O Melhor Feitiço
1 Ed
Notas iniciais
Certa vez eu li que nos sonhos encontramos um mundo inteiramente nosso, e desde então passei a dar mais atenção aos meus, pois, se essa hipótese for levada em conta, analisar nossos sonhos é a maneira mais autêntica de autoconhecimento sem todos os preconceitos, medos, regras e infinitas barreiras do nosso cotidiano ‘‘real’’. E eis que eu encontrei várias respostas, dentre elas a mais óbvia de todas: a minha mente é uma completa bagunça.
O despertador tocou, a música de uma banda britânica de rock alternativo me retirou do mundo dos sonhos direto para a minha entediante vida de estudante do ensino médio. Ainda estava escuro, mas não era noite, como eu veemente gostaria que fosse. Me desvencilhei das cobertas e levantei-me frustrado pela terceira vez naquela semana, era quarta-feira, e o único pensamento que me alegrava era o de que no final daquele dia só me restariam mais dois para o final de semana, quando eu teria dois míseros dias de descanso, ou melhor, ‘‘descanso’’, entre aspas, pois no tipo de escola que eu estudava o fim de semana servia para fazer os trabalhos que não foram concluídos nos cinco dias letivos e não necessariamente para ficar sem fazer nada.
Fui a passos lentos até o banheiro, saindo de lá minutos depois ligeiramente mais desperto, mas ainda com um ar sonolento. Na cozinha peguei alguns trocados que estavam em cima da geladeira, a minha mãe já estava de pé e começava a preparar o café da manhã. Vesti um casaco e saí de casa, tendo de enfrentar o frio matutino durante todo o caminho até a padaria. Felizmente eu morava em um bairro que ainda me permitia andar de pijama pelas ruas sem ser alvo de piadas, afinal, todos já estavam acostumados a fazer isso. Na volta para casa vislumbrei uma das poucas coisas interessantes do meu dia, o nascer do sol. Enquanto eu andava nas calçadas em frente às casas modestas ainda silenciosas e de portas fechadas o sol começava a fazer seu show de todo dia, lançando os primeiros raios dourados do dia e empurrando as temerosas sombras da noite para outra parte do mundo. Apesar de tudo eu já estava acostumado a ver aquele espetáculo, e no momento só conseguia imaginar em quantas pessoas estavam em seus mundos particulares fazendo sabe-se lá o quê e iriam ser forçadas a voltar para a realidade pelo astro impiedoso.
De volta em casa prossegui com a minha rotina matinal, que por sinal era tão sem graça quanto o resto do meu dia. O céu já estava completamente claro quando andei duas esquinas até a parada de ônibus, pronto para passar maçantes quarenta minutos no trânsito interiorano.
Felizmente o ônibus não demorou muito, me acomodei naquela engenhoca de metal sentando no último lugar ainda vago. ‘‘Quanta sorte’’ – Pensei com sarcasmo. A condução já partira quando o motorista freou de uma vez, provocando gritos de reclamação por parte de alguns passageiros, puras manifestações do mau-humor de todo dia.
Pus meus fones de ouvido a pressionei o ‘play’ do meu smartphone, havia uma notificação de mensagem numa das minhas redes sociais. Há algum tempo eu estava sendo estranhamente perseguido por alguém através da internet, recebendo periódicas mensagens anônimas de alguém intitulado ‘‘Ed’’, o que eu achava no mínimo inusitado, já que esse era o apelido pelo qual a maioria dos meus colegas me chamava. A mensagem da vez era tão excêntrica quanto às demais: ‘‘Você é feliz?’’
Levantei a cabeça, alguém havia entrado no ônibus enquanto estivera parado. A alguns assentos de distância da minha estava, de pé, um garoto que estudava na minha escola, há um ano. Eu nunca reparara direito, mas aquela era a primeira vez que ele pegara um ônibus no meu bairro. Forcei minha mente a lembrar o seu nome, mas fora inútil. Sim, dentre os meus – vários – defeitos estava a memória fraca, que também era grande responsável pelo meu desenvolvimento escolar nada glorioso.
O garoto segurava a barra de ferro amarela e enferrujada do ônibus, enquanto equilibrava uma mochila quase do seu tamanho em um ombro e um livro debaixo do outro braço. Eu entendia a sua dificuldade, afinal, nós estudávamos em uma escola que, para ser considerada antiquadra, só faltava a palmatória e outras torturas como castigo. Mas, apesar de querer ajudá-lo, eu mal o conhecia e seria hipocrisia da minha parte, pois iria ser uma gentileza, e eu definitivamente não sou gentil. Resolvi tomar a atitude mais fácil: ignorá-lo.
Voltei minha atenção para o celular novamente, a mensagem anônima ainda era exibida na tela, e pela primeira vez eu senti vontade de responder àquela pergunta. Enquanto o ônibus serpenteava pelo trânsito e as batidas do rock alternativo chegavam aos meus ouvidos comecei a pensar numa boa resposta. A minha primeira constatação foi que eu realmente não era feliz, mas isso só me levou a outro questionamento: em que era baseada a minha felicidade? Listei mentalmente algumas coisas que me deixavam feliz, e percebi que em grande maioria o que elas me proporcionavam era uma felicidade passageira e fútil, nada que me deixasse daquele jeito, como quando uma mulher que muito queria ser mãe tem um filho, alguém com câncer ganha um transplante ou um garoto que era mal na escola vence um campeonato de xadrez, pois essas felicidades, sim, são verdadeiras e nos fazem mudar para o resto da vida.
Digitei a resposta rapidamente, sendo, através das palavras, mais dramático do que gostaria. Enviei. A sensação de estar entrando em contato com alguém que eu nem ao menos conhecia não me era estranha, talvez porque aquelas mensagens haviam se tornado tão frequentes que me acostumara com elas.
O homem de meia-idade ao meu lado levantou-se e puxou a cordinha que sinalizava a parada, nós tínhamos atravessado já quase metade do caminho e o garoto ainda estava lá, em pé e submisso aos balanços do ônibus. Logo o lugar ao meu lado ficou vazio e ele veio na minha direção, eu podia não lembrar o seu nome, mas a sua aparência era inconfundível. O cabelo preto tinha vários tamanhos, com algumas mechas longas e curtas espalhadas pela cabeça, de modo que uma cobria todo o seu olho esquerdo, como um tapa-olho. Ele sentou-se ao meu lado e me encarou por alguns segundos, o único olho visível tinha um tom azul que contrastava perfeitamente com o seu rosto pálido.
Tirei um lado do fone, pois achava falta de educação falar sem escutar os outros.
─Bom dia. – Tentei esboçar um sorriso, mas quando está se sentindo mal por não conhecer alguém é meio difícil fazer isso.
─Bom. – O garoto respondeu inexpressivamente e continuou a me observar, como se eu fosse um animal estranho que merecesse sua atenção.
Desviei o seu olhar passando a ver, através da janela do ônibus, as construções domésticas dos bairros residenciais serem substituídas por prédios empresariais cada vez maiores, à medida que chegávamos ao centro. Eu ainda conseguia sentir o seu olhar, o que estranhamente estava me deixando nervoso.
─Ãh... – Virei na sua direção novamente e comecei a balbuciar, falando o que achava que ele queria escutar. ─Foi mal não ter... Sabe, ajudado.
Fiz um gesto indicando o corredor. Eu realmente não me sentia bem por não ajudá-lo e também por nem saber o seu nome, apesar de vê-lo todos os dias. Por um segundo achei que o garoto fosse rir da minha cara, mas ele apenas abriu um sorriso torto e – finalmente – desviou o olhar, começando a desenrolar o fone de ouvido que acabara de tirar do bolso.
─Não. – Ele começou a falar enquanto desfazia os nós dos fios. ─Você agiu muito bem, pelo menos não fez o que a sociedade acha que você deveria fazer, você foi autêntico. – E voltou a me observar.
A sua resposta foi tão elaborada que eu tive que lembrar sobre o que estávamos falando, e achei estranho por ser algo tão banal. O ônibus fez uma curva, o vento da janela fez seu cabelo se afastar do olho esquerdo, revelando uma íris de cor castanho-escuro, completamente diferente da direita. Pisquei algumas vezes e engoli em seco, me xingando mentalmente por não saber disfarçar o que estava pensando.
O garoto à minha frente soltou um suspiro e afastou a mecha de cabelo do olho, como se já estivesse feito aquilo milhares de vezes, do que eu não duvidava muito. Os olhos de cores diferentes faziam parecer que um era maior que o outro, de modo que se tornou ainda mais cruciante ser fitado pelos dois ao mesmo tempo.
─Heterocromia, uma anomalia genética que me fez nascer com mais melanina em um olho do que no outro, e não, eu não enxergo mais escuro de um lado. Por que as pessoas sempre têm essa dúvida? – Ele finalmente conseguiu separar os fones e logo colocou apenas um dos lados no ouvido, o que indicava que queria manter a conversa.
Eu não sabia se devia sentir pena ou inveja dele, afinal, ter olhos multicolores tinha lá seu lado bom e ruim.
─Legal. – Comentei, pois isso me pareceu a coisa mais inteligente a se dizer.
Ele me olhou com o cenho franzido e permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se conversasse consigo mesmo, soltando após um tempo:
─Estranho, a maioria das pessoas me pergunta por que não uso lentes de contato pra disfarçar. – E continuou com um dedo no lábio inferior e o olhar meio perdido. ─Mas a verdade é que isso não seria nada autêntico da minha parte, se você quer saber a resposta, e ter esses olhos é até legal esexy, só é chato quando algumas pessoas me olham como se eu fosse uma aberração ou deficiente físico. Vamos?
Ele terminou com um sorriso divertido no rosto, e eu não pude evitar correspondê-lo. Olhei pela janela do ônibus, de fato nós já estávamos chegando ao ponto da escola e eu me surpreendi ao ver que o tempo havia passado tão rápido. Eu sempre ouvia falar sobre a relatividade do tempo quando estamos nos divertindo, mas raramente experimentava essa sensação.
Nos levantamos e descemos pela porta da frente. Algumas quadras ainda nos separavam da escola, onde possivelmente nós não trocaríamos sequer uma palavra. Segui logo atrás dele, alguns alunos também se locomoviam na mesma direção, mas o silêncio entre nós só era quebrado pelo barulho das correntes prateadas que iam de um lado a outro da sua calça, tilintando umas nas outras. O resto do seu visual era composto por um suspensório que transpassava em ‘X’ nas costas e várias pulseiras em ambos os braços, todas de couro preto e apinhadas de minúsculos espinhos de metal, algumas mais largas que outras. Além do braço esquerdo, que, até a altura do pulso, era coberto por uma tatuagem tipo psicodélica, cheia de cores vibrantes formando dezenas de desenhos aparentemente sem sentido, eu mesmo poderia passar horas distinguindo cada detalhe daquela tatuagem.
Ele andava lentamente e cabisbaixo, deixando o cabelo cobrir um dos olhos, como eu o vira no ônibus. Era impressionante como, mesmo convivendo tanto tempo com as mesmas pessoas, ainda ser possível descobrir algo novo sobre alguém, isso me faz perceber o quanto cada um é único, com seus segredos e peculiaridades, inclusive eu, com essa mania de tirar conclusões mirabolantes de trivialidades do cotidiano.
Estávamos a poucos metros da escola quando o garoto tirou do bolso da jaqueta um gorro azul com um floco de neve desenhado na frente e o colocou na cabeça, ajudando a manter o cabelo sobre o olho.
Não me preocupei em segurar uma risada, o contraste proporcionado pelo novo acessório o deixara – se é que possível – ainda mais excêntrico. Apesar disso, eu pareci ser o único a estranhar aquilo, toda a escola parecia acostumada com o seu estilo, e talvez estivesse mesmo, o que só comprovaria a minha falta de atenção com o que acontece ao redor.
Acompanhei com o olhar o garoto subir as escadas para o primeiro pavimento da escola e sumir em meio à multidão apressada pela sirene. Como de praxe, fui pra minha sala, que ficava no térreo, e passei longas duas horas tendo que aturar os professores entrarem com suas caras de tédio e saírem igualmente, senão piores.
Ao chegar a hora do lanche, peguei meu sanduíche e um copo de suco, seguindo para uma mesa vazia no pátio. Logo meus amigos se juntaram a mim. O meu grupo não era nada tão extravagante, ali à mesa estavam Caio, Hellen e Anastásia, cada um mais estranho e único que o outro. Nós havíamos nos conhecido no primeiro ano e desde então fazíamos – quase – tudo juntos. Até hoje eu não entendera o que realmente nos unira, já que pouco tínhamos características em comum. Mas, pensando bem, talvez esse era o nosso diferencial, por não nos encaixarmos em nenhum grupo acabamos por formar o nosso próprio. Sem regras, sem exigências, apenas quatro amigos unidos para enfrentar o tenebroso ensino médio.
Hellen e Ana eram as mais tagarelas, naturalmente. Sempre falando sobre seus livros e séries preferidos. Caio passava metade do dia com seus fones de ouvido na altura máxima e, quando tinha algo para nos falar, o fazia aos gritos. Às vezes acho que ele escutou tanta música alta que perdeu o senso de volume sonoro. E eu... Bem, sempre tento me interar nas conversas de todos, mas sempre me sinto à parte, como se não me encaixasse não só em algum grupo, mas no mundo em si. Se algum dia eu tivesse que me descrever em poucas palavras, eu diria que sou um mero observador do mundo, pois é isso que eu melhor sei fazer: observar.
E por falar nisso, enquanto os vinte minutos de liberdade se passavam aproveitei para olhar em volta atrás da figura que encontrara mais cedo. Não foi difícil achá-lo, o que me intrigava era o fato de que eu nunca havia notado como ele era diferente de todos por ali. Eu sempre via a população daquela escola através de uma máscara de preconceitos, para mim só havia dois tipos de pessoas: as patricinhas fúteis que se preocupam mais com a aparência do que com o próprio intelecto e os arrogantes e alienados garotos, que, ao invés de falar normalmente, gritam em um dialeto que eu pouco entendo, como em uma sociedade primitiva da idade da pedra. Mas aquele garoto não, ele parecia... Como nós, um deslocado.
Apesar da minha perícia em observar as pessoas, eu demorava um tempo para descobrir o que queria, e como estava curioso, chamei a atenção das garotas à minha frente. Elas não eram exatamente as mais bem informadas dali, mas eram garotas, e só isso já faz com que saibam mais coisas do que eu.
─Sem querer atrapalhar a resenha do dia de vocês, mas... O que sabem do gótico estranho ali?
Aparentemente confusas, elas olharam na direção em que eu havia apontado e voltaram pra mim.
─Primeiro: ele não é gótico, e sim, no máximo, um aspirante a rockeiro. Segundo: Não sei muito a respeito dele, só que é do outro segundo ano e era amigo da... Allana. – Disse Hellen.
Ela dissera o nome da garota num tom mais baixo, pois aqui remetia a um assunto ainda tratado como tabu na escola. Tudo por conta de uma longa história que ocorrera no ano anterior. Uma garota, a tal Allana, saiu da escola na metade do ano letivo, depois de vários acontecimentos estranhos terem ocorrido. A coordenação comunicou a saída da garota em todas as salas, dando como justificativa ‘‘problemas de saúde’’. Mas, como sempre acontece, a verdadeira versão do que aconteceu com ela veio à tona: o motivo que a tirou da escola foi nada menos que um surto psicótico, que lhe rendeu um laudo médico e uma longa estadia no hospital psiquiátrico da capital. Nunca mais tivemos notícias dela, mas mesmo assim todos acharam melhor esquecer o ocorrido.
─Humn... Ok, podem voltar a falar do... Qual é mesmo o nome do livro do momento?
Ana bateu um livro de capa vermelha no meu braço e se aproximou, inclinando-se sobre a mesa.
─Tsc, tsc... Por que perguntou sobre o estranho da outra turma? Você nunca pergunta sobre ninguém por aqui. – Ela semicerrou os olhos.
Engoli em seco, eu só estava curioso, mas duvidava que elas fossem acreditar nisso.
─É só que... Talvez ele seja meu novo vizinho.
Levantei as sobrancelhas, como se esperasse que aquela resposta fosse o suficiente. Antes que elas pudessem dizer algo a sirene tocou sinalizando o fim do intervalo e eu me levantei às pressas. Toquei no ombro de Caio e fiz um sinal dizendo que era hora de voltar, ele assentiu e também levantou-se, me seguindo de volta pro inferno... Ou sala de aula, como preferir.
Só pra constar, as aulas começavam pela manhã e só terminavam no início da noite. Nós almoçávamos na escola e continuávamos lá por toda a tarde. Pode parecer, mas isso não era generosidade, era só um jeito de nos aprisionar ali por mais tempo.
Os últimos horários passaram relativamente rápidos, felizmente. Depois de mais quarenta minutos no caminho de volta, eu estava em casa novamente. Enquanto guardava meus materiais lembrei que não vira o garoto na volta da escola, mas não dei importância a isso.
O resto da minha noite foi o mais normal possível, com exceção do fim.
Deitado na minha cama, a minha cabeça estava tão absorta em pensamentos que eu poderia passar horas acordado só para organizá-los, o que, pra mim, era incomum. Depois de toda a maratona cotidiana eu costumava apenas encostar a cabeça no travesseiro e adormecer instantaneamente.
Para ajudar, coloquei os fones de ouvidos e selecionei a lista que eu preparara especialmente para essas ocasiões. Eu sei, cada um com as suas manias. Mas o que importa é que funcionou, em pouco tempo eu estava dormindo e, o melhor, começando a ter um sonho.
A hora de dormir sempre foi a minha preferida, não só porque eu sempre estava cansado de um dia estafante, mas também porque eu sempre gostei de sonhar e, como já falei, os sonhos são responsáveis por grande parte das minhas conclusões.
Eu estava em um lugar calmo, bem iluminado e arbóreo. O vento fazia as plantas ao meu redor se moverem com uma graciosidade nunca presenciada por mim, talvez vista apenas em filmes. O chão, porém, não parecia natural. Era um mármore alvo com finas veias negras desenhadas pela natureza. Dei alguns passos, eu me sentia tão leve quanto as folhas que tocavam meus braços, provocando uma sensação de frescor. À frente, uma sombra se movia para um lado e para outro, ao som de uma música que só agora vim perceber que estava tocando. Eu ouvia pouco, nada além de uma voz e um violão ao fundo. Inesperadamente me dei conta de algo, uma sensação, que se avultava no meu interior, chegando até minha garganta como uma onda, uma ânsia. Quase chegava a doer, mas era algo bom. Eu estava feliz.
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