O Mendigo Pianista
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Andamos em silêncio até o local onde eu achei que seria o ideal para Edward se impressionar sem ficar constrangido. Ele me olhou com o cenho franzido e eu lhe dei um sorriso em resposta.
–-Você já veio aqui? — Indaguei. Ele balançou a cabeça.
–-Passar em frente, sim. Mas nunca entrei. -- Disse, dando de ombros. Eu assenti.
–-Ótimo. Serei sua guia então. Eu amo esse lugar.
Fui até a bilheteria, onde comprei dois tickets VIP's. Quando voltei para perto de Edward, notei que ele estava incomodado com algo.
–-Tudo bem? — Perguntei hesitante.
–-É... Grande e... Caro. — Disse tímido. Meu peito se apertou.
–-Se você se sentir desconfortável, podemos fazer outra coisa... — Comecei a falar, mas ele ergueu a mão.
–-Não se desculpe. Não é sua culpa. Sei que deve estar acostumada com esse tipo de coisa... Eu só... Eu que devo desculpas. — Disse, coçando a cabeça.
Mordi o lábio e olhei para seus olhos.
–-Você vai querer entrar ou...? — Deixei a pergunta morrer, olhando para ele.
Edward me olhou, depois olhou para a porta. Por fim suspirou, ainda envergonhado, mas vencido.
–-Será um prazer. — Disse me oferecendo um sorriso hesitante. Assenti, caminhando para entrar.
Na entrada, dei os dois tickets para o segurança, que destacou e me entregou. Não percebi que Edward estava mais atrás de mim e só notei que ele não estava ao meu lado quando fui me virar para conversar com ele. Olhei exasperada para os lados e só o encontrei sendo barrado pelo guarda. Franzi o cenho e caminhei até eles sem entender.
–-Eu já havia dito para você que não era mais para rodear essas bandas ou eu chamaria a polícia.
Edward estava de cabeça baixa, ouvindo o sermão do segurança estúpido. Cega de raiva, toquei no ombro do homem de preto e esperei ele se virar. Senti falta de meus saltos quando ele me encarou de cima.
–-Com licença, algum problema aqui? — Indaguei. O segurança negou com a cabeça.
–-Nada para a senhorita se preocupar. Apenas esse sem-teto querendo invadir a propriedade.
Por um segundo, fiquei cega de ódio, mas respirei fundo e manti a postura.
–-Bom, caso não me conheça, sou Isabella Swan. — Falei, sacando meu RG e lhe mostrando. -- E esse sem-teto está comigo.
Os olhos do guarda se arregalaram e eu vi gotas de suor brotarem em sua testa.
–-Oh, Srta.Swan, me perdoe, por favor, eu não a reconheci! — Disse exasperado, mas parecendo confuso. -- Mas ele? Eu... Porque...
–-Deixe-o passar, ou terei de falar com seu superior. — Ordenei.
–-Sim senhorita. — Disse, sem pestanejar e abriu a faixa de segurança.
Edward passou de cabeça baixa e ficou atrás de mim. Sem desviar os olhos do guarda, disse:
–-Que isso não se repita. Nem com ele nem com ninguém mais. — Falei.
–-Sim, senhorita. — E baixou a cabeça.
–-Tenha um bom dia. — E lhe dei as costas, colocando a mão no braço de Edward e o guiando para dentro.
Quando estávamos à uma certa distância, Edward parou e se virou para mim.
–-Bella, me desculpe por aquilo, eu... — Começou de cabeça baixa. Eu chacoalhei a minha cabeça indignada.
–-Não se atreva! — Rosnei. Num ato impensado, ergui ambas as mãos as coloquei nos lados de seu rosto, o fazendo me olhar. -- Aquilo que ele fez não se faz, nem com um animal! Ele está errado e terá sua punição.
–-Mas Bella, eu...
–-Não importa o que você fez. Bom, se importa você me conta depois. Agora quero que aproveite, e estou falando sério. — Falei fitando intensamente seus olhos. Ele ficou alguns segundos quieto, mas então assentiu devagar. Eu sorri e tirei as mãos dos seu rosto.
–-Posso perguntar? — Indagou quando voltamos a andar.
–-Isso já foi uma pergunta. — Brinquei com um sorriso torto, arqueando a sobrancelha. Edward sorriu, lambendo os lábios e assentindo. Foi uma visão dos céus.
–-Bom. O que foi aquilo...? Ele te obedecendo e tals...? — E me fitou.
Senti minhas bochechas esquentarem, então olhei para frente e continuei andando.
–-Eu sou apaixonada por música, como falei no domingo. Sou bem eclética e tals, mas eu amo clássica. Então, quando completei 29 anos, me dei de aniversário um terço das ações desse lugar. Sou uma das donas do Museu de Música Clássica de Nova York. — Disse.
Espiei Edward de lado e sua expressão era de total surpresa.
–-Uau. Eu imaginei que você fosse cheia da grana. Mas não tanto assim! — Disse, mas ele ria, então não me embaracei.
Eu ri também, dando de ombros. Depois levei-o na sessão de partituras originais, nos retratos, nas salas onde estavam instrumentos antigos. Fomos em tudo quanto era possível, mas foi só na praça de alimentação que paramos realmente.
–-Você gostou? — Indaguei, bebendo meu milk-shake. Os olhos de Edward brilhavam de uma forma linda demais quando me olharam para me responder.
–-Sim! É tudo demais e... — Ele suspirou sem palavras.
Eu sorri satisfeita.
De repente ele fitou algo atrás de mim de forma intensa, até que eu olhei. No centro da praça de alimentação havia alguns instrumentos abertos ao público. Olhei de volta para Edward e sorri.
–-Quer ir lá? — Indaguei. Ele assentiu, sem me olhar.
Nos levantamos e caminhamos até o pequeno coreto montado para o instrumentos. Havia um piano branco de calda, um violoncelo, violino, violão, flauta e uma harpa de mão. O segurança me reconheceu e sorriu, abrindo a faixa para nós. Edward nem olhou para a cara dele, indo direto para o piano.
Ele se sentou na banqueta e abriu o piano, com uma expressão intensa. Eu encostei na cerquinha que tinha para vê-lo tocar, mas ele não o fez e sim se virou para mim, me olhando com a sobrancelha arqueada.
–-Não vou tocar sem você. — Disse. Arqueei as minhas sobrancelhas, surpresa.
–-Oh, não, não! Vou passar vergonha. Nem sei mais o que fazer. — Disse, fazendo um gesto com a mão. Ele continuou me encarando.
–-Se eu não esqueci, sei que você consegue. Vamos, ande, tente. — E indicou o Cello com a cabeça.
Mordi o lábio, nervosa. Olhei de Edward para o Cello diversas vezes, ponderando. No final suspirei, colocando minha bolsa em cima do piano e depois arrastando o banquinho onde o Cello estava escorado até perto do piano. Juntos, Edward e eu afinamos os instrumentos.
–-O que quer tentar? — Ele indagou.
Franzi o cenho, pensando.
–-Você já ouviu... Thousand Years? — Perguntei. Ele sorriu assentindo. Eu sorri também. — Podemos tentar essa.
Edward assentiu de novo, se virando para o piano e respirando fundo, enquanto eu me aprumava e ajeitava o instrumento entre as pernas. Ele dedilhou uma introdução baixa e em seguida começou a música de verdade. Quando senti que seria o momento da letra, comecei a acompanhar com suavidade.
Edward tinha razão. Não esquecíamos como tocar. Era como... Andar de bicicleta. Em algum momento eu fechei os olhos e deixei fluir, movimentando o arco numa mão e dando as notas na outra. Tocamos alguns improvisos com Mozart e Bach, e no final, Edward começou os acordes de Liebestraum, de Liszt.
Abri os olhos e encarei Edward, que também acabara de abrir os seus. Nos encaramos com intensidade e eu juro por Deus, eu teria o beijado se estivéssemos mais perto.
Paralela à realidade, dei um pulo de susto quando palmas estouraram pela praça de alimentação. De olhos arregalados, encarei a platéia que havia se formado para nos assistir, e pela primeira vez fiquei sem graça por estar diante de pessoas.
Edward notou meu embaraço e riu, se levantando. Me ofereceu uma mão, que aceitei, escorando o cello no piano e me levantando também. Juntos nos curvamos, para agradecer, o que não passou de uma brincadeira.
Olhei para Edward com os olhos arregalados de excitação e ele me olhou de volta, também com os olhos brilhando de felicidade. Sem pensar duas vezes, me joguei nele, segurando seu pescoço e o abraçando forte. Seus braços, após o choque, me envolveram e ele segurou em minha cintura, me dando arrepios.
Meu rosto pressionado em seu peito duro me permitiu cheira-lo, e Deus do céu, para alguém que morou na rua, ele tinha um cheiro muito bom!
Quando notei o que eu fiz, senti meu rosto esquentar de vergonha e me afastei, abaixando a cabeça e pegando minha bolsa.
A platéia havia se dispersado e então descemos tranquilos do coreto e caminhamos em silêncio para a saída.
–-Com licença! — Uma voz falou atrás de nós. Viramos juntos e encontramos um senhor que devia ter uns cinquenta e pouco, vindo até nós. Ele sorriu e estendeu a mão para Edward e depois para mim enquanto falava: -- Sou Aro Volturi, e sou reitor de Julliard. Não pude deixar de notar o que fizeram ali e meu Deus do céu, estou arrepiado até agora! Quem são vocês?
Sorri, cutucando Edward. Ele coçou a cabeça.
–-Edward. — Disse simplesmente. Aro franziu o senho.
–-Do que?
–-Só Edward.
Aro encarou ele por um segundo, mas no final deu de ombros.
–-É um prazer, só Edward. E a senhorita? — Indagou me olhando. Arqueei uma sobrancelha e ele arregalou os olhos. — Você é Isabella Swan!
Dei de ombros, sorrindo.
–-É um prazer imenso conhecê-la pessoalmente. — Disse. Eu rolei os olhos, rindo.
–-O prazer é meu. Então, do que se trata?
Ele assentiu, pigarreando.
–-Certo, claro, claro. Bom. Como disse, sou reitor de Julliard e seria um imenso prazer tê-los como professores em nossa Universidade!
Meu queixo caiu e eu olhei para Edward, que encarava Aro com o cenho franzido. Vendo que ele não falaria nada, me voltei para Aro.
–-E quais seriam os requisitos? — Indaguei. Aro assentiu.
–-Bem, geralmente só contratamos profissionais com PhD e alguma experiência, mas o que vocês fizeram ali mostrou que são aptos para o cargo sem nem mesmo terem isso tudo, apenas um mestrado seria bom.
Olhei para Edward de novo. Ele apertava os lábios. Suspirei e encarei Aro de novo.
–-Por um acaso podemos pensar? Você tem um cartão ou algo assim?
–-É claro! Aqui, aqui está. — Disse, sacando um cartão do bolso e me entregando. -- Por favor, pensem com cuidado. Seria um prazer imenso ter vocês conosco.
Eu assenti, sorrindo educada.
–-É claro. Agora temos que ir. -- Apertei sua mão. — Foi um prazer e tenha uma boa noite. Entraremos em contato.
Edward apertou a mão de Aro, mas não disse nada.
Saímos do Museu em silêncio e ficamos assim até chegarmos numa pracinha, onde não aguentei e me virei para olha-lo.
–-Hey, o que foi? — Indaguei nervosa. Edward olhou para mim surpreso.
–-O que? Não, não é nada. — E me ofereceu um sorriso que não chegava à seus olhos.
Suspirei, chateada. Ele respirou fundo e olhou para o céu. Depois de ponderar, ele me olhou com intensidade.
–-Acho que você merece saber o que aconteceu comigo.
–-Só se você quiser contar. — Disse.
De repente, um clarão cortou o céu e o barulho veio. Antes que pudéssemos fazer alguma coisa, a chuva começou, forte e intensa. Chocada, olhei para o céu, ficando encharcada. Depois olhei para Edward que me encarava com uma face zombeteira.
–-Você está parecendo um panda. — Disse, apontando meus olhos.
Mas eu não me chateei e sim comecei a rir. Esqueci de minha bolsa ou das roupas encharcadas ou da maquiagem borrada. Eu estava tomando banho de chuva, depois de tanto tempo e era uma delícia!
–-Vem! — Falei, pegando sua mão e rodopiando.
–-Sério? Dançar na chuva? Clichê. — Disse, rolando os olhos. Eu também rolei os meus, mas não liguei, ainda rindo.
Até que enfim ele entrou na minha e no final éramos dois idiotas brincando e rodopiando na chuva. Não sei como aconteceu, mas num momento eu estava rodopiando igual uma criança e no seguinte uma pedra apareceu no meu caminho, me fazendo tropeçar.
Edward tinha reflexos rápidos e antes que eu caísse, ele me segurou pelos ombros. Cansada, me escorei nele e encarei seus olhos verdes zombadores. Rimos juntos, mas ninguém se afastava. Num momento estávamos assim, igual dois amigos idiotas rindo juntos, mas então o clima mudou e nossos sorrisos morreram.
Edward fitou meus olhos de forma intensa, assim como eu fazia com os seus. Então ele começou se aproximar, hesitante, como se pedisse permissão. Eu apenas assenti, mas ele não continuou. Apenas beijou minha testa e sorriu.
–-Vamos ficar gripados. — Ele disse.
–-Venha. Minha casa não está longe. — Peguei em sua mão e o puxei.
Em meu prédio, recebi olhares reprovadores de todos por estar espalhando água por todos os lugares e ainda por cima com um homem que era o dobro de meu tamanho junto. Fomos pela escada para não acabar de irritar os moradores que estavam no elevador.
Em frente ao meu duplex, cacei as chaves na bolsa e abri a porta, dando passagem para Edward, que assim que entrou, deixou o queixo cair.
–-Uau. — Sussurrou.
–-Fica à vontade, por favor. Eu devo ter algumas roupas lá em cima e depois venho fazer um chocolate para nós. — Falei, já indo para as escadas.
Em meu quarto, fechei a porta e me escorei nela, com a boca aberta e os olhos arregalados. Meu coração batia forte e eu soltei uma risada alta de felicidade. Fui para o banheiro, onde arranquei minhas roupas e as joguei dentro da banheira. Enrolei uma toalha no cabelo e peguei meus moletons atrás da porta, os vestindo.
No closet, peguei uma calça de moletom limpa que era de Mike e um moletom enorme que eu havia roubado de Rosalie, que tinha roubado de Emmett. Completei com uma toalha e levei tudo para baixo, encontrando Edward ainda na porta, com os braços cruzados.
–-Hey! Saí daí! Venha cá, olha o banheiro de visitas é ali e você pode por isso. Se quiser tomar banho, fique à vontade. — Disse, lhe dando as coisas.
–-Obrigado. — Disse, pegando e indo para a porta que eu havia indicado.
Peguei o esfregão na lavanderia e passei onde havíamos feito caminhos de água. Depois de tudo seco, fui para a cozinha, onde esquentei duas canecas de leite e fiz um chocolate quente instantâneo.
Levei para a sala numa bandeja e coloquei em cima da mesa de centro. Voltei para meu quarto, onde peguei duas cobertas e voltei para sala. Edward já estava lá, mas parecia perdido.
–-Pode deixar que amanhã Lígia arrumará suas roupas. Meu quarto de hóspedes está arrumado e você pode passar a noite lá. Aqui, tome e deite aí. — Joguei uma coberta pra ele, e indiquei os sofás.
Edward assentiu, quieto e se sentou no sofá menor, colocando as cobertas de lado. Eu coloquei minhas cobertas no sofa grande, mas não me sentei.
Encarando-o, cocei a nuca.
–-Alguma coisa errada? — Indaguei chateada. Ele me olhou com os olhos arregalados.
–-Não, não, Bella! De forma alguma! Eu apenas... Argh... Você está sendo tão boa comigo e nem me conhece! Eu posso ser qualquer um, Bella. Um sem-vergonha aproveitador, um estuprador, um ladrão, um viciado... — Ele parecia pertubado, de tão confuso.
Eu sorri, me sentando e puxando os joelhos para o peito.
–-Mas você não é. — Disse simplesmente. Ele me encarou raivoso.
–-E como você pode ter certeza disso? — Rosnou.
–-Edward. Sou advogada há muito tempo. Eu sei quando alguém está mentindo, sei manipular e sei quando querem me enganar. Além do mais, sabe quando dizem que os olhos é a porta da alma? Bem, os seus são os portões da sua. E além do mais, mesmo que você fosse, domino três tipos de artes marciais.
Ele me encarou, sem falar nada.
–-Que roupas são essas? — Indagou se referindo as que vestia, desconversando.
–-A calça é do meu ex... Ficou pequena. — Constatei e soltei um riso. — E a blusa é do meu cunhado.
Ele ergueu uma sobrancelha. Eu rolei olhos, mas sorri.
–-Minha irmã brigou um dia com ele e veio pra cá com esse moletom. Eu roubei dela.
–-Eu estava me referindo à calça...
–-Oh! Bem... -- Pigarreei.
–-Se for algo constrangedor, você não precisa dizer. Ou mesmo que só não queira. — Disse na defensiva. Eu dei de ombros.
–-Não. É só que... Realmente não tem importância.
Ele suspirou e olhou para o chocolate.
–-Posso? — Pediu.
–-É claro! Só espera...
Fui rápido para meu quarto, onde peguei um par de meias que eu sabia que tinha de Mike, pois foi eu quem comprou, mas ficou grande. E pus uma também, antes de voltar para a sala.
–-Aqui, tome. — Falei, lhe entregando a meia.
–-Obrigado. — Disse, me dando um sorriso.
–-Por nada. — E me acomodei no sofá grande, puxando a coberta até minha cintura e pegando minha caneca de chocolate.
Ficamos algum momento em silêncio, só ouvindo a chuva e bebendo o chocolate quente.
–-Bom, acho que devo começar à falar. — Edward disse. Olhei para ele, esperando. Ele suspirou para começar à contar.
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