Notas iniciais
Esse é um capítulo curto de teste, apenas para saber se a história é interessante e se há uma resposta positiva. Sz

Era manhã, por volta das 10h. Andar por Cádiz, no Sul da Espanha, era como andar num mundo alternativo. Havia o porto da cidade, o oceano Atlântico logo ali. Algumas ruas pareciam o século passado, com construções antigas e pequenos jardins com árvores mais velhas que sua avó. E avenidas tão largas, modernizadas e cheias de veículos, que você poderia imaginar um cenário de filme futurista por ali. A coisa toda era uma mistura de ancestralidade milenar e evolução humana, pulsava como se estivesse viva.
E igrejas. Como havia igrejas! Em cada rua, uma capela de tamanho modesto, com portas enormes de madeira maciça escura, trazendo entalhes que provavelmente tiraram os dedos de alguns bons artesãos. Todas igrejas antiquíssimas, embora algumas tão preservadas e reformadas por dentro, que se não fossem as pedras velhas do lado de fora, você jamais notaria. E a estrela mais brilhante dessa constelação de igrejas, é a grande Catedral de Cádiz. Ela foi inaugurada em 1838, e traz os traços do estilo barroco da época. Na catedral, temos o salão principal com um dos maiores Órgãos da Espanha, a cripta no subsolo, e finalmente, a Torre del Reloj, que marca o início dessa história.
A torre é feita de calcário, mármore e jaspe, e tem 56m, embora os visitantes só possam subir até os 40m, onde há o balcão dos sinos. A subida árdua só pode ser feita pela rampa em espiral, que tem entrada ao lado das portas principais da catedral. Enquanto subia, minhas coxas ardendo, podia ouvir os idiomas diferentes dos turistas a minha volta. Havia inglês, espanhol, francês, alemão, e outros que eu sequer reconhecia. As paredes eram tão grossas, que você podia rastejar um ou dois metros para chegar às poucas janelas espalhadas pela extensão da torre. Uma delas até trazia uma escada pequena, de degraus altos, onde alguns turistas paravam para tirar fotos. Quando a rampa finalmente terminou, ainda havia uma escada em espiral apertada, com degraus curtos e altos, que se abria para o balcão dos sinos. Aguardei que as pessoas que desciam de lá terminassem, já que o pequeno espaço só permitia uma fila indiana. Então subimos, eu e uma família alemã que estava logo atrás de mim na rampa. O vento que imediatamente passou por nós foi aliviador, o espaço era circular, e suficiente para comportar 25 pessoas. Há oito aberturas, onde os sinos estão pendurados, e de onde eu podia ver a cidade inteira, e os enormes cruzeiros aportados na orla ao longe. Era incrível, e absolutamente estonteante. Eu ouvia gaivotas, embora elas não chegassem perto da torre. Dei a volta pelas aberturas, observando os prédios e as praças, e então algo me chamou a atenção.
Caindo pela lateral da torre, havia ramos de palha, misturados com gravetos pequenos, e folhas há muito secas. Eles continuavam caindo, do alto, embora eu não pudesse enxergar de onde. Pararam repentinamente, e eu esqueci o assunto. Virei as costas e comecei a descer pela escada íngreme, para a rampa que me esperava no final. Descer me deixaria mais zonza do que subir, então fui devagar. E ainda assim, no final, me encontrava mareada, e por um instante, quando saí do espaço escuro para o sol forte, achei ter visto penas no topo distante da torre, de relance. Com isso, me ocorreu que o projeto para o qual eu me dedicava tanto durante o ano poderia continuar mesmo nas férias: Resgatar as cegonhas que fazem ninhos em centros urbanos, levá-las para as zonas rurais, onde não estavam ameaçadas de caça ou de perder os próprios ninhos. A lei que as protegia tinha sido recentemente sancionada, e muitas pessoas ainda não a cumpriam. E uma asa grande como aquela, tão alto, só poderia ser uma cegonha. Eu precisaria falar com os responsáveis da catedral para ter acesso aos outros 16m da torre, para verificar se havia mesmo um animal lá em cima.

Depois de toda a burocracia, e de convencer o diretor do projeto de que eu mesma poderia fazer a vistoria, mesmo nas férias, a permissão da catedral foi concedida, e me trouxeram todo o equipamento de segurança, como cordas e capacete. A passagem para o restante da torre se dava pelo telhado da catedral, uma passarela segura, mas antiga, e pouco usada. A altura era estonteante, e me deixou tremendo de nervosismo. Era um medo enorme e antigo, mas que estava esmaecendo conforme o projeto avançava. Do outro lado, uma abertura em formato de arco na pedra dava acesso ao lado de dentro. O chão era empoeirado, e havia teias de aranha por todos os lados. Era abafado lá dentro, ainda que ouvisse o vento assobiando no alto. O som dos turistas logo abaixo dava a impressão de que a construção era fina, embora eu soubesse que as paredes eram grossas e concretas. Caminhei com cuidado, a luz do sol atravessava pelas duas aberturas do topo da torre, de modo que não foi difícil ver onde estava o ninho. Mas não era um ninho comum, e com certeza não era o ninho de uma cegonha. Era gigantesco, tomava quase todo o espaço da torre. Três pessoas poderiam se deitar confortavelmente nele, talvez quatro, com um pouco de esforço. Estava pronta para dar um puxão na corda presa em minha cintura, de forma que alguém viesse ver aquilo, quando uma rajada de vento incrivelmente forte me jogou no chão, de costas. Minha visão ficou embaçada pelo impacto, mesmo com o capacete, e eu sentia o cotovelo ardendo com uma dor aguda. Tentei me apoiar nos braços, mas estava presa, havia um peso sobre o meu peito, algo firme e humano: um pé. Levantei os olhos, forçando minha visão a focalizar, para ver algo que mudaria tudo, para sempre: Um garoto. Um garoto que tinha enormes asas, que pendiam sobre seus ombros, como se saíssem de suas omoplatas.

Minha mente não conseguia assimilar o que meus olhos estavam vendo, e eu paralisei, sem conseguir dizer nada. Aquilo tinha que ser um sonho, ou talvez eu tivesse batido a cabeça com mais força do que parecia. O garoto deitou a cabeça para o lado, como fazem as aves, um brilho inteligente e predatório em seus olhos. Ele se inclinou, cada vez mais próximo, o peso do corpo ainda pressionando meu peito, e desamarrou a corda do equipamento em minha cintura, suavemente deixando-a no chão. Eu não conseguia entender o que estava vendo, não conseguia sequer tentar me mover, e não conseguia tirar os olhos dele. Antes de se levantar, ele me encarou, próximo o suficiente para eu mal conseguir respirar, e falou pela primeira vez.

“Calada. Ou eu mesmo te calo.”, disse, baixo e sério. Ele não precisou especificar como para que eu soubesse que realmente era sua intenção.

Retirou o pé de cima do meu peito, e eu puxei o ar com força, tentando me afastar dele, mas o choque mantinha meus membros paralisados. Minha liberdade não durou muito. Desta vez ele me ergueu pelo braço bruscamente, esticando as asas pesadas para me prender entre ele e a parede, sem escapatória. Continuei hiperventilando. O padrão de rajadas acinzentadas e brancas em suas asas se transformava num marrom escuro nas pontas. Eram belas, mas a vontade de tocá-las não era maior que o medo e o instinto de sobrevivência.

O garoto tinha pele clara, e olhos escuros, quase negros. Seu cabelo era comprido, um pouco abaixo dos ombros, e tinha exatamente a mesma cor das penas: marrom escuro. Foi apenas o que pude assimilar, antes de ele avançar contra mim, as mãos contra a minha garganta, suas asas nos cercando. Senti o ar faltar de novo, sem escapatória. Meu pescoço ardia, e senti algo quente escorrer pelos meus ombros: Ele tinha garras, e elas estavam dilacerando minha pele. Meu corpo em choque finalmente reagiu à ameaça. Tentei inutilmente impedir seu aperto, com as mãos sobre as dele, mas tremia tanto que de nada adiantava. Eu enxergava pontos negros no ar, mas conseguia distinguir que ele mantinha o rosto para o lado, como se não quisesse me olhar nos olhos. Quando o ambiente começava a escurecer, o aperto afrouxou.

Ouvi quando ele inspirou o ar, e seus olhos inteligentes se voltaram à mochila pequena que eu trazia nas costas. As asas se abriram, causando uma brisa quente, e uma de suas mãos — suja com o meu sangue, — se pressionou contra a minha boca. Minha tosse foi abafada contra ela, minha garganta ardendo e minhas pernas fraquejando, todo o meu peso sustentado pelo braço dele. Com a outra mão, ele alcançou a mochila, e arrancou algo de lá. Meus olhos demoraram a focalizar o que: O lanche que eu tinha preparado antes de subir à torre. Era algo simples, apenas pão e atum. Mas ainda tapando minha boca e me sustentando, ele o devorou como se fosse um banquete. Acabou em apenas quatro mordidas.

Seus olhos se voltaram à mim, e eu me encolhi, tentando em vão fazer com que minhas pernas funcionassem. Todos os membros do meu corpo formigavam, e pesavam como pedras. Meus ouvidos zumbiam, e lágrimas ainda quentes marcavam meu rosto. Estava aterrorizada e queria fugir, mas não conseguia. Estava impotente diante daquele predator estranho. Pelo que pareceram longos minutos, ele manteve seu olhar sobre mim, o rosto inclinado, o cenho franzido. E então, vagarosamente, ele se agachou, me levando com ele, e me deixou no chão, encostada contra a parede. Suas asas estavam fechadas em suas costas, esbarrando no chão. Tentei me afastar, mas ele mantinha sua mão firme contra a minha boca. Choraminguei, torcendo para alguém ouvir o som abafado. Ele deitou a cabeça para o lado.

“Shh. Calada. Isso não é suficiente para matar, humana”, disse. Sua voz soava distante, e nem um pouco calorosa. É claro que eu confiava na visão dele a respeito do próprio ataque. Estávamos prontos para tomar um chá e discutir política. Bufei contra sua mão, e pressionei os cortes no meu pescoço. O sangue escorria rápido, e eu sentia que ia morrer ali. O garoto levou a outra mão para cima da minha, e pressionou mais forte do que eu conseguia. Me encolhi com o toque, e sua expressão desfocada parecia concentrada. Ele me olhou nos olhos, sério.

“Eu vou tirar minha mão da sua boca agora. Se você gritar, termino de rasgar o seu pescoço”, disse, e um calafrio subiu pela minha coluna. Parecia que fazia séculos que eu estava ali, mas sabia que sequer fazia meia hora. Ninguém viria até mim agora. Os turistas ainda faziam um barulho distante mais abaixo na torre, mas eu parecia estar em outro mundo. Aquilo tinha que ser um pesadelo. Lentamente, ele tirou a mão sangrenta do meu rosto. Meus lábios tremiam, o gosto do meu próprio sangue era nauseante, mas me mantive em silêncio. O peso da outra mão dele sob a minha pele machucada me mantinha quieta. Sentia as garras curtas roçando de leve perto da minha nuca, ameaçadoras. Ele se afastou um pouco, e pegou minha corda de segurança, tomando o cuidado de não puxá-la. Ele me entregou, mas antes de soltá-la em minha mão, acrescentou:

“Amarre-a. Mas não puxe”. Soltei um silvo ao retirar minha mão debaixo da dele, os machucados ardendo. Eu podia sentir nas pontas dos dedos que apesar do sangue, não eram cortes tão fundos quanto poderiam ser. Se eu pudesse sair dali e conseguir cuidados… Não era mortal. Não entendia o que estava acontecendo. Eu tinha que estar sonhando, e acordaria a qualquer momento. Mas enquanto aquilo durava… Amarrei a corda ao meu cinto, com força. Ele assentiu, e novamente, inclinou a cabeça para o lado.

“É bom que não seja falante. Vou direto ao ponto: Você vai me trazer comida, humana. Todos os dias. Ou eu vou caçar você, onde quer que esteja. Se contar para alguém sobre mim, se tentar mandar alguém aqui… Considere-se um cadáver. Entendeu?”, ele disse, finalmente revelando suas intenções. Seu olhar brilhava ameaçador, e suas garras se pressionaram no meu ombro. Engoli em seco, coagida. Eu não sabia o que iria dizer para os responsáveis pela catedral. Não sabia o que diria ao diretor do projeto. Não sabia como explicaria os machucados. Ele pareceu notar a minha hesitação, e suas unhas se afundaram mais. Respirei fundo, com raiva, e olhei para as asas dele, abertas a nossa volta. Não queria olhar para ele, mesmo com a vista embaçada, eu sabia que havia uma espécie de sorriso presunçoso em seu rosto. Eu não tinha escolha.

Assenti devagar, sentindo dor com o movimento. Ele se afastou, tirando a mão do meu pescoço. Ficou em pé, longe da abertura por onde eu entrara. Com muito esforço, me apoiei na parede e me desloquei até ela, sem desviar os olhos das asas imponentes do garoto. Não virei as costas para ele ao sair. Me debrucei sobre a passarela, sem olhar para baixo, e dei um puxão forte na corda. Os homens da catedral me avistaram, e correram até mim. Me apoiei num deles, e só disse uma coisa antes de tudo escurecer:

“É uma cegonha muito rebelde. Não deixem ninguém entrar”.

Notas finais
Tenho mais capítulo prontos, então, se gostou, por favor, me diga. Thanks. sz