O Martelo De Ares.
6 6 — Trevor
Notas iniciais
EU PENSAVA QUE ÍAMOS DEMORAR MUITO PARA ENCONTRAR AQUELE MONSTRO asqueroso que era Roxonus, mas não. Layla tinha dito que havia alguma estação de esgoto abandonada — ou coisa do tipo, pois e não ouvi muito por que eu estava preocupado olhando para ver se monstros nos seguiam — em Tulsa. Então Ian seguiu para lá no mesmo instante.
Passamos rapidamente por Midwest, Edmond e Stillwater — na verdade, paramos em Stillwater para comprar água e comida para todos nós. Não sabia que estávamos com tanta fome assim quando pisamos naquela cidade. Ao menos eles pisaram, porque eu fiquei perto do carro, pronto para qualquer ataque de monstro, mas, por sorte, não houve ataque nenhum.
Entramos em uma lanchonete qualquer em Stillwater. Eu, particularmente não estava com tanta fome assim. Afinal, eu tinha acabado de derrotar um monstro àquela manhã, então a fome não estava comigo e nem estaria comigo nem tão cedo assim.
Ian e eu nos sentamos em uma mesa vazia de quatro lugares no canto da lanchonete, enquanto Peter e Layla foram fazer os pedidos.
Ian me encarou por um momento e, quando o olhei, ele estava sorrindo para mim. Aquilo particularmente me deixou um tanto sem graça, mas eu não sabia o que fazer a não ser sorrir para ele também.
Desde que Gatrix havia nos interferido, Ian e eu não tínhamos tido tempo sozinhos. Ele mal tinha tocado no assunto de nosso beijo na noite anterior e eu também não iria tocar nesse assunto. Eu sentia certa vergonha, pois Layla e Peter estavam por perto, mas pelo visto, Ian não parecia se incomodar com isso.
Ele pegou em uma de minhas mãos que estavam por cima da mesa e a apertou com afeto. Olhei para nossas mãos e depois para ele. Ele ainda estava sorrindo para mim e sorri para ele novamente, e apertei sua mão, também com afeto.
Por mais que fosse incrível de se parecer, Ian era completamente carinhoso e gentil para um filho de Ares. Todos do Acampamento Meio-Sangue sabiam que os filhos de Ares eram brutamontes completamente violentos, sedentos por luta e mal-educados. Mas Ian era... quase completamente diferente. É claro que ele não dispensava uma boa luta e nem fugiria de uma, mas ele não fazia o perfil de ser um brutamonte marrento e mal-educado. Ele tinha bastante educação e gentileza. Ao contrário de seu irmão, Kyle, ou de qualquer outra irmão que ele tinha dentro daquele chalé horroroso que ele dormia.
— Então... — disse ele. — Sobre ontem à noite...
— É, então... — falei um tanto sem graça e senti minhas bochechas corarem, e logo desviei o olhar dele.
— Bem, foi bom para mim — disse ele um tanto sem graça.
Voltei a olhá-lo e ele estava corado.
Ri dele.
— Digo o mesmo — falei. — Mas...
— Mas...? — ele me olhou com as sobrancelhas levantadas.
— Mas não vai ser ruim para você? — perguntei com certo medo.
— Como assim? — ele franziu a testa.
— Assim... seus irmãos. Seu pai... eu não sei como ele vai reagir a isso. Ares já não gosta de Percy, imagine de mim, que está em uma lanchonete em Stillwater de mãos dada com seu filho. Ele pode querer comprar briga comigo...
— Eu compraria briga com ele — disse ele me interrompendo. — Não importa o que ele diga, Trevor, e tampouco com o que meus irmãos e irmãs, e minha mãe digam. Eu me importo com o que você diz. Nada mais. — Ian me olhou sério.
— Mas, Ian...
— Não tem mas, Trevor — cortou-me ele. — Eu estou contigo e isso é o que importa, entendeu?
Assenti olhando para ele e ele sorriu. Ele se inclinou sobre a mesa e me beijou rapidamente. Sorri com o seu gesto e ele saiu de onde estava sentado, e se sentou ao meu lado, entrelaçando nossas mãos.
Ian fazia totalmente o contrário do perfil de um filho de Ares. Tudo bem, nem tanto assim... ele parecia um armário de tão forte, mas ele não era um mal-educado, brutamonte e sedento por guerra o tempo todo como todos os seus outros irmãos. Percy havia me dito uma vez que ele foi a uma missão com a irmã mais velha de Ian, Clarisse, e viu que ela não era diferente dos filhos de Ares, exceto quando ela estava com o seu namorado. Mas todos eles eram brutamontes, mal-educados sedentos, por guerra e totalmente enormes de tão forte.
Ian não era de dispensar uma boa briga ou luta. Ele era bem forte, mas ele era totalmente bem-educado e não era um brutamonte. Ele fazia quase o perfil contrário de todos eles. Sem contar que Ian era totalmente gentil e carinhoso. Eu não via Kyle, seu irmão de sangue, fazer uma coisa daquelas. Kyle podia ser irmão de sangue de Ian, mas parecia ser irmão de sangue de Clarisse, pois ele era totalmente louco por briga.
De qualquer forma, depositei minha cabeça em seu ombro forte e ele deitou a dele em minha cabeça.
— Eu realmente estou gostando muito de você, Ian... — disse eu baixinho.
— Eu também estou realmente gostando muito de você, Trevor. De verdade — falou ele também baixinho.
Ele fazia carinho com o polegar no dorso de minha mão e achei aquilo fofo. Para um filho de Ares, Ian realmente quebrava totalmente a ideia de como um filho de Ares era. Eu gostava disso nele. Eu não queria me ver ao lado de alguém que só podia pensar em briga. Exemplo: eu não me via ao lado de Kyle e nem queria. Ele só deveria pensar em briga 24 horas por dia. Sem contar que Ian tinha olhos azuis. Todos os filhos de Ares tinham olhos castanhos. Ian e o irmão eram totalmente diferente dos demais.
— O que dirá ao Kyle? — perguntei.
— O que tem meu irmão? — perguntou ele.
— Bem... ele tem que saber uma hora, não? — larguei-me de seu ombro e o olhei.
Ele deu de ombros.
— Sim e não... quem se importa? — riu ele. — Kyle não tem cérebro para quase nada. Provavelmente ele irá querer comprar briga comigo e com você, mas eu não vou deixar isso acontecer — falou ele em tom ameaçador. — Afinal de contas, ele sabe sobre mim, eu acho — ele deu de ombros. — De qualquer forma, ele não precisa saber sobre nós, se você quiser assim.
Balancei a cabeça em positivo.
— Concordo. Prefiro que ele não sabia... pelo menos não agora — disse eu.
— Entendido — ele levantou o polegar da mão direita para mim. — E os outros?
— O que têm eles? — perguntei franzindo a testa.
— Eles terão que guardar segredo?
— Bem, não sei — disse eu. E realmente não sabia. — Ao menos eu prefiro que guardem no Acampamento Meio-Sangue. Eles podem ser preconceituosos. Exceto pelo chalé de Afrodite, mas tudo bem.
Ian riu.
— Verdade — disse ele entre o riso. — Aquele chalé deve apoiar qualquer tipo de amor.
— Ou não, né? — dei de ombros rindo.
Ian voltou a entrelaçar nossas mãos e me beijou rapidamente.
— Queria estar em outro lugar com você.
— Ah, para... — falei corando.
— É sério — disse ele. — Estar em uma missão suicida é completamente fora do romântico para um, digamos, encontro.
Gargalhei com aquilo.
— Você é engraçado — falei entre o riso.
— Tem muita coisa que você ainda não sabe sobre mim — disse ele sorrindo e me dando uma piscadela.
Ri.
— O.K. — falei balançando a cabeça para ele e o beijei rapidamente.
Quando Ian e eu pensamos em conversar novamente, Peter e Layla chegaram com nossos pedidos à nossa mesa, Ian e eu paramos de conversar no mesmo segundo.
Nós dois, Ian e eu, pedimos para eles dois guardarem segredo sobre nós quando chegássemos no Acampamento Meio-Sangue e eles disseram que manteriam aquele segredo. Talvez eles entendiam a parcela de medo que eu tinha — não conto com Ian, porque eu não sabia se um filho ou filha de Ares sentia medo. Então... a pequena parcela de medo era totalmente minha.
De qualquer forma, comemos bastante. Layla e Peter trouxeram grande parcela de panquecas com queijo, um pedaço de torta de morango e de chocolate para cada um, bacons, ovos e pão. Um grande lanche para quem estava prestes a arriscar sua vida ao lutar com um monstro, mas eu não cheguei a mencionar isso.
Eu era grato por Layla ter trazido dinheiro mortal ao invés de só dracmas. Ela era bastante esperta e também sabia que algumas ambrosias não iriam matar nossa fome completamente. Mais um ponto para a garota sabichona.
Mas estava na hora de irmos, pois o dia estava começando a escurecer e quando olhei para o relógio da lanchonete, marcava exatamente quatro da tarde. Não tínhamos muito tempo para comer e tínhamos que encontrar Roxonus, pegar o maldito martelo — que não estava com ele e não sabíamos onde iríamos pegá-lo — e voltar para o Olimpo para entregar ao deus que provavelmente me odiava.
Contudo, saímos de Stillwater e seguimos para Tulsa, mas com algumas interferências no caminho. O carro tinha acabado a gasolina e, quando paramos em um posto de gasolina em Bixby, tudo pareceu ir por água abaixo.
Assim que todos nós descemos para usarmos o banheiro e fazer nossa higiene pessoal, um casal parou para nos atender.
— Olá! — disse o homem, cujo crachá estava escrito Paul. Ele tinha pele morena, cabelos pretos e olhos tão escuros quanto os cabelos.
— Bem vindos ao primeiro posto de Bixby! — disse a mulher, cujo crachá estava escrito Cassie. Ela também tinha pele morena, cabelos pretos e olhos tão escuros quanto os cabelos.
Nós quatro nos entreolhamos.
— Ahn... obrigado — disse eu. — Só queremos usar o seu banheiro e por gasolina.
— Ah, creio que isso não será necessário, semideuses — disse Paul.
Todos nós congelamos.
— Do que você nos chamou? — perguntou Layla.
— Semideuses — disse Cassie. — Vocês não são semideuses? — perguntou ela.
Todos nós sacamos nossas armas.
Peguei minha adaga de bronze e já estava pronto para qualquer ataque por parte de Paul ou Cassie; Ian já estava com a lança em sua mão e pronto para o combate; Layla tinha sua adaga de bronze junto à mão direita e em posição de ataque. Eu nunca pensei que uma filha de Atena da idade dela poderia ser igual a ela na hora de combate, ela parecia completamente concentrada nos movimentos de Paul e Cassie; Peter tinha sua espada à mão esquerda e podia jurar que ele estava prestes a invocar um raio.
— Não será necessário luta, semideuses — disse Paul.
— Só queremos encaminhá-los ao nosso chefe — afirmou Cassie.
Entreolhamos-nos novamente.
— Como assim? — perguntou Ian.
— Como sabem, Oklahoma virou o novo centro de monstros... — começou Paul.
— E tudo isso por conta de um único ser que nos ajudou, o nosso chefe — completou Cassie.
— Deixe-me adivinhar... Roxonus? — perguntei em tom de deboche.
Os dois se entreolharam e me fitaram com raiva.
— Não gostamos nenhum pouco do seu tom, semideus — disse Cassie.
— E não, não é esse quem você diz ser o nosso chefe — disse Paul. — Ele é bem mais tenebroso que esse mísero ser que vive nos esgotos.
— Mas vocês não irão conhecê-lo ainda — disse Cassie com um sorriso estranho. — Apenas temos ordem para entregar um presente.
— Que tipo de presente? — perguntei.
Aquilo estava totalmente estranho. Por que um monstro iria nos ajudar? Não era da natureza dos monstros ajudarem os semideuses. Nunca houve registro nenhum, na história dos heróis, de algum monstro ajudar um semideus. Sempre foi o contrário. Todos os monstros sempre queriam matar os semideuses. Sempre foi assim.
— Queiram nos seguir — disse Paul.
E, com Cassie, eles entraram na loja que tinha no posto.
Nós quatro nos entreolhamos, mas eu segui primeiro. Dei um passo à frente e segui para a porta. Mas, assim que abri aquilo, não era uma loja como mostrava do lado de fora.
O lado de dentro da loja só tinha uma lâmpada no teto que mal iluminava o local. Havia uma mesa grande com cartas jogadas sobre elas e duas cadeiras. Tinha um armário de ferro ao lado esquerdo da sala e havia uma porta do lado direito. Cassie e Paul estavam esperando por nós diante a porta.
— Aqui dentro, vocês poderão seguir para o destino que quiserem — disse Paul com um sorriso no rosto.
— Essa porta é mágica — explicou Cassie. — Basta apenas dizer seu destino antes de abri-la e ela lhe levará aonde quer.
— Já aqui... — Paul se dirigiu ao armário. Ele abriu o armário e tirou algo que estava brilhando. Aquilo quase me fez querer fechar os olhos. — Aqui está o Martelo de Ares.
— Mas como...? — a voz de Peter falhou atrás de mim.
— Estava com vocês esse tempo todo? — perguntou Layla.
Cassie se juntou ao Paul.
— Sim, estava — disse ela.
— Entregaremos a vocês — disse Paul assim que todos nós ficamos diante dele.
Ele mostrou o Martelo.
Quando eu olhei, a aura vermelha que estava por volta de onde se segurava o Martelo, era intimidador. O cabo em que se segurava o Martelo tinha vários desenhos de fogo, algumas pontas e alguns outros desenhos de javali. Era completamente sinistro ver um martelo como aquele.
Quando eu digo Martelo, não é como aqueles martelos de carpinteiro ou coisa do tipo. Aquele Martelo era preto e tinha quatro lados onde podia martelar. Mas o Martelo em si era completamente de ferro preto, dava para notar isso — devia ser o mesmo material que a espada de Nico di Angelo (um amigo de Percy que tinha uma espada de ferro preto e sei disso porque Percy me contou esse detalhe). Ele tinha uma ponta na parte superior e parecia bastante afiada. Tinha a cara de um javali — com chifres, narinas, olhos e boca amostra — nas quatro partes em que não se batia com o Martelo. Ele não parecia ser tão grande, mais ou menos do tamanho de minha perna e parecia ser bem pesado.
Paul fez menção em me entregar, já que eu estava na frente de todos. Quando eu estendi a mão para aquilo, ele hesitou. O olhei logo em seguida.
— Não posso entregar — disse ele.
Franzi a testa.
— Talvez ele devesse entregar para mim, Trevor — disse Ian. — Eu sou filho do deus da guerra — Ian ficou ao meu lado. — Esse Martelo pertence ao meu pai.
Mesmo Ian dizendo aquilo, Paul não passou o Martelo de Ares para ele.
— Sinto muito — disse Paul.
— Mas só podemos entregar assim depois que fizerem apenas uma exigência nossa — disse Cassie.
Sabia que estava fácil demais.
— O que temos que fazer? — perguntou Layla séria.
Cassie e Paul se olharam e depois olharam para nós.
— Um tem que morrer — disseram Cassie e Paul em uníssono.
Nós quatro nos entreolhamos novamente.
— Desculpe, mas isso não está à proposta — disse Peter.
— Então não levarão o Martelo — disse eles dois juntos em uníssono novamente.
— E se dissermos que iremos sair daqui com o Martelo e todos vivos? — rebati.
— Então receio em dizer que vocês terão que lutar por isso — disse Cassie.
— Eu já imaginava — disse Ian.
Tudo aconteceu muito rápido.
Ian tinha avançado para atacar Cassie e ela tinha se transformado em um tigre com asas, igualmente Paul. Ambos eram quimeras. Eu odiava quimeras. Desde o dia em que uma tentou me atacar pela primeira vez em minha escola em Chicago. Eu nem sei como tinha conseguido controlar meus nervos com Gatrix. De qualquer forma, Ian tinha aumentado de tamanho e tinha ido travar uma luta com Cassie, usando sua lança; Peter e Layla tentaram ir até o Martelo, que tinha caído das mãos de Paul, mas ele bloqueou a passagem e empurrou os dois com o seu rabo, e ambos voaram longe.
Eu não deixei tudo a perder, eu fui até Paul e, quando ele tentou me golpear com o rabo, eu desviei e lhe chutei a cara. Ele tinha soltado um gemido em forma de reclamação, mas eu ignorei aquilo. O caminho estava livre para mim e, quando cheguei perto do Martelo, algo me segurou pela cintura e me jogou para trás, fazendo-me cair de costas no chão. Aquilo doeu.
Quando voltei a mim, me pus de pé e Layla estava ao meu lado esquerdo e Peter à esquerda dela. Todos nós estávamos com as armas à mão e Paul nos estudava com curiosidade. Ele avançou para nós e nós três fomos para cima dele, mas sem sucesso. Quando Layla, Peter e eu tentamos acertá-lo com nossas armas, ele tinha agitado seu rabo em nossa direção. Conseguimos desviar, mas na segunda tentativa, o rabo nos acertou novamente e ele deu uma patada em cada um de nós, e voamos de novo para onde estávamos.
Quando olhei para o meu peito, ele estava sangrando, igualmente o peito de Peter e o braço direito de Layla. Ambos os ferimentos de nós pareciam estar em carne viva. E aquilo ardia a cada respiração que eu fazia.
Pus a mão em um de meus cantis e Layla pôs a mão sobre a minha no mesmo instante.
— Tenho um plano — disse ela.
— É bom falar rápido — disse Peter.
— O quanto de água você tem aí? — perguntou ela para mim.
— O suficiente para acabar com eles — falei olhando Paul andar de um lado para o outro.
Ian ainda travava uma luta bem feia com Cassie. Ele tinha conseguido acertar seu rabo, mas ela tinha rugido, tirado a lança da mão de Ian e golpeou-o com uma das patas. Via voou longe, mas aquilo não o abateu. Ele se levantou rapidamente e voltou a travar a luta com ela. Ele não iria desistir até que matasse Cassie e recuperasse o Martelo de seu pai.
— É o seguinte — disse Layla —, Trevor, você joga água em Paul e, Peter, você consegue produzir um raio sem estar no ar livre? — perguntou ela para ele.
— Não sei, nunca tentei — disse ele com certa raiva.
— Pois agora é a hora de tentar — rebateu ela. — Prontos?
— O que você vai fazer? — perguntei antes que Peter pudesse responder a pergunta dela.
— Deixe comigo — falou ela em tom sério. — Prontos?
Nem Peter e nem eu respondemos. Apenas assentimos com a cabeça.
— Agora! — disse ela.
Tirei a tampa dos dois cantis e, assim que corri em direção a Paul, lancei a bola d’água que eu tinha formado em cima dele e saí do caminho; olhei para Peter e ele tinha parado de frente para Paul com os olhos fechados e as mãos juntas. Assim que ele separou as mãos, suas mãos se iluminaram e uma linha não simétrica formou-se entre suas mãos. Ele separou as mãos por completo e apontou, com os dois dedos da mão direita, para Paul.
O monstro começou a se contorcer por conta do choque em grande escala que ele havia levado e, no momento em que fumaças saiam dele e ele tinha paralisado, olhei para Layla bem a tempo de vê-la lançar sua adaga em direção a Paul e acertar bem no meio dos olhos dele. Paul explodiu no segundo seguinte e virou poeira de monstro.
— Temos que ajudar o Ian! — gritei para Layla, jogando sua adaga para ela.
— Não! — berrou ele em meio à luta com Cassie. — Essa luta é minha! Peguem o Martelo!
Eu não discuti. Eu era o mais próximo do Martelo e, assim que cheguei perto dele e o peguei. Eu me senti estranho. Eu me senti... mais forte. Mais poderoso e... com raiva, com ódio. Parecia que, se eu lutasse com aquilo na mão, eu tinha a certeza de que não iria perder combate nenhum. E eu só conseguia pensar em uma coisa: luta.
Mas eu não pude dizer o mesmo de Ian.
Quando ele tentou acertar Cassie com sua lança, ela desviou para o lado, deu-lhe uma patada e Ian caiu no mesmo instante. Cassie foi para cima de Ian, ficando em cima dele. Peter e Layla ignoraram o que Ian tinha dito sobre aquela luta ser dele e partiram para cima de Cassie, mas a quimera estava preparada.
Quando Layla e Peter tinham chegado perto de Cassie, eles tentaram golpeá-la, mas ela passou o rabo envolta do pescoço de Ian e o pendurou no ar, e começou a lutar com eles dois. Eles estavam travando uma luta feia. Layla desviava das garras de Cassie como podia e Peter desviava de suas mordidas e patadas. Eles não conseguiam acertar um golpe sequer em Cassie.
Por azar, ela tinha conseguido golpear Layla em sua barriga, fazendo-a perder o ar e cair de joelhos, e, no instante seguinte, Cassie lhe deu uma patada que a fez voar longe e a Layla desmaiou. Peter tentou acertar Cassie na barriga com sua espada no momento em que ele escorregou no chão, mas Cassie desviou e lhe deu uma boa patada no rosto, fazendo-o desmaiar.
Cassie se virou para Ian. Ele estava começando a ficar roxo por falta de ar.
— Seus amigos não morreram, mas Ares perderá um filho. Com certeza irá — disse ela.
Ian tentava se livrar do rabo dela, mas sem sucesso.
Aquilo me deu tanta... raiva e ódio. Cassie era quem tinha que morrer e não Ian! Ele não iria morrer. Eu não deixaria.
Lembrei que eu estava com o Martelo e avancei para ela.
— Coisa-Feia? — chamei-a e ela virou no mesmo instante, me olhando com os olhos arregalados. — Largue ele — ordenei.
— Sinto muito, mas não. Ele irá morrer — disse ela.
— Só por cima do meu cadáver — rebati entredentes. Ela estava começando a me estressar.
— Será um prazer.
Dizendo aquilo, ela veio para cima de mim e eu para cima dela.
Ela saltou em minha direção com uma pata para frente e eu desviei logo em seguida. Ela tentou usar a pata traseira, mas assim que ela fez aquilo, eu pus o Martelo de Ares no caminho e, quando a pata dela o tocou, sua pata queimou. Queimou a ponto de ficar totalmente preta. Eu não tinha acreditado naquilo, mas deveria ter machucado, pois ela gritou loucamente.
Cassie e eu nos olhamos por um breve momento e ela veio para cima de mim novamente, e eu parti para cima dela. Quando nos aproximamos, eu pulei por cima dela e, com a ponta afiada que tinha na parte superior do Martelo, acertei em suas costas — ou seja lá como aquilo se chama. Sangue dourado começou a jorrar das costas de Cassie e ela começou a reclamar.
Aterrissei no chão e, antes mesmo que eu pudesse virar por completo, ela tentou me dar uma patada, mas eu desviei, jogando-me para o lado. Fiquei de pé novamente e ela tinha largado Ian, e correu para cima de mim. Estávamos em uma boa distância um do outro, mas eu esperei que ela chegasse mais perto.
Eu senti o Martelo esquentar em minha mão — mas não a ponto de esquentar tanto e queimar a minha mão, era uma queimação, estranhamente falando, boa — e eu tentei absorver aquilo. Eu sabia que aquela sensação de raiva, de força e poder de combate vinha direto do Martelo e eu tinha que usá-la. E eu iria usá-la. Aliás, eu iria usar o Martelo. Eu tinha que usá-lo.
Quando Cassie tinha finalmente chegado perto de mim, eu apenas peguei impulso com as duas mãos no Martelo e bati o mesmo na cabeça de Cassie, onde ela explodiu no segundo seguinte.
Ian estava me olhando com os olhos arregalados e eu fui até ele. Ele estava com o pescoço marcado por conta do rabo apertado de Cassie, mas eu juntei toda a água que eu podia do chão, a purifiquei e o curei, e lhe dei ambrosia e néctar para ajudar ainda mais. Tanto no pescoço, tanto nos braços marcados pelas garras de Cassie.
Assim que ele ficou curado, Ian e eu acordamos os outros e, assim que eles acordaram, eu os curei também e lhes dei ambrosia e néctar. Eles acordaram vacilantes — talvez devessem estar um pouco tontos. Mas eu dei um crédito. Eles tinham sido golpeados por uma quimera. Aquilo não era tão fácil de se absorver assim. Ao menos não para mim.
— Acho que isso pertence a você — passei o Martelo para Ian.
Ele segurou o Martelo e seus olhos azuis brilharam. Seu semblante de um rapaz calmo e gentil mudou no mesmo instante. Eu senti medo de Ian — mesmo eu sabendo que ele não me atacaria, mas aquilo era de se arrepiar.
— Obrigado — disse ele. — Agora entendo o porquê você estava daquela maneira.
— Que maneira? — perguntou Layla, Peter e eu em uníssono.
Ian riu, mas não foi uma risada que ele tinha usado antes. A risada tinha sido mais pesada e grossa. Como se fosse um deboche em plena guerra.
— Você tinha mudado de semblante, Trevor — revelou, ele. — Seu rosto de menino tinha sumido. Você estava com a testa franzida o tempo inteiro. Parecia estar... com raiva de alguma coisa. Mas não mudava a expressão facial. Sempre era a mistura de seriedade, raiva e ódio.
Eu o olhei com a testa franzida.
Era quase impossível de acreditar nele, mas eu tinha que acreditar porque eu realmente senti tais coisas quando tinha segurado o Martelo. Raiva, ódio, força e poder. Tudo aquilo ao mesmo tempo, foi o que eu senti a partir do momento em que toquei no Martelo. Era quase um convite para a guerra ao segurá-lo.
— O.K. — disse eu. — Vamos indo? — perguntei aos três.
Eles assentiram.
— Acho melhor eu guardar isso — disse Ian indicando o Martelo e ele o pôs dentro de sua mochila. Bem, ao menos a parte que martelava coube dentro de sua mochila, pois o cabo ficou quase todo do lado de fora.
A partir do momento em que ele guardou o Martelo, seu semblante de rapaz calmo e gentil voltou ao seu rosto. Era bem melhor ter esse Ian por perto do que o Ian que segurava o Martelo.
Quando todos nós estávamos preparados, fomos até a porta onde Paul disse que levava para qualquer destino. Assim que chegamos a sua frente, nos entreolhamos, pois não sabíamos o que fazer, mas eu arrisquei.
— Queremos que nos leve até Roxonus, o Senhor dos Esgotos — falei aquilo e abri a porta.
Assim que abri a porta, ela revelou um túnel escuro a nossa frente.
— Prontos? — perguntei para eles.
Meus amigos assentiram para mim e adentramos naquele túnel escuro.
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