Os mortos nunca lhe interrompiam. Seraphine apreciava essa delicadeza.

No necrotério, os corpos encontrados na ponte repousavam sob uma luz que não favorecia ninguém. A palidez, as marcas na pele, a tinta junto às unhas: tudo permanecia disponível à observação, livre do constrangimento que fazia os vivos esconderem até aquilo que poderia salvá-los.

Ela aproximou a lâmpada da mão sobre a mesa.

A tinta penetrara nas pequenas irregularidades dos dedos. Seraphine examinou cada vestígio, depois voltou às anotações. Havia uma relação entre aqueles mortos. A ponte era apenas a parte visível.

A DFI esperava um parecer.

A Manteluz esperava que ela descobrisse mais do que caberia nele.

Entre as duas obrigações, Seraphine trabalhava com uma concentração quase agradável. Gostava daquele ponto em que um corpo deixava de confirmar o que ela sabia e começava a exigir outra explicação. Diante de uma possível manifestação de magika, precisava vigiar a própria curiosidade com mais cuidado do que vigiava o medo.

Inclinou-se sobre os dedos imóveis.

A porta abriu.

— Doutora?

Ela terminou a palavra antes de levantar os olhos.

O homem à entrada trazia uma bengala e uma disposição evidente para ocupar a sala. Seus olhos passaram pelas mesas, pelos instrumentos e pelo caderno aberto.

Então ele se apresentou.

— Audrey Walker. Sou da polícia.

Disse o nome inteiro com uma formalidade que parecia esperar reconhecimento.

Seraphine pousou a pena.

— Doutora Seraphine. Estou conduzindo os exames de necrópsia.

Audrey avançou.

— São os corpos encontrados na ponte?

— São.

— Todos chegaram juntos? Já estabeleceu a causa das mortes? Há sinais de alguma substância? Encontrou alguma coisa nas mãos?

O olhar dela permaneceu em seu rosto.

A última pergunta merecia atenção.

— O senhor tem uma requisição para consultar os exames, senhor Walker?

— Estou investigando o caso.

— Isso não responde à minha pergunta.

Ele apoiou a bengala junto ao corpo.

— Talvez possa simplesmente me dizer o que encontrou.

Seraphine observou a mão fechada no cabo.

Havia perguntas demais para uma visita sem documentação. Algumas eram previsíveis. Outras pareciam orientadas por um conhecimento que ele não declarava.

Seria ele da Candela? Um agente da DFI testando seu disfarce?

A possibilidade surgiu antes de qualquer certeza.

Ela não podia recebê-lo como aliado por suspeita. Estava ali a mando da Manteluz, e sua permanência na DFI dependia de continuar sendo exatamente quem os funcionários daquele prédio acreditavam que ela fosse.

Uma médica não entregaria informações a um desconhecido só porque ele soubesse procurar as marcas certas.

Seraphine fechou o caderno.

— Que horas o relógio toca?

Audrey a encarou.

Ela esperou.

A resposta não veio.

Seu olhar se deslocou brevemente, como se procurasse no ambiente alguma explicação para a pergunta.

— Perdão?

Seraphine sentiu a suspeita perder seu único caminho discreto de confirmação.

Não havia mais nada que pudesse oferecer sem se expor.

— Os resultados serão encaminhados pelos meios competentes — disse. — Até lá, preciso que se afaste da mesa.

Audrey olhou para o caderno fechado.

— Há alguma coisa que você não está dizendo.

— Há várias. O senhor ainda não demonstrou ter autorização para ouvi-las.

Ele ergueu o rosto.

O tratamento formal, que parecera tão importante na apresentação, começava a lhe pesar.

— Pessoas morreram.

Seraphine olhou brevemente para o homem deitado entre os dois.

— Estou ciente.

Audrey se aproximou mais um passo.

Ela sentiu a irritação chegar antes do receio. Ele estava perto do corpo, perto das anotações, perto demais de um trabalho cuja importância julgava compreender apenas porque tinha perguntas urgentes.

— Senhor Walker. Afaste-se.

— Se soubesse o que está acontecendo...

— Então apresente suas credenciais aos meus superiores.

A frase saiu com a firmeza necessária.

Por dentro, Seraphine desejava que ele falasse.

Queria saber o que o trouxera até aquelas mãos manchadas. Queria saber se a palavra magika tinha o mesmo peso para ele. Mas não podia ajudá-lo a atravessar uma porta que sua identidade exigia manter fechada.

Audrey moveu a mão.

O cabo da bengala se separou do corpo de madeira.

A lâmina apareceu sob a luz.

Seraphine ficou imóvel por uma fração de segundo.

Uma espada.

O detalhe corrigiu sua avaliação do homem com uma rapidez desagradável.

— Guarde isso.

— Escute...

— O senhor desembainhou uma arma dentro de um necrotério.

Agora sua voz alcançava também a porta.

Audrey percebeu. A expressão dele se fechou.

Seraphine recuou para abrir distância da lâmina, e ele acompanhou o movimento. A mesa limitou o espaço. Quando tentou passar, sentiu a mão dele prender seu braço.

O aperto foi imediato.

A bandeja de instrumentos bateu no metal.

Ela puxou o braço. Audrey tentou contê-la, dizendo alguma coisa que já não tinha utilidade. Seraphine sentiu a borda da mesa contra o quadril e o calor do homem perto demais de seu corpo.

A espada permanecia à vista.

Sua atenção dividiu-se entre a lâmina e a mão que a segurava.

— Solte-me.

Audrey não soltou a tempo.

Ela se desvencilhou num movimento brusco. Um instrumento caiu. A lâmpada oscilou, alongando a sombra do morto sobre a parede.

Seraphine alcançou a bandeja.

Reconheceu o bisturi pelo contato.

Audrey viu o gesto e recuou.

A lâmina passou de raspão pela orelha dele e fincou-se na parede à sua frente.

O som foi pequeno.

A interrupção, completa.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

O sangue surgiu junto à orelha de Audrey. Ele levou os dedos ao corte, olhou o vermelho e voltou-se para ela.

Seraphine respirava depressa.

Não gostou de perceber isso.

Gostou menos ainda de saber que ele também percebera.

— Você jogou um bisturi em mim!

— E não errei a mira. Guarde a espada, senhor Walker, ou a próxima não será de raspão.

A formalidade não existia mais.

Audrey abriu a boca mas a porta se abriu antes que ele falasse.

John apareceu e encontrou a cena inteira de uma vez: Seraphine junto à mesa, instrumentos no chão, sangue na orelha do intruso e uma espada onde deveria haver apenas uma bengala.

— Afaste-se dela.

Audrey se voltou.

Tudo aconteceu depressa demais para que Seraphine interferisse.

John ergueu a arma.

O disparo atingiu Audrey na perna.

O corpo dele cedeu com um grito curto. Sua mão procurou apoio, e a bengala perdeu por um momento qualquer aparência de elegância. O sangue começou a escurecer o tecido.

Seraphine acompanhou a mudança na postura, a tentativa de retirar peso da perna ferida, a contração do rosto.

Ainda estava avaliando se ele cairia quando Audrey se moveu.

Apesar do ferimento, conseguiu atingir John e alcançar a saída.

Seraphine ouviu o passo irregular no corredor, um impacto, depois o ruído se afastando.

O homem havia fugido.

Ela permaneceu junto à mesa.

A fumaça do disparo se misturava ao ar do necrotério. A lâmpada continuava a oscilar. Seu braço conservava a sensação dos dedos de Audrey, mesmo agora que ninguém a tocava.

Verificou se John estava bem. Após um tempo, ele recobrou a consciência.

— Doutora?

Seraphine olhou para John, depois para o cadáver. A mão manchada permanecia onde ela a deixara.

Precisou de um esforço consciente para lembrar em que ponto interrompera o exame.

— Ele se apresentou como policial — disse. — Não apresentou autorização. Tentou obter informações dos exames e sacou uma espada.

Cada frase podia constar de um registro. Nenhuma mencionava a pergunta sobre o relógio. John examinou o braço dela.

— Você está machucada?

— Posso cuidar disso.

Seraphine alisou a manga, recolheu as anotações e fechou a bolsa. Seus movimentos saíram cuidadosos demais, como se qualquer pressa pudesse revelar o quanto desejava deixar aquela sala.

Olhou uma última vez para o bisturi na parede.

Se Audrey pertencesse à Candela, alguém precisaria explicar por que chegara até ela sem saber responder.

Se não pertencesse, havia um homem armado procurando informações sobre os corpos e seu disfarce tinha sido descoberto.

As duas possibilidades exigiam que falasse com a Manteluz.

— John, leve-me embora, por favor. Não vamos descobrir mais nada aqui.

Ele assentiu.

Antes de saírem, ela pediu seu contato.

Guardou-o junto ao caderno.

Naquela noite, John havia atendido à ameaça que conseguira ver. Seraphine ainda teria de responder àquela que permanecia escondida.

***

Quando Audrey Walker entrou para encontrar a Manteluz, Seraphine já estava lá.

Ela ouviu o passo antes de vê-lo.

A irregularidade era discreta, mas suficiente para que levantasse os olhos. Audrey apareceu acompanhado de Marcos e Annabeth, a bengala novamente reunida numa peça só.

Seraphine olhou para a perna. Depois para a orelha. Por fim, para seu rosto.

Audrey parou. A mão se fechou no cabo da bengala.

— Você... (soltou entredentes).

Seraphine pousou o que estava segurando. O frio cínico tomou sua voz.

— Senhor Walker.

Marcos olhou de um para o outro. Annabeth percebeu a tensão antes de qualquer explicação.

Audrey voltou-se para a Manteluz.

— O que ela está fazendo aqui?

— O trabalho dela.

A resposta não lhe bastou.

— Aquela mulher tentou me acertar com um bisturi.

Seraphine ergueu ligeiramente o queixo.

— O senhor entrou num necrotério da DFI sob uma identidade que não comprovou, insistiu em acessar informações restritas e desembainhou uma espada.

— Eu fui buscar respostas sobre os corpos.

— E conseguiu acrescentar seu sangue à investigação.

Marcos se moveu, inquieto.

Audrey deu um passo na direção dela. A perna o obrigou a ajustar o apoio, e Seraphine viu sua irritação aumentar ao perceber que ela acompanhava o movimento.

— Seu amigo atirou em mim.

— O segurança do local encontrou um homem armado junto à médica responsável pelos exames.

— Você sabia que eu podia ser da Candela.

A acusação atingiu o ponto que ela preferia manter fora da conversa.

Seraphine sustentou o olhar.

— Suspeitei.

— E mesmo assim...

— Fiz uma pergunta, senhor Walker. O senhor não respondeu.

O silêncio que se seguiu foi diferente daquele do necrotério. Agora havia testemunhas.

Audrey olhou para a Manteluz.

Seraphine continuou:

— Eu estava dentro da DFI. Não podia abandonar meu disfarce porque um desconhecido demonstrou interesse nos mesmos mortos que eu!

— Ela está infiltrada sob minhas instruções — confirmou a Manteluz.

Audrey voltou a encará-la.

Seraphine viu a informação se acomodar com dificuldade. Não apagava o corte, o tiro ou a humilhação da fuga. Apenas retirava dele a explicação mais simples.

Ela não era uma funcionária hostil que desconhecia o perigo. Conhecia o suficiente para precisar escondê-lo.

— Podia ter dito quem era — ele insistiu.

Seraphine olhou para Marcos, depois para Annabeth, antes de retornar a ele.

— Dentro daquele prédio?

Audrey não respondeu de imediato.

A Manteluz interrompeu antes que a discussão encontrasse outro caminho.

— Vocês vão investigar o circo juntos.

Seraphine desviou os olhos para ela.

Audrey fez o mesmo.

— Com ela?

— Com ele? — perguntou Seraphine, quase ao mesmo tempo.

Annabeth soltou o ar devagar.

Marcos olhou para a bengala de Audrey e depois para as mãos da médica.

A Manteluz não se demorou na objeção.

— Os corpos, o que foi encontrado e o mistério do circo precisam ser investigados. Seraphine tem acesso e conhecimentos que o círculo vai precisar. Vocês têm trabalho a fazer.

Seraphine ficou em silêncio.

Havia perguntas que só poderiam ser respondidas no circo. A perspectiva de examinar novos vestígios de magika já começava a atravessar sua resistência, e isso a irritou. Queria recusar Audrey sem precisar recusar a investigação.

Não lhe deram essa possibilidade. Ele também compreendeu.

A bengala mudou de posição sob sua mão.

— Espero que consiga trabalhar sem jogar instrumentos nas pessoas.

Seraphine olhou para o cabo.

— Espero que consiga fazer perguntas com a espada guardada.

— Chega — disse a Manteluz.

Dessa vez, os dois obedeceram.

Annabeth se aproximou para ouvir o que Seraphine sabia sobre os corpos. Marcos permaneceu junto de Audrey. A conversa precisou continuar, apesar da hostilidade, e a médica abriu suas anotações.

Ao mencionar a tinta nos dedos, percebeu Audrey prestar atenção. Era o mesmo interesse do necrotério.

Agora ela podia observá-lo sem fingir que não compreendia. Isso não a tranquilizou.

Audrey fez uma pergunta. Seraphine respondeu. Ele pediu um esclarecimento, e ela virou o caderno para mostrar uma anotação, cuidando para que o gesto não parecesse uma concessão.

Por alguns minutos, conseguiram trabalhar. Então as mãos dos dois se aproximaram da mesma página.

Seraphine retirou a sua primeiro. Audrey percebeu. Nenhum deles comentou.

***

O circo os esperava.

Seraphine levaria seus instrumentos, suas anotações e a curiosidade que os corpos da ponte haviam despertado. Audrey levaria a bengala, a espada escondida e ferimentos que ainda lhe lembravam a primeira visita ao necrotério.

Marcos e Annabeth teriam de conviver com as respostas curtas, os olhares demorados e a formalidade excessiva que surgia sempre que um dos dois se sentia contrariado.

Seraphine ainda ouviria “doutora” como uma provocação em certas ocasiões.

Audrey aprenderia a reconhecer o perigo num “senhor Walker” dito com calma demais.

A Manteluz havia ordenado que se unissem. A confiança continuava por construir.

Naquela primeira reunião, Seraphine fechou o caderno e encontrou Audrey olhando para ela.

Dessa vez, não havia identidade falsa entre os dois.

Ainda assim, ela teve a impressão de que ele continuava esperando uma resposta que não estava disposta a dar.

E, pela maneira como a mão dele repousava sobre a bengala, soube que Audrey guardava perguntas que também não pretendia esquecer.