O Mercado Ao Lado
4 Vizinhos.
Notas iniciais
As gotas de chuva atingiam as telhas da casa rapidamente, escorrendo e pingando de suas beiradas. A janela era embaçada pela água, escorrendo pelas paredes e então encharcando a calçada. Eliza as seguia pelo vidro com encanto, com seus braços escorados no encosto do sofá e os joelhos no assento.
O vento invadia pela porta escancarada, gelando-lhe os tornozelos, mas não era incômodo.
Ela havia decidido ficar ali e apreciar aquele momento por um tempo, com um pequeno sorriso em seus lábios, perdida em devaneios e memórias. Aos poucos um olhar nostálgico tomou conta de seu rosto, ajeitando-se no sofá e descansando a cabeça sobre os braços, roçando os pés um no outro; seus chinelos estavam caídos no chão.
Após ter lavado o vidro, a visão que Eliza tinha da rua era completamente diferente. As flores que decoravam as calçadas eram empurradas pelo vento e perdiam suas pétalas, decorando a rua com suas cores. As árvores dançavam em seu próprio ritmo e as poças d’água refletiam as nuvens no céu.
Ela olhou para a calçada de sua casa, sentindo falta daquela visão vívida. Era a única naquela rua que não possuía flores em sua entrada, cores alegres, um pouco de… Vida.
Ideias infestaram a mente de Eliza, alegrando-se quando imaginou uma bela entrada florida, o perfume das flores adentrando seu lar e vasos coloridos. Naquele momento em que a atenção de Eliza não estava na janela, curiosamente, a chuva se intensificou.
O som da água atingindo o vidro se tornou nítido e um relâmpago cortou os céus, seguido de um trovão violento que a fez dar um pequeno pulo, assustada.
A jovem se levantou do sofá às pressas, empurrando a porta aberta da sala em uma briga contra a ventania da chuva, até conseguir fechá-la em uma única batida, sentindo seu rosto gelado graças ao vento.
Esfregando as mãos uma na outra, ela caminhou para longe da entrada. Os arrepios de frio, antes em suas canelas, agora subiam todo o seu corpo. Eliza fez seu caminho até o quarto atrás de algo quente para vestir, mas ao entrar, a visão de sua cama tomada por pilhas de roupas a fez se lembrar que não havia arrumado nada desde ontem.
Ela suspirou, começando a vasculhar as pilhas e puxou um casaco do meio delas, vestindo-o para, então, começar a arrumar seu novo quarto. Eliza colocou as roupas nas gavetas da pequena cômoda, cuidadosamente; queria que tudo coubesse no espaço apertado do móvel. Quando feito, ela fechou a última gaveta em uma fraca batida.
Assim que feito, ela sentiu então algo gelado pingar no topo de sua cabeça, desviando o olhar para o teto, onde uma mancha escura se formava. A água pingou da mesma e atingiu a palma de Eliza, que em resposta fez uma careta, descontente. Sério, goteiras?
Ela deixou seu quarto às pressas, andando em direção a cozinha. Vasculhando seus armários e gabinetes, como era de se esperar, a jovem não encontrou nenhum pote, e a única panela que tinha estava cheia de ensopado na geladeira.
Eliza notou que as goteiras estavam se formando nos demais cômodos da casa rapidamente, preocupando-a imediatamente. A jovem observou a chuva da janela da sala e decidiu que não pensaria, pois se o fizesse, sua casa se transformaria em um mar antes que percebesse!
Saindo então para fora, a jovem protegeu o topo de sua cabeça com os braços. Rajadas de vento bagunçaram suas mechas e lançaram a chuva gelada para cima de Eliza, causando-lhe arrepios de frio. Seu casaco não adiantava nada contra aquele temporal.
Seu olhar se desviou na direção do mercado. A porta seguia entreaberta, então Eliza apressou o passo e se esgueirou para dentro do comércio, olhando ao redor.
— Jim? — chamou pelo rapaz. Sua voz ecoou pelo lugar, sem receber resposta, mas ela insistiu: — Jim!
— Já vai! — a resposta veio do andar de cima. Eliza esperou quieta próxima à entrada, vez ou outra observando a chuva com inquietude, escutando passos apressados vindos do teto do mercado.
Perdida em sua própria preocupação, por pouco não notou o momento que Jim se aproximou por entre os corredores. O rapaz olhava para além de Eliza, observando a chuva do lado de fora.
— Acho que não escolheu o melhor dia pra lavar a janela — brincou ele, voltando seu foco para a vizinha. Um relâmpago iluminou os céus, e consequentemente os olhos castanhos de Eliza que o observavam.
— Nem me diga… — Eliza respondeu, num tom frustrado — e pra piorar, minha casa encheu de goteiras.
— Bem, aquela casa está cheia de telhas quebradas. — Jim apoiou as mãos no próprio quadril.
A jovem cruzou os braços e encheu as bochechas de ar, soltando em seguida. Estava criando coragem, mas pouco tempo depois, seu olhar se encontrou com o de Jim.
— Você… se-se importa de me emprestar alguns potes?
(...)
A definição de “alguns”, para Eliza e Jim, mostrava-se bem distinta. O rapaz andava de um lado para o outro pela rua, hora dentro do mercado arranjando vasilhas, hora carregando elas para a casa de sua vizinha. O chão molhado o fez resvalar diversas vezes, e a chuva fez o favor de lhe dar outro banho.
A sala de Eliza estava repleta de potes por cima dos móveis e pelo chão. Uma sinfonia de pingos sem ritmo certo, uma completa bagunça. Eliza olhava para a situação de seu lar soltando suspiros, desanimada.
— Elas não acabam… — resmungou, beirando a incredulidade.
— Colocam uma casa pra vender e nem fazem manutenção, incrível — Jim disse sarcástico, parado na frente da porta. O rapaz estava encharcado, mas não parecia se importar.
— Ela tinha — Eliza respondeu, levando vasilhas para a cozinha — mas eu comprei ela há muito tempo.
— E por que só se mudou agora?
Ela largou as mesmas sobre a mesa e olhou na direção de Jim, ficando em silêncio por poucos segundos, pensando.
— Achei que não precisaria me mudar — admitiu —, mas as coisas não deram certo, e… Aqui estou.
O rapaz cruzou os braços sobre o peito e nada disse, encostado na porta; aquilo não parecia ser da sua conta. O vento de fora lhe acertou o rosto e bagunçou seus cabelos, chamando sua atenção para a rua. Jim tinha uma visão nebulosa do outro lado da rua, poças d' água se formavam pela calçada e pingos de chuva atingiam furiosamente as casas.
— Talvez o vizinho ali da frente possa te ajudar com isso — sugeriu ele.
— O vizinho da frente?
— É um pedreiro aposentado, mas ele sempre ajuda lá no mercado.
Eliza largou uma vasilha sobre o balcão molhado e ergueu o rosto para o teto, observando as manchas de água. Interessada, ela perguntou: — E quanto ele cobra?
— Pra você, ele não deve cobrar nada, e se cobrar, vai ser bem barato.
— …Mesmo? — ela o encarou, surpresa.
— É um velho rabugento, mas tem um bom coração… Ele não vai cobrar uma moradora nova — Jim garantiu, com um sorriso no rosto.
(...)
Eliza se lembrava das palavras de Jim na tarde de ontem enquanto olhava para os próprios pés, parada em frente à porta da casa de seu vizinho da frente, esperando que o mesmo a atendesse. Infelizmente, assim que a jovem tocou a campainha, um vulto dentro da residência fechou as cortinas rapidamente.
O dia havia amanhecido ensolarado, mas não o suficiente para secar toda a água trazida pela chuva, que insistia em pingar dos telhados e deixar poças espalhadas pela rua.
A jovem mãe teve uma noite desagradável. Para começar, o chão de sua casa se tornou um campo minado de potes cheios de água para seus passos desengonçados, tropeçando em vários — ou todos. O som da água pingando e os trovões incessantes a tiravam o sono, ela perdeu a conta de quantas vezes se revirou na cama.
E assim, Eliza amanheceu com olheiras em seus olhos, uma expressão cansada e dores terríveis em suas costas.
Mas deixando de lado seus devaneios por um tempo, ela tocou pela segunda vez a campainha da casa e trocou o pé onde apoiava o peso de seu corpo, suspirando. Passaram-se longos segundos, Eliza já estava começando a desistir, quando…
— Oi! — uma voz de cima chamou. A jovem de cabelos castanhos ergueu o rosto, trocando olhares com uma idosa de cabelos grisalhos e óculos redondos, apoiada no beiral da sacada do segundo andar.
— Oi, bom dia… Você mora aqui? — Eliza indagou a senhora, apontando para a porta.
— Eu moro aqui. — A idosa apontou para o chão.
— Me disseram que um pedreiro mora aqui, eu estou precisando de um serviço, então…
— Eu moro aqui. Meu irmão mora aí embaixo — a idosa seguiu falando por cima de Eliza, ajeitando o óculos no rosto —, não é daqui, né, flor?
— Eu me mudei faz pouco tempo, moro na casa em frente à sua.
— …Lá? — a senhora apontou para a casa do outro lado da rua, e Eliza confirmou com a cabeça. — É uma boa casa, bonita… Mas mais velha do que eu.
— Bom, não é uma surpresa ela estar acabada então — a jovem brincou —, as telhas estão quebradas, eu fiquei cheia de goteiras ontem… O vizinho do lado me ajudou com alguns potes, mas eu não posso ficar com o telhado assim…
— Oh, que pena… Meu irmão é muito bom em consertar telhados, mas ele detesta visitas. — A idosa se afastou da beira da sacada. — Eu faço ele abrir a porta pra você.
E sem esperar pela resposta, ela sumiu de vista, deixando que a jovem apenas escutasse o som da porta da sacada sendo fechada. Eliza seguiu aguardando, até começar a ouvir vozes no andar de baixo da casa, uma discussão parecia estar começando, mas pouco tempo depois a porta foi aberta.
A senhora de antes agora estava ao lado de um homem idoso, com cabelos calvos e grisalhos como os dela. Ele tinha uma carranca no rosto e um olhar arrogante, encarando Eliza.
— O que você quer, garota?
— Seja educado — a senhora estapeou o braço do idoso.
— O que você quer, moça?
— Me desculpa incomodar vocês dois… — Eliza sorriu sem graça, olhando para trás por cima do ombro e observando sua casa — eu me mudei há poucos dias pra casa da frente, e… Ela precisa de alguns reparos, as telhas estão todas quebradas. Jim me disse que o senhor era pedreiro.
— Era, sou aposentado. Não trabalho mais. — O senhor cruzou os braços, franzindo a testa e acenando com a cabeça para o mercado. — Só ajudo aqueles incompetentes hora ou outra, já não tenho saúde pra reparar uma casa.
— Giu… — a idosa o repreendeu, com a mão sobre seu ombro — não seja assim, ela veio até aqui.
— Ela atravessou a rua — ele lançou um olhar incrédulo para a irmã.
— Sabe o que quero dizer e não se faça de sonso — ela estapeou novamente seu braço —, é nossa nova vizinha e precisa de ajuda, que te custa trocar umas telhas?
— Vontade — foi direto, esfregando a mão no lugar acertado.
— Um marmanjo velho fazendo charme pra uma jovem moça… — ela negou com a cabeça, ajeitando os óculos.
— Ah, faça o favor… Aquele garoto foi o culpado de fazê-la perder tempo, não eu. Escuta, menina…
O senhor foi dizendo, mas quando sua atenção voltou para Eliza, a jovem sequer estava mais ali. Ela terminava de atravessar a rua e se aproximava de casa, provavelmente havia dito algo à eles antes de ir, mas os velhos irmãos estavam tão preocupados em discutir que sequer a ouviram.
— Mas o quê… Que falta de educação! — ele disse, indignado. A idosa deu risada.
— Bem feito — ela debochou com sua voz amigável, dando as costas para o irmão e voltando para dentro — é por isso que você mora comigo, ninguém te aguenta.
— Ei, menina! — o idoso exclamou, ignorando a mulher. Ele bufou caminhando com pressa e seguindo Eliza, que já havia se virado e encarado o vizinho da porta de casa, sem entender. — Eu não terminei de falar!
— Ah, não. Você não precisa — Eliza negou com a cabeça —, foi falta de educação da minha parte incomodar o senhor. Eu vou ligar pra um pedreiro pra conseguir um serviço, mas muito obrigada por-…
— Baboseira! Esses novatos não sabem nada de conserto, poucos meses e seu telhado vai desabar — ele estalou a língua, parecendo ofendido, o que surpreendeu a jovem — eu vejo isso pra você de uma vez, você tem uma escada?
A jovem, em resposta, negou com a cabeça. O idoso suspirou, dando as costas para Eliza e atravessando a rua mais uma vez.
— Um completo caso perdido — ele resmungou, e após poucos passos, olhou para a vizinha por cima do ombro. — O que tá fazendo parada aí? Me ajude a trazer a escada.
— A-Ah, desculpa, é claro…! — Eliza arregalou os olhos e apressou o passo, acompanhando o idoso pela rua. — A propósito, meu nome é Eliza.
— Giuberti — o idoso respondeu simples e rápido, mas sua curiosidade pareceu ser mais forte que o mau humor, pois o mesmo logo perguntou: — Que outras idiotices aquele garoto te contou?
— O Jim? Ele só me recomendou falar com você sobre o problema, ele disse que o senhor ajuda no mercado…
— Sempre entregando o trabalho para os outros, francamente. Um rapaz crescido e não sabe consertar um telhado, anos me vendo trabalhar e não aprendeu nada, aquele moleque.
Eliza acabou soltando uma fraca risada com o comentário do idoso, sendo lançada um olhar indignado. Aquilo só serviu para Giuberti encher os ouvidos da jovem com mais histórias, que em seu tom ranzinza, mais pareciam com reclamações do que já se passou. A irmã do idoso observava os dois da sacada de casa com um sorriso em seus frágeis lábios, soltando risadas nasais, aquela manhã havia começado um pouco diferente.
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