O Manto Escarlate - Uma Fic de Candela Obscura
4 O preço do silêncio
Na biblioteca, o caderno do velho ocupou o centro da mesa. Audrey e Marcos o observavam.
Annabeth observava o irmão com uma mistura de curiosidade e ressentimento.
Seraphine procurava informações sobre contenção de magika, nos livros.
O tempo estava se esgotando. Tinham uma criança atingida, Gales em observação no hospital e perguntas que continuavam a se multiplicar. O conhecimento parecia sempre chegar acompanhado de outra dívida.
Audrey e Marcos começaram a testar o que julgavam compreender. Ela acompanhou as tentativas com inquietação crescente. Havia lacunas demais nas explicações e segurança de menos no que faziam.
— Antes de continuar, precisamos saber o que isso transmite — disse.
Audrey apontou uma anotação.
— É o que estamos tentando descobrir.
Seraphine olhou para o menino. Quando ele reagiu, tudo nela se estreitou.
— Parem.
Marcos hesitou.
Audrey começou a falar.
— Parem agora.
Annabeth se voltou para o irmão. Seraphine já estava junto dele.
Examinou-o com as mãos disciplinadas, embora a raiva ameaçasse tornar cada gesto brusco. Precisava separar a vontade de cuidar da criança da vontade de atingir quem a colocava em risco.
— Nós estamos tentando ajudar — disse Audrey.
Ela se virou.
— Então olhem para ele.
— Se não entendermos a ligação...
— Vocês o feriram mais.
Marcos baixou os olhos.
Audrey ainda parecia procurar uma resposta.
Seraphine sentiu a paciência terminar.
— Ele não é uma hipótese, Walker. Não é uma anotação que você pode riscar e escrever de novo.
Annabeth se aproximou do menino. A expressão dela tornou impossível fingir que o dano era apenas parte de uma investigação necessária.
— Não continuem — pediu.
Dessa vez, pararam.
***
Seraphine procurou outros registros. Precisava de alguma coisa que sustentasse as decisões seguintes. Uma missão semelhante. Uma tentativa de contenção. Um erro que pudessem evitar.
Encontrou uma criança morta. Uma autorização. O nome de Audrey. Leu novamente.
Procurou o contexto disponível e acompanhou o documento até o fim. Depois voltou ao trecho que estabelecia a responsabilidade dele.
Ergueu os olhos. Audrey estava à mesa. Perto demais do irmão de Annabeth.
Seraphine sentiu uma repulsa fria.
— Você autorizou a morte de uma criança.
A conversa cessou.
Audrey olhou para o documento.
— Essa missão…
— Seu nome está aqui.
— Você não sabe tudo o que aconteceu.
— Sei o que foi autorizado.
Ele se aproximou.
Seraphine manteve a mão sobre a página.
— E depois do que acabou de fazer, espera que eu confie no seu julgamento sobre ele?
Indicou o menino com o olhar.
Audrey endureceu o rosto.
— Não misture as coisas.
— Você quer que eu as separe porque isso o favorece.
— Seraphine…
— Não!
A palavra saiu alta.
Marcos se levantou, mas não se colocou entre os dois.
Seraphine não sabia quanto da irritação vinha do registro, quanto vinha dos experimentos e quanto ainda pertencia ao cais. Naquele momento, não queria separar.
— Você fala como se toda decisão se tornasse aceitável depois de explicada — disse. — Como se bastasse encontrar as palavras certas.
Audrey tentou responder. Ela riu sem alegria.
— Claro. Ainda tem alguma coisa para dizer.
A discussão cresceu. Nenhum dos dois encontrou uma frase que o outro pudesse receber sem procurar nela outra agressão. Quando finalmente se afastou da mesa, Seraphine já havia tomado uma decisão.
Pegou o caderno.
— Vou guardar isto.
Audrey olhou para sua mão.
— Onde?
— Num lugar em que ninguém vai abrir por impulso e descobrir o preço no corpo daquela criança.
***
Em casa, o silêncio pareceu suspeito. Seraphine fechou a porta e permaneceu ouvindo.
John sabia alcançá-la. Christopher conhecia sua ligação com a Candela. A DFI continuava do outro lado do disfarce, com perguntas que poderiam destruí-lo se chegassem às pessoas certas.
Passou a ponta dos dedos pelo encosto do sofá. Conhecer os móveis não lhe dava o direito de se sentir segura.
Levou o caderno ao cofre da família. Duas chaves eram necessárias, usadas em conjunto. A sua e a de outra pessoa. Naquela noite, a exigência lhe trouxe alívio. Não poderia abri-lo sozinha. Outra pessoa também não.
Quando o cofre se fechou, Seraphine manteve a mão sobre ele. O velho havia deixado alguma coisa naquelas páginas. Conhecimento, talvez. Uma maneira de interromper o sofrimento do menino.
Ou um caminho preparado para conduzir quem acreditasse estar fazendo descobertas. Precisava de ajuda para distinguir essas possibilidades.
Foi procurar a Manteluz.
***
Falou sobre os fenômenos. Perguntou sobre ligações de magika, contenção e estudos que pudessem ajudá-la a compreender o que presenciara.
Escolheu as palavras com cuidado.
A Manteluz ouviu. Seraphine conhecia aquela atenção. Já havia recebido instruções sob ela e organizado sua vida em torno do que lhe fora pedido.
Dessa vez, procurou o que ficava escondido nas respostas.
— Há trabalho de pesquisa que poderia interessá-la — disse a Manteluz, tirando uma pasta da gaveta.
Seraphine ergueu os olhos.
— Que trabalho?
— Na Torre.
Por um instante, imaginou o acesso. Registros que nunca lera. Estudos conduzidos com recursos. Pessoas capazes de lhe explicar manifestações que conhecia apenas pelas consequências.
A Manteluz continuou:
— Uma vaga poderia ser providenciada. Em troca do livro.
Seraphine permaneceu imóvel. Não havia mencionado o caderno, nem dissera que estava com ele.
A oportunidade continuava diante dela, oferecendo exatamente o que desejava. Agora precisava perguntar por que chegara tão bem escolhida.
— Que livro? — disse, sem pressa.
A Manteluz a observou.
Seraphine sustentou o olhar e sentiu a conversa se reorganizar em torno daquilo que nenhuma das duas declarava.
Depois veio a insinuação sobre o menino. Isso encerrou o fascínio. Ela cuidou para que seu rosto não mostrasse a mudança inteira.
Fez outra pergunta. Ouviu a resposta. Conservou o tom que usaria diante de alguém em quem ainda confiasse. Por dentro, começou a contar o que precisava proteger.
O lugar onde estava o caderno. Quem podia abrir o cofre.Onde estava a criança.
Quando saiu, levava uma conclusão que não queria ter alcançado. A Manteluz sabia demais e estava preparando alguma coisa.
***
Seraphine demorou a escolher uma direção. Foi quando viu Marcos passar. O chamou com os olhos para saírem logo daquele lugar. No caminho, contou tudo o que havia passado na sala da Manteluz.
O círculo, uma aliança ferida. A Manteluz deveria oferecer orientação mas, agora, precisavam pensar numa possível traição.
Pensou no menino. Era necessário tirá-lo de circulação. Um lugar novo, proteção que não dependesse das pessoas que já acompanhavam seus passos. Talvez a família de Annabeth pudesse ajudar. Precisaria falar com ela sem transformar a conversa em outra disputa diante de Audrey.
Christopher voltaria. Não sabia quando, mas sentia a certeza com uma nitidez desagradável. A ameaça não terminara quando saíra do barco. Apenas passara a caminhar com ela.
E a Candela acabara de demonstrar que também sabia procurar.
Apertou a bolsa junto ao corpo. Havia outra possibilidade. Uma que vinha evitando desde que as soluções mais próximas começaram a falhar.
Seu passado.
A lembrança trouxe um rosto antes que pudesse recusá-lo. Olhos serenos…
Seraphine parou, não queria chegar àquele ponto. Não queria precisar pedir.
Mas pensou em Annabeth sentada junto ao irmão. Em Marcos olhando para a porta do hospital. Em Gales, ainda em observação por ter permitido que entrassem em sua casa.
Talvez aqueles olhos pudessem ajudá-los. Talvez houvesse uma resposta onde ela já não desejava voltar.
Seraphine respirou devagar e retomou o caminho. Precisava escolher quem procurar antes que alguém escolhesse por ela.
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