O Mendigo Pianista
16 Capítulo 16
Notas iniciais
EDWARD's POV
—-Senhorita Bella pediu parar preparar suas panquecas, mas como eu não sabia qual o sabor que o senhor ia querer, acabei colocando todos aí, para o senhor por do seu gosto. — Lígia falou. Na verdade, despejou as palavras em 120km/h. Por algum motivo eu a deixava nervosa e quando falava comigo parecia querer sair correndo logo.
Eu sorri agradecido e assenti.
—-Muito obrigada, Lígia. Se junte à mim para comer, há um monte de coisas aqui. -- Ofereci, mas ela arregalou os olhos e negou.
—-Não, senhor. Muito obrigada. Agora, com licença que tenho que... Que... — E desapareceu para a sala.
Eu ri, rolando os olhos, enquanto montava uma panqueca com o xarope de morango que havia ali. Enquanto mordia a comida, flashs e mais flashs de meus pesadelos vinham em minha mente, me deixando arrepiado dos pés a cabeça.
Mas então eu suspirei, fechando os olhos e lembrando o que Bella fez por mim na madrugada. Eu realmente não sabia o que seria de mim sem essa mulher. Se o que aconteceu em meu sonho por um azar viesse ser real, eu não conseguiria sobreviver.
Estávamos em Forks, isso é certo, porque em NY não tem tanta floresta assim. Estávamos andando de mãos dadas num momento, ela sorrindo pra mim do jeito doce que só ela conseguia.
Mas então o sonho mudava e ela não estava mais ao meu lado. Eu apenas ouvia seus gritos vindos de longe, berrando meu nome. Eu tentava correr, mas em sonhos é impossível e isso só me deixava mais angustiado, meu coração acelerado e respiração pesada. Quanto mais eu tentava pegar velocidade, mais lento eu ficava e não conseguia chegar à sua voz, que estava ficando mais distante. Eu acho que foi essa a maior parte do sonho, o que me deixou cansado.
Mas o pico do sonho, pesadelo, foi o que veio depois. O sonho havia sido cortado mais uma vez e agora ela não gritava mais, apenas o silêncio reinava na floresta... Espera, não era mais floresta. Agora era o lugar que eu dormia quando estava na rua. Olhei em volta e não via nada, a não ser a densa neblina que teimava em me cegar.
Dei alguns passos no sonho e então todo o sangue de meu corpo foi drenado com o que vi. Havia essa lixeira torta que encobria um corpo coberto por sangue, sangue que escorria pela calçada, sangue que pertencia à Bella. Uma Bella com os olhos vidrados, com a boca aberta que escorria sangue. Uma Bella sem vida.
Eu acho que foi nesse momento em que acordei gritando. E então ela estava lá, me acalmando e cuidando de mim, como fez desde o começo. Eu nunca havia dito em voz alta, na verdade, nenhum dos dois, mas eu amava aquela mulher. E Deus, eu amava tanto que doía.
Respirei fundo e acabei meu café, levando o que usei para a cozinha e lavando. Depois sequei as mãos e fui em direção ao escritório da casa, que era totalmente de Bella, mas que ela teimava ser meu também, sendo que não havia nada meu lá, a não ser as apostilas de música e dois cadernos.
Estava pegando eles em cima da rack do escritório quando alguma coisa caiu no chão, indo debaixo da rack. Bufei e, resignado, me abaixei para pegar. Quando alcancei, fazendo promessa de agradecer à Lígia depois pela limpeza, fiquei nos joelhos e observei o que era o cartão.
ARO VOLTURI
Reitor
Juilliard
Abaixo tinha dois números de telefone e dois e-mails para contatar Aro. Encarei aqueles números por alguns minutos antes de por fim suspirar e guardar o cartão. Após pegar minhas coisas, peguei minha jaqueta e saí do apartamento. No estacionamento, segui até meu carro, joguei minhas coisas no banco do carona e me sentei em meu banco, dando partida. Manobrei para sair e enquanto olhava pelo retrovisor, um vulto passou na frente, atrás de uma fileira de carros.
Franzi o cenho enquanto procurava alguém, mas não havia nada. Suspirei, nervoso ao me lembrar do sonho, mas segui para a saída.
—-Vejo que o senhor então mudou de ideia. -- O homem pálido e de cabelos negros disse, se sentando na cadeira atrás da mesa.
Eu sorri e dei de ombros, enquanto me sentava também.
—-Bom, na verdade é uma longa história. Mas o que importa é que eu vim, certo? Enfim, eu estou ansioso para ouvir o que o senhor tem a me dizer. -- Respondi, sendo o mais sincero que podia. Aro sorriu e assentiu.
—-Bom, deixe-me ver... -- Ele disse, pegando as folhas que eu havia lhe entregado e passando os olhos por ela. A medida que ele ia terminando, seus olhos iam se arregalando. -- Oh, uau! Filarmônica de Moscou é uma orquestra e tanto. Você tem talento rapaz.
—-Obrigada, senhor.
Ele ficou um momento em silêncio e então me olhou especulativo. Meu estômago gelou.
—-Bom, senhor Cullen. O senhor tem um currículo e tanto, porém você não é mestre e não pode dar aula... Ainda. -- Ele respirou fundo e cruzou os dedos em cima da mesa. -- O que eu te proponho é o seguinte. Você trabalha como auxiliar de professor e toca na orquestra da universidade, em troca, lhe ofereço o curso de mestrado. O dinheiro da orquestra 60% dos músicos, para ser distribuído entre eles. E então, o que me diz?
Meu queixo estava no chão. Eu queria gritar um sim muito grande ali e sair comemorando pelos corredores da universidade, mas o rosto de Bella me veio a frente. A opnião dela contava e muito pra mim, então preferi esperar para falar com ela.
—-Ham, senhor Volturi... A proposta é grande e tentadora o suficiente pra mim lhe dizer sim agora...
—-Mas? -- Ele arqueou uma sobrancelha.
—-Eu gostaria de conversar com minha noiva antes. Posso ter um prazo? -- Indaguei.
Ele suspirou e olhou em seu relógio.
—-Ham, okay. Você tem três dias. -- Ele disse e se encostou em sua cadeira. Eu sorri e assenti.
—-Ótimo. Muito obrigada! -- Falei. Nós levantamos juntos e eu estendi a mão para ele. -- Sério, senhor, muito obrigada.
Ele riu.
—-Não tem de que. Agora vá, o tempo está passando.
Eu assenti e então fui para a porta. Só quando eu já tinha passado ela e a fechado fui capaz de rir baixo e socar o ar. Bella iria ficar muito orgulhosa.
—-Não, baixinha. Não é assim. -- Eu ri, parando Jessy de fazer o que ela estava fazendo errado no piano. Ela bufou e rolou seus olhinhos azuis.
—-Tio Edward, eu estava fazendo certo! -- Ela protestou. Eu tentei olhar sério para ela, mas era difícil, quando ela fazia aquele biquinho e estava emburrada.
—-Não estava não. Olhe, vou fazer mais uma vez. Sua mão tem que estar assim, e não assim.
Ela prestou atenção em meus movimentos e quando acabei, ela olhou para mim. Eu assenti, a encorajando e observei enquanto ela posicionava sua pequena mão outra vez nas teclas. Dessa vez, pela primeira vez em quase dez tentativas, ela acertou. Eu sorri grande e lhe acariciei a costa.
—-Isso aí, garota. Agora, do começo. Cinco movimentos de quatro batidas cada. Vamos e um, dois...
Uma hora depois a aula havia acabado e eu acenava para Jessy, que se escondia debaixo do braço do pai. Entrei em meu carro e respirei fundo, pronto para ir para a próxima aula, que era em um bairro diferente dali.
O dia se arrastou sem minha Bella por perto, minha única distração era as crianças que me entretiam enquanto eu as ajudava com a música. Era noite já quando resolvi que iria buscar Bella para comermos fora, embora ela estivesse cansada, eu sabia que ela não iria resistir assim que passássemos na frente da lanchonete que ela tanto gostava.
Dirigi pelas ruas de NY para ir até o escritório de Bella, mas no caminho passei por um amontoado de gente, carro de polícia, ambulância... Tive que diminuir a velocidade por conta do acontecido, e ao ver que era um acidente de carro, fiz uma careta por lembrar de meu acidente. A situação do carro negro era lastimável.
E então eu vi.
Ao mesmo tempo em que meu celular começava a tocar, eu vi a placa do carro e meu coração parou, minhas mãos gelaram e uma dor se apossou de todo meu corpo. Eu estacionei e com a mão trêmula, peguei o celular. Apertei para atender e pressionei o aparelho em meu ouvido.
—-Alô?
—-Senhor Edward Cullen? -- Uma voz polida e formal.
—-Sou eu.
—-Peço que mantenha a calma para o que vou dizer. Houve um acidente de carro com apenas um passageiro, mulher e em torno de trinta anos. Na carteira dela achamos o senhor como contato para recados.
—-Qual o nome da mulher? -- Sussurrei, sem conseguir desgrudar os olhos da situação em que se encontrava o carro.
—-É... A Dr. Isabella Swan.
E todo o ar fugiu de mim. Minhas pernas amoleceram e minha cabeça rodou.
—-Senhor Cullen? -- O homem chamou.
Mas o celular já havia caído de minha mão. Não sei com que forças, mas eu saí do carro e fui até a multidão, empurrando todos em meu caminho até chegar perto da ambulância.
—-Perdão, mas o senhor não pode entrar aqui. — Alguém disse tentando me empurrar, em vão. Passei pela pessoa e por mais outras, chegando até o veículo.
Nem precisei olhar lá dentro.
Posta na maca, para ser posta dentro da ambulância, jazia o corpo feminino que eu conhecia muito bem.
—-Bella... — Sussurrei ao ver o rosto ensanguentado de minha amada.
E então eu não sabia mais o que estava acontecendo.
Dezembro...
Janeiro...
Fevereiro...
Março...
Abril...
TERCEIRA PESSOA POV
O homem entrou no hospital com mais um novo buquê, indo para a mesma sala que ia há cinco meses, todos os dias. Ele abriu a porta em silêncio, entrou e então a fechou. Olhou para a mulher deitada na cama e ligada a muitos aparelhos e sorriu.
—-Bom dia, meu amor. -- Disse enquanto ia até ela e depositava um casto beijo em sua testa. -- Trouxe flores novas. Rosalie disse que vem te ver mais tarde hoje...
Ele foi até a janela e abriu as persianas, deixando o sol entrar pela sala em raios tímidos. Depois trocou as flores, jogando fora as do dia anterior e colocando no vaso as que tinha pego mais cedo. Após o mesmo ritual, ele foi até a cadeira ao lado da cama e se sentou, pegando a mão da mulher na sua.
As tão conhecidas lágrimas escorreram pelo rosto de Edward enquanto ele levava a mão de Bella à seus lábios e a beijava. Respirou fundo e encarou a aliança que ele tinha posto ali.
—-Eles voltaram a tocar no assunto, minha vida. Eles me disseram sua vontade... Mas eu não consigo. Eu sou egoísta o suficiente para implorar mais um dia para que volte para mim. Eu sei que a perda irá te derrubar, mas eu estarei aqui, como sempre estive. Volte para mim, Isabella, eu não sou nada sem você!
Ele chorou até não conseguir mais respirar e continuou implorando. Enfim ele limpou o rosto, beijou a mão, a bochecha, a boca e a testa de Bella. Arrumou o lençol e prometeu voltar mais tarde.
Durante sua ausência, Rosalie passou para ver a irmã, junto de Brian, que agora com sete meses já engatinhava para todo o lado e reconhecia a tia.
—-Sentimos sua falta, maninha. --Rosalie disse com a garganta apertada, acariciando a testa de Bella. -- Já se fazem cinco meses, e eu sei que você está cansada. Eu vou entender se optar por ir, mas Bella... Nós amamos você.
E assim que Rosalie saiu para levar Brian para jantar em casa, Bella ficou sozinha.
Ninguém sabia, mas por todo aquele tempo, ela escutou tudo. Ela não encontrava forças em si para falar, se mover e até mesmo respirar. Mas ela ouvia tudo e era por isso que mantinha seu coração batendo.
Era noite, o hospital estava estranhamente tranquilo e quieto, quando ela abriu os olhos e encarou o teto.
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