O Martelo De Ares.
2 II — TREVOR.
EU NÃO CORRI O ACAMPAMENTO APENAS UMA VEZ. EU CORRI CINCO VEZES. Eu realmente precisava me distrair, já que eu não me cansava fácil. Mas eu consegui pensar bastante. Pensei realmente se eu teria raiva de Poseidon por falar somente com os outros filhos dele e não comigo. Mas eu vi que aquilo era tudo besteira. Poseidon realmente deveria estar muito ocupado e Percy não mentira para mim. Disso eu tinha certeza. Mas eu não ligava para isso. Eu tinha mais coisa para fazer. Tinha que recuperar o Martelo de Ares. Eu não iria fracassar nisso. Traria honra para o meu chalé e para meus irmãos.
Na verdade, eu tinha certo medo do que eu poderia enfrentar. Eu nunca havia visto um monstro de verdade, fora a quimera que viera me enfrentar, mas Dave me defendeu antes que eu pudesse realmente ter ideia do que fazer a respeito daquilo. Isso me assustava, mas eu não demonstraria. Eu tinha que se forte. Eu não era medroso. Afinal, eu não era uma das pessoas que demonstrava meus sentimentos logo de cara. Eu não era uma pessoa sentimental com certos assuntos.
Assim que eu cheguei à quadra de vôlei, eu avistei um dos filhos de Apolo se exibindo para as filhas de Afrodite e ambas estavam rindo quando um deles fez um ponto cravando antes da linha de três metros e jogando a camisa para elas, mostrando o seu físico definido e totalmente suado. Revirei os olhos para isso. Exibido, pensei. Mas era assim, as filhas de Afrodite sempre eram lindas e os filhos de Apolo sempre eram lindos. Uns mais exibidos que os outros.
Mas eu reconheci um dos filhos de Apolo que estava jogando. Um de cabelos pretos, pele branca, alto e com um físico de invejar — ele também estava sem camisa. Como eu disse, eu todos eles eram exibidos.
— Hey, Trevor... você devia jogar. Ao menos jogando você terá alguma fama com algumas garotas. — disse o que eu reconheci e gargalhou, juntamente com seus irmãos.
— Cale a boca, Brandon. — falei revirando os olhos e passei, só para provocar, lentamente pela quadra de vôlei enquanto eles estavam no meio de um jogo.
Ouvi todos eles me xingando em grego antigo, mas, por sorte, Brandon fez com que eles não me jogassem alguma de suas pragas e olhei para ele agradecido e ele riu para mim.
Como conheci Brandon? Foi inesperado. Ele foi meu parceiro em um dos jogos da captura das bandeiras. Nessa captura da bandeira, foi o chalé de Iris, chalé de Hefesto, o chalé de Apolo e eu — meus irmãos ainda não haviam sido reclamados — como time azul. Contra o chalé de Ares, chalé de Atena, chalé de Afrodite — acredite, eles foram — e o garoto do chalé de Zeus como time vermelho. E o chalé de Dionisio, chalé de Hermes, chalé de Deméter e o chalé de Éolo como time verde. Acredito que foi uma divisão não muito justa, mas isso não vem ao caso. O fato era, o líder de nosso time, um garoto do chalé de Hermes, fez com que fôssemos divididos em duplas, para assim pegarmos a bandeira dourada mais rápido, e eu caí com um filho de Apolo, o Brandon. Por isso o conheço. E nós conseguimos pegar a bandeira dourada que dava a vitória para o time que a pegasse.
Assim que passei pela quadra de vôlei, corri até o arsenal que ficava nossas armas e peguei um arco e uma aljava que continha o número suficiente de flechas para eu atirar, e uma adaga de bronze. Pegando tais coisas, corri de volta para a floresta depois da quadra de vôlei.
Mas eu não comecei a atirar flechas em uma árvore. Eu vi a pequena praia que tinha ali e eu não consegui resistir. Eu precisava relaxar e só o mar conseguia realmente me deixar calmo. Então eu segui para ele. Deixei o arco, a aljava e a adaga na praia, juntamente com meus tênis, meias, minha blusa laranja que tinha escrito “Acampamento Meio-Sangue” e, agradeci por estar com roupa de banho por baixo, minha calça jeans surrada — eu sabia que ninguém os pegaria, por isso os deixei ali — e entrei na água salgada.
Umas coisinhas que você precisa saber sobre mim: sendo filho do deus da água, eu posso respirar de baixo d’água, minhas roupas não se molham — só se eu quiser —, consigo falar com qualquer criatura marinha — e com os cavalos —, e eu posso, basicamente, fazer qualquer coisa com a água. Essas são as vantagens. As desvantagens? Eu sou um ímã para monstros. Literalmente. Todos eles querem me matar. Se você colocar, um exemplo, um filho de Hefesto e eu juntos, o monstro vai querer ir atrás de mim primeiro. Pois é... que sorte a minha, não?
De qualquer maneira, assim que entrei na água, permiti que ela me molhasse. A água não estava tão gelada e nem tão quente, mas eu não liguei. Era melhor assim, uma temperatura boa para se tomar um banho de praia. Eu não gostava muito de ter a ideia de ser banhado por água muito quente e nem muito gelada. Isso estragava toda a diversão da água e me fazia mais nervoso. Para falar a verdade mesmo, eu não ligava para a temperatura da água. Sempre estava boa para mim. Sempre.
Meus pensamentos se esvaziaram. Eu não pensava mais em Bryan, Tommy, Tyson, Charlie, Percy ou em meu próprio pai, Poseidon. Eu só pensava em minha missão e, em parte, em minha mãe.
Por que em minha mãe? Simples: ela era a única pessoa que eu via que realmente se importava comigo e sentir seu abraço me reconfortava. O único lugar em que eu realmente me sentia bem, além do Acampamento Meio-Sangue, era com ela. Tinha meu padrasto, o Mason Glaser, mas eu não tenho nada contra ele. Ele dá o bom e do melhor para mim e para a minha mãe. Eu quase o via como pai, pois ele me criou junto com minha mãe desde que eu tinha cinco anos. Eu era grato a ele, porque ele também fazia a minha mãe feliz. Enfim, eu pensava em minha mãe.
Por que em minha missão? Simples também: eu tinha que recuperar aquele maldito martelo para Ares o quanto antes. Eu não sei ao certo quantos dias eu tinha para isso, mas eu sabia que tinha que recuperar aquilo o quanto antes. Eu sabia que não iria sozinho, mas mesmo assim, era de deixar-me completamente preocupado. Mas eu conseguia pensar claramente. Eu tinha corrido ainda pouco, então só precisava treinar minha resistência com a espada — eu não era muito bom, mas conseguia travar uma batalha com uma —, em combate corpo a corpo — não seria tão difícil porque eu sabia lutar bem — e tinha o arco e flecha — esse sim seria fácil.
Os filhos de Apolo — a maioria — me olhavam torto por conta de eu ser tão bom em arco e flecha quanto eles. Eu havia conseguido deter Owen O’Donell , um dos filhos de Apolo, em uma gincana de arco e flecha no acampamento há três verões atrás — no verão em que eu havia chegado. Desde esse dia, eu sabia que a minha arma de verdade seria o arco e flecha. Mas, também, desde esse dia, Owen ainda tem certa raiva de mim. Ele falava comigo, mas não gostava de lembrar-se da época em que o venci — mesmo seus irmãos o lembrando disso sempre que me via conversando com ele, o que o fazia ficar vermelho de raiva e me tratar diferente depois de um tempo. Mas eu me acostumei com isso.
Mas eu consegui organizar as coisas em minha cabeça. Eu conseguia manter parte de minha mente que estava bagunçada em controle total. Agora eu não estava surtando como antes por conta de ser encarregado sobre essa missão, agora eu me sentia mais aliviado e até mandei uma prece mental para meu pai agradecendo-o por me reclamar e deixar o oceano para que eu pensasse sempre que precisasse.
Saindo da água, eu vi que minhas coisas estavam no devido lugar em que eu havia deixado, mas alguém estava lá e era o meu melhor amigo, Dave. Ele me olhava com os braços cruzados e estava sentado em uma pedra. Eu desconfiei, pois ele deveria estar com as ninfas uma hora dessas — uma das coisas em que ele mais fazia quando estava com o tempo livre, ou seja, quase sempre.
— E aí, cara. — falei levantando o polegar para ele.
Ele sorriu e levantou o polegar para mim também.
— Eu sabia que você estaria no mar. — disse ele rindo.
— Como? — perguntei juntando as sobrancelhas.
— Você sempre mergulha quando está nervoso.
Eu nunca havia percebido isso, mas, Dave deveria estar certo. Todas as vezes que eu entrava no mar, eu me sentia bem e saia de lá bem. Sempre. Mas eu nunca havia reparado em uma coisa dessas, afinal, quem repararia a não ser o Dave? Ninguém, não é verdade?
Ele jogou a toalha para mim e me enxuguei rapidamente, já estava começando a ficar frio e eu percebi que já deveriam ser mais ou menos umas três da tarde. O que eu achava um absurdo, pois eu lembro de que quando eu havia entrado na água era cedo. Não tinha passado nem do meio dia direito. Ou tinha?
— Que horas são, Dave?
— Quase quatro. — disse ele. — Você ficou submerso durante duas horas e meia.
— O QUÊ? — perguntei com as sobrancelhas juntadas e com cara de completo espanto.
Eu só tinha pensado em minha mãe, Mason e na minha missão. Eu não poderia ter ficado tanto tempo assim na água. O tempo pareceu ter desacelerado para mim. Isso era impossível! Eu ainda tinha a sensação de ter ficado somente cinco minutos na água!
— Não fique espantado. Já fez isso antes. — disse ele revirando os olhos.
— Mas dessa vez pareceu diferente. Dave... eu nunca havia ficado duas horas e meia dentro da água. — falei já seco e pondo a minha roupa de volta.
— É, isso é verdade... — comentou Dave.
Rimos disso. Mas Dave e eu fomos para de volta ao refeitório.
Eu não queria ficar ali parado, mas Dave aceitou em me ajudar com a espada. E eu tenho que dizer... para um sátiro, ele conseguia se dar bem com a espada. Por mim, ele só ficaria tocando aquela flauta de bambu esquisita que ele tinha — não subestime essa coisinha que só produz sons irritantes. Aquilo tem um poder que você nem ao menos desconfia.
E eu tive que contar para ele sobre a missão. Era inevitável. Ele era meu melhor amigo, eu tinha que contar. Mas Dave não me advertiu. Muito pelo contrário, ele ficara curioso em saber mais e saber o porquê Quíron não o convocou — essa seria a nossa primeira missão juntos. Dave queria isso e eu também queria. Seria bom guerrear com alguém que eu realmente conhecia. Muito melhor guerrear com Dave do que com um dos meus primos do chalé de Ares — eu não me via guerreando ao lado de um brutamonte como um deles —, ou um dos meus primos e primas do chalé de Atena, ou com o meu primo do chalé de Zeus — esse eu nem falava e tampouco sabia seu nome.
Na verdade, eu não sabia direito se eles eram meus primos. Tudo o que eu sabia, era que todos ali faziam parte de uma família grande e nem um pouco feliz. Mas, eu os considerava como primos. Era melhor assim do que realmente pensar como era a árvore genealógica de nossa família. Isso levaria uma grande parte do meu dia e eu não tinha muito tempo para isso.
Contudo, quando Dave e eu terminamos de treinar com a espada, eu dei início ao arco e flecha, disparando flechas certeiras no ponto central de todos os alvos. Eu não errava. Nunca. Parecia que eu realmente tinha esse dom, o que eu agradecia bastante por isso. Mas Dave não gostou bastante, porque ele só conseguiu acertar um de todos os quinze disparos e eu acertei os quinze. Eu ri da cara dele e ele não gostou disso.
Mas Quíron interrompeu o meu treinamento para algumas palavras. O que você imagina? Eu já lhe digo... Ele me reuniu com um dos meus queridos primos de quase cada chalé. Um do chalé de Ares, uma do chalé de Atena e o garoto do chalé de Zeus. Eu não poderia estar mais feliz por isso. Obrigado, Quíron por tornar o meu dia o melhor de todos!, pensei completamente raivoso com Quíron.
Eu ainda estava suado por conta do treinamento, mas eu não me preocupei com isso. Eu não estava nem aí se eu estivesse fedido. Eu não queria essa reunião besta. Quem a queria era Quíron. Ele simplesmente podia nos apresentar no dia antes de nossa missão. E eu sabia que ainda tínhamos que passar pelo o Oráculo — não é nada de tão bizarro como você imagine. O Oráculo é apenas uma garota que deve ter uns vinte e poucos anos, cabelos vermelhos, pele branca e só. Nada de tão bizarro. A não ser quando ela inventa de falar com uma voz estranha e seus olhos brilharem.
Contudo, assim que cheguei à frente a Casa Grande, Quíron olhara para mim e me lançara um sorriso e eu forcei o mais sincero sorriso que eu pude para ele. Quíron estava sentado em sua cadeira de rodas — de modo que agora ele conseguia ficar de nossa altura — e nos observava com um olhar muito tenso. Eu não entendia o porquê daquele olhar, mas... aquele era Quíron. Ele sempre teria um olhar como aquele.
— Ótimo, ótimo... ele chegou! — disse Quíron em um tom animador.
— Desculpe o atraso. — falei um tanto arfando e um tanto irritado.
Eu avistei todos e eles também pareciam não estar gostando de estar ali.
A garota de Atena tinha cabelos lisos e castanhos caídos até a altura de seu braço, aparentava ter a mesma idade do que eu e parecia ser só um pouco menor do que eu. Continha olhos cinzentos, pele clara como a minha e estava de braços cruzados em uma expressão raivosa. Ela realmente não estava gostando de estar ali; o garoto de Zeus era mais baixo do que eu. Ele aparentava ser mais novo, tinha cabelos louros, lisos e cheios, caídos até os olhos, continha olhos azuis intensos e ele também não estava gostando de ficar ali, pois também estava de braços cruzados; o garoto de Ares estava — adivinhem? —, também, de braços cruzados e com cara de quem parecia estar em extremo ódio. Ele tinha olhos azuis tão claros que eu me perguntei se estaria olhando para o céu em um dia claro e sem nuvens. Ele tinha cabelos pretos e, em uma das características mais visíveis dos filhos de Ares, ele era extremamente forte e era um pouco mais alto do que eu. E, por incrível que pareça, ele não era feio. Ele é bonito. Muito bonito. Podia até ser confundido com um filho de Apolo se não fosse sua aparência de quem queria começar uma guerra.
Resumindo os fatos: ninguém queria estar ali. Sempre tínhamos mais coisas a fazer do que perder tempo com uma conversinha boba. Sinceramente, eu estava quase saindo dali, se a garota de Atena não tivesse dito:
— Quíron, o que necessariamente você quer conosco?
— Eu estava tentando meio ocupado com uma coisa... — disse o garoto de Zeus
— É. Todos nós estávamos ocupados, Quíron. O que quer? — disse a voz profunda do garoto de Ares. Ele realmente parecia estar irritado. — Você interrompeu a minha briga com meu irmão! — finalizou ele.
Francamente, será que todos os filhos de Ares só sabiam brigar? Eu sei que eles eram um monte de brutamontes sedentos por luta, mas lutar entre si? Pelo amor de Deus!
Quíron o olhou franzindo os olhos.
— Estava brigando com Kyle novamente, Ian? — perguntou ele e suspirou.
— Isso é outra história. Por que nos chamou? — perguntou Ian.
— Vocês deviam ser punidos...
— QUÍRON! — nós quatro berramos o nome do centauro em uníssono.
— Tudo bem, tudo bem. — disse ele e pigarreou. — Trevor, quero que conheça Ian, Peter e Layla. Eles irão com você nessa missão.
Nós nos olhamos e dissemos juntos:
— O quê?
— Ah, não é nada de mais. — disse Quíron. — Rachel disse que seria necessário. Ouçam a profecia: Um por ter força o suficiente para um combate corpo a corpo. Uma por conta de sua sabedoria e estratégia. O outro por conta de saber guiar-se pelo ar. E o outro por ter cura através das águas. Ambos terão que lutar, mas unir-se para a batalha travar. E Percy Jackson queria ajuda. — recitou ele.
Todos haviam travado. Eu sabia o que eles estavam pensando. Ah, o menino que salvou o mundo... duas vezes. Às vezes era irritando saber que era irmão de Percy por conta disso. Sempre se lembravam dele por suas batalhas e não porque ele realmente é. Sempre o viam como herói para tudo. Sempre. Isso era irritante — eu sabia que isso era ciúme, mas eu preferia enfiar agulhas nos meus olhos a admitir isso em público.
Era óbvio que “a cura através das águas” era eu. Eu era o único que poderia ir a uma missão como essa e o único que podia me curar e curar os outros. Mas ele não disse o real motivo por eu estar ali. Por um minuto eu pensei que Quíron estivesse mentindo sobre essa profecia. Eu não acreditava ela poderia ser real por dois motivos. Um: um de nós quatro que devia ir ao Oráculo, nesse caso, eu. Dois: ele não disse aos outros que era eu quem foi selecionado primeiro por meu próprio irmão.
— Percy chamou Trevor para ajudar na busca, pois ele merecia uma missão digna como todos vocês três já tiveram. — revelou Quíron, o que faz eliminar a minha suspeita número dois. — Ian, eu sei que você não irá gostar disso, mas o Martelo de seu pai sumiu.
— O QUÊ?! — explodiu Ian descruzando os braços e arregalando os olhos.
— Os deuses estão no Olimpo para acalmar seu pai, o que é bastante difícil. Vocês têm apenas cinco dias para recuperarem o Martelo. Ou seu pai trará guerra ao mundo dos humanos. — Quíron não parecia estar brincando.
— O que temos que fazer? — perguntou Layla.
— Por onde começamos? — perguntou Peter.
Quíron sorriu por um breve momento.
— Ao tudo que sei, é que o que Percy disse. Tudo o que ele andou investigando, foi que monstros estão se reunindo ao oeste do país.
— Isso não é possível. — intervim. — Isso é lógico. São Francisco fica para o oeste do país...
— Não é em São Francisco, Trevor, se é o que pensa. — disse ele. — Percy disse que é um pouco antes.
— Em que local, mais ou menos? — perguntou Ian num tom mais calmo.
— Em Oklahoma. — disse ele.
Eu pensei por um instante. O que os monstros queriam em um estado como aquele? Música country ou coisa do tipo?
— O que os monstros querem por lá? — arqueei uma sobrancelha.
— Provavelmente querendo nos despistar. — disse Layla que parecia bastante pensativa. — Deve haver alguma força extra. Eles não nos levariam até lá por simples confusão. Há alguma coisa de errado.
Aquilo não era de surpreender-me. Ela era filha da deusa da sabedoria. Uma tremenda sabichona. Isso estava cravado em sua testa.
— Temos que partir o quanto antes. — falei.
— E irão. — Quíron apressou-se a dizer. — Partirão ao anoitecer. Tempo o suficiente de arrumarem suas coisas e conversarem com quem tiverem de conversar. — ele me olhou.
Eu entendi o que ele quis dizer. Eu tinha que me despedir de meus irmãos. Mas eu não me via como fazer isso. Eu não me via dizendo um “Até logo!” para Tommy, Bryan e Charlie. E tampouco me via dizendo isso para Dave, mas eu sabia que podia contar com a ajuda dele para ficar de olhos em meus irmãos. Dave sabia se defender e defender os outros. E eu sabia que ele não falharia comigo. E eu sentiria falta do meu melhor amigo.
— Tudo bem? — Quíron voltou a perguntar, mas antes que alguém pudesse responder, ele disse: — Ótimo. Agora vão logo!
Assentimos e saímos da frente da Casa Grande.
Não fui muito difícil convencer Dave a ficar de olho em meus irmãos. Dave queria ir comigo, ele não queria ficar olhando um adolescente e duas crianças. Não fazia muito a sua praia ficar de babá — eu também não gostaria, mas eu faria isso se Dave me pedisse e ele prometeu que tomaria conta deles.
Por sorte, eu consegui me despedir de meus irmãos tranquilamente. Bem, ao menos eu consegui me despedir do Charlie, pois eu não conseguia ter a lembrança de dizer um “Até logo!” para Tommy e Bryan sendo que eu não sabia se eu voltaria. Charlie sabia das consequências e ele não era mais criança. Ele não era mais aquele garoto assustado. Charlie agora era realmente um campista que aparentava estar pronto para qualquer tipo de ação perigosa. Eu me orgulhava dele nisso. Mas eu consegui fazer com que os dois menores entendessem que eu estaria longe por um determinado tempo. Tommy não gostou muito, até chorou, mas Bryan conseguiu alegrar ele de novo, mas eu sabia que aquela notícia doía tanto em Bryan, quanto em Tommy. Dava para ver o interior de Bryan. Ele não conseguia disfarçar muito.
— Você tem que cuidar deles, Charlie. Entendeu? — apontei o dedo para ele.
Eu me sentia muito mais velho do que apenas um ano de diferença de Charlie. Eu me sentia como se eu tivesse dez anos a mais que ele. E ele parecia notar isso, pois ele não fazia interrupção ou pergunta alguma quando eu argumentava. Só balançava a cabeça.
— Quando você volta? — perguntou ele inseguro.
— Se eu realmente voltar vivo, volto em cinco dias. — falei de uma vez.
Eu odiava enrolação. Charlie sabia disso e ele também não gostava. Só éramos obrigados a enrolar nossos irmãos menores por conta da idade deles. Fora isso? Não havia enrolação em nosso diálogo.
— Você vai voltar vivo... — disse ele tão baixinho que eu mal pude ouvir.
Sorri para ele.
— Eu espero que sim. — falei e me aproximei dele. Ele me olhou com os olhos arregalados e em posição firme. — Quero que me prometa uma coisa, Charlie...
— O que quiser. — disse ele rapidamente e eu ri para ele.
— Quero que prometa que, se algo acontecer de perigoso, seja na captura da bandeira, em qualquer outro jogo, ou em qualquer outra circunstância de luta, eu quero que você lute bravamente. Defenda nossos irmãos e, acima de tudo, não precisa fazer nosso pai orgulhoso, mas me faça orgulhoso. Eu confio e acredito em você, Charlie. — falei pondo a mão em seu ombro.
Charlie pareceu em choque, mas logo em seguida seus olhos se encheram de lágrimas. Ele lutou para não enxugá-las, mas eu fiz aquilo por ele. Enxuguei suas lágrimas e ele abaixou o rosto. Franzi a testa para ele e o estudei com vista grossa sem entender.
Mas Charlie me surpreendeu levantando a cabeça e me olhando com cara séria, como se ele estivesse pronto para o combate. Ele deu um passo à frente e disse com convicção e firmeza:
— Eu prometo, Trevor.
Eu sorri para ele e ele me abraçou.
Fiquei surpreendido como abraço, mas aquilo fez meus olhos lacrimejarem e eu não choraria perto de Charlie. Eu tinha o encorajado e eu não faria papel de coração mole perto dele. Então, o abracei de volta com a mesma força que ele me abraçava, ou seja, forte.
— Eu sei que vai, Charlie. Eu sei que vai. — falei parando o abraço e olhando por um instante. Lancei um sorriso para ele e, virando-me de costas, caminhei até o chalé de Atena para falar com Layla.
Eu podia ver uma grande rebelião no chalé de Ares — provavelmente brigando porque Ian foi selecionado para ir à missão e não os outros —, eu podia ver, também, que nos outros chalés estavam tendo uma espécie de alvoroço. Os garotos e garotas do chalé de Íris estavam do lado de fora me olhando e cochichando. Eu também conseguia ver o chalé de Hermes, também, cochichando, mas eles apontavam descaradamente para o chalé de Ares. O chalé de Afrodite inteiro olhava para o de Atena e comentavam. Provavelmente querendo saber o porquê uma garota de Atena foi chamada para uma missão dessa e não uma garota de Afrodite. Todos nós sabemos — não tenho nada contra, mas nem todas eram como a Piper, como Percy havia dito como ela era. Seu poder de persuasão... eu não queria me meter com uma garota como aquela.
Chegando ao chalé de Atena, eu já podia ver os irmãos e irmãs de Layla por ali. Uns tinham quase o tamanho de Ian e fortes, com cabelos pretos, uns louros. Uns baixinhos, com olhos cinzentos e penetrantes e, uma característica de todos: todos tinha cara de serem bastante inteligentes.
De qualquer forma, assim que eu cheguei perto do chalé de Layla, eu a vi com outro garoto. Ele não era de alguma forma, parecido com seus irmãos e irmãos. Ele era alto, fortemente musculoso, continha cabelos cor de bronze, sardinhas no rosto e olhos azuis. Na verdade, ele estava me lembrando de um dos meninos de Apolo. Mas eu estranhei. O que ele estava fazendo ali e ainda mais segurando a mão de Layla?
— Vou sentir falta de você. — disse o garoto.
Ela sorriu e o beijou nos lábios rapidamente.
— Eu também, Jack. — disse ela sorrindo.
Eu estava bem perto deles, então pigarreei para me notarem.
Layla me olhara e ficara completamente vermelha. O garoto se ajeitou para perto dela e a pôs em seu lado, mas ainda segurando sua mão. Eu ri daquilo — não por ser careta, mas, sim, por ser fofo. Semideuses mereciam uma vida amorosa depois de tanta batalha com monstros e ter uma vida cheia de perturbações. E, de alguma maneira, eles conseguiam isso. Fico feliz por eles.
— Ahn... bem, Trevor, este é Jack. Jack Mason. Meu... hmmm... meu namorado. — disse ela timidamente, mas olhando para ele e com um sorriso no rosto. — Jack, esse é Trevor. Trevor... ahn, qual é o seu sobrenome mesmo? — perguntou ela.
Eu não consegui responder de início. O cara tinha o sobrenome do meu padrasto. Mas eu tentei conter o riso quando ela me olhou torto, mas não consegui.
— Do que está rindo? — perguntou ela.
— Não, nada... — disse eu. — É que o sobrenome dele é o nome do meu padrasto. Mas isso não vem ao caso. Eu sou Casey. Trevor Casey. Prazer, cara... — estiquei a mão para ele.
Ele riu e apertou minha mão.
— Prazer em conhecê-lo. — disse ele.
Larguei de sua mão e assenti com a cabeça.
— Hmmm, acho melhor ir nos reunirmos com Quíron logo. Está tudo pronto com você? — perguntei olhando para a mochila que ela continha nas costas.
Ela assentiu.
— Sim, mas acho melhor falarmos com os outros. — disse ela ainda segurando na mão de Jack. Assenti para ela. — Eu e Jack vamos ao chalé de Zeus falar com Peter. Você vai ao chalé de Ares falar com Ian. — finalizou ela e eu não gostei muito da ideia.
— Ahn... acha mesmo que...
— Vamos, Jack. — disse ela indo em direção ao chalé 1 e puxando Jack com ela antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
— O.K., entendi. — falei comigo mesmo. — Chalé de Ares, aí vou eu. — e segui para o chalé de Ares.
Não foi muito agradável chegar naquele ambiente. O chalé de Ares era horrível. Ao menos em minha opinião.
O chalé é de um vermelho-vivo mal pintado, o chalé tem seu telhado forrado de arame farpado, com uma cabeça de javali empalhada acima da porta central. Espadas e facões foram entalhados no mármore escuro e decoram as paredes do lugar. Tinha uma tocha acesa e continha... um canhão no telhado? E havia três lances de escadas largas de cimento para chegarmos até a porta. Era completamente esquisito. Sem contar na briga que estava rolando ali.
— Você não pode ter sido selecionado para isso. É impossível! — disse a voz de um garoto.
— Não! É completamente impossível mesmo! Mas era eu quem devia ser selecionada. Chega de garotos indo a missões e nada de garotas! Clarisse havia dado sorte. A única a ser chamada. Isso não é justo! Eu devia ir nessa missão, não você, Ian! — berrava a voz de uma garota.
Cheguei mais perto para ver a briga e, antes que eu pudesse chegar perto da porta, um garoto saiu voando de lá e caiu bem a minha frente no chão. Eu me espantei. Eu já sabia que eles podiam ser bem violentos, mas não a esse ponto.
O garoto do chão se levantou e, puder ver que ele estava completamente furioso. De branco, como ele deveria ser um dia, estava vermelho de raiva. Ele tinha cabelos pretos iguais aos de Ian, porém ele parecia ser mais alto e mais musculoso — eu não achava possível isso ocorrer, mas eles eram filhos de Ares, então, nesse requisito, eles poderiam ter o tamanho que quisessem. Ele fechou os punhos, que tremeram e disse:
— Você me paga, Ian! — e voltou para o chalé.
Eu cheguei mais perto da frente do chalé de Ares, mas, como eu tive medo de outro garoto imenso voar de lá de dentro, eu mantive um metro de distância da porta e do caminho da mesma. Só por precaução.
Eu conseguia ouvir barulho de socos, tapas, xingamento em grego antigo e até em inglês dali de fora. Eu me perguntava como e o porquê de tanta violência naquele chalé. Será que Ares não via a guerra que seus filhos faziam entre si? Era difícil conter a violência assim para o deus da guerra? Será que ele queria que seus filhos se matassem entre si? Por favor... ele tinha crianças e garotas no meio disso tudo. Ele não faria absolutamente nada?
O barulho de mais socos e um urro de exaustão ecoaram de dentro do chalé e dois meninos voaram de lá de dentro e caíram no chão. Quando eu olhei, era Ian e aquele outro garoto que se parecia com ele. Por um minuto, eu pensei que eles eram irmãos de sangue, pois eram tão parecidos. A única diferença era que Ian era mais baixo e um pouco — pouco mesmo — menos musculoso que ele.
— Chega, Kyle! — disse Ian se livrando de Kyle e pondo-se de pé. Ele ofegava tanto que pensei que ele tinha corrido uma maratona. — Aceite. Eu fui selecionado e você não.
Kyle também ofegava bastante. O olhei e ele parecia tão furioso que me lembrava de um leão atrás de sua caça sapeca que sempre escapava de seus ataques. Dava medo de olhá-lo, mas eu não demonstrei tal sentimento naquele momento. Além do mais, eu não conseguia demonstrar isso. O déficit de atenção não deixava isso ocorrer.
— Você é um desgraçado, Ian! — disse Kyle e, quando chegou perto o suficiente de Ian para lhe dar um murro em seu rosto, Ian apenas esquivou para o lado, lhe deu uma rasteira e, quando Kyle caiu no chão, Ian parou com uma adaga em seu pescoço.
— Chega, Kyle! — disse Ian novamente.
Kyle se agitou no chão, mas não conseguiu sair da imobilização de Ian. Por fim, Kyle bufou e empurrou Ian de cima de si, e se levantou, onde ajudou Ian a se levantar também.
Os olhos azuis de Kyle me fitaram com ódio e eu me preparei para qualquer ataque.
— Você! — disse ele marchando em minha direção. — Você que vai levar meu irmão para essa missão e não a mim? Seu filhinho de...
— Não se atreva a falar do meu pai! — falei com tanta raiva que eu pensei que aquele nem deveria ser eu. Eu já estava com o arco pronto e uma flecha apontada para sua testa. Eu não queria saber se eu fosse expulso daquele acampamento, mas eu não deixaria Kyle insultar meu pai. Não na minha frente.
Ele parou marchar até a mim. Pensou por um momento e bufou revirando os olhos. Ele me olhou, riu e voltou a andar em minha direção com o punho fechado e tremendo, foi onde eu mirei em seu rosto e soltei minha flecha, onde ela passou de raspão por sua têmpora esquerda, fazendo-o sangrar. A lâmina da ponta da flecha havia feito uma linha escarlate na temporada de Kyle e ele pôs a mão em sua cabeça reclamando.
— Seu miserável! — reclamou ele. — Me cortou! — ele puxou a espada que estava presa em sua cintura e correu até a mim.
Mas eu já estava com outra flecha já apontada para ele quando Ian interveio e pôs-se em minha frente, batendo sua espada contra a espada de Kyle.
— Eu já disse para parar, Kyle! — Ian lhe deu um murro na cara quando Kyle vacilou se desequilibrando ao impacto de suas espadas. Ian fez um movimento rápido e tirou a espada de Kyle e, num piscar de olhos, a espada de Kyle estava em sua mão.
Kyle ficara vermelho novamente e me olhara. Eu não demonstrei insegurança. Muito pelo contrário, eu não tinha medo dele. Ele não demonstrava medo — apesar de para algumas crianças na minha antiga escola ele seria uma ameaça —, ele parecia um garoto mimado.
— Ugh! Isso não é justo! — explodiu Kyle. — Eu sou o mais forte! Eu deveria ir, não você, Ian! Eu tenho força! — finalizou ele, mostrando os músculos ultramente definidos.
— Você tem força, mas eu tenho cérebro. Eu vou e você não. Fim de papo. — disse Ian com a voz calma.
Kyle tremeu ainda mais, mas respirou fundo e, assim que passou por mim e por Ian, disse olhando para mim:
— Está marcado comigo, molequezinho de meia tigela. — ele me fuzilou com os olhos.
— Eu não tenho medo de você. — falei olhando em seus olhos e fuzilando-o com os olhos também.
Kyle se foi, deixando Ian e eu a sós.
Eu acho que já tinha descoberto o segredo dos filhos do deus da guerra. Não se pode encará-los. Eles sempre vão querer se vingar, e eu sabia que Kyle se vingaria de mim e que eu estaria marcado por ele pelo resto de minha vida. Mas eu não ligava para isso. Eu não tinha medo de Kyle e ele não colocava medo em mim. Pode até por medo nos outros, mas, ao que parece, nem a mim, nem a Ian ele conseguia fazer isso.
— Ele é sempre assim tão receptível com seus primos? — perguntei para Ian e revirando os olhos.
Ian bufou.
— Sempre. — disse ele balançando a cabeça em negativa.
— Imaginei.
— Desculpe pelo meu irmão. Ele é estouradinho assim mesmo. — ele coçou a cabeça e riu. — Não sei como eu posso ser irmão de sangue daquele garoto. E ele é o mais velho, acredita? — ele sorriu nervoso.
O gesto dele me fez perder a concentração. Eu não sei exatamente o porquê, mas fez. Havia algo em Ian que... bem, eu não sei dizer. Ele não parecia ser um brutamonte sem cérebro. Ele era legal. Eu gostava dele.
Chacoalhei a cabeça rapidamente e voltei a olhá-lo.
— Como? — perguntei sem entender direito.
— É, não me surpreende você ficar com essa cara de espanto. — disse ele. — Kyle é meu irmão mais velho.
Não acreditei de início. Quíron havia me dito que era raro de isso acontecer. Bem raro. Mas eu não achava que encontraria um caso desses. Um deus ter duas crianças com a mesma pessoa... era de se espantar.
Mas eu não via como Ian ser irmão mais novo de Kyle. Tá, eles eram muito parecidos, mas não significava nada. Ian tinha cérebro e Kyle provara que não tinha nem titica de galinha em seu crânio. Eles eram totalmente iguais, mas completamente diferentes. Entendem? Que bom.
Eu conseguia ouvir os palavrões em grego antigo e até em inglês de Kyle dentro do chalé pelo lado de fora e, mais uma vez, desejei que ele maneirasse nos palavrões, porque ainda tinha crianças naquele acampamento e principalmente dentro de seu chalé. Fechei a cara olhando para aquele chalé.
— O que houve? — perguntou Ian.
— Os palavrões de seu irmão — falei. — não só dele, mas como de todos os outros. Vocês não podem simplesmente parar de xingar? Há crianças nesse acampamento. E há dentro do chalé de vocês.
Ian riu.
— Não tem como pararmos. Mas há como tentar controlar. — explicou ele. — Uma das características dos filhos de Ares.
— Hmmm, entendi — afirmei com a cabeça.
Ainda conseguia ouvir Kyle berrando, mas, desta vez, com uma garota. Provavelmente aquela menina não era a que estava gritando antes, mas, o que eu podia dizer? Os filhos de Ares sempre iriam fazer isso. Era inevitável.
Dei de ombros com esse pensamento e me virei para Ian... ao menos eu tentei dizer, pois ele me estudava de uma maneira estranha. Seus olhos azuis estavam perdidos nos meus e eu desviei o olhar tímido — por incrível que pareça, mas eu sou tímido. Acho que devo ser um dos poucos semideuses que devem ser tímidos. Ou não? Não sei!
— Hmmm... — pigarreei e ele pareceu voltar-se a si. — Quíron mandou nos prepararmos para ir. Você está pronto?
Ian piscou três vezes rapidamente e chacoalhou a cabeça.
— Ahn... sim. — disse ele. — Deixe só eu pegar minhas coisas dentro do chalé... — e ele seguiu para dentro daquela coisa que ele chamava de chalé, mas eu, a partir daquele momento, a chamava de campo-militar.
Mas, por incrível que pareça, eu ouvi Ian berrando para os irmãos dizendo:
— Não quero que vocês fiquem xingando alto de mais! — ouvi algumas risadas. — Isso é sério, Martin! Do lado de fora dá para ouvir os palavrões de vocês. Pelo acampamento quase todo se pode ouvir os palavrões de vocês. Isso vale para você também, Bia! — berrou ele com uma... menina? Ian realmente parecia estar com raiva. — Não quero muitos palavrões por aqui, ouviu, Kyle? Temos Brad, Matt, Scott e Chuck como crianças aqui. Não quero ouvir mais nenhum palavrão perto deles! E nem eles dizendo algum palavrão tão alto ou perto de mim! Eu, como monitor deste chalé, ordeno... NÃO CAÇOEM! — ele berrou mais, fazendo todos se calarem e eu estremeci. O tom de voz de Ian conseguia realmente por medo em alguém... eu senti. — Ordeno que vocês diminuam os palavrões, entendido? Se não obedecerem, arcarão com as consequências. Entenderam? — perguntou ele em meio aos berros, mas ninguém ousou respondê-lo. — Ótimo, agora me dê licença, Tom. — e eu não ouvi mais nenhum berro.
Passou-se uns três minutos de espera e, como alguém como eu que tem déficit de atenção e hiperatividade não é de se achar legal uma espera daquele jeito. Parecia que aquele tempo havia durado uma eternidade, mas eu consegui me distrair verificando minha aljava se todas as flechas possíveis estivessem ali e a minha adaga de bronze — eu sei que eu poderia ficar sem as flechas, então eu não poderia arriscar.
Eu sabia lutar corpo a corpo, mas não como um filho de Ares. Eu tinha minhas defesas, pois minha mãe havia me matriculado em aulas de artes marciais — eu não achava necessário, mas eu entendia o que ela queria: minha possível segurança. Ela sabia das consequências por ser um semideus, mas eu não queria contrariá-la, afinal... minha mãe era tudo na minha vida — lógico, tirando o Acampamento Meio-Sangue, Dave e meus irmãos.
Quando eu ouvi mais um palavrão em grego antigo e vi um garoto menor que eu — em altura não em músculos — ser jogado porta a fora do campo-militar, eu me assustei de início.
O garoto era absurdamente forte. Aparentava ter mais ou menos a idade de Charlie, tinha cabelos ruivos e uma lança na mão. Ele se pôs de pé e berrou:
— Ian! — e ele encarou o chalé.
Ian saiu de lá de dentro com toda a calma do mundo — o que eu estranhei por ser um filho de Ares. Ian vestia, agora, jeans surrados, a blusa laranja do Acampamento Meio-Sangue que estava escrito “Acampamento Meio-Sangue”, uma blusa de frio que continha um gorro, uma mochila bem grande nas costas com uma lança presa nela, juntamente com uma espada de bronze. Seus cabelos estavam rebeldes, como se ele tivesse acabado de lavá-los — imaginei o que tinha lá dentro para ele poder lavar os cabelos.
— Eu disse que estava falando sério, Karev. Você não quis acreditar... arcou com as consequências. — Ian deu de ombros.
Karev correu em direção a Ian, mas ele apenas se deslocou para o lado, puxou Karev pela parte de trás de sua camisa e deu-lhe uma rasteira, fazendo-o cair no chão. Karev reclamou e Ian gargalhou.
— Observe seus movimentos, moleque. Não os deixe óbvios, sacou? — Ian agauchou-se e esticou a mão para Karev, onde a pegou e o colocou de pé. — Tome cuidado, criança.
Ian deu tapinhas gentis no ombro de Karev e vi o mesmo rir para Ian. Eles pareciam gostar um do outro, pois Karev abraçou rapidamente Ian e disse:
— Tome cuidado, irmão.
Ian riu.
— Eu sempre tomo. — Ian parou o abraçou e deu uma piscadela para Karev. — Agora entre e tente por ordem naquilo junto com Jamie, está bem? — Karev assentiu com a cabeça e se foi.
Ian veio até a mim e suspirou duas vezes. Eu o entendia. Não podia culpá-lo. Eu também me matava por dentro por deixar meus irmãos naquele acampamento sozinho, mas eu sabia que eles não iriam arrumar confusão consigo mesmos e tampouco ficariam sem proteção. Charlie podia ter a aparência assustada, mas, em guerra, Charlie sabia muito bem se defender sozinho. Ele era um excelente guerreiro. Mas já com os irmãos de Ian...
Os irmãos de Ian aparentavam ser, todos — quase sem exceção —, sem cérebro. Ian aparentava ser o único ali que tinha cérebro e aquele garoto, o Karev, também aparentava ter um pouco de cérebro. Era difícil ver Ian não querer deixar seus irmãos e ao mesmo tempo querer ir a essa missão. Eu sabia como ele se sentia. Eu sabia o que ele sentia naquele momento e digo... não é nada reconfortante.
— Hmmm, então... — comecei.
— É, eu sei. Temos que ir...
— Bem, na verdade, eu ia dizer que sei como se sente a respeito de seus irmãos — o interrompi e ele ficara vermelho de sem graça. — Mas sim, também temos que ir. — ri amigavelmente para ele e ele retribuiu o riso.
Eu nunca pensei que teria uma amizade com um dos filhos de Ares, principalmente um como Ian. Ali, todos conseguiam odiar meu irmão Percy e detestar o meu chalé. Eu nunca soube o porquê de tanta rivalidade, Percy nunca havia me contado. Tá, eu sabia. Tudo por conta de Clarisse La Rue, mas isso havia acontecido anos atrás. Será que não poderia ter uma trégua? Eu não tinha nada a ver com essa rixa de Percy e Clarisse, pelo amor dos deuses!
Ian e eu nos dirigimos para a Casa Grande, mas uma voz nos interrompeu:
— Hey, Ian! — era a voz de Kyle.
Ian e eu nos viramos e vimos Kyle se aproximando de nós e eu preparei minha adaga. Eu não sabia se ele queria se vingar de mim por ter cortado seu rosto, então, eu estaria preparado para qualquer movimento dele. Franzi a testa.
Ian bufou.
— O que é agora, Kyle? — Ian olhou para ele com cara de quem estava desinteressado.
— Meu assunto é com ele. — Kyle apontara para mim, indicando para a floresta que tinha atrás de seu chalé e se foi.
Eu o segui. Eu me surpreendi. Eu conhecia Kyle há pouco tempo. O que ele poderia querer falar comigo?
Kyle andava com passos largos e eu o seguia com certa dificuldade, Olhei para trás e vi Ian de braços cruzados e batendo as pernas. Ele estava tão impaciente quanto eu estava quando ele havia me feito esperar os três minutos mais terríveis da minha vida.
Andamos mais um pouco e não consegui mais ver Ian direito daquela distância. Kyle parou de andar e me olhou.
— Quero que cuide dele. — ele disse fitando o chão.
— Como é que é? — perguntei sem entender o que ele havia dito.
— Você entendeu. — ele andou para frente e pegou a gola de minha camisa, erguendo-me do chão para ficar cara-a-cara com ele. — Ele é o meu irmão de verdade. De sangue. Eu sei que ele já havia tido algumas missões de grande perigo, mas essa é a sua real missão. — disse Kyle um tanto paternal, o que eu achei totalmente estranho para um filho de Ares.
— Você não pode estar falando...
— Estou! — berrou ele interrompendo-me e ficara totalmente vermelho.
Suas mãos duras e grossas seguravam minha gola da camisa com tanta força, que dava para ouvir alguns estalos de seus dedos e suas mãos tremiam.
Em questão de meio segundo, eu puxei a adaga de minha cintura, pus a mão livre em sua garganta e a outra, com a adaga, pus, com a ponta, em sua nuca.
— Cuidado, Kyle. — falei olhando em seus olhos azuis intensos. — Nunca abaixe a guarda, certo? E eu não tenho medo de você.
— Pois devia. — ele me soltou e, assim que eu segui para longe dele, ele segurou meu braço com força. — Eu estou falando sério, moleque atrevido. — disse ele com firmeza. — Cuide bem do meu irmão, ou eu esgano você até a morte.
Revirei os olhos. Eu sabia que se eu dissesse não, Kyle me seguraria ali até eu não querer mais. Até que eu realmente dissesse que protegeria Ian. Mas eu iria, de uma maneira ou de outra. Ian era uma pessoa legal e eu não arriscaria a vida dele, tampouco a de Layla e Peter. Posso não conhecê-los, mas eu não deixaria ninguém morrer naquela missão.
— Tá, tudo bem. Vou protegê-lo — falei de má vontade, escondendo a verdade.
— Ótimo. — disse ele. — Então estamos conversados. Sai você primeiro. E sem uma palavra de nossa conversa com ele.
Dei de ombros e segui para onde estava com Ian.
Ele ainda estava lá. Ele sorriu em me ver, mas fechou a cara logo em seguida. Olhei para trás para ver o que era e era somente o idiota do Kyle. Assim que cheguei perto de Ian, o mesmo marchou em direção a Kyle e dera um empurrão no mesmo com as mãos. Kyle se afastou uns sete passos por conta do empurrão.
— O que disse a ele, Kyle? — a voz de Ian parecia mais um rosnado do que sua própria voz.
Kyle pareceu desapontado, mas logo riu para ele. Ele me olhou e sua cara se fechou, mas a minha já estava fechada. Eu não ligava para Kyle. Eu sabia que, a partir daquele dia, ele me odiaria para o resto de sua vida — seja ela longa ou não —, mas eu não estava nem aí para ele ou para isso.
Kyle olhou firme para o chão e disse sério:
— Boa sorte, irmão. — disse ele e minha expressão se esvaziou. — Tome cuidado. Volte vivo. — ele estivou a mão para Ian.
Ian sorriu timidamente e logo em seguida riu.
— Ah, é claro, irmãozão! — Ian apertou a mão de Kyle. — Eu voltarei.
E então eles fizeram algo que me surpreendeu: se abraçaram. Além disso, deram tampinhas amigáveis em suas costas. Aquilo era impressão minha, ou dos olhos de Kyle saíram lágrimas? Mas, antes que eu realmente pudesse ter a conclusão, Kyle as limpou rapidamente antes que Ian visse. Eles pararam de se abraçar e se encararam.
— Até mais, irmãozinho. — disse Kyle com um sorriso torto que era até bonito para um brutamonte ridículo como ele.
— Até mais, irmãozão. — disse Ian e veio até a mim.
Ele sorriu para mim, pôs a mão em meu ombro, indicando para a Casa Grande.
Assim que demos cinco passos, ele perguntou:
— O que meu irmão queria com você?
Olhei para trás para ver se Kyle ainda estava ali, mas ele infelizmente estava. Assim que bati meus olhos nele, Kyle apontou para Ian e depois pôs o polegar para baixo, em seguida, apontou para mim e depois fez um gesto como se uma espada cortasse seu pescoço. E, logo depois, voltou-se para o campo-militar que era o seu chalé. Eu havia entendido. Ele queria dizer que, se eu contasse ou deixasse Ian morrer, Kyle me culparia eternamente e me mataria logo em seguida.
Assim que, depois de vários passos até a Casa Grande, vimos Quíron e o sr. D jogando cartas. Virei-me para Ian e disse:
— Nada. Ele não queria nada de mais. Só falar abobrinhas. — menti revirando os olhos. — Esqueça isso.
Ian riu e eu ri logo em seguida.
Aquela foi a melhor mentira que consegui dizer para o cara que eu deveria proteger.
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