Notas iniciais
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O TÚNEL ERA TOTALMENTE ESCURO.

Por sorte, Peter tinha uma lanterna em sua mochila e tirou-a no instante em que reclamamos, dizendo que não conseguíamos enxergar nada. O interior do túnel era completamente estranho de se explicar. Tinha piso, mas também tinha um canal que passava água poluída — todos sabiam que aquilo era um esgoto e era completamente nojento ver os ratos, baratas e outros insetos andando por ali.

Mas seguimos sem reclamar. Era andar por ali ou tentar fazer uma longa viagem para Tulsa de carro e como aquele caminho nos levaria direto para Roxonus, então tínhamos que pegá-lo. O túnel se prolongava e eu estava começando a me queixar daquilo. Parecia que estávamos em um labirinto muito grande, pois sempre andávamos em linha reta, virávamos para a direta, seguíamos em linha reta de novo, virávamos para a esquerda, linha reta novamente... e sempre assim.

Teve um momento em que um ser reptiliano apareceu em nossa frente para lutar conosco, mas Peter lhe lançou um raio e atravessou a espada na cabeça do monstro e ele explodiu no instante seguinte. Aquilo surpreendeu a todos, pois eu não tinha visto monstro nenhum chegara nossa frente até o momento em que Peter havia disparado o raio. Ele estava à frente e pronto para qualquer coisa — ele parecia se mostrar mais valioso do que imaginávamos que ele seria. Talvez ele quisesse provar para o pai que sabia se virar sem a ajuda dele, ou simplesmente ele poderia estar com raiva do pai a ponto de ficar daquela maneira. Eu votava nas duas opções.

— Incrível — dissera Ian.

— Obrigado — respondera Peter, um tanto envergonhado.

E continuamos a caminhar. Presumi que nossa caminhada estava a mais se prolongando a mais de vinte minutos e a cada minuto perdido, mais próximo o nosso tempo se aproximava para acabar. Tínhamos que encontrar Roxonus de uma vez por todas e acabar logo com aquilo. Mas daí eu pensei...

— Esperem um minuto — falei para eles e eles pararam de andar e me olharam. — Se estamos com o Martelo de Ares, por que continuar indo para Roxonus?

Eles ponderaram.

— Dissemos para Quíron que iríamos até ele para ver o que ele realmente quer — disse Layla. — Há uma grande concentração em Tulsa...

— Sim, isso eu já sei — a cortei. — Mas o que podemos fazer para evitar? Nada. Tulsa vai continuar sendo assim se derrotarmos Roxonus.

— Talvez não, Trevor — disse Peter. — Reparou que a maioria dos monstros que enfrentamos são reptilianos? Segundo você, Roxonus é o senhor dos esgotos e ele tem aparência reptiliana.

— Eu digo reptiliana como se fosse crocodilo ou coisa assim — o lembrei.

— Mas não deixa de ser reptiliano — lembrou-me ele.

— De uma maneira ou de outra — interveio Ian —, temos que verificar. Se conseguirmos matá-lo, talvez esses monstros podem sair de Oklahoma.

— É um tiro no escuro — disse eu. — Mas vamos. Temos que tentar.

E continuamos a andar pelo túnel.

Volta e meia eu me assustava com algumas aranhas que se metiam em nosso caminho e todos eles riam — porém Layla era a que menos ria e eu não sabia o porquê daquilo. Mas quando eu os olhava, eles paravam de rir no mesmo segundo. Não era engraçado. Eles ririam se eu falasse de insetos para Layla? Ou falasse do mar para Peter? Ou falasse de cobras para Ian? Qual era a graça de rir dos outros quando eles sentiam medo? Aquilo era totalmente revoltante. Mas, assim que continuamos a andar e avistei uma barata, gritei “barata!” para todos eles e Layla tinha dado um grito agudo de desespero. Um ponto para mim.

De qualquer forma, seguimos para mais adentro do túnel e parecia que aquilo não acabava de maneira nenhuma. O túnel parecia que era maior do que toda a Nova York. Ele não parecia ter fim. Mas, de alguma forma, ele tinha que acabar. Não podíamos simplesmente ficar andando o tempo todo. Afinal, aquele local deveria nos levar até Roxonus — ao menos foi o que Cassie e Paul disseram que aquela porta fazia.

Mas, depois de mais meia hora de caminhada virando para todos os lados, seguindo em linha reta em alguns momentos, chegamos a um caminho com algumas tochas acesas. O túnel já não estava sendo mais de cimento e sim terra.

Um caminho novo estava se formando a nossa frente e, à medida que mais tochas apareciam, o caminho ficava mais iluminado e Peter guardou sua lanterna na mochila. Continuando por aquele caminho, nós avistamos mais caminho de terra com tochas acesas e uma porta de pedra. Bem, ao menos podia se dizer que aquilo era uma porta, pois ela tampava alguma coisa. Na verdade, aquilo era uma enorme pedra redonda que poderia ser removida.

— Acho que chegamos — disse eu.

— Tem certeza? — perguntou a voz de Layla atrás de mim.

— Não, não tenho — disse eu. — Mas é a única opção que temos.

Olhei para trás e eles assentiram para mim quando os olhei.

— Certo, então temos que... — falei tentando mover a pedra, mas sem sucesso.

— Opa, deixe isso comigo — disse Ian.

Ele passou para o meu lado, me tirando de perto da pedra e tentando removê-la. Ele não conseguiu. Ian olhou para os próprios punhos, completamente indignado. Ele pôs as mãos na pedra novamente, fechou os olhos e dobrou de tamanho. Ele tinha ficado duas vezes maior — em massa muscular — do que o normal e, quando ele fez força para empurrar a pedra, ela saiu rolando e caiu no chão, fazendo um grande barulho. Ele voltou ao normal.

Assim que vimos o novo caminho, lá dentro tinha mais esgoto, porém o fedor era mais forte e fazia o meu estômago revirar. Tinha um pequeno caminho de terra indo para a esquerda e, quando eu adentrei e olhei para trás, todos nós já estávamos dentro.

Continuamos a andar mais um pouco e mais tochas no caminho, e o fedor era o pior de tudo. Eu quase não conseguia mais respirar pelo nariz e ouvi sons de reclamações vindo deles três. Eles também deveriam sentir a mesma coisa que eu a respeito daquele fedor de esgoto. Se eu realmente encontrasse Roxonus, eu me lembraria de dizê-lo para mudar de lugar. Ninguém merecia morar em um local como aquele. Era nojento.

Quando andamos por mais dois minutos, paramos diante a uma porta. Desta vez, era mesmo uma porta, porém de ferro, a única coisa que era de pedra, era a maçaneta. Estranho, mas eu não me importei quando a abri.

Assim que abri a porta, avistei aquele lugar de meus sonhos. Tochas iluminando os lugares e um trono de pedra para ocupar uma criatura grande e reptiliana. Aquele era o trono de Roxonus.

— Pessoal, é aqui — disse eu um tanto em choque.

— Roxonus? — perguntou Layla à minha esquerda.

Eu assenti.

— Como ousam falar o nome do meu pai? — perguntou uma voz a nossa direita. Eu sabia de quem ela pertencia.

— Devem ter muita coragem para tal, semideuses imundos! — disse outra voz que eu também reconheci, vindo de nossa esquerda.

Quando focalizei os lados, lá estavam Tracus e Dracus, os dois filhos preciosos de Roxonus. Eles tinham a mesma aparência horrenda de meu sonho. Eles realmente pareciam com Rex e Dex Future. Porém, ao invés de terem seus corpos humanos, eles tinham corpos peludos; suas garras nas mãos eram mais assustadoras e seus rostos eram, também, uma mistura de leão com a boca de um crocodilo, porém bem mais tenebroso.

— Dracus e Tracus — falei com a testa franzida para eles.

— Vejo que somos reconhecidos no mundo lá fora, irmão — disse Dracus.

— Pelo visto sim, irmão — disse Tracus, olhando-nos com os olhos semicerrados.

Tracus tinha uma lança verde nas mãos e Dracus tinha uma espécie de bastão na sua. Eles eram incrivelmente idênticos e suas garras eram intimidadoras. Mas eu não me deixei levar por conta disso. Bem, nenhum de nós deixou.

Ian sacou sua lança e dobrou de tamanho no mesmo instante. Peter sacou sua espada e ela começou a soltar pequenos feixes de luz e quando fui realmente olhar aquilo, eram pequenos raios — eu não sabia que a espada dele podia fazer aquilo, mas não cheguei a mencionar nada. Layla estava totalmente em posição de ataque e com sua faca (ou adaga, se você preferir) de bronze à mão. Saquei a minha adaga (ou faca, se você preferir) também e fiquei preparado.

Dracus e Tracus soltaram, o que presumi ser, uma risada.

— Qual é a graça? — perguntei um tanto com raiva.

— Não será necessário de brigas — disse Dracus e ele se virou.

— Nosso pai está aguardando vocês — disse Tracus e ele também se virou. — Por aqui.

Nós quatro nos entreolhamos, mas seguimos o caminho que eles fizeram.

Quando chegamos à outra sala do meu segundo sonho, eu vi o rio podre que circulava ali e mais tochas tinham dentro daquela imensa sala. Mas o que realmente me chamou a atenção, foi o grande monstro que estava nela, visualizando o rio.

— Eles estão aqui, meu senhor — disse Tracus.

— E totalmente ilesos — disse Dracus.

Aquilo não era totalmente verdade. Tínhamos lutado contra vários monstros e todos eles nos feriram. Se não fosse por mim e pela ambrosia, estávamos todos feridos ou mortos.

— Já era hora — disse o grande monstro e se virou para nós.

Ele era completamente como um crocodilo. Era verde, com escamas e cauda. Seus pés eram garras muito mais afiadas e assustadoras do que os irmãos Rex e Dex e do que os dois ali presentes. Seus cabelos que eram cobras totalmente assustadoras — e pelo canto de olho eu vi Ian tremer. Eram grandes cobras verdes que sibilavam em sua cabeça. Ele tinha espinhos por volta dos ombros e sua boca de crocodilo mostrou vários dentes afiados e amarelados quando ele tentou nos dar um sorriso.

— Sejam bem vindos a minha fortaleza, semideuses — disse Roxonus.

Arqueei uma sobrancelha.

— Chama isso de fortaleza? — perguntei com desdém. — Cara, isso tá mais para um chiqueiro.

— Como se atreve... — disse Tracus vindo em minha direção.

— Não. — Roxonus segurou o filho pelo ombro. — Está tudo bem... ele não vai estar vivo para pedir desculpas depois.

Dracus parecia inquieto. Tão inquieto que soltou um ruído e Roxonus olhou para ele com a testa (se é que ele tem uma) franzida (se isso é possível) no mesmo instante.

— O quê, Dracus? — perguntou Roxonus com certa impaciência.

— Pai, por favor... deixe-nos matá-los? — pediu Dracus. — Por favor? — ele quase implorava.

Roxonus levantou uma das garras.

— Tudo tem o seu tempo, meu filho — disse o crocodilo ambulante chamado Roxonus.

Ele voltou-se para mim e me lançou um olhar frio.

— Isso é a minha fortaleza, desde que o seu querido pai — ele apontou para Ian — me aprisionou. Tudo por injusta causa. Eu tinha vencido aquela luta. Eu deveria ter ficado com a glória e ter saído daqui. Seu pai quem devia estar aqui.

Ele terminou a frase em tom sombrio. O que quer que tenha acontecido entre Roxonus e Ares deveria ter sido coisa feia. Mas eu não imaginava o grande deus da guerra se metendo como senhor dos esgotos. Por que Ares tinha perdido o seu tempo com alguém como ele? E para quê? Que briga foi essa que fazia de Ares um vencedor e Roxonus um perdedor?

— Estávamos lutando para ver quem ficaria aprisionado de vez — disse Roxonus, como se lesse meus pensamentos. — Eu e o grande, e poderoso, Ares estávamos disputando quem venceria em 1465 bem aqui em Tulsa. O restando dos deuses estavam lutando em uma pequena guerra contra alguns monstros e eu caí bem com o grande deus da guerra. Eu tinha o meu Martelo e ele não tinha nada.

Roxonus pareceu frustrado nessa parte. Talvez não aceitasse ter perdido por alguém que não tinha uma arma. Ian, no entanto, estava com a testa franzida para o monstro e Layla a mesma coisa. Peter estava prestando atenção nos dois irmãos crocodilos deformados e eu era o único que estava achando tudo aquilo uma palhaçada.

Eu realmente não acreditava que Ares podia perder o seu precioso tempo com alguém que se denominava o “senhor dos esgotos”.

— Ares e eu destruímos quase toda a Tulsa, mas eu estava vencendo — ouvi as risadas de Dracus e Tracus. — Quando eu finalmente pensei que tinha acabado com ele, fazendo-o cair no chão e não se mexer mais, eu pensei que tinha vencido. Mas ele foi baixo. Ele tinha feito uma cena e, quando eu estava totalmente desprevenido, ele tomou o meu Martelo de mim e me acertou.

A frustração de Roxonus era tão grande que, quando ele terminou a frase, tinha batido uma de suas garras na parede de pedra e fez o esgoto próximo a nós se agitar violentamente. Eu senti um tremor.

— Desde então, ele me aprisionou aqui dentro usando o meu próprio Martelo, que agora ele diz ser dele — ele ainda estava frustrado. — Mas isso muda hoje, semideuses. Eu recuperarei o meu precioso Martelo e terei minha liberdade de volta.

— Eu não teria muita certeza disso — disse Layla.

— Acabaremos com você antes mesmo que você imagine — falei em tom ameaçador.

Roxonus riu.

— Acha mesmo que eu serei vencido por quatro semideuses ridículos? — perguntou ele. — Filhos, podem atacar. Mas, lembrem-se... o filho do deus da guerra é meu.

— Sim, pai — disseram Dracus e Tracus juntos e vieram nos atacar.

Layla e Peter foram em direção à Dracus e não precisei ir para cima de Tracus, porque ele mesmo veio para cima de mim.

Tracus mostrou suas garras para mim e veio com tudo para cima de mim, mas eu consegui desviar para o lado e, quando tentei lhe atravessar minha adaga, ele desviou. Nós nos olhamos por um tempo e eu decidi ir para cima dele, mas, quando eu tentei golpeá-lo com a adaga novamente, ele bloqueou o meu golpe, travando a adaga com uma de suas garras, e a jogou longe.

— Boa tentativa, semideus — disse ele em tom de deboche.

— Obrigado — respondi de má vontade.

Eu sabia que tinha que ser uma luta corpo a corpo, mas eu estava totalmente em desvantagem. Tracus tinha suas garras e eu não tinha nada. Seria difícil acertar ele a ponto de deixá-lo zonzo e pegar minha adaga que estava perto do rio poluído que corri ali.

Olhei para os outros de relance e consegui ver Layla e Peter travando uma luta com Dracus que eu nunca pensei que travariam. Ambos estavam quase em sincronia na luta contra o monstro. Quando um golpeava o outro tentava distraí-lo, mas aquilo não era o bastante. Quando Peter tentou acertar Dracus, ele lhe golpeou com a cauda, fazendo-o voar longe e Layla foi a seu socorro.

Quando olhei para Ian, ele já estava com o dobro do tamanho travando uma batalha bem feia com Roxonus. Ian se movimentava com velocidade com sua lança de bronze, mas aquilo não era o bastante para derrotar o grande senhor dos esgotos. Roxonus desviava dele com facilidade. As garras assustadoras de Roxonus eram de intimidar, mas Ian não ligava para isso. Ele desviava, com certa dificuldade, das garras do monstro e quando tentava acertá-lo, Roxonus fazia a mesma coisa.

— Eu não me importaria com os seus amigos se fosse você — disse Tracus, fazendo minha atenção voltar para ele.

— Que tal você fechar essa sua boca fedorenta, hein? — falei tampando o nariz. — Seu bafo podre vem até aqui — fiz cara de nojo e, ainda com o nariz tampado, abanei o ar a minha frente com a outra mão.

Ele ficou completamente raivoso, pois começara a tremer.

— Seu...

Dizendo aquilo, ele veio para cima de mim novamente.

Nós dois travamos uma batalha feia. Ele tentou me cortar várias, e várias, vezes com suas garras horrendas, mas eu consegui desviar de algumas, pois ele conseguiu me cortar o ombro direito, meu braço e minhas costelas. A partir do toque de suas garras em mim, eu quase gritei de dor. Era completamente impossível imaginar que ao menos um ferimento daquelas garras poderia me causar uma dor daquelas.

Ele riu quando eu fiz menção em atacar, mas não consegui por conta da dor. Caí de joelhos e quando olhei para o meu ombro, meu braço e minhas costelas, elas começaram a sair um líquido verde fedorento. Aquilo fez meu estômago revirar e quase me fez vomitar. Provavelmente aquilo era veneno — mesmo eu não sabendo como um crocodilo ambulante podia ter veneno, mas aquela não era a hora de fazer perguntas.

Pus-me de pé segundos depois e o encarei. Ele pareia que estava feliz por ter me acertado, pois tinha soltado uma pequena gargalhada. Mas eu não deixei barato para aquele monstro ridículo. Ele iria me pagar por me causar àquela dor horrenda que eu sentia.

A batalha corpo a corpo seguinte que eu travei com ele, foi bem pior. Foi uma série de sequências de socos dele em mim e eu consegui acertá-lo poucas vezes. Ele conseguiu me chutar no queixo, fazendo-me voar para o alto e quando cheguei no ar, ele tentou segurar meu pescoço, mas eu consegui surpreendê-lo bloqueando suas garras com o braço e passar para suas costas e chutá-lo nas costas, onde ele caiu com um forte estrondo no chão. Ele reclamou de dor e eu sabia que isso era um ponto positivo para mim.

Corri até o rio poluído (ou esgoto, se quiser pensar dessa maneira) e peguei minha adaga no mesmo instante. Mas aquilo não seria nada perto das garras dele. Eu ainda sentia aquela dor absurda causada por aquelas malditas garras. Mais líquido verde fedorento saía dos ferimentos que Tracus tinha me causado e aquilo estava começando a me deixar mais fraco.

Ele se levantou e me olhou, e reparou que eu estava com a adaga em minhas mãos. Mas ele olhou para os meus ferimentos e logo começou a rir.

— Estará morto em questão de uma hora, semideus — disse ele.

— Ótimo, significa que eu ainda tenho tempo para matá-lo — falei com raiva e parti para cima dele.

Tracus e eu começamos a tentar nos acertar no rosto. Todas as vezes que ele tentava me golpear no rosto, eu consegui desviar, bloquear, ou trava suar garras. Mas quando eu tentava fazer a mesma coisa, ele simplesmente bloqueava a adaga com suas garras.

Mas quando eu tentei golpeá-lo no rosto novamente, ele bloqueou e eu o chutei bem na barriga peluda. Ele ficou sem ar e aproveitei para lhe dar uma cotovelada na cabeça e, antes mesmo que ele chegasse no chão, chutei seu bico, se boca, ou seja lá o que for aquela coisa que ele carregava como boca. Ele caiu no chão e ficou completamente imóvel.

Por um segundo eu consegui ficar um pouco mais aliviado, mas antes que eu realmente pudesse respirar, ele pegou minhas pernas e me pendurou de ponta-cabeça. Ver tudo de cabeça para baixo era completamente desagradável, principalmente para alguém que tinha ferimentos escorrendo um líquido verde fedorento e esquisito. O líquido ia subindo até o meu rosto... ou descendo, não sei. De qualquer forma, ele ia para a minha cabeça e o sangue a mesma coisa. Aquilo estava ficando completamente desconfortável.

— Entã...

Mas antes que ele terminasse a palavra, lhe golpeei na cara e ele me soltou. Assim que caí no chão, corri para ele, com a adaga a mão, e tentei golpeá-lo, mas ele se defendia com a cauda. Não seria fácil atacá-lo, mas ele estava zonzo, então isso já era uma vantagem.

Continuei lutar com ele corpo a corpo e eu estava tendo vantagem. Eu estava conseguindo acertá-lo em sua cara e quando ele tentava me golpear, eu conseguia esquivar, ou simplesmente errava. Talvez ele estivesse vendo dois de mim, então aquilo era uma vantagem boa.

Ficamos naquilo por quase dez minutos. Eu tentava acertá-lo, mas a cauda dele parecia que o defendia por vontade própria — o que não fazia total sentido, já que a cauda era totalmente dele, mas eu não resolvi perguntar como ele estava fazendo aquilo.

Em uma de suas tentativas de me acertar, eu consegui desviar para o lado, passar para atrás dele e, com um movimento forte e rápido, cortei sua cauda fora. Tracus emitiu um urro de dor que me fez tapar os ouvidos com as mãos. Ele se virou para mim, me deu um belo soco no rosto e me chutou no peito, fazendo-me voar longe, onde bati de costas em uma das paredes de pedra daquele lugar em que estávamos.

De onde eu estava, eu podia ver todos em uma batalha ainda pior. Layla e Peter estavam todos ensanguentados, mas continuavam a lutar com Dracus. Layla parecia ter o braço esquerdo virado do lado contrário novamente e Peter parecia ter a mão direita voltada para o lado errado também. Mas eles não paravam de lutar. Dracus tentava acertá-los freneticamente, mas eles desviavam com uma habilidade incrível, até que Peter eletrocutou Dracus — deu para ver o raio sair de sua mão — e Layla acertar Dracus, com sua adaga, bem no peito, mas ele não explodiu... ainda. Apenas saia um líquido dourado dele — o sangue dos monstros.

Quando olhei para Ian, ele estava totalmente concentrado em acertar Roxonus, mas ele ainda não tinha acertado. Em um movimento rápido, Roxonus tirou a lança de Ian de suas mãos e o jogou longe, mas Ian se levantou no mesmo instante e correu para cima do monstro, indo lutar corpo a corpo.

Eu me assustei. Primeiramente, eu sabia que Ian podia derrotá-lo, mas eu senti medo porque Roxonus tinha umas espécies de espinhos em seus ombros que pareciam tão afiados quanto suas garras. Segundamente, eu não queria ver Ian morrer a minha frente ou tampouco ferido. Eu não podia permitir aquilo. Já era doloroso demais ver Layla e Peter daquela maneira, não permitiria que Roxonus machucasse Ian.

Se Ian se ferisse, eu não me perdoaria e tampouco Kyle me perdoaria. Eu tinha que ajudar Ian de qualquer maneira. Ele não podia ser ferido como eu ou morrer... bem, ele não iria morrer. Eu confiava na força dele e em suas habilidades de luta, mas, de qualquer maneira, ele podia morrer. Todos nós poderíamos morrer. Mas eu não deixaria Ian, Layla ou Peter morrer. Antes eu do que ele.

Tentei levantar, mas descobri que, a partir do momento em que tentei colocar-me de pé, meu tornozelo direito parecia deslocado, se eu tivesse sorte, ou... quebrado. Eu não sabia como lutar contra Tracus naquelas condições. Quando olhei aquele monstro de bafo podre, ele veio em minha direção com as garras à mostra e, quando tentei me desviar, não tive muito sucesso.

Quando desviei, as garras me acertaram no braço bom e nas costas. Reprimi o grito de dor que se formou em minha garganta. Eu não podia gritar naquele momento, Tracus saberia que eu estaria vulnerável e eu não queria que ele soubesse daquilo. Mas o veneno era tão doloroso que eu quase caí de joelhos no chão.

Tentei reunir toda a energia que eu podia e consegui. Analisei-me e vi que ainda tinha a adaga em minha mão direita, então eu ainda tinha uma chance de acertá-lo. Se eu pudesse ao menos chegar mais perto dele... mas eu não tinha como. Meu tornozelo direito doía muito toda a vez em que eu tentava pisar com ele. Ele tinha que chegar perto de mim...

— Por sorte meu veneno irá te matar, semideus — disse Tracus.

— Quanto tempo eu tenho? — perguntei.

Eu realmente não queria saber, mas eu tinha que conseguir tomar um pouco de seu tempo. Se ganhar tempo seria distraí-lo, então eu iria fazer isso.

— Cerca de meia-hora — disse ele se gabando. Ele deu alguns passos até a mim.

Um pouco mais...

— Ainda tenho força para te matar — falei com certo sorriso em meu rosto.

Ele bufou... ou quase isso.

— Ridículo, filho do deus do mar — disse ele e chegou mais perto.

Só mais um pouco...

Ele estava a dois passos de mim, agora.

— Eu posso matá-lo ago...

Antes que ele pudesse terminar a frase, cravei minha adaga de bronze em sua garganta.

Tracus ficou paralisado por um instante e soltei minha adaga, que ainda estava na garganta dele, e me joguei para o lado. Tracus soltou um pequeno ruído e, no segundo seguinte, ele explodiu, virando poeira de monstro.

Menos um.

Por sorte, a adaga caiu ao meu lado e a peguei no segundo seguinte que ela caiu. Tentei me levantar, mas caí na primeira tentativa. Na segunda, eu já consegui me colocar de pé. Caminhei, cambaleado até Layla e Peter, que estavam no chão, ofegantes e feridos. Mas não como eu. Eles estavam feridos, mas nada de líquido verde saindo de seus ferimentos. Sorte a deles.

Os ajudei a se levantar e nós três olhamos diretamente para Dracus. Dracus estava completamente louco. Ele tinha perdido uma de suas mãos e seus olhos estavam... pretos. O raio de Peter deve ter feito aquilo — o cegou. Dracus agitava a única mão que tinha, para ver se conseguia acertar um de nós, mas sem sucesso.

— Posso estar cego — disse ele e se endireitou. — Mas não estou surdo.

Aquilo fez Layla, Peter e eu nos olharmos.

Cada um de nós foi para um canto. Bem, ao menos eles foram, pois eu continuei no mesmo local.

— Estou bem aqui — falei.

Eu sabia o que eles queriam que eu fizesse. Eles queriam que eu fosse a isca, mas eu não me importei com aquilo. Era melhor eu ter ficado como isca do que andar com aquela dor em meu tornozelo novamente.

— Você irá morrer, semideus — disse ele e veio em minha direção.

— Duvido disso — rebati.

Dracus veio para cima de mim como um louco, mas eu me agachei e o apunhalei na barriga com minha adaga. Layla veio pelo meu lado esquerdo e o golpeou na cabeça. Peter veio pelo lado direito e o golpeou em suas costas.

Nós três nos distanciamos do monstro e ele explodiu no segundo seguinte. Quando a explosão acabou, ambos de nós pegamos nossas armas e eles me ajudaram a chegar perto de Ian e Roxonus, que estavam do outro lado de onde estávamos, mas eu não consegui ficar muito por perto, pois eu não consegui aguentar a dor dos ferimentos que eu tinha.

— Ai — arquejei.

— O que foi? — perguntou Layla.

Passei a mão no meu ombro direito e mostrei a ela o líquido verde e fedorento que Tracus me envenenou.

— Você vai ficar bem se deixarmos você aqui? — perguntou Peter.

— Não, não vou — rebati. — Quero ajudar. Não posso deixar Ian se ferir. Temos que ir ajudá-lo.

Foi só eu dizer aquilo que Ian apareceu voando em nossos pés e completamente machucado. Eu e minha boca grande. Ian tinha ferimentos no rosto, no pescoço, nos braços e no peito — ele estava sem blusa, por isso dava para ver aqueles detalhes vermelhos escarlates e feios em seu peitoral totalmente definido.

Peter o ajudou a ficar de pé e Ian ficou a nossa frente.

Ainda com o dobro de seu tamanho, Ian tremia de tanta raiva por ter sido atacado. Provavelmente era isso. Afinal, que filho de Ares aceitaria ser atacado? Nenhum, não é? Enfim, ele ficou em nossa frente, mas Peter e Layla foram um para cada lado de Ian e eu fiquei atrás dele.

Ele não falou comigo e eu também não iria falar com ele. Aquilo poderia desconcentrá-lo e era capaz dele me acertar por desconcentrá-lo do que acertar o monstro que estava bem a nossa frente. Mas, de qualquer modo, Ian hesitou por um instante e partiu para cima de Roxonus, que estava, agora, sem aqueles espinhos ou garras em seus ombros. Ele não tinha mais nenhum — Ian deve tê-los tirado.

Ian atacou primeiro, seguido de Layla e depois por Peter. Mas eles não obtiveram sucesso. Roxonus os espantou com a cauda e, quando os três caíram no chão, ele olhou aos arredores a procura dos filhos. Quando ele não os viu, olhou diretamente para mim.

— O que vocês fizeram com os meus filhos, seus semideuses imundos... — ele começou a andar em minha direção.

— Não foi culpa nossa — falei em tom de deboche. — Eles fediam demais, então tivemos que banir o fedor dos arredores.

— Seu moleque atrevido... — ele me pegou pela gola da camisa, me levando até seu rosto horrendo. Não tinha percebido o quanto Roxonus era tão alto até aquele momento. — Como se atreve a falar dos meus filhos dessa maneira? — ele me deu um soco no estômago e eu perdi o ar no mesmo instante.

Eu senti o sangue vindo por minha garganta e o cuspi fora.

— E-eu... — gaguejei. Tomei fôlego. — Eu a-apenas... apenas disse a v-verdade...

— Seu fedelho ridículo...

Ele me lançou longe e eu caí de costas no chão. Aquilo me fez ficar paralisado por um instante e, quando voltei a olhá-lo, Ian, Layla e Peter tinham voltado a lutar com ele. Mas Roxonus não deixou barato para os meus amigos.

Peter tentou golpear Roxonus no peito, mas ele lhe bloqueou com a cauda e lhe deu um chute, fazendo-o voar longe, mas Peter se recompôs no instante seguinte e voltou para lutar. Layla lutava em uma sequência com as garras de Roxonus de uma maneira inacreditável. Era realmente inacreditável o quanto ela era rápida e como seus movimentos eram totalmente precisos. Ian tentava golpear a barriga de Roxonus, mas sem sucesso. O monstro arrumava alguma maneira de bloquear os golpes de Ian. Mas, dali, Roxonus fez uma coisa que me surpreendeu: ele mexeu nas cobras que eram seus cabelos, tirou algumas de lá e soltou no chão.

As cobras foram para cima de meus amigos, mas eles conseguiram abatê-las fácil, fácil. O ruim foi ver algumas daquelas cobras virem para cima de mim. Por sorte, eu ainda tinha minha adaga na mão e consegui — ainda sentado — matá-las, mas não foi fácil. Uma delas me picou e aquilo era mais doloroso do que o veneno de Tracus. Eu sabia que aquelas cobras eram venenosas, porque a partir daquela picada, eu senti minha perna começar a ficar dormente e, por azar, era a perna do tornozelo deslocado — a perna direita. Mas eu a matei no momento seguinte de sua picada.

Olhei para meus amigos e eles se moviam com velocidade e precisão em seus ataques. Eu vi Layla consegui ferir a mão esquerda de Roxonus, tirando-a fora — presumi que tinha sido ela quem tinha tirado a mão de Dracus fora — e partiu para a outra mão. Ian conseguiu ferir a barriga de Roxonus e de lá começou a sair o líquido dourado que representava o sangue dele. Peter havia conseguido cortar a cauda do monstro e Roxonus conseguiu chutar a todos naquele instante, fazendo cada um deles voarem para um canto. Mas, por sorte, Ian parou bem diante de mim.

O ajudei a levantar e ele agradeceu somente movendo os lábios e eu assenti para ele. Quando ele se pôs de pé, o segurei pelo braço, impedindo-o de partir.

Eu tinha que fazer alguma coisa. Nem que aquilo arriscasse a minha vida, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Pus-me de pé e segurei minha adaga. Roxonus estava berrado e xingando a todos nós do outro lado daquele local e eu tinha uma chance, apenas uma.

— O Martelo de Ares, Ian — falei baixinho para ele.

— O quê? — ele perguntou sem tirar os olhos de Roxonus.

— O Martelo de Ares — repeti. — É a única maneira de vencermos ele.

Ele assentiu.

— Como faremos isso? — ele arqueou uma sobrancelha.

— Deixe comigo... — disse eu sem pensar. — Ao meu sinal.

Ele assentiu com a cabeça e correu para o outro lado da sala, indo em direção a sua mochila e por sorte não foi visto por Roxonus.

Mas o que eu podia fazer? A única coisa que eu era bom era a minha mira com o arco e flecha, mais nada. Eu não era bom com espadas, adagas, somente com a mira e o arco e flecha... minha mira!

Eu realmente era muito bom de mira, se não fosse, eu não teria sido nomeado o melhor arqueiro do Acampamento Meio-Sangue, não? Então eu tinha que acertar Roxonus, de longe, com minha adaga. Mas o único problema era como eu iria acertá-lo se ele não parava quieto?

— Ei, feioso! — chamei a atenção dele.

Ele se virou para mim com a cara com puro ódio e veio em minha direção como um louco, sedento por sangue, vingança, luta ou qualquer outra coisa que você possa imaginar que um monstro possa ter quando se arranca pedaços dele e matam seus filhos.

Ele se aproximava cada vez mais e mais, e mais, e mais...

Quando Roxonus veio para cima de mim com sua velocidade rápida, mirei em sua testa e joguei minha adaga nela, acertando-o bem no meio da testa. O monstro parou de correr em minha direção, cambaleou para trás e tentou tirar a adaga de sua testa.

— Agora, Ian! — gritei.

Ian apareceu em meu campo de visão e ele não era mais o mesmo Ian de antes. Ele parecia muito mais feroz, com mais raiva e completo ódio do que eu já tinha visto antes, e estava como Martelo de Ares em suas mãos, então aquilo explicava tudo. O Martelo mudou a expressão de Ian para o combate.

— Por Ares! — berrou Ian.

Roxonus se virou para Ian e, antes que Roxonus pudesse correr para qualquer lugar, Ian saltou até o rosto do monstro e acertou o Martelo de Ares bem onde minha adaga tinha sido cravada, fazendo com que Roxonus explodisse no mesmo instante, virando poeira de monstro.

Assim que vi aquela cena, acabei capotando no chão no segundo seguinte.