima, para baixo, as vezes até em movimentos circulares que lhe cansavam o braço. Ao tirá-lo do vidro, percebeu que pouca coisa mudara, a maior parte da poeira estava do lado de dentro. Ainda assim, estava feliz, pois seu reflexo já era mais nítido.

Eliza jogou o pano para dentro do balde e entrou em casa, apenas para voltar com um tubo de detergente em mãos. Ela esguichou o produto na água do balde, mexendo-a com o pano até criar espuma, então continuou a limpar o vidro na parte de dentro. De repente a rua parecia mais vívida, colorida, mesmo em um dia nublado.

Em certo ponto, sentiu que já era o suficiente e afastou o pano. Minuciosamente olhou para o vidro, procurando por qualquer poeira que houvesse deixado para trás. Tudo que achou foi um pingo d’água, no canto da janela; tentou tirar com o pano, mas se manteve ali.

Mais pingos atingiram a janela, pequenas gotas que os olhos de Eliza seguiram silenciosamente, sentando-se no sofá. Estava chovendo.

Notas finais
Nos vemos no próximo capítulo! Ah, e se você tiver saco para ler essas notas finais, apenas algo que queria compartilhar: faz muito tempo que não escrevo. Anos, para ser exata, e eu não falo das one-shots que vez ou outra posto, eu falo de um romance inteiro. Esse capítulo me fez perceber que eu ando bem, bem enferrujada. Isso não me desanima, pelo contrário, eu estou me sentindo ótima! Minha insistência pra fazer esse capítulo ficar do jeito que eu queria me fez perceber o quão apaixonada eu estou por essa história. Eu quero escrever ela. Espero que não desistam de mim pela minha demora para postar, ainda há muito que quero compartilhar.