O Melhor Das Piores Intenções

21 Capítulo 20 - Como um cigarro


Notas iniciais
Konnichiwa leitoras(es) queridas(os) ♥ O capítulo de hoje é razoavelmente romântico e cheio de metáforas ♥ Boa leitura, espero que gostem!

Mais tarde, no mesmo dia em que Izaya confrontou a Segunda Saika face a face pela primeira vez, ele recebeu uma visita de Shizuo.

Era tarde da noite e o informante estava no terraço, local para o qual ia quando precisava pensar em algo ou quando queria apenas observar a cidade de longe. E ele o fazia com prazer; tinha nos olhos o brilho de um rei que assistia ao seu império.

A porta do terraço abriu-se repentinamente, revelando um ex-barman com um cabelo meio bagunçado e um olhar de renúncia.

– Shizu-chan? — O informante perguntou, uma leve ruga formando-se na sua testa.

– Izaya...

– Como você sabia que eu estava aqui? E o que você está fazendo aqui? São duas horas da manhã.

– Eu arrombei a porta do seu apartamento, mas não te encontrei lá dentro. Quando estava no corredor, quase indo embora, notei que tinha uma porta extra que dava para este terraço. Minha intuição me disse que você estaria aqui.

– Intuição? — Izaya riu. — Certo. E você ainda não respondeu a minha segunda pergunta.

Shizuo tirou os óculos escuros que ainda estava usando — apesar de ser tarde da noite — e colocou-os no bolso. Em seguida, andou na direção de Izaya, mas sem chegar muito perto, parando em frente ao parapeito da mureta do terraço e encostando-se ali.

De onde estavam dava para ter uma visão ótima da cidade. Se olhasse para a frente era possível ver diversos prédios com suas belas luzes amarelas, e olhando para baixo se tinha uma visão das pessoas passando na calçada, pequeninas, como se fossem formigas. Talvez fosse por isso que Izaya estivesse ali. Ele apreciava aquela oportunidade de se sentir tão superior em relação aos outros.

– Eu... — Shizuo coçou a cabeça, procurando as palavras certas. — Eu vim te agradecer...

Uma expressão sincera de surpresa foi estampada no rosto do informante.

– Me agradecer pelo quê?

– Por ter salvo o Kasuka da Segunda Saika.

– Ele já contou pra você? E você veio aqui imediatamente? Que fofo, nee... — O moreno deu uma risadinha. — Vocês são realmente mais próximos do que eu pensava.

– Não importa. Na verdade, eu nem tava a fim de vir aqui e falar isso. Mas eu sinto como se tivesse a obrigação ou algo do tipo. Então, obrigado, Izaya.

Izaya virou a face, tentando evitar que qualquer emoção que ali surgisse fosse vista pelo ex-barman. Incluindo os tons de rosa que tingiam as maçãs de seu rosto.

– Eu não fiz isso por você. Ou por ele. Simplesmente não poderia deixar a Segunda Saika conseguir o que queria. — O moreno suspirou.

Parte daquilo certamente era verdade, agora que ele pensava nisso, mas o que tinha o motivado primeiramente a salvar Kasuka tinha sim sido Shizuo. Mas é claro que ele não iria admitir.

– Eu sei. Mesmo assim, obrigado.

– E tem mais um motivo.

– O quê? — Shizuo perguntou.

– O que aconteceu foi... Muito estranho, no mínimo. Eu acho que a Segunda Saika na verdade tem consciência de seus atos e já percebeu que eu e você estamos atrás dela. Deve ser por isso que tentou atacar Kasuka. Acho muito difícil ser uma coincidência.

– Então teria sido um tipo de vingança por estarmos atrás dela?

– Mm, eu diria que soa mais como um aviso. Algo do tipo 'saibam com quem vocês estão lidando'.

– Ah... Mas isso ainda não explica o 'outro motivo' pra você ter salvo Kasuka.

– Eu pensei que poderia chamar a atenção dela para mim. Também queria que visse que eu sou habilidoso. Tanto que consegui desviar de seus ataques sem sequer um arranhão — ele sorriu. — Talvez ela venha atrás de mim da próxima vez. A brincadeira vai finalmente ficar divertida.

Uma expressão de indignação se formou no rosto de Shizuo. Instintivamente, ele andou até Izaya, agarrando seu pulso. Também por instinto, Izaya tentou escapar.

– Shizu-chan?!

– Você é louco?

– Hã?!

– Você não tem medo? — O loiro perguntou, sério, olhando-o nos olhos.

– Não.

– Mentira.

– Shizu-chan, eu tenho todos os motivos para ter medo de diversas pessoas e as mesmas também tem todo o motivo para querer me matar ou coisas do tipo. Se eu tivesse medo, não dormiria à noite. Não ter medo é um requisito para o meu trabalho. Aliás, quando você fala assim parece que está me subestimando, nee. Que cruel — Izaya suspirou.

– Mesmo para pessoas como você e eu, alguns perigos existem. — Shizuo disse. — Mesmo assim, eu acho que você não tem medo das coisas que realmente podem te matar, como balas e facas. Mas você parece ter medo das pessoas em si. Você diz amar os humanos, mas... Você não se relaciona com ninguém.

– Isso acontece porque não tenho esse tipo de interesse neles — o moreno deu de ombros. — Eu quero observar as pessoas e, quando der vontade, manipulá-las. Porém, eu não sou uma peça do jogo, eu sou o jogador. Eu não participo do jogo diretamente, apenas vou movendo as peças conforme a minha vontade e objetivos. Eu não tenho qualquer intenção de me relacionar diretamente com os seres humanos.

– Eu ainda acho que você só diz isso porque tem medo.

Shizu-chan é irritantemente inteligente às vezes.

– Lá vem Shizu-chan com sua psicologia barata novamente... Não sei nem porque estamos tendo essa conversa. Que nojo.

– Eu acertei, pelo menos?

– Não vou dizer. Um dos prazeres da minha existência é deixar Shizu-chan confuso.

– Seu desgraçado — Shizuo cerrou os dentes. — Então isso justifica o nosso relacionamento ter estado tão confuso ultimamente?

– Nah — Izaya balançou a cabeça. — Isso acontece porque nós somos pessoas muito diferentes e que não se dão bem. Aliás, eu não consigo dizer se você está 'de cara' comigo ou não, Shizu-chan. Ah, seria tão mais fácil se suas expressões fossem fáceis de ler...

Mas também seria tão entediante.

– Minha virtude é ser imprevisível, afinal. E como eu sei que você detesta isso, vou dar o meu melhor para continuar assim. — Shizuo sorriu amargamente, tirando a cartela de cigarros do bolso.

– É uma pena.

– Se bem que, se você quiser mesmo saber, eu tenho bastante paciência com o seu comportamento, pulga. Bem mais do que você merece.

– Paciência? Shizu-chan, isso não faz o mínimo sentido! — O informante riu alto. — Eu sou a pessoa de quem você tem mais raiva, não sou? A pessoa que consegue te tirar do sério mais facilmente. Como você pode dizer que tem paciência comigo?

Shizuo acendeu um cigarro e o levou à boca.

– É difícil de explicar, mas apesar de tudo, eu me sinto confortável perto de você.

Os olhos de Izaya se estreitaram e ele ficou sério, com curiosidade:

– Por quê?

– Porque você não tem medo de mim.

Errado, Shizu-chan.

Eu não tenho medo do seu corpo, da sua força.

Mas, por mais patético que isso seja, eu morro de medo das coisas que você causa em mim.

São essas as coisas que me mantém acordado à noite. Mais do que balas ou facas.

– Você é como um cigarro, Izaya.

Essa frase pegou o moreno de surpresa, retirando-o de seus pensamentos. Ele contnuou a ouvir atentamente, aguardandando uma explicação. Shizuo girou o cigarro em seus dedos.

– Por mais que eu saiba o quanto possa me fazer mal e sinta em mim os efeitos de conviver com você, eu me sinto confortável demais quando você está perto. Confortável demais para deixá-lo de lado.

– Mas-

– Dá pra me deixar falar?! — Shizuo rosnou. — Talvez eu só esteja acostumado com a sensação que você me traz, ou talvez seja mesmo algum tipo de vício estúpido. De qualquer forma, é tarde demais para algo como 'raiva', algo com o que eu já estou tão acostumado, me fazer desistir de você.

– Shizu-chan-

– Você é um filho da puta e quase todos os dias eu desejo nunca ter te conhecido, mas... Largar você já não é uma opção pra mim, Izaya.

O moreno ficou então em silêncio, quase que paralisado, como uma bela estátua. Suas feições delicadas e traços perfeitos realmente estavam próximos aos de uma escultura grega, e seus olhos vermelhos pareciam brilhar na semi-escuridão, como os de um felino.

Em nenhum momento os olhos de Izaya pareceram desviar de Shizuo, da mesma maneira que aquela boca não se contorceu em um sorriso de malícia, mas permaneceu imóvel como seu dono.

Ele parecia estar em perfeita compostura, mas por dentro era bem diferente. Seu coração parecia palpitar a mil por minuto e suas mãos estavam suando.

– Você pode continuar tentando me afastar o quanto quiser, seu idiota — Shizuo abaixou a cabeça, mordendo o filtro do cigarro com raiva. Em seguida, suspirou, expelindo a fumaça. — Eu não dou a mínima. Eu vou continuar fumando até me matar, de uma vez por todas.

– Mas está tudo bem assim, não está? — Izaya finalmente se pronunciou, andando na direção do loiro, a voz tremelicando um pouco devido à surpresa. — É assim que tem que ser.

O informante parou em frente ao ex-barman e levou as mãos ao colarinho desarrumado de sua camisa branca, em seguida subindo dedos frios pelo seu queixo, levando-os até sua bochecha, fazendo-o estremecer.

Olhos vermelhos sangue encontraram olhos dourados mel, lábios gelados encontraram lábios mornos, o ódio encontrou o amor mais uma vez, moldando e derretendo-se na mistura de completos opostos.

– Eu vou deixar você me consumir ao mesmo tempo que estou te envenenando, Shizu-chan — Izaya sussurrou, ao descolar seus lábios. — Até que não sobre nada de nenhum de nós.

Eu também estou viciado em você. Há muito tempo. E é mais do que tarde demais para fugir, largar, afastar ou negar para mim mesmo que estou apaixonado por você.

Será que nós vamos salvar um ao outro ou destruir um ao outro?

Vamos jogar esse jogo juntos, até que esses sentimentos nos levem à ruína.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo de hoje! Estou feliz por estar tendo mais tempo para escrever e podendo postar os capítulos sem demorar tanto. Quando entrar de férias vai ser melhor ainda. E próximo capítulo será... adivinhem... *tambores rufando*... LEMON! *joga um monte de confeti para cima* Muito obrigada à leitora Liz Kato pela maravilhosa recomendação! Obrigada mesmo! ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ Até o próximo! ♥