O Lorde das Rosas
7 O Herdeiro: lembranças amargas
Duas caixas chegaram à Gardenhall, endereçadas à Eugênio. Lady Evayne foi comunicada primeiro das entregas, esboçando certa preocupação em saber o que o sobrinho havia recebido. O chamaram e o indicaram a biblioteca, onde Archie e Theo haviam levado os caixotes de madeira lacrados.
Lady Evayne e Remsy observavam a entrega, com certa curiosidade eminente, mas também certo medo e receio. A matrona senhora, levemente preocupada com quantas manchas diferentes na honra dos Evayne ela poderia esperar com os objetos naquela caixa, esboçava uma feição nada alegre. Eugênio engoliu seco em sua presença, levemente constrangido. Lady Evayne cruzou os braços, aguardando explicações.
— São algumas coisas do Brasil, tia — ele respondeu, sorridente, tentando não parecer alegre demais e levantar suspeitas — Coisas de mamãe, algumas roupas que não pude trazer na mala, objetos importantes, coisas pessoais...
Lady Evayne suspirou, com um olhar desconfiado, trocou o olhar das caixas para o sobrinho e do sobrinho para as caixas, cerrando os olhos e murmurando “huum”.
— São duas caixas demasiadamente grandes para guardarem só algumas coisas — ela respondeu, desconfiada. Eugênio coçou a nuca, desconcertado — Vamos. Abra — ela ordenou.
Sabendo que não seria prudente discutir com a tirana, Eugênio coçou a nuca e se aproximou da primeira caixa. Com o auxílio de um martelo cedido por Remsy, retirou o lacre de pregos e removeu a tampa de madeira, revelando o conteúdo: algumas pastas cheias de papéis, livros empoeirados, roupas, tecidos, fotografias antigas, brinquedos e alguns instrumentos musicais. Eugênio sorriu como uma criança diante de magia, como a primeira vez que enxergou Gardenhall. Um sentimento único de saudade e nostalgia tomou seu coração e acalentou sua alma. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele não conseguiu segurar o choro, mexendo um pouco em cada coisa daquela caixa. Lady Evayne observou atentamente, tentando não invadir o espaço do sobrinho, mas curiosa com as coisas ali presentes. Pegou um violão meio surrado com a ponta dos tetos e ergueu, com certo nojo e receio.
— Isso é um... violino? — ela questionou, confusa. Eugênio, surpreso, deixou as fotografias de lado e pegou o instrumento da tia, tocando nas cortas e produzindo algumas notas meio agudas devido a desafinação.
— Quase — respondeu, afinando o instrumento com delicadeza — Se chama violão. Era da minha mãe... eu... — ele suspirou e sorriu admirado — Eu nem lembrava dessas coisas mais. Eram todas dela.
Aquilo desarmou Lady Evayne. Mesmo que, por muito, ela já estivesse inclinada a mandar Remsy pegar todas aquelas bugigangas e jogar num barranco, as palavras e o carinho que o sobrinho demonstrou por toda aquela parafernália aqueceram seu coração e lhe recordaram de sentimentos que ela mesmo nem se lembrava de ter.
— Estavam guardadas em casa desde que ela morreu — ele disse, por fim, dando uma explicação para a tia e perdendo o tom alegre — e como desde a morte dela eu permaneci no internato, fiquei quase cinco anos sem ver nada disso — afirmou entristecido.
Lady Evayne não tinha palavras para aquele momento. Sentiu uma pontada forte no seu coração, algo como arrependimento, compaixão e tristeza. Sua expressão, todavia, continuava fria como um bloco de gelo.
— Eu não entendi, espere — ela disse, por fim, com uma dúvida queimando seus pensamentos — Você ficou cinco anos sozinho... no internato? — ela questionou, com uma grande tristeza pesando sua consciência. Enxergando a culpa tomar a tia, Eugênio forçou um sorriso de contentamento e olhou para ela.
— Sim, mas tudo bem, já passou — respondeu, forçosamente sorridente. Aquilo não deixou Lady Evayne menos entristecida — A senhora não sabia? — ele questionou. Os olhos de Lady Evayne marejaram em lágrimas furtivas.
— Não — ela respondeu, sentindo um imenso vazio. Eugênio enxugou as próprias lágrimas, juntou o violão ao peito e começou a tocar uma melodia. “Sempre pensei que você estivesse com pessoas de sua família, ou mesmo com seu pai” ela pensou em dizer, mas não o fez.
— Não importa mais — ele disse, por fim, esperando uma resposta acalentadora, mas ela não veio. Lady Evayne não tinha desculpas para sua ignorância. Ela simplesmente não sabia, mas também não era inocente, já que nunca se atentou a saber. Eugênio deixou o violão de lado e se aproximou da próxima caixa, abriu e revelou o conteúdo, com um sorriso e uma risada contagiante, tentando mudar o clima — Ah! Que bom! Não ia conseguir viver aqui sem isso! — ele afirmou, tirando da caixa sacos e mais sacos de diversos consumíveis: feijão, café preto torrado e farofa de mandioca. No fim encontrou um saquinho e esboçou um olhar desacreditado — Não acredito! Achei que ele ia esquecer...
— Ele? — Lady Evayne questionou, despertando de seu transe, não menos imersa no vazio e na tristeza, mas tentando se integrar ao momento. Eugênio ignorou o questionamento da tia e sorriu, contando as sementes de dentro do saquinho — O que seria isso, José Eugênio?
— Semente de caju — ele respondeu, sorridente — É uma árvore muito comum lá em Salvador. Será que cresce aqui? — ele questionou. Lady Evayne forçou um sorriso e deu de ombros, trocando olhares preocupados com Remsy.
— Toda comida do mundo nessa cozinha e você ainda assim trouxe mais — ela afirmou, forçando uma irritação, mas com um tom comedido de divertimento. Depois, deixou a biblioteca lentamente — Guarde tudo. Não suje a biblioteca — ela afirmou antes de sair, e, quando se viu sozinha, chorou pensando em tudo.
Archibald Sprout estava ajudando Eugênio no desempacotamento e a guardar os objetos chegados do Brasil, ao mesmo tempo conversavam sobre a vida do rapaz antes de Gardenhall. O valete não conseguia conceber a vida de alguém, sozinho, preso em um internato por cinco anos ininterruptos.
— Mas foi assim — Eugênio disse, um momento, enquanto tocava algumas notas pelo violão, sentado na beirada da cama. Archie desempacotava alguns manuscritos e colocava numa escrivaninha de madeira polida — Como eu era menor e eles recebiam para me dar educação, não me permitiram ir embora — afirmou, com um sorriso forçado — não que eu tivesse muita opção, aliás. Tive sorte de ter o internato. Sem ele teria passado cinco anos nas ruas de Salvador.
— E quanto a sua mãe? — ele questionou, com um olhar compadecido — Você disse que não foi no enterro, não?
Eugênio anuiu com um olhar amargo de um coração extremamente machucado. Lágrimas ameaçaram marejar seus olhos, mas ele se fez firme e forte. Não tinha a opção de ser fraco.
— Só soube de sua morte uma semana depois — ele respondeu, por fim — Nós não tínhamos muitos conhecidos ou amigos próximos e eu passava os dias de semana no internato, só voltava nos fins. Ela morreu numa segunda, pelo que disseram, assim que fui pro internato. Encontraram, enterraram... — ele suspirou profundamente, produzindo uma nota aguda e triste com o violão, sem conseguir olhar nos olhos de Archie — Mas nenhum vizinho sabia onde eu estudava. Só descobri quando cheguei em casa no sábado... Chamei. Chamei muito quando cheguei — ele sorriu com lembranças felizes — Nós tínhamos essa coisa, essa “energia”, sabe? Sempre que a gente se encontrava, mesmo quando passávamos só minutos afastados, nós gritávamos e corríamos para nos abraçar.... — então ele se calou e observou o além pela janela — Mas ela não me respondeu naquele dia... — Eugênio fungou e limpou uma lágrima mais rebelde que percorreu sua face e molhou a cama.
Archie estava sem palavras. Sentia uma grande dor no coração e uma grande mágoa nos pensamentos, extremamente entristecido e compadecido, mas tentando se manter firme.
— Sinto muito, senhor — ele disse, por fim, com um olhar amistoso que denotava toda veracidade de seu sentimento. Eugênio encontrou os olhos do amigo e sorriu, agradecido.
— Tudo bem eu... — ele suspirou e deixou o violão de lado, caminhando pelo quarto e indo até a caixa cheia de papéis — Já faz muito tempo... Só fiquei emotivo pela lembrança. Tudo isso era dela... E eu não via desde que tinha doze anos — afirmou, sorridente, com os papéis em mãos — Ela era brilhante. Extremamente criativa. Era escritora de romances. Tudo isso são manuscritos dela. Pretendo publicá-los, um dia.
Archie sorriu, se levantou e deu um tapinha no ombro do amigo, com um olhar significativo, exalando todo seu compadecimento.
— É uma atitude muito bonita, senhor. Tenho certeza que, onde quer que ela esteja, ela estará feliz — disse, por fim. Depois, voltou seus olhos para a caixa e observou uma pequena imagem, uma estatueta de uma mulher negra, coberta por um manto dourado. Arregalou os olhos, curioso, e a pegou, envolvendo-a em mãos com tamanha delicadeza. — Isso é...
— Nossa senhora aparecida! — Eugênio exclamou, sorridente, explodindo em êxtase e surpresa, enquanto pegava a santa das mãos de Archie e observava, encantado, com olhos iluminados — Meu deus! Eu achei que tinha te perdido! Mas você nunca se perdeu de mim — ele disse para a santa, com um sorriso tão grande que seria impossível esconder. Archie observou, curioso e confuso. — Essa santa era dela também... Bem, era nossa. Eu nunca mais a tinha visto... — ele sorriu, pegou a santinha e colocou na mesinha ao lado de sua cama, com toda delicadeza e cuidado possível. Depois, fez o sinal da cruz e começou a rezar, em silêncio. Archie olhou para os lados, coçou a nuca e pensou que era a deixa para que fosse embora e deixasse Eugênio sozinho, com sua fé, e assim o fez. Antes de sair, todavia, olhou para o amigo mais uma vez, ajoelhado diante da imagem, e esboçou o sorriso mais sincero e espontâneo de sua vida.
Sra. Swan não parava de reclamar um só segundo do preço das cebolas e sobre como elas vinham cada vez mais murchas da feira. Elizabeth se desdobrava para aguentar as reclamações da cozinheira, bem como para dar conta do seu trabalho dúbio — o de assistente de cozinha, oficialmente, e o de espiã e amante de Stephan Callum nos tempos livres. Lylia analisava a lista de compras junto da cozinheira, observando os objetos que acabavam de chegar em enormes caixas trazidas pelos rapazes da mercearia, e marcando o que chegava e o que faltava — além, é claro, dos ingredientes desconhecidos que acabavam de chegar do Brasil.
Archie se juntou a elas na cozinha, sentou-se num canto e ficou extremamente pensativo, quase aéreo e aluado, com a cabeça cheia de ideias desconexas. Lylia o chamou três vezes, para só na quarta ele ouvir e despertar.
— Desculpe — ele disse, por fim. Lylia riu baixinho.
— Acordou no mundo da lua hoje?
— Estava pensando no senhor José Eugênio — ele disse, por fim. As mulheres pararam o que faziam de imediato, erguendo as orelhas e aguardando para saber do que se tratava — Tanta coisa que esse rapaz passou, Lylia. É impensável. Como alguém tão jovem pode ter sofrido tanto?
— Queria eu sofrer sendo herdeira de uma das maiores fortunas da Grã-Bretanha — Elizabeth disse, extremamente antipática. Lylia lhe encarou com um olhar de reprimenda, e questionou a Archie o porquê de suas palavras. O valete contou as senhoras a história de José Eugênio, as deixando extremamente perplexas e compadecidas, até mesmo Elizabeth, chocando a todos ao demonstrar que tinha um coração.
— Que lástima — Lylia disse, por fim, com um olhar melancólico e uma aura cinzenta — E quem diria algo assim? É um rapaz tão sorridente, amigável, caloroso. É verdade o que dizem que não se conhece o fardo de um homem por suas cicatrizes externas, mas sim pelas internas — ela afirmou, convicta.
— Penso que ele tenta se fazer de forte a maior parte das vezes, afinal, é jovem e todo jovem quer que o considerem invencível e inquebrável — Archie afirmou —, mas, no fundo, é possível enxergar um vazio. Como se ele não conseguisse ser plenamente a pessoa que é de verdade por razões até então desconhecidas.
A sra. Swan concordou, enquanto limpava as lágrimas do rosto vermelho de tanto chorar. Ela era uma senhorinha exaustivamente emotiva.
— Pobre, pobre senhor... — ela repetia freneticamente — Felizmente ele não está mais sozinho no mundo...
Archie suspirou e arqueou as sobrancelhas, pensativos.
— Imagine se Lady Evayne não tivesse enviado a carta pedindo seu regresso... — ele afirmou, pensativo — Ele me contou que era seu último ano no internato... Depois disso... — ele suspirou, assustado com as próprias reflexões — A carta veio no momento mais oportuno possível.
— É bom saber que ele tem pelo menos ela no mundo — Lylia afirmou, compadecida — Mas me choca saber como Lorde Willhem pôde ter abandonado a esposa e o filho assim — ela disse, por fim, estupefata. A sra. Swan esboçou um olhar como se já esperasse por algo assim. Archie e Elizabeth não conheciam o pai de Eugênio para tirar conclusões.
— Aquele lá só se importa com duas coisas: boemia e libertinagem — a sra. Swan disse, por fim, limpando as lágrimas e voltando a seus afazeres, extremamente desgostosa só com a menção de Willhem Evayne. — Os mais novos em Gardenhall não devem se recordar, Archie ainda era uma criança e sua mãe ainda era a governanta, Lylia, mas o Sr. Sprout e Remsy com certeza se lembram. Lorde Willhem era o terror de Lorde Evayne, bem como do pai, George Evayne.
— A Rosa dos Ventos? — Archie questionou, com um olhar curioso, referindo-se ao apelido de George Evayne, pai de Willhem e avô de Eugênio — ele era uma lenda. Diziam que viajou para todos os cantos do mundo quando jovem...
A sra. Swan suspirou e concordou com um olhar distante.
— Era um homem extremamente honrado, mas muito orgulhoso e complicado... Vivia um atrito intenso com Lorde Willhem, uma relação de amor e ódio. Sempre acreditei que um dia um mataria o outro, se não se separassem — ela suspirou — Graças ao bom deus Lorde Willhem foi embora e George Evayne pôde descansar nos últimos anos de sua vida.
Elizabeth deixou os afazeres de lado e se aproximou, curiosa.
— O que Lorde Willhem fazia de tão grave? — ela questionou.
— Oh! Tantas coisas que seria impossível enumerar — ela afirmou — Além de passar dias inteiros, as vezes meses, longe de casa, na bebedeira com mulheres e, deus me perdoe, mas diziam que até homens... Fazia tudo para jogar o nome da família na lama. Não fosse a influência de Lorde George abafando seus escândalos, hoje Gardenhall seria o lar da família mais mal falada da Grã-Bretanha. Eles viveram assim, nesse constante ódio. Lorde Willhem tentava a todo custo tirar o pai do sério e depredar tudo que ele construiu, se envolvendo em polêmicas, desonra e escândalos. Então o pai, preocupado com o bom nome dos Evayne, movia mundos e fundos para calar as pessoas — a sra. Swan fez uma pausa e cruzou os braços — Muitas coisas sequer saíram de Gardenhall. Lorde George construiu a riqueza de muitos homens para que eles não falassem demais sobre os Evayne.
— E quanto a mãe de Eugênio? — Lylia questionou, curiosa — Maria... eu me lembro dela...
— Sim, Maria. Era uma moça muito gentil. Veio à Collins apenas uma vez, muitos da cidade sequer se lembram dela — ela respondeu, mexendo numa panela — A ira do pai obrigou os dois a ficarem em Londres, escondidos de Lorde George. De todos os escândalos que Willhem criou, esse era o mais arriscado — ela sorriu — e justamente esse eles não conseguiram esconder. Maria estava grávida... e, para a felicidade de Lorde George, o filho seria um bastardo sem direitos. Mas então interviram Lady Evayne e Lorde Evayne, que na época já tinham uma idade avançada e já sabiam que não teriam filhos próprios, fazendo com que Willhem e Maria se cassassem às pressas, sob a lei de Deus e da Inglaterra. Eugênio nasceu em Londres e conseguiu fugir antes que o avô descobrisse de sua legitimidade. Lorde George por muito disse, após os três terem partido para o Brasil, que se tivesse a chance iria atrás deles e mataria cada um, sem nenhuma pena.
Até mesmo Elizabeth ficou chocada com essa história. Sentir compaixão por Eugênio era inevitável, pós tudo que ele havia vivido antes mesmo, inclusive, de ter chegado a esse mundo. Lylia sentia um aperto no coração. Archie sentia um calafrio na espinha. A sra. Swan não gostava do peso dessas recordações.
Um silêncio se instaurou na cozinha por alguns instantes, deixando todos levemente incomodados. Elizabeth, então, pediu licença e avisou que precisava ir ao vilarejo buscar um vestido na costureira. Despertados de seus pensamentos, os empregados de Gardenhall voltaram a seus afazeres.
Lady Evayne estava desesperada, novamente. Eugênio não fez o mínimo esforço para acalmar a tia, pois sabia que seria em vão. Então, se calou e observou atentamente enquanto ela rodeava para lá e para cá no salão principal, com um olhar pensativo e preocupado, repetindo coisas desconexas como: Trágico! Tragicíssimo!
Thomas Blonte se aproximou dos dois, em silêncio, e se preocupou por um instante, acreditando ser a razão daquela demonstração de angústia, mas, no fim, sabia que não tinha feito nada de ruim. O mês ainda estava no meio e Eugênio já estava evoluindo em conhecimentos.
José Eugênio observou o professor do outro lado do salão. Usava uma rosa vermelha presa ao bolso, deixando transparecer o fato de que ele estivera no jardim — e, uma coisa que Eugênio percebeu com o tempo e com muita observação, era que Thomas só deixava os livros e ia para os jardins quando precisava refletir. Essa dedução deixou o garoto com uma leve curiosidade, mas ele se manteve calado, trocando olhares distantes com o professor, tentando trazer significado para seu sentimento, mas sem ultrapassar os limites de sua coragem.
— Remsy, pelo amor de deus. Quem autorizou essa sandice? — Lady Evayne disse, por fim, quebrando o jejum de palavras diretas. Remsy arregalou os olhos, assustado.
— Milady... Eles se autorizaram! — ele respondeu, assustado. Lady Evayne segurava um bilhete mal escrito, meio amassado e sujo. Ela suspirou.
— Então não nos resta nada além de acatar — ela afirmou, irritada, se jogando no sofá, como se forçasse um desfalecimento dramático. Eugênio e Thomas se entreolharam e quiseram rir, mas nada fizeram — O que uma rosa tem de fazer para ter um pouco de faz? Ser podada pelo jardineiro?
— Tia, o que aconteceu? — Eugênio questionou por fim. Lady Evayne tirou os óculos e alisou a testa.
— Os Callum aconteceram — ela afirmou, irritada — eles se convidaram para um jantar em Gardenhall — ela disse. Eugênio olhou para Thomas, esperando uma explicação sobre quem eram, mas nem o tutor sabia.
— Quem?
— Os Callum de Borken — Lady Evayne respondeu, se levantando e voltando a caminhar em círculos — São, bem... velhos amigos da família — e o tom que ela usou para dizer “amigos” denotava tudo, menos amizade — parentes distantes, também.
— A senhora não me parece tão feliz por receber tais amigos — Eugênio afirmou. Lady Evayne jogou o bilhete no chão.
— Fazer o que? São os Callum! Não existe família mais desagradável em Devon. Não, não são pessoas ruins, de fato, são amigáveis até demais, com exceção do crápula de Stephan, mas — ela fez uma pausa dramática e suspirou — Oh! São pessoas muito exageradas. Tem o espírito da plebe dentro de si. Não falam: gritam. Comem como animais, nos tocam demais, falam demais, se oferecem demais... Sem falar que não param de se multiplicar. Remsy, são quantos até o momento?
— Dez, milady.
— Dez Callum no mundo. Doze com Gerald e Calibana — ela disse, assustada — E tenho certeza que esse número não vai parar por aí. Talvez devêssemos lhes presentear com alguns livros ou lhes ensinar maneiras mais apropriadas para se passar o tempo — Lady Evayne comentou, venenosa e ácida como sempre. Eugênio riu.
— Parecem pessoas curiosas — Thomas Blonte disse, por fim, tentando ser interessante.
— Com certeza para algum pesquisador da natureza humana, como Darwin e Freud — ela afirmou por fim — Eles não têm modos. Cada vez que se convidam à Gardenhall é necessário um cuidado extra para absolutamente tudo, principalmente para que não fiquemos mal falados por esses lados — Lady Evayne suspirou e cerrou os olhos, alisando as têmporas e pensando. — Mas o que está feito, feito será. Prepare o jantar, nada muito pesado. Sabemos como o estômago Lorde Callum é — ela gesticulou um olhar de nojo, como se sentisse um odor desagradável. Eugênio explodiu numa gargalhada, mas abafou a tempo — Preciso de um resumo de cada um dos filhos, me esqueci de todos. Remsy cuide para que Stephan Callum não bote os pés em Gardenhall... Ah, e claro, faça o mesmo resumo para Eugênio e Thomas. Não quero que eles se aproximem dos Callum errados.
Thomas arqueou as sobrancelhas e sorriu para Eugênio, num tom cômico. Mais tarde encontraram-se com Remsy na biblioteca, onde o mordomo segurava uma lista perfeitamente organizada, com toda a força de seu orgulho, rente ao peito.
— Senhores — ele disse, pedindo para que se sentassem. Thomas e sentou no sofá e Eugênio, prontamente, se sentou do lado dele. Estavam tão próximos, mas tão próximos, que um podia ouvir as batidas do coração do outro. O professor ficou levemente constrangido, mas não fez menção a se afastar. José Eugênio se divertia com a timidez e a vergonha dele, aproveitando cada momento ao lado do tutor. Ele cheirava à chá e sal, o odor comum de um homem depois de um dia trabalhando (O que inebriava os sentidos de Eugênio, o tornando completamente cativo do próprio olfato, tão enfeitiçado por aquele cheiro, tão viciante quanto ópio ou álcool). — Bem, comecemos — ele limpou a garganta e começou — Sr. Gerald Callum E Sra. Calibana Callum, não são nobres, então comecemos por aí. Gerald Callum é apenas um cavalheiro. Tem dez filhos, sete meninas e três rapazes. As meninas são, em ordem de nascimento, Anastácia, Cornélia, Bridget, Demétria, Seraphine, Kahlen e Juliet. Os meninos são Stephan Callum, e peço que não mencione esse nome para Milady, Bastien e Peter — cheio de si e completamente envolvido pela própria grandiosidade, Remsy continuou dando mínimos detalhes e explicações sobre a família Callum, que viria os visitar na próxima semana. Eugênio, todavia, tinha coisas mais importantes para pensar, como os olhos do tutor, tão vagos e distantes, mesmo tentando parecer tão concentrados no discurso do mordomo. Thomas Blonte, por outro lado, tinha coisas demais na cabeça e faria tudo para se livrar das próprias preocupações, mas não conseguia se distrair com nada, nem com aquela entediante e continua explicação dada por Remsy.
Num instante entre o momento que ele percebeu que não estava se concentrando o suficiente na conversa e quando percebeu os olhares vorazes de Eugênio sobre si, Thomas sentiu um calafrio inesperado percorrer sua espinha — e, em razão de um sentimento desconhecido, gostou da atenção incomum vinda de seu aluno. Sentiu seu coração acelerar um pouquinho, sua garganta ficar seca, um calafrio percorrer sua espinha e sorriu, de maneira involuntária, recebendo um sorriso de Eugênio, mais sádico e resiliente, em resposta.
Stephan Callum encontrou Elizabeth no mesmo casebre de outrora. A mocinha estava aflita, chegou correndo e suando frio. O rapaz estava com um olhar confiante e sorridente demais, o que a fez ficar confusa.
— Stephan? Qual é a urgência? — ela questionou, surpresa e tendendo a se irritar. Stephan arregalou os olhos e sorriu.
— Descobri que meu pai vai fazer uma visita à Gardenhall — ele afirmou, sorridente. Elizabeth revirou os olhos — Que foi?
— Você me mandou um bilhete, correndo o risco de saberem de nós dois, só por isso? — ela respondeu, irritada. Stephan fechou a cara como uma criança emburrada e deu de ombros. Elizabeth suspirou — Stephan não podemos correr esse tipo de risco por coisas tão bobas! Cedo ou tarde eu saberia disso, não precisava se expor assim por nada... — ele continuava calado e irritado — E, além do mais, seu pai ainda não quer te ver nem pintado de ouro. Não cometa a idiotice de dar as caras em Gardenhall — Stephan deu de ombros, com uma expressão de irritação.
— Tanto faz — ele disse, por fim. — Só queria voltar a ver minha mãe — respondeu. Elizabeth suspirou e coçou os cabelos.
— Tudo bem — ela respondeu, compadecida — Dou um jeito para que você se encontre com ela... Mas nada além disso. Não podemos por nosso plano em risco! — ela afirmou, convicta. Stephan sorriu para ela, se iluminando imediatamente. Os dois se olharam e lá no fundo Elizabeth sabia que isso lhe traria grandes problemas.
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