Notas iniciais
Site não deixando eu por o número "3" em romano. Desculpe.

ASSIM QUE TODOS ESTAVAM PREPARADOS PARA A PARTIDA DO ACAMPAMENTO PARA Oklahoma — após todos nós ter se despedido de todos os quem gostávamos no acampamento novamente —, Quíron reuniu os quatro para uma última conversa na Casa Grande.

— Estamos entendidos? — perguntou Quíron após um longo discurso sobre como teríamos que agir e tudo mais.

Tudo bem, eu sabia que ele estava tentando nos proteger e nos ajudar da maneira que podia. Mas Quíron tinha que entender que todos ali sabíamos o perigo que estávamos correndo e não ligávamos a mínima para isso. Todos ansiavam para essa missão, inclusive eu e era notório o quão os outros estavam inquietos para a partida.

— Entendido — disse Peter.

— Sim — falei.

— Claramente — disse Layla.

Ian foi o único que não falou, apenas acenou com a cabeça. Ele realmente parecia bem tenso com esse lance do martelo de seu pai.

— Ótimo! — disse Quíron.

Depois de mais cinco minutos discutindo sobre o que provavelmente iríamos encontrar em Oklahoma, Quíron nos levou até a entrada do Acampamento Meio-Sangue — eu tinha certeza que ele deveria gostar de todos nós, pois ele não levava nenhum semideus até a entrada do acampamento.

— Que os deuses os protejam — disse ele.

Todos nós acenamos para ele e ele voltou para a Casa Grande. Passamos pela colina e seguimos para a fora do Acampamento Meio-Sangue. Nós quatro olhamos para trás e vimos o acampamento pela última vez — talvez a última vez de nossas vidas —, e depois seguimos adiante.

Não foi tão difícil assim chegar à cidade de Manhattan. Layla achou que iríamos receber grande visita de monstros, mas eu também tinha que concordar com ela. Sempre eram três semideuses por cada missão e éramos quatro, por isso a porcentagem para os monstros chegarem nós era bem grande. Mas não tinha monstro algum. Muito pelo contrário, não recebemos imprevisto de nenhum monstro quando pisamos em Manhattan. Tudo estava calmo. Calmo até demais.

Ian, Layla, Peter e eu estávamos indo em direção ao Porto de Manhattan, mas Layla teve uma ideia melhor ao pararmos na Time Square.

— Não podemos ir pelo mar — disse ela como se aquilo fosse a coisa mais óbvia da face da Terra.

— Por que não? — perguntei arqueando uma sobrancelha.

— Não é óbvio? — perguntou ela. — Demoraríamos mais do que cinco dias indo para lá de barco. E só temos cinco dias.

— E eu tenho medo do mar — disse Peter e todos olharam para ele. — O quê? Cada um aqui tem medo de algo. Eu tenho medo do mar — confirmou Peter, cruzando os braços e franzindo a testa.

Dei de ombros.

— Eu tenho medo de altura — confessei.

— Eu odeio cobras — disse Ian. — Tenho pavor.

— A questão não é medo — interveio Layla raivosa. — A questão é que não temos tempo!

Todos a olharam.

— O que você sugere? — perguntou Peter.

— O que você tiver em mente, iremos fazer — falei.

— Tudo que nos faça chegar a Oklahoma o mais rápido possível — disse Ian. Dava para notar que ele realmente queria recuperar o martelo do pai.

— Ahn... bem... — Layla parecia que não sabia o que dizer. Acredito que toda a atenção virada para ela rapidamente a pegou de surpresa. — Primeiramente, precisamos sair da Time Square. Rápido — disse ela olhando para o pico do Empire State Building.

— É... parece que o seu pai não está gostando nada, nada, do que está rolando no Olimpo — disse Ian virando-se para Peter.

Grandes nuvens negras estavam se formando envolta do prédio. Raios saiam para dos os lados inteiramente desgovernados, cada raio ia para um lado. O grande deus do céu, Zeus, realmente parecia estar a ponto de explodir aquele prédio.

— Temos que ir depressa — falei ainda olhando o pico do Empire State Building.

— O.K., eu acho que não ligariam se roubássemos um carro — todos olharam para Peter. — O quê? É a única chance que temos.

— Ele tem razão — disse Ian mais sério. — Você, vem comigo — ele apontou para Peter.

— Mas e nós? — perguntei apontando para Layla e a mim.

— Fiquem aqui e esperem — disse ele. — Tenho uma ideia.

E ele e Peter saíram de nossas vistas seguindo pela rua.

Layla e eu ficamos em um silêncio mortal por um instante...

— Então... — comecei. — De quê você tem medo?

— Hã? — disse ela me olhando com a testa franzida e uma sobrancelha arqueada. — Que tipo de pergunta é essa?

— Ué, todos falaram os seus medos... quero saber o seu — perguntei.

Ela fechou a cara.

— Eu... eu... — ela parecia estar fazendo força para contar algo que não queria. — Eu tenho medo de insetos — disse ela ainda com cara de quem estava com raiva e cruzando os braços.

Prendi o riso.

— Mas o que tem de mais em admitir isso? — perguntei e quase soltei o riso.

— É questão que desrespeita somente a mim — disse ela grossamente.

— Não vejo motivos para você ficar assim — falei. — Eu tenho medo de aranhas.

— Cruzes! — disse ela arregalando os olhos para mim e depois ficando seria novamente. Eu não entendi se aquilo era uma ironia ou ela realmente sentia medo de aranhas também. Que seja!

Não falamos mais nada por dois minutos — e como somos semideuses, aquilo nos matou. Layla estava tão impaciente que ela andava de um lado para o outro (assim como eu) e as pessoas estavam começando a reparar e deduzir que dois adolescentes que andavam de um lado para o outro deveriam ter problemas mentais.

Eu não tinha reparado como a Time Square estava lotada naquele dia (na verdade, ela estava lotada sempre, mas isso é outra história). Muitas pessoas amontoadas em uma só calçada não era algo legal de se presenciar. Principalmente quando elas esbarravam em você, ou pisasse em seu pé como três pessoas fizeram comigo. Nada agradável.

Depois disso tudo, uma buzina chamou a atenção de Layla e a minha. Quando olhamos para o lado, era Ian e Peter dentro de uma Mercedes Benz preta de quatro portas. Incrível!

— Entrem logo! — gritou Peter lá de dentro.

— Andam logo! — gritou Ian. — Não temos o dia todo! Andem! — voltou a berrar, ele.

— Mas como...? — Layla não completou a frase.

— Isso é...

— Depois! — berrou Ian um tanto nervoso. — Andem logo!

Layla e eu entramos no carro antes que Ian berrasse mais uma vez.

A caminho da estrada, quando finalmente conseguimos chegar ao Estado de Nova York, Ian contou como ele havia “pegado emprestado” aquela Mercedes Benz preta.

Ele havia dito que, usando a força bruta (e como ele mesmo falou, não gostou muito de danificar o rosto do dono da Mercedes), conseguiu pegar a chave do carro e, com a ajuda de Peter para dar uma descarga elétrica no carro, o carro ligou e minutos depois eles estavam conosco. Bacana. Quem dera eu ter poderes elétricos.

Não desvalorizando os poderes que carro de meu pai em meu sangue, mas seria bacana dar choque ou descargas elétricas em quem me aporrinhasse às vezes. Bem bacana.

De qualquer maneira, Ian pisou fundo no acelerado. Layla e eu, que estávamos nos bancos de trás, encostamos nossas costas, literalmente, nos bancos de couro e dava para reparar que Peter também estava. Ian corria como louco, mas isso não impediu de Layla traçar um grande plano enquanto corríamos de carro para o aeroporto mais próximo.

— Entenderam? — disse ela.

— Acho que sim — falei com certo enjoo por conta das curvas que Ian fazia com o carro.

— Entendi — falou Peter.

— Compreendido — disse Ian completamente sério. Ele não tirava os olhos da estrada e agradeci por isso.

— Mas tiraremos dinheiro? Eu não trouxe nada a não ser dracmas — falei um tanto nervoso.

— Eu tenho dinheiro comigo — falou Layla. — Ian, quanto tempo falta?

— Acho que uns...

BUUM! E uma explosão a nossa frente aconteceu.

Ian tinha quase capotado com o carro, mas ele conseguiu frear e desviar de uma enorme cratera que se formou na estrada fazendo com que o carro batesse em um poste. Mas, por azar — como eu sempre era azarento —, o carro deu um cavalo de pau e o lado do carro que bateu no poste, era onde eu estava, e logo em seguida eu fechei os olhos.

Tudo o que eu conseguia era sentir cheiro de fumaça e gosto de sangue.

Quando eu abri os olhos, eu estava em um gramado no meio da estrada. Pus-me de pé e vi que não conseguia andar direito, eu tinha quebrado ou torcido o tornozelo — como tenho certo azar, supus que tinha quebrado-o. Meu braço direito não se movia direito. A cada movimento, dor. Olhei para o carro e ele havia virado sucata. Procurei pelos outros e eles estavam bem. Ao menos era o que aparentava estar.

Eles estavam em linha de formação de ataque. Ian no meio, ao seu lado direito estava Layla e ao lado esquerdo de Ian, estava Peter.

Peter tinha uma linha vermelha escorrendo por sua testa e o braço esquerdo parecia estar queimado — o que me fez voltar a olhar para o carro e ele estava pegando fogo. Mas Peter continha uma espada de bronze a sua mão boa; Layla tinha com cabelo preso em um rabo de cavalo, então dava para ver que sua testa também soltava uma linha vermelha escarlate e alguns arranhões em sua bochecha do lado esquerdo. Seu braço esquerdo parecia estar do lado contrário e seu braço bom segurava uma adaga de bronze; Ian parecia um urso feroz. Apesar de sua boca, testa e nariz estarem sangrando, ele segurava uma lança na mão esquerda e pude notar que dois de seus cinco dedos estavam tortos. Sua camisa estava rasgada, deixando seu peito nu e ali também parecia que estava com queimaduras.

Mancando, me pus ao lado de Ian, abrindo espaço entre ele e Layla, segui os olhares deles e vi aquela criatura grotesca.

Eles tinham duas pernas reptilianas, caudas, corpos de homens, suas mãos eram garras ultramente afiadas e seus rostos eram a mistura de um leão com a boca de um crocodilo. Eram completamente duas criaturas deformadas. Parecia que tinham sido costuradas pedaço por pedaço. Eles eram completamente idênticos em aparência, mas a única coisa que os diferenciavam eram os aventais que dizia “Coma Sem Se Sujar” de um era vermelha e o de outro era amarela.

Puxei meu arco e tirei uma flecha da aljava, pronto para atacar. Mas assim que puxei a flecha, meu braço reclamou de dor, então pus a flecha de volta na aljava e o arco por volta de meu tronco, e tirei a adaga de bronze que eu também tinha. Os monstros riram de meu movimento.

— Patético, semideuses — disse o da direita que tinha o avental vermelho com voz grave.

— Vamos acabar logo com vocês — disse o do avental amarelo.

— Não se acabarmos com vocês primeiro — disse Peter e ele deu um passo para frente. Ao menos ele conseguia andar direitamente.

— Calma — disse Ian puxando Peter para o lugar em que estava com a lança.

Os monstros riram novamente.

— Isso mesmo, filho de Zeus — disse o monstro de avental amarelo. — Se eu fosse você, ouviria o conselho de seu amigo. Por sorte de vocês, eu não posso comê-los, mas vim aqui para outra coisa...

— O que vocês querem? — perguntei com raiva interrompendo-o.

— Viemos roubar o Martelo de Ares, o que mais? — disse o monstro de avental vermelho e percebi que Ian havia perdido o foco.

— Foco, Ian... — sussurrei e ele voltou para si.

— Quem são vocês? — perguntou Peter.

— Eu sou Rex — disse o monstro de avental vermelho — e ele é o Dex. Mas se eu fosse vocês, não me importaria com nom...

— Não está conosco — disse Layla interrompendo-o. Ela segurava a sua adaga com certa força que dava para vê-la tremendo.

— Isso não é hora para brincadeiras, crianças idiotas — disse Rex. — Com qual de vocês está o martelo? — perguntou ele.

Aquelas criaturas já estavam me dando nos nervos. Eu não sabia até quanto tempo ficaria ouvindo aquelas criaturas horrenda falarem. Completamente aquela era a hora em entrarmos em ação, mas se cada um desse um movimento errado, todos nós estaríamos completamente acabados. Principalmente na situação em que estávamos.

— Escutem — sussurrei para Ian, Peter e Layla, mexendo meus lábios o menos possível. — Eu tenho uma ideia. Assim que eu jogar a minha adaga, vocês atacam. Vocês conseguem andar, certo?

Pelo canto do olho, vi os três assentirem.

— Ótimo — falei. — Layla, jogue sua adaga em Dex e eu jogo a minha em Rex. Os outros dois tentam pegá-los, O.K.? — ainda pelo canto do olho, os vi assentirem. — Ao meu sinal...

Eles deram um passo à frente e nós quatro recuamos. Eles começaram a rir e aquela era a nossa deixa...

— Agora! — falei para eles e joguei minha adaga em Rex e Layla em Dex.

Eles desviaram, como se estivessem esperando por isso. Isso não estava em meus planos.

Ian e Peter partiram para cima dos dois e, com um golpe rápido, Rex e Dex bloquearam os ataques e jogaram Ian e Peter de volta para onde estavam. Layla e eu abaixamos para socorrê-los.

— Semideuses idiotas... — disse Dex.

— Acho que eles não sabem que podemos ver o futuro próximo — disse Rex.

— Então vocês são os irmãos Rex e Dex Future — disse Layla com os olhos cerrados para eles.

Dex bufou.

— Porque sempre dizem o seu nome primeiro? — perguntou ele.

— Talvez porque eu seja o mais bonito — disse Rex. Eu podia jurar que sua boca estava tentando se formar em um sorriso, mas era impossível dizer o certo com aquela boca enorme de crocodilo.

— Eles conseguem ver o futuro próximo — disse Layla.

— Jura? — perguntei ironicamente e ele me dera um soco em meu braço dolorido. — Autch!

— Isso não é hora para ironias, Trevor! — repreendeu-me ela. — Escutem, tudo o que pensaremos em fazer, eles saberão.

— Então isso quer dizer que... — Ian começou a se levantar. O ajudei.

— Que precisamos pensar em uma coisa e fazer outra — completou Peter.

— Exatamente! — disse Layla ajudando-o a se levantar.

Conseguimos ficar todos de pé.

— Chega de conversa, semideuses! — disse Rex.

— Vamos acabar logo com isso, irmão — falou Dex. — Se pegarmos o martelo com eles de uma vez, talvez podemos comê-los.

— Também, acho, irmão — disse Rex. — Também cansei de esperar.

Eles vieram com rapidez em nossa direção, mas Ian conseguiu bloquear o caminho deles pondo-se a nossa frente e com sua lança. Peter veio logo em seguida tentando ferir Dex e tirando-o de perto de Ian, juntamente com Layla.

Ian estava tentando acertá-lo da maneira que podia, mas como Rex previa o futuro próximo, ele não conseguiria acertá-lo. Por um instante, Ian tinha conseguido uma boa posição para acertar Rex em sua cara, mas o monstro o bloqueou com a cauda de crocodilo, fazendo com que Ian voasse longe, batendo com a cabeça no chão e desmaiar.

Aquilo me espantou. Por um minuto eu achei que Ian estava morto, mas não havia sangue jorrando de sua cabeça, então ele não estava com traumatismo craniano e isso significava que ele não estava morto. Mas o que eu podia fazer? Eu estava sem adaga, não conseguia disparar uma flecha sem que meu braço reclamasse de dor, mas eu tinha uma coisa absurda a usar.

Rex avançou para Ian mostrando suas garras afiadas, mas assim que cheguei perto de Ian, tirei sua adaga de sua cintura, fiz um pequeno corte em seu braço humano de Rex. Rex reclamou de dor e sua atenção voltou-se para mim. Era exatamente o que eu queria e joguei a adaga de Ian no chão.

Ainda mancando, corri para o mais longe daquele local, mas o que consegui correr foram apenas dois metros dali, pois Rex havia me derrubado com sua cauda. Meu arco saiu de meu troco (não me pergunte como, apenas saiu) e minha aljava também saiu de minhas costas, fazendo com que as flechas se espalhassem no chão.

Olhei para trás e vi que Ian já estava lutando com Peter e Layla contra Dex, mas eles não pareciam estar ganhar e, sim, apanhando. Olhei bem a tempo de ver Dex segurar, com uma mão, a mão de Peter no momento em que ele estava convocando um raio e com a outra mão ele estava segurando o braço quebrado de Layla. Ian tentava acertá-lo com a lança, mas a cauda do monstro conseguia bloqueá-lo facilmente.

— Ian, pense e faça outra coisa! — gritei para ele.

Ian tinha entendido, porque, a partir daquele momento, o monstro começou a se perder em meio — creio eu — de suas visões. Ele largou Layla e Peter, fazendo os dois tombarem no chão. Agora era somente Ian e Dex.

Dex socava o vento e Ian tentava acertá-lo, mas nem assim ele conseguia acertar o monstro. Dex, de alguma forma, conseguia bloquear os golpes de Ian no último segundo em que quase o acertava. Mas eu vi Ian respirar fundo duas vezes e partir para cima do monstro sem lança alguma, apenas com os punhos.

Ian parecia que estava com a estrutura maior do que antes. Seus músculos pareciam que estavam mais volumosos e ele se movia com mais velocidade. Ian realmente estava com raiva daquele monstro.

Em um movimento rápido que eu mal consegui ver, Ian pegou uma adaga do chão (provavelmente a minha ou a de Layla, claro), cortou o ar na frente de Dex e, com outro movimento rápido, Ian girou o corpo e acertou a adaga bem no meio do peito humano de Dex.

Dex olhou para o irmão com os olhos reptilianos arregalados.

— Irmããããão.... nãããããão! — e aquela foi a última palavra de Dex antes dele se dissolver no chão, virando poeira de monstro.

Rex ficou paralisado por um momento.

Olhei para trás e logo ali, em apenas alguns metros, estava meu arco e minhas flechas...

— Seu semideus miserável! — disse Rex e, quando me virei para ele, ele me dera um chute na cara, fazendo-me voar alguns metros para trás. Senti gosto de sangue em minha boca. — Graças a você meu irmão está morto! — Rex aproximou-se de mim e me pegou pela gola da camisa.

Fiquei frente-a-frente daquela fera e não nada bonito ter a visão de olhos reptilianos olharem para mim com fúria.

— Trevor! — ouvi a voz de Ian se aproximar.

Mas antes que Ian pudesse me ajudar, Rex virou-se rapidamente, jogando-me no chão com violência, chutando o meu rosto, e começou a travar uma batalha com Ian.

Eu queria que Peter ou Layla pudesses se levantar, mas eles estavam desmaiados por conta das dores que sentiram. Peter podia lançar um raio ou coisa do tipo e Layla podia ter lançado sua adaga para mim... se ao menos...

Tateei atrás de mim e senti meu arco. Quando olhei era realmente ele. Peguei o arco e o deixei na mão. Peguei duas flechas, colocando uma na aljava e uma a mão, e, com dificuldade, me pus de pé. Preparei o arco com uma flecha e meu braço reclamou no mesmo instante, mas eu tinha que ignorar aquela dor. Eu já estava com o arco preparado e apontado para Rex.

Rex, com um golpe rápido, acertou em cheio o rosto de Ian e o fez cair no mesmo instante.

— Hey, feioso! — falei chamando sua atenção e ele me olhou com fúria.

— A quem está chamando de feioso, seu moleque atrevido? — perguntou ele vindo em minha direção.

Apontei o arco com uma flecha para ele.

— Eu não faria isso se fosse você — falei ameaçando-o.

Ele riu.

— Sabe que eu irei prever o seu movimento — disse ele raivosamente.

— Será? — perguntei e soltei a flecha.

Rex desviou com facilidade da flecha, mas ele não conseguira desviar da segunda flecha que eu disparei logo em seguida da primeira e flecha ficou pendurada entre os seus olhos. Rex me olhou por um instante e logo em seguida, ele, ao contrário de seu irmão, explodiu e virou poeira de monstro.

Assim que a poeira de Rex se dissolveu pelos ares, comecei a ver tudo rodar e minha visão começara a escurecer, e logo em seguida eu não vi mais nada.

Ian havia conseguido levar todos (ainda desacordados) para um rio que tinha no meio da floresta que tinha na estrada — bem, ao menos eu acordei bem no momento em que ele iria me carregar. Mesmo eu insistindo para me colocar de pé para ir mancando, ele não deixou. Então ele me carregou mesmo assim. Como ele havia conseguido isso? Não me pergunte. Eu sabia que um filho de Ares continha força, mas não sabia que continha tanta força assim para carregar três pessoas após uma batalha — e um pequeno detalhe: ele estava completamente acabado, queimado, ferido e etc..

— Não foi difícil carregar vocês — contou ele. — Como estavam molengas e desacordados, foi mais fácil — eu não via lógica naquilo, sendo que, uma vez acordados e em pé, podíamos andar. Mancar, mas ele não precisaria nos carregar.

O interior da floresta era coberto de árvores grandes, arbustos para todos os lados e dava para sentir a diferença na hora em que puxava o ar para os pulmões. Ali era totalmente ar puro. Havia uma enorme rio ali e eu me alegrei na hora. Era bom saber que tinha água por perto.

Eu era o único que tinha acordado, até então. Ainda dava para ver a queimadura feia no peito nu de Ian. O sangue escorrendo de sua boca, nariz e testa era totalmente repulsivo de se olhar.

— Precisamos de néctar e ambrosia — falei assim que terminei de examiná-lo. — Você não...

— Layla trouxe bastante na mochila — disse ele me interrompendo e mostrando a mochila de Layla em sua mão. — Tome — ele me passou um pouco de néctar e ambrosia.

Não exagerei na quantidade. Eu sabia que se eu exagerasse, eu poderia ser incinerado, pois assim que tomei o néctar e ingeri a ambrosia, senti meu corpo esquentar. Aproveitei para mexer meu braço e por meu tornozelo de volta no lugar — eu tinha conferido, ele tinha quebrado. Doía, mas muito menos do que antes.

— Você também precisa — falei passando o néctar e a ambrosia para ele.

— Vou ficar bem...

— Beba e coma logo — falei revirando os olhos.

Ele não discutiu e bebeu o néctar e comeu a ambrosia.

Virei-me para o rio e não pude conter a vontade de ir até ele e fui. Mancando, mas fui. Assim que cheguei nele e toquei em sua água gelada, instantaneamente me senti bem. Melhor, mais resistente. Mais... energético. Agradeci a Poseidon mentalmente por seus poderes correrem em minhas veias. Sem eles, eu não me sentiria assim.

Pus meu pulso dentro d’água e logo vi a água subir pelo meu antebraço, braço e meu ombro. Logo em seguida eu já conseguia mexer meu braço direito normalmente. Aproveitei e pus a minha perna ruim e, assim que apenas pus meu tornozelo, a água fez o mesmo percurso que fizera em meu braço, subindo para minha perna, coxas e assim que tirei o pé da água e pisei no solo, meu pé estava completamente novinho em folha.

Sentindo-me melhor, de perto do rio e voltei para onde Ian e os outros (ainda desacordados) estavam. Olhei para Ian e ele estava um pouco melhor.

Era notável que seu corpo já estava começando a melhorar. Mas a queimadura não conseguiu ficar totalmente cicatrizada. Curada, mas não totalmente cicatrizada. O que era totalmente estranho, porque eu sabia que o néctar e a ambrosia deveriam cicatrizá-lo imediatamente.

— Aquilo foi incrível — disse Ian.

— Você não está totalmente cicatrizado — falei com a testa franzida e ignorando o seu comentário. — Seu rosto está, mas seu peito não.

— O quê? Ah... — ele olhou para o peito e lá ainda estava à queimadura. Era horrível de se olhar. — Isso? Vou ficar bem — garantiu, ele.

— Eu... — franzi a testa. — Eu posso ajudar. Se você quiser, é claro.

— Por favor — disse ele —, qualquer coisa que não me faça ter essa queimadura por muito tempo.

Assenti e voltei para perto do rio e logo em seguida eu já estava dentro do rio. Não era tão fundo. A água batia em minha em meu peito e quando olhei para ele, ele estava dentro do rio também, porém a água batia em sua cintura.

— Bem... hmmm... — franzi a testa. — Você precisa tirar a camisa — falei um tanto sem graça.

Ele olhou para a própria camisa com um rasgado feio no peito e chamuscada em alguns pontos, e logo me olhou.

— É... bem... O.K. — disse ele e tirou a camisa, rasgando-a. — Estou pronto.

Seu corpo era totalmente escultural e musculoso — embora eu tenha dúvidas se ele era tão forte quanto o irmão Kyle, pois Kyle era bem maior do que ele. Ele não tinha pelo algum em seu corpo, exceto pelos o que estavam crescendo por seu abdômen ao seu peito. Era o corpo que qualquer uma menina se derreteria.

— Não teria tanta certeza disso — falei baixinho caminhando até ele meio trêmulo.

— Porque não? — perguntou ele. Quando o olhei, ele estava com a cara fechada. — Como assim?

Droga!, pensei. Ele ouviu!

— Bem, eu acho que pode doer... não uma dor forte! — apressei-me em dizer antes que ele protestasse. — É mais uma ardência. Mas ela é instantânea. Ardeu e no segundo depois não arde mais. Confie em mim.

— Confio — disse ele me olhando nos olhos.

Abaixei a cabeça e senti minhas pernas tremerem mais um pouco. Agradeci por a água está até meu peito e não mostrar minhas pernas denunciando-me.

— O.K. — aproximei-me mais dele. — Pronto? — perguntei olhando fixamente em seus olhos incrivelmente azuis.

Ele assentiu.

— Sim — disse ele também olhando sério em meus olhos.

Fechei os olhos de início e pedi para que a água corresse para as minhas mãos, cobrindo-as como se fosse luvas. Assim que senti a água cobrindo minhas mãos, abri os olhos e concentrei-me para que elas purificassem em desejo de cura. E, instantaneamente, elas atenderam ao meu pedido.

Elas brilharam, emitiram uma luz forte e brilhosa. Era quase a mesma tonalidade de um azul fluorescente, porém um pouco mais brilhante. Eu não sentia a água mais fria como ela deveria ser por causa do rio. Ela, tampouco, era quente. Ela era numa temperatura agradável em minhas mãos.

Assim que toquei no peito de Ian, ele, no mesmo instante, gemeu baixinho e eu tremi. Não tremi de medo, pois eu sabia que se eu tivesse mentindo para Ian, ele poderia me quebrar em apenas um golpe. Mas tremi porque... não sei! Eu de verdade não sabia! E isso também não era de se importar!

Foco, Trevor... foco!, disse a mim mesmo.

Ainda com as mãos em seu peito, fechei os olhos para me concentrar mais. E funcionou. Ian não gemeu e eu também não tremia mais. As luvas de água que cobriam minhas mãos já estavam se desfazendo e, quando abri os olhos, elas estavam adentrando no peito de Ian. Aquilo significava que ele já estava cicatrizando e reparei que realmente estava melhorando.

Aquela pele queimada e morta que Ian tinha no peito estava totalmente renovada. Era como se a pele dele nunca tivesse sido queimada ou arranhada. A única coisa que realmente dizia que Ian poderia ter sido queimado ou cortado era uma linha fina, porém visível, que ia de três dedos acima do sei peito esquerdo até três dedos abaixo do seu peito direito. Fora isso, parecia que ele nunca tinha sofrido um arranhão.

Obrigado de novo, pai..., pensei mentalmente em agradecimento a Poseidon.

Tirei as mãos de Ian e afastei-me dele.

Agora eu realmente entendia o porquê eu devia estar naquela missão — mesmo eu sabendo desde o início. E o outro por ter cura através das águas... aquilo realmente se cabia a mim. Não se cabia a Percy, ou a Tyson, ou a Charlie, ou a Bryan, ou a Tommy. Encaixava-se totalmente a mim. Eu sabia que Percy havia se curado uma vez, mas, como todos haviam me dito e até ele mesmo havia me dito, ele não conseguiu curar uma queimadura de terceiro grau (ao menos era o que Ian carregava no peito), ou feito às águas brilharem quando se purificavam. Percy só havia me dito que havia curado cortes pequenos, nada de queimaduras e mais nada.

Afastei-me mais de Ian e o analisei. Ele parecia novinho em folha. Assim que ele passou a mão boa no peito e não sentiu nada, ele abriu os olhos. Ele olhou para o peito e depois para mim com os olhos arregalados. Eu ri daquilo.

— Caramba, Trevor! — disse ele um tanto feliz. — Você é bom nisso!

Corei envergonhado.

— Hmmm... obrigado — falei.

— Valeu mesmo! — ele veio até a mim, me abraçou (o que me fez sentir minhas costelas estalarem) e depois me colocou de volta no rio. — Nem sei como realmente te agradecer...

— Não foi nada, Ian — falei cortando-o logo antes que ele me deixasse mais sem graça. — Precisamos acordar os outros.

— Certo — disse ele assentindo

Ele saiu do rio e eu fui logo atrás.

Assim que Ian parecia novinho em folha — sem dedos quebrados, arranhões no rosto ou a sua queimadura feia no peito —, acordamos Layla. Ela estava muito pior do que Peter — sem querer desprezá-lo, mas Peter não parecia nada pior do que Layla. Ela estava com o braço do lado contrário, tínhamos que começar por ela.

Assim que a acordamos, a primeira coisa que ela fez foi dar um soco na cara de Ian assim que abrira seus olhos e berrar de dor. Ian conseguiu tampar a boca da mesma, mas aquilo só piorou, porque na primeira tentativa de tampar a sua boca, Ian, vacilando com o susto que levou de Layla, conseguiu encostar-se ao braço da garota. Então ele provavelmente tinha visto estrelinhas.

Demos néctar e ambrosia para ela e, sem dúvida nenhuma, eu a curei com a água. O néctar e a ambrosia funcionavam, mas não a deixava totalmente novinha em folha. Eu conseguia. Sempre que eu passava as luvas de água em algum ponto machucado de Layla (seja ele fundo ou não), sempre se curava. Mas, como Layla não havia queimadura de terceiro grau como Ian tinha, ela não ficou com cicatriz alguma além de algumas linhas finas e não volumosas de sua cor em cada ponto machucado que tinha.

Contudo, pomos o braço de Layla no lugar e, depois de uns cinco minutos curando-a com a água, ela já estava totalmente novinha em folha.

Com a ajuda de Layla, conseguimos acordar Peter e dá-lo néctar e ambrosia. Ele acordou bem, não reclamou de nada a não ser uma dormência em seu braço. Contudo, Peter foi um pouco mais tenebroso... a queimadura em seu braço esquerdo estava péssima. A pele morta estava seca e eu não consegui restaurar a pele. Eu não me perdoaria se Peter adquirisse alguma sequela.

Layla segurou o rosto de Peter quando Ian, com a faca de bronze, cortou um pedaço pequeno da pele da coxa de Peter, fazendo-o gritar. Consegui curá-lo, mas a pele morta de Peter não ajudou nada no processo. Ele havia ficado completamente com uma cicatriz totalmente horrível. Mas, por sorte, Layla trouxe linhas de costura e agulhas — eu me perguntei como, mas ela realmente parecia estar preparada para tudo — em sua mochila e consegui costurar, sem anestesia, a pele de Peter (minha mãe era médica, então eu sabia dessas coisas).

Ainda com a ajuda da água, consegui fazer com que a pele do braço de Peter ficasse igualmente a cicatriz quase invisível de Ian, e sua perna ficara igualmente a mesma coisa. Ambos os locais, agora, tinham uma linha fina e quase invisível. Ele estava novinho em folha.

Depois de quase meia hora travando o nosso próximo passo — tudo ideia da sabichona da Layla —, Ian, Layla, Peter eu saímos da floresta...

— Esperem! — falei para eles e, pegando dois cantis, voltei para o rio.

— Temos água, Trevor — ouvi Layla resmungar.

— Não é para beber — rebati um tanto com raiva.

Abri as tampas dos cantis e os enchi rapidamente. Os tampei novamente e voltei para eles.

— Pronto, agora podemos ir.

Assim que falei, Layla revirou os olhos e seguiu caminho com Peter ao seu lado. Olhei para Ian como se dissesse: “Qual é o problema dela?” e ele deu de ombros com cara de quem não entendia nada.

Depois disso, seguimos os outros dois que seguiram caminho a nossa frente.