O Mendigo Pianista
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Quinta-feira amanheceu chovendo, com Mike com um braço em cima de mim, sua perna me sufocando e um ronco alto no meu ouvido. Suspirei, me desvencilhando dele e indo para a ducha. Me arrumei rapidamente, escovei os dentes e escrevi um bilhete para Mike, colando-o na geladeira.
Depois desci para a rua molhada, segurando atrapalhada um guarda-chuva em cima de mim e tentando pedir um táxi. Quado um parou, entrei já indicando o endereço do mecânico ao motorista. Enviei um recado para o escritório que eu iria chegar mais tarde e o porquê, e que começassem a reunião sem mim.
Em frente à oficina de Jacob, saquei minha carteira e marchei para dentro de seu escritório, encontrando-o jogado no sofá com o celular em suas mãos. Pigarreei para chamar atenção. Jacob deu um pulo e ficou em pé, me olhando com os olhos arregalados. Quando focou a visão e viu que era eu, relaxou e sorriu.
–-Quase me matou, Bella. Achei que fosse Rose. Ela está no meu pé desde semana passada porque não ando ajudando os mecânicos. — Disse, coçando a cabeça. Ergui uma sobrancelha.
–-Vou contar pra ela. Enfim, meu carro já está pronto? — Indaguei, batendo o pé. Ele rolou os olhos.
–-Está sim. Fiz questão de conserta-lo. Venha por aqui. — Disse, indo na frente pra indicar o caminho. No fundo da oficina estava meu Koenigsegg CCX estava estacionado, parcialmente coberto. -- Essa válvula estourou e estava começando a enviar o...
Jacob desembestou à falar na linguagem de mecânico, que só ele entendia ali e eu fingi ouvir tudo. Quando ele enfim fechou a boca, eu sorri e disse:
–-Entendi. Quanto é? — Indaguei.
–-Olha, por um jantar sai na minha conta. — E piscou.
Rolei os olhos. Ele riu.
–-Renesmee irá cortar meu coro fora. — Disse, enquanto rabiscava num papel o preço. Vi e assenti, sacando minha caneta e preenchendo o cheque. Em seguida destaquei e entreguei a Jacob. — Valeu.
–-Eu que agradeço. Minhas chaves? — Indaguei. Ele sorriu e retirou do bolso, me entregando.
–-Tenha um bom dia. — Disse. Eu assenti.
–-Você também.
Estava entrando no carro, quando ele me chamou.
–-Ah, e Bella? Por favor, comece a viver. Sua cara está me assustando. — Disse. Lhe dei o dedo como resposta. Ele balançou a cabeça.
Coloquei minhas coisas no banco do carona e fechei a porta. Liguei ele e escutei o motor ronronar baixinho para vida. Com cuidado, manobrei pra sair, os mecânicos abrindo caminho e fui para a rua movimentada de Manhattan.
Ativei o Bluetooth do celular para o Mini-Bluedio e atendi as ligações durante o caminho. O engarrafamento estava grande e acabei me atrasando no caminho para a empresa. Quando cheguei, entrei no estacionamento subterrâneo e estacionei em minha vaga. Tirei minhas coisas rapidamente, ativei o alarme e segui para o elevador. O ascensorista sorriu para mim e digitou meu andar. Batuquei os dedos com impaciência, até que o elevador não chegava em meu destino.
Quando enfim ele parou, sai rapidamente de lá e voei para minha sala, encontrando três faces furiosas.
–-Es tut mir leid, ich weiß, ich bin zu spät, aber ich einige Gegenzeiten hatten. Okay, wo soll ich anfangen?– Dialoguei rapidamente em alemão com os dois representantes da empresa automobilística que estava num processo contra um motorista. O terceiro sujeito ali era Billy, um dos meus sócios.
*Me desculpe, sei que estou muito atrasada, mas é que tive alguns contra-tempos. Okay, por onde começamos?
A reunião se estendeu até o meio da tarde, quando enfim achamos uma brecha para poder quebrar com as causas que o motorista alegava. Os representantes me agradeceram e Billy ofereceu para leva-los à almoçar.
Durante o resto da tarde pedi para Alice que não deixasse ninguém entrar e com isso mergulhei no trabalho, sem ver ninguém pelo resto do dia. Acabei tudo quando era pouco mais de sete e meia, a chuva havia se transformado numa tempestade forte e o vento assoprava em minhas janelas.
Arrumei minha bolsa rapidamente, checando meu e-mail pelo computador, quando do nada a força acabou.
–-Merda! — Praguejei, ficando irritada. Pesquei meu celular e liguei a lanterna dele, iluminando o que podia. Tirei o computador da tomada e reuni os papeis teria de levar para casa.
Saí de minha sala, notando que eu era a única ali e fui em direção da máquina de café, colocando as moedas para um extra forte. Esperei a lentidão daquela maquina pelo que pareceu séculos. Quando ela enfim resolveu acabar, eu peguei minha bebida e segui para as escadas com minha lanterna. Tirei os saltos e os coloquei na bolsa, começando a descer.
No térreo, meus pulmões queimavam e eu ofegava, após descer do 23º andar. Encostei na parede, precisando de ar para conseguir pelo menos pensar.
Eu precisava frequentar uma academia, estava muito fora de forma.
Quando me recuperei, calcei meus sapatos de novo e joguei o copo de café no lixo, seguindo até a porta com a guia da lanterna de meu celular. O porteiro estava alí -graças ao céu!- e assim que me viu, veio correndo com uma lanterna boa me ajudar.
–-Srta. Swan! Estamos fazendo de tudo, mas parece que depois de tanto tempo sem uso, o gerador-júnior de energia pifou e assim não conseguimos luzes internas. Faz tempo que está aqui? — Despejou. Apenas maneei a cabeça, fazendo um gesto com a mão.
–-Só quero saber como faço pra ir ao estacionamento, sem o elevador. — Falei. Ele assentiu.
–-Bom, a porta tem trava elétrica, então a senhorita pode imaginar... — Ele coçou a cabeça, encabulado. Eu rolei os olhos, mas queria rosnar na verdade. Estava perdendo muito tempo já. — Porém, estávamos todos ali tentando abri-la quando um... Senhor apareceu e ajudou. Na verdade, é aquele ali! — E apontou para o lado de fora da porta.
Contra-gosto eu olhei, e quando minha visão se focou no sujeito, meu corpo inteiro congelou.
Aqueles olhos eu reconheceria até à quilômetros de distância. Era ele. Aquele homem que tocou piano maravilhosamente.
E ele já estava me olhando, pois quando eu me virei pra ele, me deu um meio sorriso e fez um gesto como que batesse continência, e então virou as costas e saiu na chuva.
–-Espere! — Gritei, indo em direção dele, com a mão estendida. Mas ele não ouviu, ou fingiu que não, pois apenas continuou andando até sumir de vista.
Fiquei ali, igual uma idiota parada com a mão estendida enquanto todos me encaravam. Rapidamente me recompus, dando um olhar gélido à eles e me voltando ao porteiro, que havia até corado.
–-Tenha uma boa noite. — Falei, passando por ele e marchando pra porta.
Desci três lances de escadas até o estacionamento e o atravessei, escutando o bater de meu salto no chão ecoar pelo lugar vazio. Chegava à ser assustador.
Entrei em meu carro, jogando tudo no banco traseiro e me sentando no banco do motorista. Fechei a porta e travei o carro, apoiando a cabeça no volante e soltando um suspiro fundo.
–-Merda. — Rosnei frustrada.
Esperei alguns minutos a raiva passar, até que suspirei, esfreguei o rosto de dei partida. Manobrei o carro para sair e acelerei na rua, indo para casa. No caminho, liguei para um restaurante italiano fazendo uma encomenda.
Em casa, liguei o notebook em cima da mesa de jantar, espalhei os contratos ali e comecei a anotar os pontos importantes. Em algum momento, joguei o blazer e os saltos longe, e em outro atendi a porta com a comida. Mike também chegou, mas só beijou minha bochecha e foi para o quarto.
Perdida nos negócios, quando dei por mim, já se passava das duas da manhã e haviam duas garrafas de café vazias. Resolvi deixar o resto para a noite e ir dormir. Apenas tirei o que sobrou da roupa de mim e me enfiei debaixo das cobertas, onde Mike já roncava.
No entanto, não dormi bem aquela noite. Pois, além de dormir pouco, sonhei com olhos verdes me encarando com um sorriso torto zombeteiro.
Na sexta tive duas conferências na parte da manhã, e a tarde eu, dois outros sócios e um júnior estávamos no tribunal defendendo a bomba do ano. Rosalie havia ido junto, mas eu desconfio que só pra encher meu saco mesmo, pois o dia inteiro me chamou de vampira por conta de minhas olheiras.
Porém, às cinco da tarde, a empresa parou quando eu e os outros quatros sócios apertamos a mão do representante do shake árabe, pois havíamos vencido e uma grana preta estava entrando pra empresa.
Todo mundo começou a festejar, alegres e satisfeitos. Fazendo combinações de ir à um pub, quando eu só queria dormir. Todos passaram por mim, para parabenizar, mas também me infernizar para ir ao maldito pub.
–-Acho que alguma coisa está errada. — Rosalie disse casualmente, caminhando ao meu lado no estacionamento.
–-Humm? — Indaguei distraída.
–-Acho que a irmã mais velha é você. -- Disse zombando de mim. Rolei os olhos.
–-Sério, olhe só pra você! Em plena juventude, você está acabada, Bella! -
Disse e ela parecia realmente chateada. Eu bufei.
–-Eu estou bem. Na verdade estou ótima! Graças a mim, você terá um aumento delicioso esse mês. — Rebati, destravando meu carro. Ela entrou no banco do passageiro enquanto eu no do motorista.
–-Sério, Isabella? Se trata só de dinheiro agora? — Ela indagou me encarando. Eu não olhava pra ela.
Manobrei e saí do estacionamento.
–-Você está pálida, com olheiras e magra demais. Você bebeu mais café do que um fumante hoje. Você não transa há meses! Você não dorme direito. E só pensa no dinheiro?
Dei de ombros. Ela bufou e encostou no banco, irritada.
–-Mamãe ligou. — Disse. Eu esperei. Ela não continuou.
–-E daí?
–-Quer saber se vamos para o feriado de Ação de Graças pra lá.
Pela primeira vez, eu a olhei.
–-Você vai?
–-Sim. Os pais de Emmett foram para a Europa e só voltam em Fevereiro.
–-Entendi. Acho que vou também. Temos dois meses até novembro, até lá adianto muita coisa. — Comentei, parando em frente a casa dela. Rosalie suspirou e se virou pra mim.
–-Te amo demais, viu? Eu me preocupo com você. Por favor, viva. — Disse, se inclinou para me beijar e saiu do carro.
Assenti pra ela, dando um sorriso. Quando já estava acelerando, eu disse:
–-Também te amo, maninha.
No sábado de manhã, saí para correr bem cedo. Aproveitei para fazer algumas compras e limpar a casa. Mike saiu de manhã, mas na hora do almoço estava de volta. Na parte da tarde, ambos nos aprofundamos no trabalho.
À noite, ele queria sair, mas eu estava cansada demais para isso. Claro que rendeu uma briga e ele saiu sozinho, dizendo que ia pra casa da mãe. Eu tomei um banho e fui para a cama, ver algum filme no notebook. Mas eu estava inquieta demais e desisti no começo.
Me vesti rapidamente com alguma roupa desenterrada do fundo armário, tendo como incentivo a voz de Rosalie em minha cabeça. Fiz uma maquiagem como pude, deixei o cabelo solto e saí.
Do outro lado da cidade eu estacionei meu carro e desci, com uma clothe na mão e indo em direção à entrada do pub. O guarda me deixou entrar e eu segui direto para o bar.
–-Sex on the beach, por favor. — Pedi de uma vez, sentando na banqueta. O barmen assentiu e foi preparar minha bebida.
Esperei ele trazer e quando o fez, lhe paguei, pegando o copo e virando para a pista de dança. Bebi enquanto olhava melhor o local. Meus olhos paralisaram numa cena.
Imediatamente saquei o celular do bolso e mandei uma mensagem:
"Onde você está?"
Três minutos depois.
"Na casa da minha mãe, eu te falei. Por quê?"
Eu sorri, fechando o celular e o enfiando na clothe. Deixei o copo no balcão e desci da banqueta, caminhando na direção da pilastra. Parei atrás do homem loiro e coloquei a mão em seu ombro e me curvei para por a boca em seu ouvido.
–-Sua mãe está juvenescida, não é mesmo? — Falei com todo o sarcasmo que pude.
Mike ficou estático, a mulher a sua frente me olhando confusa, esperando uma resposta dele.
–-Bella, eu... — Ele começou, se virando. Eu sorri mais ainda.
–-Acabou. — Falei.
Ele engoliu e deu um passo para mim. Eu dei dois para trás.
–-Não se atreva. Não quero desculpas. E não se dê ao trabalho de ir pegar suas coisas. Eu deixo na casa da sua mãe. Não ligue. Não venha atrás de mim. -- Enfatizei cada palavra e dei as costas, indo para a entrada.
Notei que havia ganhado uma platéia e que até DJ havia diminuído o som do local. Na rua, desliguei o alarme do carro e entrei, me fechando lá dentro.
O engraçado é que eu não sentia vergonha, dor ou nada assim. Eu só sentia como se um peso houvesse saído de minhas costas. Suspirei e dei partida, ligando o rádio e saindo com o carro em direção de casa.
Koenigsegg CCX:
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Michael: http://i578.photobucket.com/albums/ss227/Amesdlyn/O%20Mendigo%20Pianista/Michael_zps93ipkvu1.jpg
Mini-Bluedio:
http://i578.photobucket.com/albums/ss227/Amesdlyn/O%20Mendigo%20Pianista/Mini-Bluedio_zpsmancucp2.jpg
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