Notas iniciais
Só porquê minhas feirenses favoritas leram Sz

“O que você disse que te atacou, Srta. Morgado?”, o médico do hospital de La Línea de La Concepción perguntou pela quinta vez. Eu desviei o olhar.

“Uma cegonha”, respondi. Podia sentir seu olhar incrédulo indo do meu rosto para o curativo enorme no meu pescoço. “Era uma cegonha muito grande”, acrescentei, nervosa. Meu braço estava enfaixado, por causa do choque contra o chão da torre. O homem assentiu vagarosamente.

“Nesse caso… Minhas recomendações são que limpe a ferida e troque o curativo todos os dias. Se sentir muita dor, coceira, ou identificar alguma mucosa estranha, tome esse antibiótico, a cada 12h, por sete dias. Seu braço deve melhorar logo, mas relaxantes musculares e compressas quentes são boas opções caso sinta dor”, ele disse, rabiscando em um bloco de notas e me estendendo o papel. Eu estava quase saindo pela porta, quando ele me chamou de volta. “E se me permite… Vou encaminhá-la para a área de psiquiatria também”, acrescentou. Eu engoli em seco, assentindo com a cabeça, ainda que doesse. Acelerei o passo no corredor, e só sosseguei quando já estava dentro de um táxi, a caminho de casa. Eu precisava pensar sobre tudo o que estava acontecendo. Talvez eu devesse seguir o conselho do médico e visitar a ala psiquiátrica. E se eu estivesse alucinando? E se algum animal tivesse me atacado e eu estivesse apenas em choque? O trauma agia de formas diferentes nas pessoas… Devia ser algo assim. Era a única explicação plausível. Sentia minha cabeça doendo e meu corpo pesando. Havia chegado ao hospital por volta de 11h. E agora já era 13h. Precisava dormir. Me joguei em minha cama, sem me importar em arrumá-la.

Eu ouvia grasnados horríveis às minhas costas, podia sentir o vento que as asas batendo faziam. Corria desesperadamente, mas jamais conseguiria escapar. A coisa me alcançou. Fui levantada no ar, cada vez mais alto, gritando em agonia, sentindo as garras cravadas na minha pele me rasgando cada vez mais. Então a subida parou, e as garras saíram da minha carne. Tudo o que estava no meu estômago sumiu, ficou leve, ficou frio. Eu caía como uma rocha, sem sequer conseguir gritar, o ar forte e gelado a minha volta. Eu atingi o chão. Não conseguia me mover, sequer sentia dor. Meu corpo estava quente. Havia sangue se espalhando por todos lados. A coisa pousou acima de mim. Era humanóide, mas as asas se conectavam aos braços, e havia um bico afiado no lugar da boca. Seus olhos eram humanos, emoldurados por penas escuras. Era aterrorizante. Eu comecei a gritar antes mesmo que ele se abaixasse e começasse a dilacerar minhas vísceras. Acordei assustada, travesseiros no chão, coberta revirada. Minhas roupas grudavam com suor, e até mesmo o esparadrapo do curativo estava perdendo a cola. Meu rosto estava molhado de lágrimas. Demorei alguns segundos para entender que havia sido um pesadelo. Fiquei ali sentada, hiperventilando, tremendo, por alguns minutos seguidos. Mas era só um pesadelo. Eu não era uma criança. Podia lidar com pesadelos.

Levantei, e fui até a cozinha pegar água. Já estava escuro, e eu precisava fechar a casa. Tranquei a porta da frente e a dos fundos, e fechei janela por janela, até voltar para o meu quarto. A noite estava apenas começando, e eu tinha um relatório de resgate para fazer. Mas o que escrever? Que fora atacada por um garoto híbrido psicótico que queria minha comida? O diretor iria me obrigar a ver um psiquiatra. Precisava me lembrar do que realmente tinha acontecido. Eu sabia que cegonhas não tinham garras capazes de fazer cortes como os do meu pescoço. Nem mesmo com o bico. Mas não sabia como explicar o que tinha me atacado. Precisava ver alguém que entendia de aves mais do que eu. Comecei a digitar as formalidades do documento, e narrei os acontecimentos até o instante em que adentrei a torre. Depois disso, resolvi fazer uma pesquisa para encontrar os melhores especialistas em aves da região. A lista era longa, e metade deles era professor de alguma universidade. E todos os eles tinham um cachê expressivo para serem consultados. Retirei o “melhores” da pesquisa e tentei outra vez. As recomendações foram ainda mais longas, mas ao que parecia, havia alguns voluntários. E é claro que o mais próximo de mim vive do outro lado da cidade. Viver em uma finca tinha desvantagens. Estava sempre afastada da cidade, tudo ficava longe. Mas eu podia aproveitar para correr até o centro, e de lá tentar um táxi. A distância não era tão grande depois de acostumar e praticar todos os dias. O sol nascia 7h30 nesse período do ano, então eu podia sair às 6h, quando ainda estava escuro, e chegar pouco antes de amanhecer. Anotei o endereço do profissional em aves: Rafael Soarez. Desliguei o computador, pensando em dizer ao diretor do projeto que ainda estava me recuperando, para justificar a falta do relatório. Meu braço latejava um pouco, e meu pescoço estava dolorido. Os grampos na ferida eram estranhamento incômodos, mas eu tinha menos medo do grampeador cirúrgico do que da agulha. Decidi tomar banho, e trocar os curativos. Ainda havia poeira da torre no meu cabelo, e sangue em algumas roupas.

Lavar meu cabelo sempre era uma batalha entre fios soltos e quantidades alarmantes de shampoo. Mas o braço machucado provou que sempre há maneiras de a situação piorar. Saí do banheiro com o cabelo pingando no final das costas, mais estressada do que relaxada. Ainda precisava comer, mas não me sentia corajosa o suficiente para cozinhar um jantar elaborado. Resolvi fritar algumas croquetas que estavam congeladas, para tapear, e tomar uma taça de vinho Árabe.

Passei um tempo no sofá, ainda terminando o vinho. Não conseguia tirar de mim a sensação das garras no meu pescoço, a memória da brisa forte e o som das asas. E os olhos escuros e humanos. Os acontecimentos eram borrados e tremidos, rápidos demais para que eu assimilasse direito em estado de choque. Aquelas eram as coisas que eu registrara: garras, asas e olhos. Devia mesmo estar ficando louca.

Acordei com o baque abafado da taça vazia caindo de minha mão. Estava escuro,eu não fazia ideia de que horas eram. Estava torta no sofá, com dor nas costas. Me levantei um pouco zonza, — de sono e de vinho — e caminhei para o quarto. O relógio na parede marcava 4:37. Eu tinha mais algumas horinhas de sono. Me joguei na cama, mas ela não estava lá. Eu estava caindo pelo céu noturno, sentia o vento contra mim, podia ouvir o som da criatura me caçando. Ele me petecava como se faz a um lanchinho. Me soltava no ar, só para cravar as unhas em mim de novo. Eu gritava em agonia, mas ele não me deixava cair nunca. E eu queria cair. Eu queria morrer antes de ser devorada.

Acordei suada, tremendo. Ainda estava no sofá. A taça de vinho não terminada estava em cima da mesa. Eu não conseguia respirar. Não importa o quanto puxasse o ar, era como se meu tórax não conseguisse se expandir, como se nunca enchesse por completo. O desespero me levou a hiperventilar. Eu sabia que estava chorando, mas não entendia porquê. Meu coração estava batendo em minha garganta, a ânsia que isso causava era insuportável. Me levantei trêmula e aos tropeços, e fui para a porta dos fundos. Assim que abri, uma brisa fria envolveu meu corpo quente, e eu cambaleei até o gramado. Imediatamente meus cães me rodearam. Lunae era uma fêmea carinhosa, e Dolorem era um macho rebelde. Ambos vira-latas grandes. Usualmente eles pulariam em mim e rolaríamos os três pela grama. Mas desta vez, como se soubessem que havia algo errado, eles sentaram um às minhas costas e o outro à minha frente. Dolorem se recostou em mim, altivo. Estava montando guarda. E Lunae encostou o focinho na curva do meu pescoço, apoiando sua cabeça no meu ombro. Eu ainda sentia o peito ardendo sem ar. Mas o calor reconfortante dos animais foi se espalhando pelo meu corpo. A respiração pesada deles acalmava a minha. Conforme eu relaxava, eles também relaxavam. Deitaram-se ao meu lado, não mais guardando. Eu ainda sentia o coração palpitando, mas conseguia respirar. Aos poucos, as sensações foram passando. Devia ter ficado ao menos meia hora entre os cães, até que me sentisse melhor. Sabia exatamente o que tinha sido aquilo, porque ocorriam com frequência, anos antes: Crise de ansiedade.

Voltei para meu quarto. O relógio mostrava 6h. Era hora de ir. Passei debaixo do chuveiro, e vesti roupas simples para correr. Alimentei Lunae e Dolorem, e tranquei a casa. Estava escuro como breu, então tomei o cuidado de não me afastar muito do acostamento, ainda que a rodovia estivesse vazia àquele horário. Minha cabeça doía, e meu corpo também. Ainda mais depois da noite mal dormida e da crise. Mas eu precisava enfrentar o dia. A rodovia ficava próxima ao mar, e a maresia me deixava mais calma.

E essa calma não durou sequer dois segundos depois de chegar à área urbana. Por um instante, pensei ter visto uma sombra nos céus. Uma sombra com asas. Me arrepiei, e acelerei o passo por instinto. Mas não havia nada nos céus. Eu sabia que não. Segui o caminho, um pouco neurótica. Alucinar no meio da rodovia era perigoso demais, eu precisava manter o trauma sob controle. E então eu ouvi, com clareza, o bater de asas enormes acima de mim, e o assovio de um mergulho no vento. Me joguei no chão, e a brisa que passou por mim soltou meus cabelos. Olhei em volta, mas não havia nada lá. Eu já estava no calçadão da baía de Cádiz, e uma mulher que estava sentada no ponto de ônibus veio até mim. Ela me ajudou a levantar.

“Você está bem?”, questionou, me olhando com cautela. Ela devia achar que eu era louca. Assenti com a cabeça.

“Foi só um tropeço, obrigada pela ajuda”, respondi, me afastando. Ao longe, eu podia ver a torre da catedral. Senti um frio crescente na barriga. Bem no topo, contra os primeiros fracos clarões do sol… Havia a silhueta de um menino alado.

Depois de adentrar o centro o máximo que podia, de modo que não enxergava a torre, me senti mais calma. A silhueta tinha sumido num piscar de olhos, mas eu não queria abusar da sorte. Encontrei um táxi vago perto da prefeitura. Dei o endereço do ornitólogo para o motorista. Depois de pensar por alguns minutos, cutuquei seu ombro.

“Poderia não passar próximo à Catedral?”, pedi. Ele franziu o cenho.

“É o caminho mais curto, e o mais barato…”, disse. Ele era um homem gentil. A maioria sequer me avisaria antes de fazer a viagem mais cara. Eu senti meu estômago embrulhar. Não podia gastar muito.

“Tudo bem. Obrigada pelo aviso”, respondi, sabendo que já estávamos próximos da torre. O sol havia nascido, e o ar estava gelado. Mas meu arrepio não era de frio. Fechei o vidro, e tentei respirar fundo. Não podia ter outra crise, seria desastroso, mas já sentia as pontas dos dedos tremendo. Ficou dificultoso puxar o ar. Sem conseguir me controlar, olhei fixamente para a catedral enquanto passávamos pela rua... Mas não havia nada. Nem sequer uma pena. Respirei fundo, sentindo o coração desacelerando. Sabia que estava alucinando. Só podia ser. Me senti mais tranquila depois que nos afastamos, e em poucos minutos, com uma curva ali ou aqui, chegamos à casa. A mureta baixa tinha duas águias nas colunas do portão, e azulejos com pinturas de gaivotas por todo lado. A tinta ao redor da porta escura era azul clara. E para complementar o ambiente, em cima do toldo que deveria proteger a casa nos dias mais quentes, havia um ninho de cegonha elaborado. Não havia ave a vista. Mas era lindo de olhar, um dos maiores que eu já havia visto. Exceto, é claro… Não. Não queria pensar naquilo. Pedi ao taxista que me esperasse. Entrei pelo portão, e bati a aldrava. Ela estava pendurada no bico de um falcão de ferro. Tive um calafrio. Era muito similar ao meu pesadelo.

Rafael Soarez tinha olhos verdes, e pele morena. Não era muito alto nem muito baixo, mas aparentava ser mais magro do que era saudável. Tinha os olhos um pouco fundos, e marcas de expressão no rosto todo. Usava barba bem aparada, e cabelo curto, ambos escuros. Ele me olhou confuso.

“Eu sou ateu. Xô”, disse, e estava prestes a fechar a porta na minha cara. Era perto do Natal. Ele devia achar que eu estava lá para cantar alguma cantiga tradicional. Enfiei o pé no vão do batente, e ele revirou os olhos. Estava usando roupão e pantufas. Era realmente cedo, mas o dia se iniciava às 9h, ele não poderia estar dormindo às 8h!

“Eu vim aqui procurando um ornitólogo, Sr. Soarez. Desculpe o incômodo tão cedo”, respondi, forçando um sorriso educado. A postura dele mudou tanto que parecia outra pessoa. Se endireitou e correspondeu o sorriso.

“Desculpe a grosseria, Srta…?”, questionou. Complementei com meu sobrenome. “Srta. Morgado. Como ia dizendo, sinto muito. Mas é raro um cliente tão cedo”, disse. Eu segurei o impulso de revirar os olhos para a atitude cínica dele. Mantive o sorriso, e adentrei o corredor da casa como ele indicava. A casa era organizadíssima, ao contrário das minhas expectativas. Tudo na decoração era voltado para aves. E havia gaiolas nas paredes, algumas com pequenos passarinhos, e outras vazias. Ele me seguiu até a copa, e imediatamente ligou o aquecedor. Me olhou de cima a baixo, e se demorou nos curativos em meu pescoço.

“Você não se parece com uma amante de pássaros”, constatou, inclinando o queixo por um momento. Um momento que me lembrou os olhos escuros que se inclinavam para o lado junto do rosto do garoto alado. Me arrepiei. Soarez se abaixou e aumentou a temperatura do aquecedor.

“Não diria que eu sou. Mas sinto empatia por todos os seres vivos”, disse, quando encontrei minha voz, que ameaçava não sair ao lembrar das alucinações. O homem abriu um sorriso ácido, provavelmente vendo em mim uma ativista, mas não disse nada. “E isso me levou a participar do projeto de proteção às cegonhas da Espanha”, continuei. O sorriso dele cresceu, como se eu tivesse confirmado o que ele já sabia.

“Bom, você deve saber que sou um simpatizante da causa, presumindo que tenha notado o ninho em minha área”, disse. Eu assenti, com um sorriso sem dentes no rosto. Continuei contando sobre os resgates, e finalmente, sobre o ataque. Seus olhos se estreitaram quando disse que eu não tinha certeza do que havia me atacado. Tomei o cuidado de não falar das alucinações, como o garoto ou o ninho gigante. Aguardei sua resposta. Ele pareceu receoso do que diria.

“Posso examinar seus machucados, Srta. Morgado? Só assim poderei, talvez, identificar que ave lhe atacou”, esclareceu, por fim. Eu concordei imediatamente. Precisava saber o que estava acontecendo comigo. Mas ele não se moveu. “Só temos que discutir uma coisa antes… O preço dessa consulta”, ele prosseguiu. Não me forcei a sorrir dessa vez. Esperava ter que pagar algo, mas achei que talvez ele pudesse ficar curioso sobre a história. Mais curioso do que seu bolso pudesse impedir. Mas era um profissional, afinal de contas. Eu não podia querer que ele trabalhasse de graça.

“Qual é o preço padrão?”, questionei. Ele abriu um sorriso.

“95€”, ele respondeu, e minha boca formou um O perfeito. Eu definitivamente não tinha aquele dinheiro comigo. Endireitei a postura e fechei a boca. Pelo menos ele não cobrava como os primeiros nomes da minha pesquisa.

“Posso pagar metade hoje, e metade no final do mês”, respondi, tirando o dinheiro do bolso. Soarez me olhava desconfiado. Mas aceitou as notas que lhe estendi. Ele se levantou, e foi até uma cômoda, e de dentro da primeira gaveta tirou duas luvas brancas como as do hospital. Ele as vestiu, e esperou que eu tirasse o casaco e virasse o rosto. Cuidadosamente, ele desgrudou os esparadrapos do curativo, e retirou a gaze. Eu não conseguia ver sua expressão, mas senti que ele apoiava algo de metal gelado em minha pele. Ele checou os quatro cortes do lado direito, e o único do lado esquerdo. Depois de alguns murmúrios, ele se afastou e refez o curativo. Ele anotou algumas coisas numa caderneta em cima da mesa. O objeto de metal em sua mão era uma régua. Nas anotações, estava o tamanho dos cortes. Eles variavam entre 10cm e 14cm, e tinham atingido quase o início da derme. Havia 5 grampos em cada corte. Soarez andou pela sala, anotando coisas, e às vezes consultando livros de uma prateleira. Seu cenho estava franzido. Eu aguardei pacientemente que ele dissesse algo. Mas todas as vezes em que parou e abriu a boca para dizer algo, reconsiderava e voltava à caderneta. Alguns minutos depois, ele se apoiou na cômoda, e me encarou.

“Você diz não se lembrar do que te atacou?”, questionou. Não havia nenhum humor ou sequer cinismo em sua voz. Confirmei com a cabeça, mas desviei os olhos. Percebi que ele estava mais pálido do que antes. Ele chegou à copa em três passos, e me estendeu o dinheiro que eu tinha lhe dado. “Vá embora da minha casa. Por favor”, continuou. Seus dedos tremiam. O que estava acontecendo? Eu franzi o cenho, mas quando tentei dizer algo, ele me puxou pelo braço, que já não doía mais do impacto, e me levou corredor a fora. Abriu a porta, mas eu travei meus dois pés no chão, e soltei meu braço de seu aperto.

“O que está acontecendo? O que me atacou?”, questionei, cruzando os braços. Ele poderia achar que eu estava apenas sendo teimosa, mas na verdade estava me sentindo ansiosa. Meu coração batia tão forte que me causava ânsia, e meus dedos tremiam. Eu não podia demonstrar isso a ele. Ele me olhou, cansado.

“As marcas no seu pescoço são de uma ave de rapina. Um falcão-peregrino, ao que parece. Mas a disposição e o tamanho delas… Esse falcão teria que ser gigantesco e ter mãos”, ele disse. Eu paralisei. Senti um calafrio subir da minha espinha para a minha nuca. Saí da casa aos tropeços, e Rafael Soarez não se incomodou em me ajudar quando bateu a porta logo atrás de mim. Tudo parecia borrado, completamente fora de foco. E assim que cheguei ao portão, o mundo diante de mim girou, e tudo escureceu. A última coisa que passou pela minha mente foram asas brancas com rajadas cinzentas. Asas de falcão.

Acordei com minha cabeça latejando, e luzes fortes contra as minhas pálpebras. Hospital, mais uma vez. Me mexi na maca. Um residente se aproximou, me ajudando a ficar ereta. Ele me examinou e me fez algumas perguntas sobre o desmaio. O taxista havia me deixado ali. Me sentia exausta, e estava cansada de ser cortada, espetada e arrastada. Dentro de 1h eu recebi alta. Tinha passado ao menos 2h desmaiada. O sol estava começando a alcançar o pico. Caminhei até o centro sentindo o nervosismo tomar conta de mim. Soarez tinha indiretamente descrito o garoto alado das minhas alucinações. Isso não podia ser real. Fui tirada das minhas preocupações pelo meu celular tocando. Atendi, com as mãos trêmulas.

“Morgado, quando aceitamos um voluntário, isso não quer dizer que ele tem direito de escolher quando trabalha”, Santiago Cortez esbravejou. O diretor. Eu não havia entregado o relatório, e não havia justificado o atraso.

“Eu sei, Santi. Me desculpe. Eu tive muitos imprevistos depois do ataque”, comecei, mas ele não parava de falar.

“Você não precisava assumir esse resgate, Morgado. Está de férias. Mas você escolheu assumir. Agora arque com as responsabilidades disso”, continuou o discurso. Suspirei. Ele estava certo, mas também estava sendo um imbecil, e aquele dia já estava ruim o suficiente.

“Te envio o relatório em meia hora, Santi”, disse, e desliguei. Ser voluntária era ótimo, mas tinha seus momentos de dificuldade. Encontrei um táxi e fui direto para casa. Almocei o resto das croquetas da noite anterior, e tomei não uma, não duas, mas três taças de vinho com fanta. Alimentei os cães. Sentei-me ao computador, e concluí o relatório dizendo que o animal do ataque havia sido um falcão-peregrino, que ficara hostil diante da ameaça ao seu ninho. Ele voara até o meu pescoço, e eu caíra tentando escapar, batera a cabeça e desmaiara. Acordei machucada, e fui pedir ajuda. Era mais que suficiente. O tempo todo as alucinações rodavam pela minha cabeça. Eu precisava ver um psiquiatra. Enviei o email para Santiago, e decidi que eu merecia uma siesta. Não queria ter pesadelos. Mas estar acordada estava me exigindo um esforço descomunal. Deixei o escuro do ambiente e o som dos cães correndo do lado de fora me relaxarem. Mal percebi que adormeci.

Acordei num horário próximo das 19h. Não tive pesadelos dessa vez. Me sentia descansada. Decidi trocar de roupa e sair para correr, já que tinha voltado para casa de táxi. Iria até a baía e voltaria. Senti medo ao sair de casa. Mas o dia estava claro. Havia carros na rodovia. Nada de estranho aconteceria. Ainda faltava 2h para escurecer, mesmo que houvesse nuvens no horizonte. Eu estaria em casa antes que a noite caísse. Aproveitei para tirar as bandagens do braço que já não doía mais. Segui pelo acostamento, mantendo um ritmo. A ida foi rápida. Parei num bebedouro público para tomar água quando cheguei à Baía. E os 10min de descanso que tirei foram suficientes para que o céu nublasse e ficasse pesado. Me escondi no toldo de uma cafeteria, enquanto a chuva desabava. Isso me faria voltar mais tarde. Andei de um lado para outro, sentindo que ia acabar tendo uma crise se não me acalmasse. Decidi pedir uma xícara de café enquanto a tempestade não passava. Não queria gastar mais ainda com taxistas. O café estava morno e doce. Aqueceu de dentro para fora. Me tranquilizei aos poucos. A chuva foi diminuindo, se tornando uma garoa fina, e por fim, parou. Deixou o ar mais fresco. Estava escuro agora. Paguei pelo café. Desci a rua com cuidado para não escorregar, e respirei fundo antes de começar a correr pela rodovia. Me sentia observada. Tentei manter a calma, mas cada vez mais parecia que estava sendo seguida. Tropecei duas ou três vezes por olhar em volta, para o céu e para o oceano. Quando decidi focar apenas no caminho a minha frente, ouvi o bater de asas. Acelerei o passo, estava não só correndo agora, mas fugindo. Aquele único som era suficiente para que eu quisesse chorar.

Não parei de correr até chegar a minha casa. Dolorem e Lunae latiram para mim, mas eu me tranquei dentro de casa assim que passei pela porta. Fiquei ali encostada, tentando respirar, não sei por quanto tempo. Quando me movi, minhas pernas estavam dormentes e minhas costas doíam. Caminhei devagar, acendendo a luz da sala, e ligando a copa. Meu corpo parecia amortecido, e eu fazia as coisas no automático. Tomei banho olhando fixamente para a parede, sem conseguir focar o olhar, sem conseguir sair do mar de pensamentos. Refiz os curativos. Não conseguia sequer pensar em comer. Olhei para a cozinha bagunçada. Havia uma vassoura apoiada no canto no balcão. Levei-a comigo quando me encaminhei para o quarto. Eu provavelmente me sairia melhor se pegasse uma faca. Mas não tinha coragem de voltar até as gavetas para buscá-la. Os cãe latiam agressivamente do lado de fora, provavelmente perseguindo algum gato da vizinhança. Era decisivo. Olhei para a receita médica em cima da mesa. O número do psiquiatra de plantão estava rabiscado com desleixo. Amanhã bem cedo eu o visitaria. Quando cheguei ao batente do meu quarto, a vassoura caiu de minha mão. Fiquei paralisada, e uma única lágrima escorreu pela minha bochecha. Em minha janela, havia cinco riscos no vidro. Cinco arranhões, para cinco garras.

Notas finais
Ninguém desmaia mais que a Malena, eu sei. Vocabulário: Finca - É uma espécie de fazenda ou sítio; propriedade rural. Croquetas - São bolinhos cilíndricos fritos, recheados com sabores diversos, como jámon (presunto de parma), espinaca (uma pasta de espinafre), puchero (macarrão), etc. Tapear - É o mesmo sentido de "beliscar", comer aperitivos, coisas que não são uma refeição completa. Siesta - Um hábito tradicional e diário da Espanha: Das 14h às 18h todos os comércios fecham, e as pessoas vão para casa almoçar, descansar e dormir.