O Menino Alado
6 Chapter 5
Notas iniciais
O vento fazia os pedaços molhados das minhas roupas quase congelarem, e cortava minhas bochechas. O ar estava tão frio que havia feridas ardidas em minhas narinas, enquanto eu tentava respirar e me acalmar depois do voo repentino. Accipiter não pareceu entender que se aproximar não seria uma boa ideia, e com a expressão séria e irritada, ele andou até mim, segurando meu braço. Por reflexo, eu busquei a faca na cintura, empunhando-a contra ele, que imediatamente torceu meu pulso na direção oposta. A dor aguda me fez soltar a lâmina, e ele me segurou contra a parede de pedra fria. O olhar em seu rosto não era de surpresa, mas sim de algo parecido com presunção. É claro que ele sabia. Como não saberia? Com os reflexos de uma ave de rapina, jamais passaria despercebido que eu tinha retirado a faca de sua pilha e a levado comigo. Me senti tola e indefesa, ainda tremendo de frio. Fiquei extremamente consciente do curativo em meu pescoço, especialmente das feridas que ele cobria. Mas Accipiter não fez nada contra mim. Ele me soltou, e indicou uma das entradas do Teatro. Eu caminhei para dentro, com as pernas bambas. As paredes de pedra impediam o vento. Não era quente, mas era certamente melhor do que o lado de fora. Me encostei nas rochas, e deslizei para o chão, sentindo o peso da vergonha pelo ataque fracassado.
“Ficou o d-dia t-todo aqui?”, perguntei baixinho. Ele estava na parede oposta, distante de mim. Não respondeu. Alguns minutos passaram, eu tremia de frio, e mal sentia a ponta dos dedos. Accipiter mal me olhava, quando algo chamou sua atenção. Estava escuro, mas ele parecia ver com clareza, porquê questionou:
“Essa é minha pena?”. Se já não estivesse com as bochechas queimadas de frio, teria corado. Assenti com a cabeça, abraçada às minhas pernas, tentando me aquecer. Se ele se importou, não disse nada. O silêncio se instalou de novo. No espaço fechado, o cheiro de maresia que irradiava dele e de minhas roupas contaminava tudo. Suas asas ainda pingavam as vezes, encolhidas ao máximo ao seu redor. Quando não aguentava mais o frio, tentei dizer algo.
“D-desculpe… Eu não q-queria que invad-dissem seu ninho”. Era um pedido falso. Sentia um pouco de culpa, é claro. Mas eu não pedira para ser caçada e explorada. Não revelara a ninguém sobre Acci. Se gritar ao ser jogada de uma torre era errado, eu já não tinha ideia do que era certo. O modo como ele me culpou me fez perceber quão injusto era. Mas também me lembrou do quão birrento e emburrado um adolescente pode ser. Eu precisava lidar com aquilo da maneira correta para poder ir para casa. A proposta de Soarez passou pela minha mente. Se fosse verdadeira, eu teria apoio nesse tipo de situação. Mas não é verdadeira, tratei de lembrar.
Acci não pareceu comovido o suficiente com o pedido de desculpas para responder. Estava parado, sem tirar os olhos de mim. Mas ou eram só as sombras do ambiente, ou sua expressão parecia conturbada. Repentinamente, suas asas se desdobraram, e cobriram o pouco diâmetro do corredor, criando barreira contra o frio dos dois lados. Eu só enxergava o contorno sombreado dele na outra parede. Esperei, agradecida pelo calor que as penas proporcionavam.
“A primeira palavra que disse… O que ela quer dizer?”, questionou. Repensei minha frase.
“Desculpe. É…”, por um momento, tive que refletir como explicar a profundidade social do conceito de perdão. Mas não podia explicar tudo de forma rápida. “Quer dizer que eu me arrependo de algo. E que quero que me perdoe”, tentei. Seu silêncio pareceu mais confuso que antes. “Eu fiz algo errado. Isso te causou mal. Quando uso essa palavra, estou tentando consertar o mal que eu te fiz”, tentei outra vez. Suas asas se agitaram um pouco, como se estivesse ansioso.
“Não gosto disso. Faz eu me sentir… Errado”, disse. Foi minha vez de ficar confusa. Ele não parecia ter conceito de perdão, arrependimento ou erro. Talvez estivesse descobrindo algo novo. “A pena… Eu gostei de ver a pena no seu pelo, mas também não sei o porquê”, continuou e eu senti o rosto quente outra vez, “e então você disse aquela palavra. E foi ruim. Foi errado”, ele tentou se explicar. Acompanhei seu raciocínio, fascinada. Era como uma criança aprendendo a falar. Pensei em como ajudá-lo.
“Por que estendeu as asas?”, tentei questioná-lo para identificar mais características. Tinha esperanças de nomear as coisas que ele sentira e ensiná-lo. Não sentia medo de Accipiter agora. Apenas um extraordinário fascínio. Ele não parecia mais irritado, soava perdido. Não me sentia ameaçada. Naquele pequeno espaço criado pelas asas rajadas, era estranhamente… Seguro.
“Eu… Você é frágil. Você tem medo. E grita. E chora. E… Você tem frio”, disse, enumerando as coisas vagarosamente. “A palavra me fez sentir errado por você ter frio”, concluiu, soando um pouco impaciente. Percebi que mesmo que inconscientemente, Acci sabia que a culpa pelo ninho não era minha. E aquela parte dele percebera isso quando eu tentara me desculpar. Então ele sentiu arrependimento, mas não sabia como lidar. Sua reação foi impulsiva: Me ajudar da maneira mais óbvia ao alcance. Isso não mudava o fato de que ele fora inconsequente e ingrato. Mas mostrava que podia aprender.
“O nome é arrependimento. Você vai… Vai aprender mais sobre…”, comecei a dizer, mas ele recolheu as asas bruscamente. A superfície calma se desfez. O frio agrediu minha pele.
“Não quero aprender sobre o que faz eu me sentir errado. Estou com fome”, disse, fazendo um gesto com mão para que eu levantasse. O menino curioso se fora. O jovem impaciente tomara seu lugar mais uma vez. Suspirei, exausta. Minha cabeça latejava. Mal parecia que havia dormido uma longa siesta. Segui Acci para fora do Teatro, o vento fazendo meu cabelo esvoaçar, cada vez mais gelado. Estar perto dele era uma dádiva que me deixava contrariada. O vôo para casa foi leve, congelante e silencioso. Não ousei abrir os olhos. Não ousei parar de rezar, mesmo que não fosse tão religiosa quanto deveria ser.
Accipiter não conseguia passar pela porta. Havia sido nosso primeiro pouso suave, sem tombos, sem tropeços. Ele estava aprendendo. A suavidade fez com que os cães, ainda no fundo do terreno, não notassem a presença dele. Adentrei a casa, agradecida pela proteção das paredes, mas o som alto de madeira batendo me sobressaltou. Acci tentara atravessar o batente, mas suas asas estavam abertas e fizeram com que a porta batesse contra a parede. Contive o riso. Sua expressão estava fechada, emburrada. Ele enrolou as asas ao redor do corpo, como um enorme morcego penado, e adentrou o cômodo vagarosamente. Um riso me escapou, e eu o transformei em um acesso de tosse. Accipiter não pareceu notar. Estava completamente absorto, os olhos voando de um objeto para o outro. Inadvertidamente, ele abriu as asas de uma vez só. Os retratos de família em cima da estante foram jogados ao chão, estilhaçando-se no processo. Isso o assustou, e suas asas se agitaram mais, enquanto ele tropeçava para longe dos cacos de vidro.
“Accipiter!”, disse, o mais altiva que consegui, com o riso entalado na garganta. Ele me deu atenção imediata, mesmo que fosse para levantar a sobrancelha, numa perfeita expressão irritadiça que dizia “Quem é você para usar esse tom comigo?”. Sua movimentação parou, enquanto me encarava fixamente. “Fique parado…”, pedi, menos confiante que antes, diante dos olhos escuros ameaçadores. Ele não se moveu, e eu me afastei, em direção a cozinha. Mas ele ainda era um adolescente rabugento, e o pedido não foi acatado por muito tempo. Passo a passo, mexendo apenas o pescoço e as pernas, ele seguiu pelo mesmo caminho que eu. Suas asas estavam extremamente retraídas, e assim que chegou ao balcão da cozinha, ele não se moveu mais. Fechei a geladeira atrás de mim, sem conseguir acreditar no quão burra eu era.
“Burra, burra, burra…”, murmurei comigo mesma, passando as mãos pelo rosto. Não havia nada para comer ali. Ao menos, nada carnívoro para comer ali. Acci, com a mesma expressão fechada, sem dar um sinal de curiosidade, perguntou sério:
“O que é burra?”, e eu não pude evitar um curto riso de escárnio.
“Burro é alguém que não sabe das coisas e comete erros por causa disso. Burra é a versão para meninas”, disse, com a voz abafada e o rosto enterrado nos braços, debruçada sobre a mesa. Ele ficou em silêncio. Olhei-o de relance. Estava um pouco molhado, mas não parecia sentir frio. As asas encolhidas reluziam de óleo, e seus olhos vasculhavam o ambiente cheio de coisas desconhecidas a ele. Me levantei, com um suspiro cansado. “Não tenho carne. Te dei tudo o que tinha da última vez”, continuei. Acci não teve nenhuma reação expressiva, ainda em seu silêncio. Esperei que ele sentisse raiva ou me atacasse, mas quase consegui ouvir as engrenagens funcionando na cabeça do menino. Ele ainda estava confuso depois da conversa que tivemos no Teatro, e eu iria aproveitar isso ao máximo. Levantei, e puxei um vinho do suporte. Ele parecia absorto demais em si mesmo para notar. Voltou a me observar quando eu recolhi uma taça da lava-louças, e ela reluziu contra a luz. A pilha de quinquilharias em seu ninho provava que ele gostava de tudo aquilo que brilhava, como um dragão guardando tesouros. Ele deu um passo para dentro da cozinha, trespassando o balcão. Eu parei onde estava, com a taça cheia em mãos, receosa. Ele deu mais um passo em minha direção, sem desgrudar os olhos de mim, e não pela primeira vez, eu me senti como uma presa encurralada. Repentinamente, sua nudez me deixou desconfortável outra vez. Se ele notou, não zombou. Parado à minha frente, ele estendeu o braço, e seus dedos roçaram na pena em meu cabelo. Contive o impulso de me afastar, e o de pôr a mão sobre o curativo ligeiramente úmido em meu pescoço.
“Você me disse porquê eu não gosto de desculpe. Agora me diga porquê eu gosto da minha pena no seu pelo”, disse, sério, com um fundo de voz que sugeria frustração. A esse ponto, eu sentia meu rosto queimando.
“Cabelo. Pelo é para animais. Humanos têm cabelo”, corrigi, tentando fugir do assunto. Accipiter não caiu. Continuou me olhando, da pena para o cabelo e do cabelo para o meu rosto. Eu não ousava mover um músculo para me afastar, não com suas garras tão próximas de mim. “Eu não sei porquê gosta disso”, respondi, tentando ignorar as teorias que minha mente me enviava, porque eram bizarras demais para que eu as cogitasse. Ele recolheu o braço, com o cenho franzido por um mísero segundo, antes de fechar a expressão. Então me olhou com superioridade.
“Tem carne atrás de você”, disse. Foi minha vez de ficar confusa, mas me lembrei da peça de jámon ibérico que eu deixava coberta por um pano de prato, em cima do armário onde estava encostada. Uma sensação de alívio passou por mim, e tomei um longo gole de vinho. Acci se afastou, e o momento estranho se foi com ele. Ele ainda mantinha as asas extremamente retraídas, e isso parecia irritá-lo. Me pus a cortar nacos grandes do jámon, sabendo que ele comeria muito. E estava certa. Para quem havia acabado de pescar em alto-mar, ainda comia como um menino adolescente esfomeado. Notei que ele estava em pé, segurando o prato em mãos. Sentei-me à mesa, e liguei a copa, para aquecer o ambiente. Indiquei a cadeira para ele, mas imediatamente me arrependi. Era só olhar para o móvel para saber que não fora feito para comportar alguém com asas. Eu não tinha nenhum banco na casa, e ele com certeza não conseguiria ocupar um sofá. Enquanto isso me perturbava, Acci mal parecia notar. Tanto fazia se estava em pé ou sentado, contanto que estivesse comendo. Distraído com a carne, esqueceu das asas, e elas se agitaram, derrubando alguns potes com o vento que causavam. Ele se afastou, verdadeiramente irritado. Eu recolhi os potes, enquanto ele corria a porta sem muito mistério, e deixava um ar gelado entrar, ao sair para o quintal. O segui, contrariada. Queria tomar banho, refazer o curativo, e ficar no sofá até finalmente ter sono. Por mais cansada que estivesse, a longa siesta me garantia que eu só dormiria muito mais tarde. Acci estava empoleirado na árvore que ficava ao lado de uma das janelas, os cães latindo sua presença. Ele terminou de comer lá em cima, enquanto eu tentava acalmar Lunae e Dolorem. Quando gritei com eles, percebi a atenção do menino direcionada a minhas palavras. Ele bufou.
“Os… Nomes deles... São como o meu. Você me deu um nome como dá nomes aos seus animais?”, questionou, a expressão totalmente avessa e indignada. O frio me mantia em constante arrepio, mas me senti completamente quente de vergonha. Não que eu considerasse Accipiter meu animal, mas tinha sim, inconscientemente, o batizado como um. E para minha infelicidade, ele parecia capaz de identificar quando palavras pertenciam a um mesmo idioma. Decidi que precisava de mais vinho para lidar com aquela conversa, e segurei um pequeno riso de auto-piedade que tentou me escapar. Andei para dentro, e ele me seguiu, com os braços cruzados e a expressão emburrada. Parou à porta, com as asas retraídas.
“Eu não sou seu animal”, disse, firmando cada palavra com um olhar duro e superior. Eu suspirei, enchendo minha taça mais uma vez, no balcão, a poucos metros dele.
“Eu sei disso, Ac... “, relutei em chamá-lo pelo nome, mas não tinha escolha. “Acci… Eu nunca quis nomeá-lo como um animal. Eu gosto muito de latim, e costumo pensar nisso quando preciso de nomes. Não quis ofendê-lo”, disse, cansada, enquanto bebericava o vinho. Ele ainda me observava emburrado, mas descruzou os braços. Depois de alguns minutos de silêncio, onde minha taça acabou e me deixou zonza, ele se pronunciou.
“É pequeno demais aqui”, resmungou, as asas inquietas. Senti o peito pesar ao pensar em seu ninho. Não sabia como ajudá-lo. Minha casa era realmente pequena para um ser tão magnífico quanto ele. Parecia errado instalá-lo ali. Mas duvidava que o teatro fosse muito mais confortável. Mais uma vez, enchi a taça. Elas pareciam estar acabando muito rápido.
“Tem algum lugar para onde queira ir?”, perguntei, dando um gole longo. Acci observava curioso, mas nada disse sobre aquilo.
“Eu já voei por muitos lugares. Aqui, onde nasci, era o lugar para onde eu voltava. Eu estava escolhendo um lugar onde ficar, e então, abandonaria o ninho de minha mãe e faria o meu próprio. Mas ainda não escolhi. Tem um lugar, a quase dois dias de distância daqui… É confortável. Há grandes… Coisas, construídas por humanos, espalhadas a céu aberto. Uma delas é parecida com onde eu passei o dia, e foi por isso que fiquei ali”, disse. Me surpreendi ao notar como ele não hesitara antes de me revelar seus planos de vida. Talvez a inferioridade da minha condição humana fizesse com que ele não se sentisse nem minimamente ameaçado pelo quanto eu sabia sobre sua vida, talvez ele pudesse notar, de alguma forma, que eu não estava exatamente consciente depois de tanto vinho no organismo, ou talvez ele só confiasse em mim. De qualquer forma, soube imediatamente que ele falava da Itália. Provavelmente Roma e seus arredores. Soava certo que uma criatura como ele, mágica e para mim, até pouco tempo atrás, mitológica, quisesse viver em Roma. Falando desses planos, Acci envelhecera 10 anos bem diante de mim, repentinamente sério e maduro. A taça acabou. Me desencostei do balcão, e notei que me sentia leve e propensa a cruzar as pernas. Acci estendeu o braço no momento em que eu tropecei no ar e cambaleei. Um sorriso fácil se abriu em meu rosto, vendo o menino embaçado e pela primeira vez não sentindo medo do brilho de suas garras. Observei-as cintilar, apoiando meu braço, longe da pele. Não conseguia decifrar a expressão de Accipiter, mas me lembrei que não respondera nada a ele, apesar de todas as minhas reflexões internas.
“Gostaria de levá-lo até lá”, disse, sentindo o corpo quente, e sabendo que minha voz saía completamente embriagada e risonha. Acci se aproximou desfocado, o nariz se movendo e a testa franzida.
“Acho que posso ir até lá sozinho, Malena”, disse, e vi suas asas se moverem inquietas. “O que é esse cheiro? Está me deixando com… Fome?”, questionou, mais para si mesmo do que para mim. Permaneci quieta, menos alheia ao fato de que tinha oferecido uma carona a um garoto com asas. “Parece com fome. Mas ao mesmo tempo é diferente”, disse, ainda franzindo o nariz próximo ao meu rosto. Ri com gosto, e imediatamente baforei em seu rosto. Ele se afastou um pouco, surpreso. E eu podia estar muito bêbada, mas gravei um expressão nova do rosto de Acci: Deleite. Ele me soltou, intrigado, e eu me apoiei no balcão, caminhando até o sofá de forma trôpega. Tinha sido uma má ideia, eu sabia. Mas estava tão cansada e estressada, que precisava daquilo. Me deixei relaxar nas almofadas, o mundo flutuando a minha volta. Ouvi a voz hesitante de Acci da porta.
“Malena? Está doendo?”, perguntou, mais curioso que preocupado. Eu ri de novo. Ele claramente não sabia o que era embriaguez.
“Vino não dói. Chutar dói. Não me chute. Sólo estoy borracha”, respondi, sabendo que ia apagar em breve, e me lembrando do chute na costela que levara na torre. Precisava ficar bêbada logo hoje, Malena? Pensei, ou talvez tenha dito em voz alta, não tinha certeza. A resposta de Acci ficou distante, e tudo sumiu. A última coisa que senti, foi a pena em meu cabelo fazendo cócegas em meu rosto.
Acordei com o som das asas de Accipiter, e uma gritaria estranha. O ar estava gelado, a porta dos fundos aberta, e quando me sentei assustada, minha cabeça vibrou de dor. Sentindo o estômago embrulhado, me esforcei para levantar e ir até o lado de fora, atrás do som. Ainda estava amanhecendo, os cães latiam. Cheguei a tempo de ver Rafael Soarez sendo jogado no gramado, acuado entre um Accipiter ameaçador e cães defensivos. Demorei a processar a cena. Gritei com os cães para que se calassem. Acci não suavizou o olhar ao me ver, as mãos bem abertas ao lado do corpo, as garras cintilando. Minha cabeça ameaçava explodir. Não devia ter bebido no dia anterior. Fechei os olhos ao questionar.
“O que está havendo, Acci?”, eu poderia perguntar a Rafael, mas não queria. Não queria nem começar a pensar nele, não com a ressaca ameaçando me derrubar. Ouvi Soarez tentar se explicar, mas sua voz logo falhou. Quando abri os olhos, Accipiter estava acima dele, as garras próximas a seu rosto.
“Ele estava olhando a sua casa”, me respondeu, a postura predatória. Então Rafael estava me seguindo. Bem, ele tinha encontrado o que queria, e eu não senti a menor pena. Vi seu olhar completamente congelado em Acci. Não ousou tentar falar de novo. Meu corpo coçava, meu estômago revirava e minha cabeça latejava. Eu queria tomar um banho quente e ignorar a presença deles no meu terreno. Mas não queria ser responsável por um homicídio. Precisava fazer aquilo sem tirar Acci de sua posição de predador, ou ele se rebelaria como um adolescente rabugento, e Rafael perderia o pescoço. Encarei os dois, tentando pensar. Então me ocorreu que Accipiter já tinha atacado o homem, — seu braço sangrava, com prováveis cinco arranhões — mas ele agora apenas o ameaçava. Eu precisava me lembrar: Um predador territorialista, não um assassino. Olhei para Rafael.
“Por que está aqui? Eu poderia te denunciar por isso”, disse, e aguardei que respondesse. Ele me olhou de canto, e sabendo que Acci o deixaria responder, murmurou:
“Estou tentando ajudar. Você pode não aceitar minha ajuda, mas eu vou estar por perto para quando precisar dela”. Eu suspirei cansada. O dia começava a clarear, devia ser próximo das 8h. Relutei com essa ideia, apesar da certeza de que a rodovia ainda estava razoavelmente vazia. Mas decidi prosseguir com ela. Sem responder a Rafael e sua insistente oferta, eu me voltei a Acci. Sua expressão era séria e predatória, pairando acima do homem como San Jorge y él Dragón.
“Accipiter… Preciso te pedir algo”, disse, cautelosa com o orgulho frágil do garoto. Ele voltou os olhos a mim, o rosto contrariado, mas estava me ouvindo. “Leve-o e deixe-o na beira da estrada. Longe daqui”, completei. Rafael tentou protestar, mas com as garras de Acci ainda posicionadas em seu pescoço, ele não arriscaria. O garoto manteve os olhos em mim por um tempo, até que franzindo o nariz e a boca num rosnado de frustração, ele cravou as unhas não na roupa de Rafael, mas em seu ombro, e com um impulso, levantou vôo. Soarez gritou em agonia, e eu me encolhi diante da cena violenta e do sangue que escorria pelos seus braços, de ambas as feridas. Quis interferir, mas sabia que era cedo demais para questionar Accipiter sobre sua insensibilidade. Ele havia acatado meu pedido porque sabia que devia, mas não fazia parte de sua natureza me atender. Então fizera-o com ódio. O grito de Rafael morreu, e vi que ele havia levado o punho à própria boca, mordendo com vigor, o som abafado. Levei um segundo para entender o que ele estava fazendo: Não queria chamar atenção gritando. Me arrependi por um instante. Mas a imagem dos dois já desaparecia no céu. Suspirei pesadamente, sentindo lágrimas de frustração ameaçando derramar. Voltei para dentro, a cabeça ainda latejando e a ânsia mantendo minha boca amarga. Pensei em fechar a porta, mas achava que Acci voltaria. Fui até o banheiro para tomar banho. Passei um tempo desembaraçando a pena de Accipiter do meu cabelo, e depois me permiti relaxar com a água quente. O enjôo e a dor abrandaram. Desliguei o chuveiro bem a tempo de ouvir algo se quebrando pela casa, uma denúncia da presença de Acci. Me encostei contra a porta.
“Accipiter?”, questionei. Ouvi passos duros e lentos.
“Eu odeio a sua casa. Como consegue viver em algo tão pequeno?”, ouvi a voz abafada através da madeira. Pigarreei desconfortável.
“Não tenho asas”, disse. “Poderia ir para fora?”, perguntei, tentando soar desinteressada, como se realmente fosse a respeito dos objetos quebrados. A resposta começou imediatamente:
“É lá que prefir…”, mas então ele parou. “Por que?”, questionou. Não havia disfarçado bem a voz, e joder… Adolescentes. Pigarreei de novo. Ele não sabia o que era uma toalha.
“E-eu não estou usando roupas. Preciso ir até o quarto”, disse. Em sua voz pude sentir o sorriso zombeteiro que ele já havia mostrado na torre.
“Você me viu sem roupas desde o início”, disse, mesmo sabendo que era diferente para os humanos. Amaldiçoei o humor predatório dele. Esperei por mais respostas, mas elas não vieram. Então respirei fundo, pronta para abrir a porta. Mas Acci não estava por ali. Imediatamente corri para o quarto, e me arrependi disso. A primeira coisa que avistei foram as asas recolhidas, ele estava parado em frente a uma pilha bagunçada sobre uma cadeira. E então se virou, segurando roupas aleatórias na mão, como um pé de meias e uma camiseta. Voltei e me escondi atrás da parede, ao lado da porta, usando os braços para me cobrir.
“Saia pela janela”, disse, sem me importar em ser autoritária ou não. Sentia o rosto queimar e o frio que entrava pela porta fazia minha pele arrepiar.
“Por que?”, questionou de novo, a voz irritadiça por eu ter tentado lhe dar uma ordem. Eu poderia pedir por favor, mas ele não entenderia. Não sabia o que era.
“Porque não quero que veja meu corpo sem roupas”, respondi, estremecendo.
“Por que?”, mais uma vez, foi sua resposta. Murmurei indignada com o frio.
“Porque é meu. Eu escolho quem pode ver. E quero que só pessoas especiais vejam”, disse, torcendo para que ele se irritasse e simplesmente saísse. Infelizmente, ele parecia realmente curioso a respeito daquilo.
“Es-... Especiais? O que é isso?”, perguntou. A frustração me fez cerrar os punhos. Eu precisava dar um dicionário a Accipiter. E antes, precisava ensiná-lo a ler. Ri de desespero.
“Podemos falar mais sobre isso se sair pela janela”, respondi, barganhando. Ouvi um resmungo mal humorado e o bater de asas que indicava que ele tinha saído. Espiei antes e vendo o quarto vazio, entrei e fechei a porta. Andei até as roupas, até perceber que estava alinhada com a janela, e que Accipiter estava simplesmente empoleirado em cima da árvore ao lado. Me abaixei, sem saber se ele olhava para cá ou não, e ainda abaixada me aproximei para fechar as cortinas. Respirei aliviada, sentada no tapete.
Me vesti com jeans e uma blusa grande e confortável. Abri as cortinas, e o rosto de Acci se voltou para mim, sua expressão fechada. Fazia sol agora. Passado o incidente, me lembrei de algo mais importante.
“O que fez com Soarez?”, perguntei, tentando não soar nervosa. Ele me estudou com os olhos.
“O humano? Está vivo”, foi o que respondeu. Engoli em seco, sem muito alívio, mas assenti. Ia voltar para dentro, quando ele continuou: “Onde está a pena? Gosto dela no seu… cabelo. Use”, disse, autoritário. Mantive a cabeça baixa, envergonhada. Aquela situação começava a me deixar confusa. Sem sabe o que responder, adentrei a casa e fui para a cozinha. Passei longe do vinho, e decidi tomar café da manhã. Ouvi Acci parar à porta. Os cães haviam se acostumado com sua presença, e agora andavam ao redor de suas pernas. Ele não lhes dava atenção. Preparei café e pão com jámon, me sentindo observada. Resolvi ligar a TV, apesar de não me sentir bem o suficiente para explicar a Acci o que era. O noticiário da manhã me manteve paralisada, com a comida em mãos.
Uma imagem tomava conta de toda a tela: Um ninho enorme, metade danificado.
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