O Menino Alado
5 Chapter 4
Notas iniciais
Acordei com a claridade da janela invadindo o quarto. Estava esparramada no colchão, a mochila que eu agarrara com tanta força estava no chão. Levantei cautelosamente, me sentindo um tanto tola por andar na ponta dos pés na minha própria casa. Abri a janela o mais silenciosamente que pude, apenas para meu celular tocar no instante seguinte, me sobressaltando. Ele estava perdido na bagunça do criado, eu não o levara comigo no dia anterior. Desisti do silêncio, e corri para atendê-lo.
“Hola, Malena?”, a voz disse. Eu mantive os olhos na janela aberta, mas não havia sinal de Acci, por enquanto.
“Dime, mamá. Precisa de algo?”, perguntei, tentando não ser grossa. Falhei miseravelmente.
“Bom, se você esqueceu que tem uma mamá, eu não esqueci que tenho uma hija”, ela disse, irritadiça. Fechei os olhos, e apertei a ponte do nariz, num suspiro. Como dizer que estava ocupada sendo atacada por um híbrido humanóide-alado de 17 anos?
“Perdón, mamá. Tive alguns dias corridos”, usei uma desculpa genérica.
“Hm, sei. Você está de férias. Pode vir aqui já, graciosilla. Seus tios vêm para o almoço”, disse, o humor um pouco mais suave. Suspirei outra vez. Abri a boca para responder, mas não sabia que desculpa inventar.
“Tenho que ir, mamá. Hoje não dá”, disse, e desliguei antes que ela protestasse mais. Aproveitei para ver a hora, e depois larguei o celular em cima da cama. Já eram 10h, eu havia dormido mais do que planejava, não que não fosse merecido. Senti meu pescoço coçando, e segurei o impulso de arranhá-lo. Olhei-o no espelho do quarto, e percebi que estava tão irritado e vermelho quanto antes. Seja lá o que Acci pensava da saliva dele, era claramente um placebo, ou não funcionava em humanos. Precisava limpar e fazer outro curativo. Olhei para a janela mais uma vez. O sol estava claro e o céu estava azul e limpo, ainda sem sinal de menino alado. Ergui a mochila do chão, e retirei a faca de dentro dela, tentando escondê-la com o corpo, ainda que Acci não estivesse por perto. Puxei a toalha que estava pendurado no trinco do guarda-roupa, e enrolei-a ao redor da lâmina. Fazia eu me sentir mais segura, menos impotente. Saí do quarto devagar, com os pés descalços. Mas não havia sinal de Accipiter pela casa. Abri a porta dos fundos, e os cães me recepcionaram aos pulos. Ainda nada do garoto. Dei a volta na casa, pisando no gramado, e olhei para o telhado. Dali, podia ver o prato de vidro reluzindo ao sol, e uma única pena grande e rajada sobre ele. Mal o conhecia, mas notei um padrão: Aquela era sua forma de me garantir que era real. Como se um prato ir parar no telhado não fosse prova o suficiente. Voltei para dentro, sequer considerando um modo de recuperar o objeto. Acci poderia recolhê-lo depois, se não estivesse ocupado perseguindo garotas humanas. Precisava organizar as ideias, fazer pesquisas, e arranjar uma solução para o problema todo. Mas antes, precisava de um momento meu. Dentro de casa, fui direto ao banheiro, e deixei a faca próxima do chuveiro, em cima da pia. Lavei o cabelo debaixo de água fervente, e esqueci Accipiter por alguns momentos. Minhas férias iam acabar dali a dez dias, e eu queria descanso… Ou achava que queria. Eu costumava reclamar muito de uma vida monótona. Talvez alguém lá em cima tivesse me enviado o que eu vinha pedindo.
Saí enrolada na toalha, e enquanto refazia o curativo no pescoço, resolvi ligar a tv para tentar me sentir mais normal. Infelizmente, parecia que o normal não me queria. No noticiário da manhã, a manchete me fez derrubar o rolo de esparadrapo: “Invasores na Torre del Reloj”, e ainda um subtítulo: “Cordas e pegadas são encontradas”. Paralisei em frente a tela, escutando a repórter falando.
“Segundo testemunhas, um grito foi ouvido ontem, entre meia-noite e 1h da madrugada, e isso levou os responsáveis a checarem a torre. Lá, encontraram cordas com nós profissionais, e pegadas n°39. O lugar está cercado para investigação, e não há previsão de quando será novamente acessível ao extenso público de turismo”, ela encerrou, acrescentando que aguardavam mais notícias das autoridades. Aquilo não era nada bom. Eles encontrariam o ninho, e Accipiter, e iriam estudá-lo como um rato de laboratório, eu tinha certeza. Ele pode ter garras, mas policiais têm armas. Senti meu coração acelerar e meus dedos tremerem. Era minha culpa. Mas eu precisava me acalmar para lidar com a situação: Eu sabia que ele jamais seria capturado sem alarde. Era impulsivo, e iria revidar qualquer ataque. Se tivessem o encontrado, nenhum jornal estaria falando de cordas e pegadas.
Terminei o curativo com os dedos ainda trêmulos, e me vesti rapidamente, decidida a ajudar Acci. Ou nem tão decidida assim. Um pensamento sombrio rodou minha mente, e eu fiquei sentada na beirada da cama, com um dos sapatos em mãos: Eu poderia seguir minha vida e torcer para que ele nunca mais desse as caras. Poderia voltar à vida monótona. Poderia visitar meus pais e rever meus tios, e contar a eles a história incrível de como tinha sido corajosa ao ser atacada por um falcão-peregrino que só queria proteger o próprio ninho. Mas... Como viver uma rotina comum depois de saber que o extraordinário existe? Como me contentar com a monotonia?... E mais que isso; como viver sabendo que era responsável pela ruína da vida do extraordinário? Fora o meu grito que causara a descoberta de tudo, ainda que não fosse minha culpa gritar. Eu tinha que fazer algo por ele… Talvez não pelo predador insensível, mas pelo menino sem nome, sim. E no momento, ambos constituíam Accipiter. Um calafrio subiu pela minha espinha, ao lembrar também que, talvez, eu não tivesse escolha. A parte predatória e autoritária do garoto me dizia que ele me caçaria se eu tentasse ignorá-lo outra vez. Comecei a vestir os sapatos, mas pensei direito: Tinha que me livrar deles, ou talvez pudessem me encontrar através deles. Parecia fantasioso pensar nisso, mas não queria me arriscar. Peguei botas do guarda-roupa. Não eram a melhor escolha para o percurso, mas estava frio demais para outra escolha. Por último, recolhi a faca e a enrosquei no cós da calça, escondida pelo casaco. Depois de trancar a casa, estava pronta para correr até a cidade mais um dia. O sol estava quente, embora o vento estivesse gelado, e a rodovia estava cheia de carros. Passando pelo meu jardim, vi a pena que Acci deixara em cima do telhado caída sobre o gramado. O vento devia tê-la derrubado. A recolhi, e sem saber direito o que fazer, a mantive em mãos enquanto corria. Meu cabelo estava secando no vento, e o cheiro do mar impregnava o ar. A cada carro que passava por mim, eu esperava de alguma forma ser reconhecida e presa, o que era paranóico e provavelmente fruto da ansiedade, mas não era minha culpa.
A cidade estava a pleno movimento, os barcos de carga indo e vindo na baía, ainda que o mar estivesse revolto. Eu segui pelo pavilhão da prefeitura, passando pelo meio da feira diária, cheia de acessórios e artesanatos. Meus olhos se prenderam por alguns instantes em um brinco que trazia penas sintéticas penduradas nele. Me perguntei o que Accipiter pensaria dele, mas segui caminho. Senti meu estômago roncar, e procurei por cafeterias ao redor. Não havia nada que eu pudesse fazer enquanto fosse dia. Onde quer que Acci estivesse, não sairia enquanto não escurecesse. Então não havia porquê passar fome outra vez. As ruas próximas a prefeitura eram cheias de comércios, e não demorei a encontrar um que parecia interessante. Sentei-me no balcão, e ainda que estivesse acostumada a café, me sentia mais criança depois da ligação da minha mãe, então pedi um Colacao e uma tostada com mermelada de fresa. O atendente encarou a pena em minhas mãos e com uma olhada rápida em volta, percebi que algumas pessoas faziam o mesmo. Quão estranho podia ser uma garota com uma pena de 50cm? Uma senhora que estava sentada perto da porta respondeu a essa pergunta, ao se inclinar e sussurrar para a mulher ao seu lado: “Isso é magia gitana”. Senti o rosto esquentar e fui ao banheiro, tentando evitar essa atenção indesejada. Lá dentro, tentei esconder a pena. Não cabia nos bolsos. Tentei dentro da camiseta, mas fazia cócegas. Enrolei-a em papel higiênico em seguida, mas o volume fazia parecer que tinha um tumor na barriga. Por último, lembrei dos acessórios da feira, e decidi escondê-la a mostra de todos: No meu cabelo. Soltei o rabo de cavalo, e usei o elástico para prendê-la entre as mechas. O comprimento do cabelo era suficiente para que ela parecesse um acessório. Esperava que não fosse ofensivo para Accipiter, porquê joder, aquilo tinha ficado bem em mim. Deixei o banheiro, e algumas pessoas ainda encaravam, mas não havia nada mais o que fazer. Pelo menos agora eu era só uma jovem seguindo uma moda estranha, e não alguém aparentemente fazendo “magia gitana”. Comi rápido, querendo partir, e pensando outra vez na situação de Accipiter. Paguei os poucos trocados que devia, e saí do café para o centro. Andando pelas ruas, não foi difícil notar a comoção ao redor da catedral e da torre. Pessoas cochichando por todos os lados, e policiais espalhados aqui e ali. Eu não conseguiria passar por toda a segurança. Andei pela praça, procurando furos, até me trombar com alguém.
“Desculpe, senhor, estava distraída”, disse, mas quando levantei o olhar, toda a minha educação sumiu. Diante de mim, com uma expressão indiferente, estava Rafael Soarez. Abri a boca para acusá-lo, mas seu rosto se contraiu em terror, e ele enfiou a mão em meu cabelo, segurando a grande pena entre os dedos. Tentei me afastar, mas ele puxou com força, e arrancou-a, levando uma mecha de cabelo junto. Meu couro cabeludo ardeu, e eu pressionei os dedos no local. Havia sangue ali. Encarei-o furiosa, e levantei o braço esperando acertar-lhe um tapa. Porém, ele segurou meu pulso com força, e me arrastou pelo meio do tumulto. Seu aperto era forte e embora eu resistisse, ele não soltava. Vi algumas pessoas olhando para a cena com estranhamento, mas nenhuma delas interferiu. Que sociedade maravilhosa. Quando Soarez parou, estávamos em uma das ruas paralelas do centro, vazia. Puxei meu braço com indignação, e ele finalmente me soltou. Antes que eu protestasse, ele se pronunciou.
“Onde conseguiu isso?”, ele disse, com os olhos arregalados e a pena em mãos. Sua imagem era de desespero, com os olhos arregalados e olheiras fundas, e veias saltadas nas mãos e no pescoço. “Ah, esqueça, eu sei onde conseguiu isso. Mas como? Em que local?”, continuou, antes que eu respondesse. Não entendia qual era o interesse dele nesse assunto, porque se assustara tanto antes e agora vinha atrás dessas informações. A única coisa que eu sabia era que não confiava nem um pouco naquele homem. Cruzei os braços e me mantive em silêncio. Rafael suspirou, remexeu nos bolsos, e estendeu uma nota de 500€ para mim. Aquilo era 70% do meu salário mensal como garçonete, trabalhando de domingo a domingo, com direito a duas semanas de férias por semestre. Ele percebeu o modo como olhei para a nota.
“Lhe dou outra se me contar o que fez com a coisa, Srta. Morgado”, disse. Encarei-o intrigada e receosa. Ele sabia sobre Acci, embora eu não conseguisse entender como. Meus dedos começaram a formigar, mas desviei o olhar e mantive minha posição corporal, sem aceitar o dinheiro.
“Devolva a pena, Sr. Soarez”, respondi, sem encará-lo, tentando manter a compostura. A ansiedade que ainda não havia dado as caras hoje, ameaçou fazer uma aparição. Meu coração acelerou. Respirei fundo, e encarei-o de vez. Rafael abriu um sorriso taciturno, e seu olhar era de escárnio. Ele guardou o dinheiro. E então, se aproximou um passo largo de mim, e eu recuei. Não gostava daquela situação.
“Você não entende o que significa, Malena. Precisa me dizer tudo o que sabe”, disse, as mão cerradas em punhos. Apertei meus braços ao redor do corpo, nervosa.
“Eu não me importo com o que significa para você. Não sou obrigada a te dizer nada”, respondi, dando um passo na direção da praça. Rafael avançou dois passos largos, e eu recuei de susto, indo parar contra a parede. Ele não se afastou, estava a meros 10cm do meu rosto. Tinha hálito de café e cheiro de perfume de grife.
“Estou pedindo… Eu preciso saber sobre eles…”, disse, sua expressão era de dor. Não sabia o que ele queria, mas não confiava que tivesse boas intenções. Sem esperar resposta, ele soltou um rosnado de raiva, e socou a parede ao meu lado. Eu me afastei, tentando andar para a praça, mas ele puxou meu braço outra vez. Sem opção, sabendo que não havia ninguém lá, puxei a faca que estava presa em minha calça, e apontei-a para Rafael. Ele me olhou assustado, quase como se não soubesse o que estava fazendo. E então sua expressão se contorceu em dor outra vez. Sentia meu coração pulsando na ponta dos dedos e nos ouvidos. Soarez silenciou, e soltou meu braço. Eu puxei a pena de suas mãos, e imediatamente me afastei, correndo de volta para a multidão da catedral. O sol quente me fazia suar, ainda que o ar estivesse frio e causando congelaciones em minhas bochechas. Não sabia se Rafael viria atrás de mim, mas não parei de correr até estar longe da catedral. Atravessei a praça desviando das pessoas, e me enfiei numa viela de travessia onde carros não podiam entrar. Minha cabeça ardia onde ele arrancara cabelo, e eu mal respirava, por ansiedade. Estava acostumada a correr, mas não quando estava tão próxima de uma crise. Me apoiei na parede de uma casa, e escorreguei para o chão. Não contive a vontade de chorar que o aperto em meu peito causava. Queria minha vida normal de volta. Eu tinha ameaçado alguém com uma faca, e estava lidando com um predador insensível, nada mais fazia sentido. O estresse estava devorando a minha mente. Não sentia confiança o suficiente para contar a alguém e pedir ajuda. Fiquei ali, com a pena em mãos, respirando e tentando entender o que poderia fazer por Accipiter. Ainda era cedo, perto de 12h, e onde quer que estivesse, ele não daria as caras. Seria impossível contatá-lo. Para quem não tinha um nome até ontem e não sabe reconhecer um desmaio… Duvido que tivesse um celular. Era difícil aceitar, mas a esse ponto, eu não podia fazer nad… Soarez virou a esquina da viela. Eu imediatamente me coloquei em pé, e apertei a faca em mãos, começando a recuar. Ele levantou as mãos e olhou em volta.
“Calma, Malena. Eu fui um imbecil e te assustei, não era para ser assim. Eu posso explicar a situação toda, por favor....”, disse, dando dois passos à frente. Seu rosto mostrava uma expressão penosa, desesperada. Ele não iria me deixar em paz, e eu não podia ficar correndo por toda Cádiz para fugir dele. Com o coração na garganta, eu assenti com a cabeça, mas não baixei a faca. Ele manteve a distância entre nós, e pigarreou, o olhando por cima de mim. Havia uma senhora caminhando rua acima. Encostei a faca entre minha perna e a parede, e Rafael baixou as mãos, apoiado à mesma parede. Aguardamos que ela passasse. No minuto em que ela virou a esquina, eu voltei a segurar a lâmina com meus dedos trêmulos. Ele olhou para minha mão.
“Eu não posso falar sobre isso aqui, e você não pode ser vista apontando uma faca para um homem no meio da rua”, disse. Revirei os olhos e limpei o rosto, onde ainda existiam algumas lágrimas.
“Eu não vou com você à lugar nenhum”, respondi, tentando não vomitar de ansiedade. Ele suspirou.
“Sorte a nossa que eu estou disposto a ir com você aonde quer que decida ir”, disse, com escárnio. Pensei por alguns segundos, e apontei para a esquina logo acima da rua.
“Por ali. Você primeiro”, disse. Ele assentiu, e mais relaxado do que eu achava decente, caminhou por onde eu indicava. Eu guardei a faca, mas me mantive afastada dele. Chegamos ao Café Bar La Estrella alguns minutos depois. Era um lugar popular, mas tinha mesas em cantos mais reservados, geralmente escolhidos por casais que gostavam de privacidade. Também era o lugar onde eu trabalhava fazia dois anos e meio. Paco Mariano, o dono, me cumprimentou com um aceno de cabeça, e eu lhe sorri. Era um senhor muito gentil, e eu não queria que notasse que havia algo errado. Ele olhou para Rafael, e depois olhou para mim, e virou as costas, balançando a cabeça. Depois de dois anos e meio, ele já havia aprendido que eu tinha muitos casos e poucos relacionamentos. E embora ele não aprovasse, não fazia meu tipo mudar isso para agradar outras pessoas. E agora ele achava que Rafael era um desses casos. Não sabia se me sentia agradecida pelo disfarce ou se me sentia enojada. Sentei-me à mesa, e indiquei a Rafael para fazer o mesmo. Ele sentou à minha frente, e fiquei satisfeita, estávamos ambos longe do alcance um do outro.
“Eu preferia um ambiente íntimo, mas acho que isso vai ter que servir”, disse, olhando em volta para as pessoas que chegavam para o almoço e se instalavam em mesas distantes. Encarei-o séria, e discretamente, comecei a desenrolar os fios de cabelo da pena de Acci. Soarez pigarreou. “Até onde eu sei da sua história, a coisa te atacou. Por que está nessa defensiva?”, questionou.
“Não estou na defensiva. Só não confio no cara que me deixou desmaiada no chão e arrancou um pedaço de pele da minha cabeça”, disse, ácida. Rafael olhou para o próprio colo.
“Isso foi bastante defensivo. Peço desculpas por minhas ações impensadas, Malena. Mas você me assustou. Fazia anos que eu não via algo relacionado às coisas, e aí você aparece na minha porta com o pescoço dilacerado por uma delas”, disse, quase para si mesmo. Não senti nem um pingo de pena.
“Pare de chamá-lo de coisa”, objetei. Rafael ergueu as mãos. “Se explique de uma vez”, continuei, tirando o último fio de cabelo da pena. Comecei a enrolá-la no cabelo outra vez. O homem analisou o ato, e remexeu nos palitos de dente na mesa.
“Ele, sim? Preciso encontrá-lo. Eu quero ajudá-los”, disse, percebendo que se tratava de um homem. Eu não conseguia acreditar em sequer uma palavra dele. Com a pena já enrolada em meu cabelo, mantive as mãos entre os joelhos. Não queria começar a tremer, não importava o rumo da conversa. Encarei Rafael.
“Ainda que eu acreditasse em você, e eu não acredito, como você poderia ajudá-los? Corrija-me se eu estiver errada, mas você é só um ornitólogo. E nem é dos melhores”, respondi. Ele levou uma das mãos ao peito, com uma expressão de dor fingida.
“Pare de mostrar os dentes, Malena. É totalmente desprovido de classe. Mas para começar a responder a sua pergunta… Eu sei mais do que você sobre essa espécie. Sei como lidar com o segredo, com a adaptação deles ao mundo”, disse. Sua voz ficou mais séria ao fim da frase. Uma expressão melancólica tomou conta de seu rosto. Decidi ser menos ácida na resposta seguinte.
“Por que? Por que você sabe sobre eles quando ninguém mais parece saber? O que você ganha com isso? Fez com que eu te desse uma chance de se explicar, mas não respondeu as perguntas certas”, disse, respirando fundo. Rafael me olhou nos olhos, e não havia sarcasmo ou escárnio em seu rosto: Apenas… Tristeza?
“Porque eu já conheci um deles antes”, disse, e percebi que ele não olhava para mim, mas que trazia os olhos vidrados, pensando, bem longe dali. Permaneci em silêncio, esperando que ele continuasse. Seu devaneio se encerrou, e ele baixou os olhos. “Eu sei mais do que você, Malena. É um fato”, disse. Ele respirou fundo apenas uma vez, e então me olhou, a expressão facial fechada. Aquela resposta havia sido extremamente vaga, eu sabia. Mas era a intenção dele, eu podia perceber. Eu havia pedido uma razão para me aliar a ele, e ali estava: Conhecimento. Nada mais e nada menos. Se ele parecia desesperado antes, aquilo já tinha acabado. Talvez eu estivesse ficando louca em sequer considerar acreditar nele. Mas pensando em Accipiter, eu não deixava de ponderar quanto tempo eu poderia ajudá-lo por conta própria, ainda que ele fosse um ser tão altivo e independente… E tão ameaçador. Ter mais alguém ao meu lado parecia mais seguro. Ainda assim… Por maior que fosse o conhecimento de Rafael, confiar nele parecia irresponsável. Precisava despistá-lo, ou ao menos tentar.
“Eu sinto muito. Mas isso não é suficiente. Eu sequer tenho os mesmos objetivos que você. Só quero sobreviver”, disse, séria, e toquei o pescoço onde o curativo encontrava a pele. Rafael abriu um repentino sorriso amargurado e sarcástico.
“Não aja como uma menininha assustada, Malena. Apontou uma faca para mim mais cedo, caso tenha se esquecido. Eu não confio em você e tampouco sei os seus objetivos. Mas sei que precisa da minha ajuda, porque não tem ideia do que está fazendo”, disse, olhando sem disfarces para a pena em meu cabelo. Eu senti o rosto esquentar, mas não respondi. Gradativamente, percebi algo que não se encaixava na resposta de Rafael. Me preparei para questioná-lo, quando Paco se aproximou, com uma tigela de azeitonas. Fiquei quieta. Ele olhou de mim para Rafael com a expressão fechada, e depositou a tigela entre nós dois.
“Por conta da casa, gordí. Está tudo bem por aqui?”, perguntou, apoiando a mão em meu ombro sem tirar os olhos de Rafael. Segurei a vontade repentina de rir das atitudes que ele sempre tomava quando me via com um homem. Ele era próximo do meu pai a vida toda, e depois que ele falecera, havia tomado o papel de me proteger mais a sério do que era necessário.
“Todo cierto, Paco. Obrigada pelas azeitonas”, disse. Ele apertou meu ombro uma última vez, e voltou para o balcão. Desfiz a expressão gentil, e voltei a olhar duramente para Rafael.
“Me explique mais uma coisa, Soarez. Se quer tanto ajudar, por que me expulsou da sua casa quando descobriu? Por que os chamou de coisas?”, questionei. Ele me olhou com um sorriso de canto, como se estivesse esperando aquilo.
“Me explique, Malena, por que você preferiu me ameaçar com uma faca do que me contar sobre ele?”, disse. Eu engoli em seco. Era assim que ia ser: Se eu queria saber o que ele sabia, teria que dar informações também.
“Angustiarum”, eu respondi, e para a minha surpresa, ele entendeu o latim.
“Impasse. De fato”, disse, com uma expressão cínica. Não esperou minha resposta. Ele pegou uma azeitona, se levantou, e andou para fora do bar como se não tivesse sequer uma preocupação sobre os ombros. Toda a sua postura gritava uma única frase: Você sabe onde me encontrar. Ele era um homem inteligente, coño! Deitei a cabeça na mesa, cansada. A faca ainda estava entre as minhas pernas, e eu tratei de escondê-la debaixo do casaco outra vez, porque Paco vinha se aproximando outra vez. Ele afagou minha cabeça, perguntando o que estava havendo. As horas tinham passado rápido, e já era hora da siesta. Estava com a cabeça cheia e zunindo, e ele conseguia notar. Olhou para mim gentilmente.
“Para o fundo, andale!”, disse, me levantando e me empurrando para trás do balcão, passamos pela cozinha, e Dolores Mariano, a esposa dele, me deu um beijo em cada lado da bochecha, perguntando o que havia acontecido com o meu pescoço. Paco respondeu que eu tinha perdido una pelea com uma cegonha, continuando a me empurrar para o fundo do café. Eu ri, esquecendo os problemas por um tempo, e pensando na suposta cegonha. Chegamos ao último cômodo, que eu sabia, era um pequeno quartinho, onde eles descansavam nos dias mais agitados. Ele me soltou, e eu sentei na cama baixa de madeira, sentindo o cansaço me abater.
“Durma, gordí. Nós vamos trancar as portas, mas a chave reserva está no caixa. Voltamos mais tarde. Fique o quanto quiser”, disse, e encostou a porta, me deixando sem ao menos a chance de agradecer. Deitei a cabeça no travesseiro, o sono pesando minhas pálpebras, e o padrão das asas de Accipiter se misturando ao cabelo que se espalhou, bem em frente aos meus olhos. Não demorou para tudo sumir.
A temperatura tinha caído drasticamente nas últimas horas. A comoção da catedral já havia se acalmado, e o local estava praticamente vazio agora de madrugada, com exceção de alguns grupos de adolescente andando aqui e ali. Acordara às 20h, com o sol quase se pondo, e os Mariano trabalhando com o movimentado bar. Ajudei-os a limpar algumas mesas, mas Paco logo me enxotou de lá, com o argumento de que jovens normais não passam as férias no trabalho. Perambulei pela cidade nas horas restantes, tentando organizar a bagunça que se formava em minha mente. Eu não conseguia parar de pensar nas coisas que Rafael havia dito, e me sentia exausta depois do dia longo. Agora estava no horário de Acci sair para caçar, onde quer que estivesse escondido. E isso significava que eu devia ir até o Paseo Marítimo, onde todos os acessos às praias ficavam, para estar o mais próxima do mar o possível. A caminhada era longa, eu estava andando pela rodovia há meia hora, e a brisa estava atravessando minhas roupas e me fazendo tremer. Sentia medo de andar a essa hora sozinha, mas não tinha escolha. Apertei o celular nas mãos, havia pelo menos dez mensagens não visualizadas da minha mãe, e eu não queria nem imaginar o quão irritada ela devia estar. Finalmente, estava no primeiro acesso à praia. A areia estava gelada, então me mantive afastada. Olhei os céus, procurando por sombras e movimentos, mas não havia nada à vista. Passei alguns minutos esperando e tremendo, e decidi caminhar até o próximo acesso. O cheiro de maresia me deixava contente, mas a brisa se tornava mais forte ali, e eu mal conseguia controlar os espasmos no meu corpo. Olhei em volta, e não havia mais ninguém ali. Quem é que estaria na praia em uma noite de 4ºC? Só uma maluca que conhecia garotos emplumados. Por maior que fosse minha blusa, ela era inútil naquele lugar. Faltavam apenas 3m para o segundo acesso quando eu ouvi o bater de asas de Accipiter. Era inconfundível, porque nenhum par de asas de tamanho ordinário faria aquele som. Senti um calafrio por baixo dos causados pela temperatura, ao me lembrar do pesadelo da outra noite. Mas quando ele pousou diante de mim, não era nenhum monstro. Suas feições eram humanas, e estavam exibindo a mais pura raiva. Ele pingava água, os cabelos molhados, recendia maresia. Engoli em seco, mas antes que dissesse algo, ele deu um passo largo em minha direção.
“Eu os encontrei quando voltava da caça, como formigas, entrando e saindo do local e levando aquilo que não pertence a eles. Não pude voltar, não pude defender meu ninho, não pude dizer nada. Tudo por sua causa”, disse, mortalmente sério, acusatório. Tinhas as mãos bem abertas ao lado do corpo, as garras à mostra. Nem mesmo a raiva que senti ferver em mim aqueceu meu corpo contra o vento.
“V-Você não p-pode me culp-par por isso!”, disse, frustrada. Mas não ousei mover um músculo sob o olhar predatório que ele me dava. Eu passara o dia preocupada, estava ali em uma das noites mais frias do ano, e ele queria me culpar. Ele baixou os olhos para meu queixo, que tremia sem parar. Sem aviso, ele agarrou meus braços e me puxou. Um grito ia escapar pela minha boca, quando ele a tapou com uma das mãos, as garras bem próximas dos meus olhos. Ainda assim, todo meu corpo entrou em pânico, esperando um ataque, e lutei contra a proximidade. Mas nem toda a adrenalina do corpo humano me tornaria mais forte que Accipiter. Ele me segurou firmemente, e não demorou para levantar vôo. Me segurei a ele com toda a força que pude, me sentindo quase escapar de seu aperto no primeiro impulso. Ainda que molhado, tinha o corpo quente como se estivéssemos em pleno verão. Ele ia realizar meus piores medos e me soltar da altura dos céus, eu tinha toda a certeza. Tentei gritar seu nome por cima do som do vento, tentar convencê-lo a me poupar, pedir perdão ou o que fosse, mas ele ainda mantinha minha boca tapada, com força. Parei de me mexer, e afundei o rosto em seu corpo, sentindo lágrimas correndo sem parar no meu rosto, e soluços intermináveis. Mas ele não me soltou, não me atacou, não fez nada além de voar esforçadamente, cada vez mais alto, até o ar se tornar rarefeito para mim. Isso durou bons minutos, até que ele começou a descer. O pouso foi pesado, mas mais suave que o anterior. Ele me soltou, tirando a mão da minha boca devagar. Me afastei alguns passos, apoiando-me numa parede de pedra, puxando o ar com força, e tremendo, tanto de medo quando de frio. Não conseguia olhá-lo nos olhos, mas olhei em volta, e reconheci onde estávamos: El Teatro Romano de Cádiz.
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