Enquanto voltavam para a biblioteca, Seraphine tentou recordar a última vez em que dormira sem precisar calcular o que poderia acontecer durante sua ausência.

Não conseguiu.

Gales permanecia em observação no hospital. O menino continuava em perigo. O caderno estava guardado no cofre da família, e a oferta da Manteluz ainda lhe ocupava os pensamentos.

Uma vaga na Torre.

Em troca de um livro que ela sequer mencionara.

Precisavam de outro lugar. Um banho, algumas horas de repouso, uma porta que não pudesse ser aberta por qualquer pessoa dizendo pertencer à Candela.

Seraphine procurou um telefone. Precisava ouvir uma voz conhecida. De preferência, uma que não começasse lhe pedindo explicações.

Uma mulher atendeu.

— Bom dia. Sou a secretária. Quem gostaria de falar com o senhor Meris?

Seraphine demorou a responder.

Secretária. Desde quando ele tinha secretária?

Meris era recluso. Não conseguia conciliar facilmente a imagem que guardava dele com aquela voz feminina atendendo seu telefone. Isto era muito suspeito. Ele chamaria a ela ou a Aurelian para auxiliar.

— Seraphine. Ele está aí?

A mulher hesitou.

— Sim, senhora.

Seraphine percebeu a inutilidade da pergunta assim que ouviu a resposta.

— Então chame.

Houve uma pausa breve antes que a mulher se afastasse.

Ela ficou ouvindo os sons do outro lado, contrariada. Com raiva de si mesma por prestar atenção aos ruídos do outro lado. Meris nunca escondera o interesse que tinha por ela. Era uma certeza discreta, guardada sem muito exame: se o procurasse, ele estaria disponível.

Agora havia uma secretária. Não sabia há quanto tempo. Não sabia por quê. E não gostou de descobrir que essas perguntas lhe importavam.

— Seraphine?

A voz de Meris interrompeu seus pensamentos.

Ela soltou o ar devagar.

— Uma secretária…

Não era o que ligara para dizer. A resposta saiu curta. Meris aguardou.

Seraphine olhou para o aparelho, como se pudesse responsabilizá-lo pela conversa.

— Não sabia que recebia tanta gente a ponto de precisar de alguém cuidando das suas ligações.

Houve um pequeno silêncio.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela reconheceu a oportunidade de abandonar o assunto e demorou um instante a aceitá-la.

— Preciso de um lugar para tomar um banho e descansar um pouco.

A voz dele se tornou mais atenta.

— Claro. Você está onde?

— Não posso falar. Ainda preciso resolver algumas coisas antes de ir. E não estou sozinha.

— Quem está com você?

— Quatro adultos e uma criança, contando comigo. Explico pessoalmente mas é algo que você adorará saber, mesmo não sendo bom.

Meris não a obrigou a continuar pelo telefone. Acertaram o necessário, e Seraphine sentiu o alívio chegar aos poucos.

Antes de desligar, ouviu-o perguntar:

— Tem certeza de que pode esperar até chegar?

— Não tenho certeza de muita coisa hoje.

A sinceridade a surpreendeu.

Ela baixou a voz.

— Só preciso que nos receba.

Quando a ligação terminou, permaneceu com a mão sobre o aparelho.

Meris atendera. Oferecera ajuda. Não exigira nada em troca.

Era o que importava.

Ainda assim, a voz da secretária continuava perfeitamente nítida em sua memória.

***

Marcos encontrou Audrey, e os dois entraram na biblioteca antes dela.

Seraphine apareceu pouco depois.

Procurou primeiro o menino. Conferiu seu estado antes de pousar a bolsa, acompanhando por alguns instantes o movimento de seu peito.

Annabeth a observava.

— Consegui um lugar para irmos — disse a médica.

— Um lugar seguro?

Seraphine ergueu os olhos. Não queria responder com uma certeza que não possuía.

— Alguém que conheço vai nos receber.

Audrey se voltou. Ela percebeu a pergunta se formando.

— Vou com vocês — acrescentou. — E explicarei o necessário quando chegarmos.

Marcos assentiu. A ausência de objeção lhe trouxe um alívio pequeno. Estava cansada de transformar cada decisão numa defesa de si mesma. Precisava recuperar a lucidez.

Ainda não gostava de Audrey. O registro daquela missão continuava existindo, assim como a morte que autorizara. Os experimentos na biblioteca também não seriam apagados porque todos estavam exaustos. Mas sua raiva começara a escolher o que via.

Quem sou eu para julgar a moral de alguém?

A pergunta lhe desagradou. Conhecia o próprio fascínio por corpos frescos. A atenção quase íntima que dedicava àquilo que faria outra pessoa recuar. Sabia como, diante do sofrimento, sua mente podia começar pelo cálculo. A monstruosidade não lhe era uma ideia distante.

Talvez Audrey tivesse agido segundo o julgamento deformado que possuía. Isso não o tornava inocente. Também não dava a ela o direito de converter toda suspeita numa condenação.

Marcos merecia sua confiança. Annabeth precisava de apoio. E havia uma criança que não pedira para estar no centro de coisa alguma. Seraphine passou a mão pela borda da bolsa.

Não precisava gostar de todos. Precisava não ser a razão de tudo ruir. Antes que pudessem organizar a partida, Dickson apareceu.

— Preciso de vocês no circo.

Audrey se endireitou.

— O que aconteceu?

— Encontraram um corpo.

Seraphine levantou os olhos.

— Quem?

Dickson hesitou.

— Uma das artistas.

***

Annabeth ficou com o irmão. Os companheiros prometeram não demorar e pediram que ela tomasse cuidado com todo e qualquer um que tentasse se aproximar.

Seraphine não discutiu a decisão. Pelo menos alguém permaneceria junto dele, alguém cuja presença lhe fosse familiar quando despertasse.

No caminho, ela procurou não antecipar o que encontraria. Pensou em Sam. Em Mabbel. Em uma das crianças. Ao entrar na tenda principal, soube.

Mabbel estava suspensa por cordas no centro do picadeiro. O mesmo espaço que a recebera viva agora expunha seu corpo.

Sem música, o lugar parecia maior. Seraphine reconheceu a roupa, o cabelo, as mãos. Depois viu o rosto. Os olhos haviam sido retirados.

Ao seu lado, Marcos soltou o ar de uma maneira que pareceu dolorosa. Audrey ficou imóvel. Seraphine olhou para ele.

A frase veio antes que decidisse se valia a pena pronunciá-la.

— Todos que se aproximam de você acabam com problemas, senhor Walker.

Ele virou o rosto.

— Não faça isso agora.

Ela sustentou seu olhar. Sabia o que fizera. A provocação fora escolhida para ferir. Não podia atribuí-la ao susto, nem fingir que não percebera onde atingiria.

Marcos já não prestava atenção aos dois. Olhava para Mabbel. A expressão dele endureceu, e Seraphine viu o ódio encontrar uma direção.

— Precisamos achar o velho.

Sua voz estava baixa. Isso a preocupou mais do que um grito.

— Antes que ele faça isso de novo — acrescentou.

Audrey voltou-se para Dickson. Seraphine se aproximou do corpo.

***

Observou as cordas. A posição da garota. A maneira como fora deixada para ser encontrada. Havia uma mensagem ali. Talvez mais de uma.

Quando pôde começar o exame, o horror se reorganizou sob a disciplina do trabalho. Ela conhecia aquela mudança dentro de si.

A imagem deixava de ser apenas uma imagem. Passava a oferecer marcas, intervalos, relações entre o que acontecera primeiro e o que viera depois.

A retirada dos olhos havia sido cirúrgica. Precisão suficiente para revelar conhecimento. Seraphine se inclinou.

Lembrou-se de Mabbel afastando o cabelo do rosto. Do toque no braço de Sam. Do sorriso que perdera um pouco da facilidade ao descobrir sua profissão.

Agora sou eu quem precisa escutar você.

Examinou as marcas de resistência. A garota não entregara o que sabia.

Seraphine reconstruiu essa recusa no corpo: a violência repetida, a insistência, a diferença entre uma agressão destinada a matar e outra empregada para obter uma resposta.

Mabbel resistira. O agressor continuara. A médica voltou a examinar o rosto. Pensou no velho cego. Na magika. Na possibilidade de que não lhe bastasse ouvir uma informação. Talvez quisesse enxergar o que a garota sabia.

A hipótese lhe pareceu terrivelmente coerente. Não a confundiu com uma conclusão demonstrável. Guardou-a onde mantinha as ideias perigosas que ainda precisavam de prova.

O restante do exame revelou uma duração que não desejava comunicar.

O sofrimento fora prolongado. Na reconstrução que fez, choques sucessivos de adrenalina haviam forçado o corpo a continuar respondendo, adiando o colapso até que Mabbel perdesse a consciência e morresse.

Seraphine ficou imóvel por alguns instantes.

A garota havia suportado mais do que qualquer um deveria suportar. Não havia orgulho que tornasse isso belo. Apenas uma morte que alguém decidira tornar difícil.

***

— O que você encontrou?

Marcos estava perto.

Seraphine se voltou.

Viu Gales na memória dele antes mesmo de o amigo ser mencionado. Viu o hospital, a culpa, o menino, tudo o que já se acumulara naquele rosto.

Poderia contar a verdade. Poderia lhe dizer que Mabbel estivera viva durante o pior. Marcos já estava procurando um homem para odiar. Não precisava que ela lhe desse imagens que o acompanhariam até encontrá-lo.

— Foi uma morte rápida — disse.

Audrey ergueu os olhos.

Ela continuou:

— Quando os olhos foram retirados, já estava sem vida.

Marcos olhou novamente para a garota.

— Ela não sentiu?

Seraphine sustentou seu olhar.

— Essa parte, não.

Mentiu com a voz de quem apresentava uma conclusão profissional.

A mentira não lhe pareceu inocente por ter sido destinada a protegê-lo. Retirara dele uma informação e escolhera o que teria de carregar. Sabia exatamente o que estava fazendo.

Talvez a culpa morasse ali: quando um freio não surgia por conta própria, cada decisão lhe pertencia por inteiro.

Dickson se aproximou.

— O velho já fugiu.

Audrey virou-se imediatamente.

— Há quanto tempo?

— Estamos levantando isso.

Audrey guardou as anotações.

— Ele pode tentar pegar o primeiro trem da manhã.

Dickson assentiu.

Audrey apoiou a bengala e se endireitou.

— Encontre esse homem antes que embarque. É prioridade máxima para a polícia.

A formalidade voltou à sua voz. O nome Walker parecia estar inteiro por trás daquela ordem.

— Quero que verifiquem a estação e qualquer informação sobre a saída dele.

Dickson ouviu sem interromper.

Marcos permaneceu junto ao picadeiro.

Seraphine olhou uma última vez para Mabbel. Não podia desfazer o que acontecera. O menino ainda estava vivo. Precisava conservar essa diferença.

***

Antes de partirem, perguntaram a Dickson sobre a Candela. As mudanças recentes. O comportamento de pessoas em quem antes deveriam poder confiar. Seraphine não mencionou a oferta da Torre. Queria ouvi-lo antes de decidir o quanto revelar.

Dickson olhou para cada um.

— Notei mudanças, sim.

Audrey aguardou.

— E em quem você confia? — perguntou Marcos.

— Em mim.

Seraphine manteve os olhos nele.

— Ninguém mais?

Dickson demorou um instante.

— Vocês confiam em quem?

O silêncio respondeu antes de qualquer palavra. Ela pensou em Marcos. Na confiança oferecida no corredor, apesar daquilo que ainda não compreendia nela. Pensou em Annabeth permitindo que cuidasse do irmão. Olhou brevemente para Audrey. Por mais irritante que fosse, continuava dentro do círculo.

Dickson acompanhou a troca de olhares.

— Tomem cuidado.

Seraphine assentiu. O recado havia sido recebido.

***

Voltaram à biblioteca com urgência. Precisavam tirar o menino dali.

O lugar deixara de lhe parecer um abrigo. Era um endereço conhecido, uma sala em que pessoas chegavam, perguntavam e partiam levando o que tinham ouvido.

Annabeth se levantou quando entraram. Seraphine procurou a criança. Estava ali. Só depois voltou os olhos para a irmã.

— Aconteceu alguma coisa?

— Uma mulher veio enquanto vocês estavam fora.

Audrey se aproximou.

— Quem?

— Disse que era de outro círculo.

Annabeth contou a visita. As perguntas tinham parecido desconexas: por que estava ali, por que o irmão estava com ela, quem mais frequentava a biblioteca. Só agora, repetidas em voz alta, começavam a parecer menos casuais.

— Ela perguntou sobre ele? — disse Seraphine.

Annabeth assentiu.

— Depois foi ao mezanino. Mexeu em alguns livros. Disse que procurava registros de sinais de magika em corpos.

Seraphine olhou para a escada. Pensou na Manteluz insinuando conhecer a situação da criança. Na conversa sobre fenômenos e contenção. Na facilidade com que suas perguntas podiam ter se transformado em informações úteis a outras pessoas.

Audrey se voltou para Annabeth.

— O que você disse a ela?

A jovem endureceu a expressão.

— Não contei o que estamos fazendo.

— Mas ela…

— Annabeth está nos contando o que aconteceu — interrompeu Seraphine.

Audrey a encarou. A discussão habitual estava ao alcance de uma frase. Ela escolheu não alcançá-la.

— Primeiro verificamos a sala. Depois esclarecemos o que faltar.

Annabeth baixou os olhos por um instante. Seraphine lhe ofereceu um gesto breve. Já havia medo suficiente naquela biblioteca.

***

Audrey procurou escutas magikas.

Seraphine acompanhou o exame sem conseguir perceber o que ele percebia. Observou sua postura mudar, a atenção se fixar num ponto e depois procurar outro.

— Tem alguma coisa — disse ele.

Marcos se aproximou.

— Onde?

Audrey ergueu a mão, pedindo silêncio.

A médica olhou ao redor. Estantes. Mesas. Papéis.

Tudo conservava a aparência de um lugar onde haviam passado horas discutindo, pesquisando e tentando cuidar de uma criança.

Então Audrey se contraiu. Os óculos quebraram. O estalo interrompeu o silêncio da sala. Ele os retirou depressa.

Seraphine se aproximou antes de pensar em qualquer comentário.

— Você se feriu?

Audrey negou, examinando o dano.

— O sinal é forte demais.

Marcos olhou para as estantes.

— Forte a esse ponto?

Audrey levantou os óculos partidos. Não precisou responder.

Seraphine sentiu a urgência se tornar mais concreta.

A mulher havia entrado sem ajuda, sem a senha secreta de Dickson. O menino permanecia ali. Alguma coisa capaz de produzir aquilo também.

Voltou-se para Annabeth.

— Mostre quais livros ela mexeu.

***

Subiram ao mezanino.

Annabeth reconstruiu o caminho da visitante. Parou diante de uma estante, depois de outra, procurando lembrar posições e movimentos.

Seraphine não a apressou. Encontraram os volumes. A médica retirou o primeiro e leu o título. Depois pegou outro. Abriu algumas páginas. Franziu a testa.

— Foi aqui que ela procurou?

— Foi.

Seraphine voltou ao primeiro livro. Não era sobre sinais de magika em corpos. Nenhum daqueles volumes correspondia à explicação oferecida. Eram sobre Oldfaire.

Annabeth se aproximou.

— Ela mentiu.

— Sim.

Seraphine apoiou os livros sobre uma mesa. Por alguns instantes, ficou apenas olhando para eles. Queria abri-los. Examinar cada capítulo, procurar uma ligação com o velho, descobrir por que alguém usaria cadáveres como desculpa para consultar Oldfaire.

A curiosidade continuava intacta. Isso lhe pareceu quase obsceno depois de Mabbel.

Eu sei o que sou.

Sabia que conseguia olhar para situações que fariam outros hesitar e começar a calcular. Sabia que a proximidade da morte nem sempre produzia nela a reação esperada.

Não precisava fingir o contrário. Precisava decidir o que fazer com isso.

Marcos confiava nela de uma maneira que ainda não compreendia completamente. Annabeth lhe permitira entrar numa parte da vida que deveria permanecer protegida. Audrey continuava ao lado deles, apesar de tudo o que haviam dito um ao outro.

Sua lucidez não exigia que passasse a gostar dele. Exigia que parasse de usar cada oportunidade para aprofundar uma ferida.

A criança estava assustada, cercada por forças que não entendia e por adultos capazes de encontrar razões para decidir quanto perigo deveria suportar.

Seraphine já participara disso. Não continuaria. Fechou o volume.

Annabeth olhou para ela.

— O que fazemos?

A médica recolheu as informações necessárias sobre os livros.

— Tiramos seu irmão daqui.

— E Oldfaire?

Seraphine demorou um instante. Custou-lhe deixar as páginas fechadas.

— Vai continuar aqui quando pudermos voltar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.