O Menino Alado
4 Chapter 3
Ele me puxou o suficiente pra segurar meus antebraços que ainda tremiam. Disse algo, mas sua voz parecia distante. Com a crise acontecendo, eu não conseguia focar em nada. Senti seu aperto aumentar em minha pele, e eu abri os olhos. Estava cara a cara com ele. Sua boca se moveu, mas eu não ouvia. Ele repetiu, duas, três, quatro vezes.
“Malena”, eu consegui entender. “Eu caço peixes”, em seguida. Tentei respirar, mas meu peito não parecia capaz de preencher completamente. Sua voz soava confusa, irritadiça. Ele me soltou, e eu me encolhi contra a parede, enquanto através de uma camada embaçada de lágrimas, observei-o se levantar e pular para dentro do ninho. Suas asas se encolheram ao redor dele. O ninho era fundo o suficiente para que eu só visse um pedaço de seu ombro. Tê-lo fora de vista foi um fator essencial para que eu conseguisse me acalmar sozinha. Controlei as mãos prendendo-as entre os joelhos, e insisti na respiração, até que normalizasse. Em momento algum Accipiter veio até mim, embora eu pudesse ver que ele se movia dentro do emaranhado de galhos e folhas. O sol estava um pouco mais fraco agora, já devia ter passado das 14h. Me levantei, as pernas doendo. Ele se sentou, atento. Seus cabelos estavam emaranhados, algumas mechas enroscadas no início das asas. Eu caminhei vagarosamente, afastada dele, até a abertura da torre. Ali havia uma brisa passando, e eu precisava respirar melhor, sem a poeira que acumulava no chão da torre. Ele ainda me observava.
“Você não me ouvia e não falava. Por que não funciona direito, humana?”, perguntou. Ele me causava esse misto de sensações, de um medo absurdo do desconhecido, e de apreciação pela inocência. Respirei fundo, e limpei o rosto na manga da blusa.
“Acontece quando estou com medo. E você me deixou assustada. O nome é ansiedade”, respondi. Ele inclinou o rosto.
“E você me deixou irritado. Não gosto de repetir as coisas”, disse. Não consegui evitar revirar os olhos, e duvidava que ele soubesse o que aquilo queria dizer. Ele não fazia ideia de que estava sendo injusto e egoísta, e que é que eu podia fazer? Também não era culpa dele.
“Não sou eu quem controlo quando isso acontece”, respondi, e a brisa de repente estava fria demais para ser apreciada. Me afastei da abertura, sendo seguida pelos olhos do garoto a todo momento. Ele não parecia ter uma resposta para o assunto anterior. Procurei minha mochila, e ela estava próxima do ninho. Olhei pra ela, e depois para ele, esperando algum tipo de intervenção. Mas ele apenas continuou me encarando. Cansada, física e emocionalmente, andei até lá, e recolhi minha blusa. Accipiter observou intrigado enquanto eu a vestia.
“Minhas asas esquentam mais do que isso”, disse, orgulhoso. Ele agia como um menino adolescente esfomeado e competitivo. Talvez fosse um. Me perguntei se ele sabia o que era idade.
“Eu não saberia dizer, Acci. Posso perguntar outra coisa?”, questionei, experimentando o apelido. Ele pareceu gostar, visto que não fechou o rosto para mim. Cruzou as pernas e esperou que eu falasse. “Você sabe quantos anos de vida tem?”, continuei. Ele riu pela primeira vez diante de mim.
“Que tipo de animal não sabe quantos anos tem? Vi as flores 17 vezes”, ele disse, e eu não aguentei a ironia da situação, acompanhei-o com um sorriso. Mas me senti curiosa.
“Viu as flores? O que isso quer dizer?”, perguntei. Ele remexeu na pilha de coisas brilhantes no canto do ninho.
“Minha mãe disse que quando eu nasci, as flores abriram. Então quando as flores abrem de novo, eu faço mais um ano de vida”, explicou. Ele havia nascido na primavera então. No final de março, provavelmente, quando ela estava começando. Ele era consideravelmente novo, ainda que alto e corpulento. Aos 17 eu ainda vivia com meus pais, só tinha saído de casa aos 20. E isso já fazia 2 anos. Observei o objeto em suas mãos. Era uma maçaneta, dourada e brilhante, ainda que riscada.
“Você guarda essas coisas para quê?”, perguntei, sem pedir permissão dessa vez. Ele soltou a maçaneta no monte, e suas asas se esticaram, como se para me lembrar que ele as tinha.
“Você faz perguntas demais e traz pouca comida. E não funciona direito quando tem medo. Talvez eu precise de outra humana”, disse, se espreguiçando. Um calafrio subiu pela minha espinha. Eu me afastei, até estar próxima da parede.
“Posso trazer mais comida, se me descer daqui”, barganhei, pelo que parecia ser a minha vida. Ele me olhou com a testa franzida e o rosto inclinado.
“Mas eu não posso descê-la daqui”, disse, se levantando, e com um impulso de asas, que causou uma brisa em minha direção, saindo do ninho. Ele pousou no chão, e começou a andar até mim. Eu me movi pela parede, para o lado oposto a ele. Um sorriso presunçoso se esticou em seu rosto, e ele continuou caminhando em minha direção.
“Assim que escurecer, sei que pode. Eu farei quanta comida quiser”, disse, agora no extremo oposto do recinto. Não havia mais para onde ir. Ele inclinou a cabeça, e parou bem próximo a mim. Agora sem crise ou ataque, eu podia absorver suas características melhor. Ele cheirava a maresia, embora fosse bastante branco. Era de se esperar, para quem só saía à noite. Seu olhar foi das minhas mãos trêmulas aos meus olhos aguados. Sua expressão ficou séria.
“Vou dizer isso só uma vez. Eu já cacei, matei, e me alimentei de: aves pequenas, peixes e roedores. Eu. Não. Como. Humanos. A única razão para que eu tenha te atacado, foi porque você invadiu meu ninho e me viu. Agora que tem medo o suficiente para não contar isso a ninguém, não tenho porquê machucá-la. Eu estava faminto no dia em que você veio à torre, humanos imbecis estavam celebrando algo de madrugada, e eu não pude sair para caçar. Seu alimento estranho me ajudou a aguentar até a próxima caçada”, falou, sem tirar o olhar do meu. Ele tinha mau hálito, mas eu não estava surpresa, já que sequer devia saber o que era uma escova de dentes. “Então… Pare de se encolher de medo, ou vai acabar não funcionando direito. Se eu quisesse… Já teria te matado”, continuou, e uma de suas unhas roçou no curativo em meu pescoço. Eu me arrepiei, e assenti com a cabeça, devagar. Ele não se afastou, ainda cutucando o curativo, agora mais curioso do que sério.
“Para que é isso?”, perguntou. Eu estava paralisada, apenas respirando.
“Para que o machucado melhore logo”, respondi. Ele puxou um esparadrapo, mas eu não protestei. Tirou outros dois, até que pudesse ver os cortes, e os grampos. Ele encostou a ponta do dedo próximo a um deles, e eu me encolhi. Ele inclinou a cabeça, e tirou de vez o curativo, atirando-o ao chão. “O que está fazendo?”, questionei, ainda ligeiramente encolhida.
“Eu faço melhorar. Essa coisa não”, disse, apontando um dedo para a gaze agora suja de terra. E então, sem aviso prévio, ele encaixou a boca no meu pescoço. Eu me encolhi ainda mais, indo para trás onde só havia pedra dura, e resisti ao impulso de afastá-lo. Desse ângulo, podia ver com clareza suas asas abertas, e isso me manteve parada. Ele lambeu cada um dos cortes, e só aí se afastou. Parecia plenamente satisfeito consigo mesmo, como se tivesse acabado de descobrir a solução para a fome do mundo. “Agora vai melhorar”, disse. Eu mal tinha absorvido o choque, mas entendi que havia algo curativo na saliva dele. Reparei em seu corpo, e vi algumas cicatrizes espalhadas. Me perguntei onde estaria sua mãe quando elas aconteceram. Não conseguia evitar as dúvidas, mesmo que isso o irritasse. Tínhamos horas até escurecer, e eu precisava saber.
“Onde está sua mãe?”, perguntei. Ele estava parado diante de mim, e desviou o olhar para o céu do lado de fora da abertura.
“Ela foi embora quando eu aprendi a voar, oras”, disse. O tom de sua voz era frio, comum. Quem estava triste ao ouvir isso era eu.
“Quando foi isso?”, perguntei outra vez, já que ele não demonstrava um pingo de desconforto ao falar do assunto.
“Quando eu tinha visto as flores 12 vezes”, esclareceu. Eu assenti. O silêncio se instalou, talvez pela minha sensação de tristeza. Me perguntei se ele sabia o que era carinho. Como reagiria se eu o tocasse. Não poderia dar tão errado, poderia? Mas antes que eu concretizasse esses pensamentos em alguma ação, ele se afastou. Recostado no ninho, ele esfregou as mãos, e algo pareceu brilhar nelas. Ele curvou a asa direita diante de si, e começou a espalhar a substância oleosa nas penas. Não tinha cheiro nenhum, mas fazia a asa reluzir. Ele me olhou, notando que eu observava.
“Agora eu vou perguntar. O que você veio fazer aqui em cima? Tem outros humanos me rodeando por sua culpa”, disse. Eu baixei o olhar. Sabia que era questão de tempo até que o descobrissem ali.
“Eu vi asas no topo da torre… E vim resgatar uma cegonha”, respondi, tentando não sorrir. Acci parou o que estava fazendo para me olhar confuso.
“Uma cegonha? Eu pareço com uma cegonha? Ora, tenho certeza que minhas asas são mais bonitas que as de uma cegonha”, disse, ligeiramente inseguro. Ele era de fato um menino adolescente. Era só trocar pelo facial por asas bonitas. Pensei por um momento, e olhei das asas para ele. Estendi uma mão, e esperei. Acci levantou uma sobrancelha, mas estendeu a asa rajada até que estivesse ao alcance do meu toque. Dei um passo para frente, e senti a ponta das penas nos dedos. Eram firmes, quase quentes. A substância nelas as deixava lisas. Era irrealmente lindo.
“Não, Acci. Você não parece uma cegonha”, disse. Ele recolheu a asa, um pouco súbito demais para ser discreto, e suas bochechas estavam coradas. Sua expressão por outro lado, estava tão fechada quanto poderia estar. Ele continuou esfregando as mãos pelas penas, e observando mais de perto, eu percebi que o óleo vinha de baixo de suas unhas. Eu com toda a certeza ia pesquisar aquilo depois. Fiquei encostada na parede, analisando enquanto ele prosseguia o processo, curiosa. Ele fez aquilo por praticamente 1h. Até que chegou na parte de trás de suas asas, a metade mais próxima de suas costas. Ele se esforçou e se esticou, tentando alcançar as últimas penas da asa direita, ainda recostado na beira do ninho. Eu me endireitei.
“Eu… Posso ajudar?”, perguntei, sem encará-lo. Faltava pelo menos uma hora e meia para escurecer, e havia a outra asa para que ele fizesse o mesmo, seja lá o que fosse. Ele me olhou desconfiado, e deitou o rosto para o lado. Dobrou um dos dedos, comandando que eu fosse até lá, sério. Andei até ele, e deixei que virasse minhas mãos com a palma para cima. Seus dedos estavam cobertos da substância, e ele correu as pontas deles pela minha pele, espalhando cada vez mais óleo. Parecia mesmo com óleo de cabelo. Ele repetiu isso duas ou três vezes, e lançou um olhar por cima das costas. Eu dei a volta em seu corpo, e me apoiei nos cotovelos para subir no ninho alto. Era estranhamente uniforme e confortável, para madeira. Fiquei de joelhos atrás de Acci, na altura de suas asas, e passei os dedos pelas penas que ainda não reluziam. Espalhei o óleo pela asa, e observei a pele das costas do garoto arrepiar. Franzi o cenho.
“Algum problema?”, perguntei, parando o que estava fazendo. Ele virou o rosto, me olhando de perfil. Tinha as bochechas coradas de novo.
“São sensíveis. A única pessoa que as tocou além de mim foi minha mãe. E isso não acontece há anos”, esclareceu, e voltou a olhar para frente, para que eu terminasse de espalhar. Fiquei em silêncio, observando as cores escuras que reluziam nas penas, e aproveitei para espalhar também na asa esquerda, na parte que sabia que seria trabalhoso para que Acci alcançasse. Ele se arrepiou mais algumas vezes, mas eu não parei até ter coberto toda a área. Me afastei, limpando as mãos nas calças, e ele continuou espalhando pela asa esquerda. Eu saí do ninho com um pequeno salto, e me afastei dele. Era estranho como havia sido um momento próximo e confiável, sem medo ou ameaças. Estávamos variando entre hostilidade e aproximação receosa. Ainda que ele tivesse dito que não se alimentava de humanos, as imagens dos meus pesadelos me assombravam, e mesmo que Acci não compartilhasse da aparência do monstro, eu ainda sentia medo. Ele agia como um garoto impulsivo. E minha vida estava nas mãos desse garoto impulsivo.
Meu estômago roncou. O som de turistas havia diminuído algumas horas atrás, as pessoas estavam em suas siestas. Eu me sentia faminta, e cansada. Acci me olhou com atenção, estava terminando de espalhar o suposto óleo na asa esquerda.
“Você parece irritada”, disse. Eu suspirei. Estava exausta, faminta e emocionalmente desequilibrada. Queria apenas acordar e descobrir que tudo aquilo tinha sido um sonho. O processo de conhecer alguém era cansativo por si só… Mas conhecer um garoto alado? Era loucura. E ele não entenderia o que eu estava sentindo.
“Apenas desconfortável”, respondi. Ele arqueou uma sobrancelha.
“Eu não conheço muito sobre essa sensação. Minha espécie sempre está à vontade com a maioria das coisas”, ele disse, olhando de relance para o próprio corpo nu, e então de volta para mim. Era o conforto de ser um predador, eu sabia. Por que ele ficaria desconfortável? Estava apenas conhecendo uma humana impotente. Tinha total controle sobre mim. Esses pensamentos rondavam a minha cabeça e me deixavam com raiva. Era um ser exótico, que despertava toda a minha curiosidade e todos os meus instintos, mas eu acabara de descobrir que não gostava de ser a presa de alguém.
Respirei fundo, e confiante por culpa da raiva, virei as costas para Accipiter, apoiada à parede. Minha cabeça doía insuportavelmente, como se houvesse algo queimando minha nuca. Lá fora, o sol estava laranja forte, na linha do horizonte, prestes a se pôr. Ele não se moveu. Virei o rosto, e de perfil, olhei de relance para minhas facas de cozinha, perdidas em meio a pilha de quinquilharias do garoto. Desejei tê-las, ainda que provavelmente não tivesse coragem para usá-las. Eram uma defesa, e eu as havia perdido assim que entrara no recinto. Percebi que ele ainda esperava uma resposta. Desencostei da parede, e me virei para respondê-lo. Mas assim que deixei o apoio, senti a visão escurecer. Minhas pernas formigaram, e eu fiquei zonza. Não demorou para que tudo sumisse diante de mim.
Sentia um zumbido constante no ouvido, era irritante. Tentei me mover, mas uma dor aguda invadiu minha cabeça, e eu prendi a respiração, ficando imóvel. Abri os olhos devagar. Estava escuro. Eu estava deitada em algo quente, mas não estava em casa. Sentia cheiro forte de maresia. Me forcei a me apoiar em um cotovelo, mas algo puxou minha cabeça de volta. Alguém disse ‘Ai’ em uníssono comigo. Meu cabelo estava enroscado... Enroscado em penas. Nas penas de Accipiter. Os acontecimentos passaram voando pela minha mente, e eu me sentei bruscamente. Isso fez com que os fios presos arrebentassem, e novamente exclamamos em conjunto. Eu estava aninhada na asa estendida de Acci, razoavelmente distante dele. Senti uma dor aguda na costela. Ele recolheu a asa, sentando-se. Estávamos no ninho. Minha visão estava um tanto embaçada. Apalpei minha costela. Ele olhou para o gesto.
“Você caiu repentinamente. Eu te chutei pra saber se estava viva”, disse sem o menor remorso. Fiquei sem respostas, embora quisesse chamá-lo de maluco. Encarei-o, com a boca aberta. Ele inclinou o rosto de lado, sem entender a reação. “Você gemeu. Então estava viva. Mas gelada como um bicho morto. Então te trouxe pra cá. Eu disse que minhas asas esquentam mais que essa coisa”, continuou explicando, apontando para minha blusa amarrotada no final. Minha cabeça ainda doía, e eu nada tinha a dizer a Accipiter. Me sentia fraca. Precisava comer. Apoiei o rosto nos joelhos, e respirei fundo algumas vezes. Me sentia observada, mas não me importava. Não estava em um estado bom o suficiente para explicar a ele o que era um desmaio. Acci se levantou, e saiu do ninho. Ele se abaixou, e quando levantou, tinha minha mochila vazia em mãos. Sob a pouca luminosidade da cidade que entrava pela abertura da torre, suas asas reluziam, e os contornos de seu corpo ganhavam sombras. Senti um calafrio, a falta do calor da asa finalmente me atingindo. Ele atirou a mochila em mim, e virou as costas.
“Vou te levar para sua casa. Estou com fome”, disse, deixando claro que agia em nome de interesses próprios. Meu pescoço ardia. Não havia sentido nenhuma melhora, e temia que isso fosse acabar em uma infecção. Sorrateiramente, puxei uma de minhas facas da pilha no ninho, e a meti dentro da bolsa. De costas, Acci não pareceu notar. Saí do ninho, sentindo suor frio nas costas e as pernas tremendo. E ele é que ‘estava com fome’. Passei a mochila para as costas, e depois de bater as asas algumas vezes, como se as estivesse aquecendo ou alongando, Accipiter voltou a me olhar. Ele curvou um dedo imperativo, me chamando. Era metido a comandos, pelo que eu pudera notar. Me aproximei mesmo assim, e sem o menor constrangimento, ele me ergueu nos braços. Bufou em seguida.
“Para quem se parece com um filhote desnutrido, você pesa”, disse. Revirei os olhos, indignada. Alguém tinha que ensinar maneiras àquele garoto, com asas ou não. Senti um calafrio por estar tão próxima de suas unhas, mas o frio e o medo não me permitiram sequer pensar em me afastar. Ele estava quente como se tivesse acabado de correr uma maratona, e eu enrosquei os braços em seu pescoço, corada. Estava sendo carregada por um adolescente alado e nu. E meus pais esperavam que eu conseguisse um diploma. Mas quando achei que ele iria levantar vôo — o que quer dizer que eu já tinha os olhos fortemente cerrados e o estômago gelado -, ele parou o impulso e inclinou o rosto em dúvida. E então me soltou. Aos tropeços, me endireitei, o olhando incrédula. Estávamos parados na boca da abertura.
“Que @*##& é essa?”, soltei, sem conseguir me controlar, ainda que sentisse medo de sua reação. Estava exausta e estressada o suficiente para atropelar o instinto de autopreservação, que havia segurado minha língua o dia todo. Felizmente, ele sequer pareceu entender. Me olhou com o cenho franzido, e desceu os olhos pela minha postura irritada, analítico.
“Nunca dei um impulso carregando algo tão grande. Não vou conseguir, não com o espaço fechado”, disse. Bufei, passando as mãos pelo rosto. Um garoto alado que não conseguia voar comigo. Valeu, universo.
“Como sugere que eu desça daqui?”, perguntei, cansada e ácida. Ele não parecia se importar, e isso me incentivava.
“É simples. Só preciso que fique calada”, disse, e antes que eu reagisse ou questionasse, sua mão empurrou meu peito para trás com força, e todo o meu peso desapareceu no ar, eu estava caindo pelo paredão da torre sem a menor chance de me segurar em algo. Eu obviamente gritei, desobedecendo Accipiter. O vento frio era cortante e bagunçava minhas roupas, meu cabelo solto batendo no rosto como chicotes, o chão cada vez mais perto. A praça parecia vazia. Não havia ninguém para ver quando eu me tornasse uma mancha na calçada… Mas graças a Acci, aquilo não aconteceria hoje.
Fui agarrada no ar, o tranco fazendo meu corpo estremecer. Me segurei forte a ele, com unhas ou não, com medo ou não. Fechei os olhos, escondendo o rosto no corpo dele como se pudesse fingir que não estava a metros e metros do chão. Ele continuou subindo, vento gelado nos cercando, o bater de suas asas fortes encobrindo outros sons.
“Só precisava ficar calada, Malena. Vou ter que arrancar sua língua?”, disse, me apertando mais, com tom sério. Tive um calafrio contra sua pele quente, mas não ousei responder. Estava ocupada tentando não surtar. Voamos por alguns minutos longos, gelados e aterrorizantes, até que senti o estômago frio enquanto descíamos devagar. O pouso não foi suave. Com o impacto, fui lançada dos braços de Accipiter, e rolei pela grama gelada do meu próprio jardim. Permaneci deitada, metade grata por tocar o solo, e metade exausta demais para levantar. Acci, no entanto, levantou voo de novo segundos depois, sentado acima do telhado. Logo entendi porquê. Lunae e Dolorem correram até mim, latindo para Accipiter como se ele fosse o próprio demônio. Não pude deixar de sorrir, me levantando devagar. Eu tinha meus próprios predadores em casa. Sua expressão fechada me deixou satisfeita.
“Agora que estou no chão, vou deixar algo claro: Você me jogou de uma torre! Eu tinha todo o direito de gritar”, disse, mais ácida que anteriormente. Não esperei resposta, e virei as costas, ainda que isso causasse um calafrio desconfortável ao me lembrar das garras de Acci. Adentrei minha casa, sem me importar que os cães continuassem encurralando o garoto. Me convenci de que ele não iria feri-los, mas decidi entregar algo para que ele comesse enquanto eu cozinhava. Achei algumas frutas na geladeira. Fui para fora, sentindo meu corpo tremer de cansaço. Accipiter pousou os olhos em mim, carrancudo.
“Eles são barulhentos como gaivotas com patas. Eu como gaivotas”, disse, as asas se agitando de irritação. Era uma cena bonita, um garoto alado de rosto fechado, sentado no telhado, contra as estrelas. Pena que era real. O fato das gaivotas explicava porque nenhuma delas chegava perto da torre: Havia um predador maior lá. Lancei uma maçã com a maior força que pude, e Acci a agarrou no ar. Ele a cheirou, e franziu o nariz.
“Jogou isso em mim porque está com raiva?”, perguntou. Dei uma mordida na maçã que estava em minhas mãos, num gesto auto explicativo. Ele levantou uma sobrancelha. “Eu como carne, Malena. Só carne”, disse. Suspirei. Era como lidar com uma criança. Uma criança carnívora com potencial impulsivo para me matar.
“Fique longe dos meus cães”, disse, com uma firmeza que só a exaustão me permitia. Voltei para dentro, e me pus a cozinhar a refeição carnívora mais simples em que pude pensar: Solomillos de cerdo. Era rápido, e eu achava que o suficiente. Eram cerca de 10 bifes grandes, que eu usaria durante o mês. E agora todos seriam devorados por um adolescente alado e faminto. Era uma ofensa ao meu salário de garçonete. Recolhi o prato, e saí. Os cães vieram pulando, atraídos pelo cheiro da comida. Accipiter veio logo atrás. Ele encarou a carne frita.
“O que é isso?”, questionou. Eu estava exausta, e havia separado um único solomillo para mim, que me aguardava na cozinha. Tinha comido mal todos aqueles dias, e desmaiado três vezes. Empurrei o prato em suas mãos.
“Carne. Isso é carne”, respondi, e virei as costas, voltando para a cozinha. Larguei-me sobre a cadeira, iniciando a refeição com um estômago enjoado de tão vazio. Lá fora, eu podia ouvir Acci subindo de volta ao telhado. Não me importava. Terminei de comer, e sem a menor preocupação, fui para o quarto. Eu deveria tomar banho e refazer o meu curativo. Mas não tinha forças. Ironicamente, eu podia ver as sombras dos pés de Acci balançando sobre a janela, que ainda tinha 5 arranhões no vidro. Agarrei a mochila onde a faca estava guardada. Nem medo, preocupação, ou estresse foram capazes de impedir meus olhos de fecharem.
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