O Lorde das Rosas
8 A fofoca: flores e abelhas
Cassandra Kieran chegou bem cedo naquele dia. A angústia e ansiedade em seus olhos, bem como a voracidade com que bebia o chá na mesa enquanto aguardava a tia, revelavam que ela tinha uma fofoca — e das boas — para compartilhar. Eugênio aceitou a difícil tarefa de lhe fazer companhia, aguentando seus comentários contínuos e extremamente venenosos. Na realidade tinha parado de prestar atenção no que ela dizia nas duas primeiras palavras, se limitando a pensar em coisas mais interessantes, como Thomas Blonte e seu aroma perfumado, doce e salgado. Num instante começou a observar Cassandra, coisa que não fizera desde que chegara em Gardenhall, tendo estado tão esparso e aluado. A moça — que já não era tão moça — era a mais nova de outras duas irmãs, ambas casadas há décadas, com filhos e famílias formadas. Não que Cassandra fosse feia, o que alguém dificilmente diria: era dona de uma beleza abstrata, forçosamente recatada e ingênua. Mesmo assim, era a solteirona da família, talvez por respeito aos pais, que precisavam de alguém que lhes cuidasse na velhice, ela não havia de ter sido dada ao casamento. O Sr. E a Sra. Kieran já eram de certa idade e Cassandra devia ter seus trinta ou quarenta anos — e, levando em conta que nessa época as moças costumavam casar entre os dezesseis e os vinte cinco —, ela estava beeem atrasada no relógio da vida. A idade começava a pesar para ela, que já aparentava olheiras e cabelos mais turvos — talvez o fruto de tanto veneno despejado gratuitamente, espalhando por aí, de uma maneira hipócrita, as fofocas e escândalos de Collins.
Mesmo assim Eugênio gostava dela. Ela era hipócrita e fofoqueira, mas era uma pessoa divertida de se ter por perto, além, é claro, de ter sido a primeira verdadeiramente gentil e amigável. A teoria que José Eugênio criou foi a de que Cassandra não devia ter muitos amigos, já que passava todo seu tempo com Lady Evayne ou fazendo visita a outros velhos Lordes, então, quando ele chegou, encontrou a perspectiva de uma primeira amizade (Jovem). A dama de Cassandra, Diana, parecia ser extremamente fria e desagradável, obviamente fazendo o que fazia só pelo dinheiro, sem nenhum apego emocional.
Lady Evayne desceu as escadarias e se juntou aos dois para o chá. Cassandra mal esperou a madrinha sentar e já anunciou o novo escândalo de Collins:
— Mais alguém foi exposto no painel dos segredos — ela afirmou, com olhar brilhante e um sorriso forçosamente debochado. Lady Evayne se fez de desinteressada, pegando biscoitos e chá, comendo, bebendo e ignorando a fofoca, mas de orelha em pé, pronta para ouvir tudo.
— E quem foi a vítima dessa vez? — Eugênio questionou, curioso.
— Uma certa Margarida — ela respondeu, com um sorriso misterioso, com sobrancelhas arqueadas e olhar profundo — A carta não era uma poesia, apenas um curto versinho. Dizia algo como: “uma certa margarida tem recebido a visita de muitos beija-flores. Ou talvez seja o contrário: A flor tem muito visitado o ninho” — Lady Evayne ergueu as sobrancelhas, surpresa, mas nada disse, apenas murmurando algo. Eugênio não fazia ideia de quem se tratava, então ficou aguardando uma explicação.
— Lorde Ravensword, de Downstar — Thomas Blonte disse ao se juntar ao grupo, chegando às costas de Eugênio e dando-lhe um agradável aperto no ombro, que fez todos os pelos do rapaz se arrepiarem como se tivesse levado um choque — A tal margarida, não? — questionou. Cassandra confirmou.
— E os beija-flores, bem, há quem teorize que se tratem as moças da Casa Bloom — ela afirmou, com um olhar curioso. Thomas riu baixinho, como se já estivesse por dentro de tudo. Lady Evayne permaneceu em silêncio. Eugênio olhou para os três, desentendido, buscando explicações.
— Que seria...? — ele questionou, impaciente.
— O clube masculino de Collins, se é que me entende — Cassandra disse, por fim, com um riso diabólico — Não fica bonito para que uma dama utilize o nome vulgar.
— É um prostíbulo — Lady Evayne afirmou, sem papas na língua, extremamente impaciente. Depois, deixou o chá e os biscoitos de lado, ergueu um dedo e apontou para Eugênio — José Eugênio Silva Evayne, você não OUSE sequer PENSAR em ir num lugar desses. Do contrário vai perder seu título antes que acorde de seus sonhos. Entendido? — Eugênio riu baixinho e olhou para Thomas, pensando: “Não existe nada naquele prostíbulo que eu desejo, pois a única pessoa nos meus pensamentos está dividindo a mesa comigo”. Mas, no fim, só disse:
— Sim titia — mas esse não era o fim do assunto, já que Eugênio, quando ficava curioso com algo, dificilmente se absteria de sanar a própria curiosidade... E ele estava relativamente interessado em toda essa história de beija-flores, margaridas e mulheres da vida.
Thomas subiu para a biblioteca e pediu que Eugênio fosse em seguida, para que pudessem retomar as lições do dia anterior.
A aula correu bem, como todas as outras vinham correndo já há quase duas semanas, bem até demais para Eugênio, que estava cansado do marasmo entediante onde não acontecia nada de novo. Por tanto ele imaginara situações irreais e ardentes com o professor, como beijos escondidos sob as escadarias, troca de calor sob os cobertores dos quartos vazios de Gardenhall, fazendo coisas libertinas meio as flores do labirinto do jardim, etc. Todavia, entre eles não ocorreu nada mais que uma troca de olhares mais profundos e um clima tenso, tão palpável que poderia ser cortado com uma faca.
Thomas não ultrapassava a linha do profissional, por mais aberto que Eugênio se mostrasse para isso — e isso vinha se tornando levemente frustrante. José Eugênio, por outro lado, tinha muito receio de tomar uma atitude mais ousada e ocasionar um escândalo, bem como — no pior dos cenários, segundo si próprio — a demissão de Thomas. Por alguma razão desconhecida, Eugênio havia percebido que ele guardava algum segredo que o enchia de medo e desespero, tendo o trabalho em Gardenhall sua única salvação. O professor, inclusive, havia começado a se retrair, parando de ficar flertando abertamente com todas que atravessavam seu caminho, desde que fora vítima daquela brincadeirinha inocente no jantar.
Thomas Blonte estava concentrando lendo numa poltrona, com as pernas cruzadas como um lorde inglês, enquanto Eugênio se sentava exatamente à sua frente, não tão delicadamente quanto o professor, com as pernas abertas e despojado sobre o sofá de veludo vermelho, fingindo ler um livro de literatura inglesa, enquanto mordiscava uma caneta e observava o professor sobre as páginas de seu livro, nada sutil. Um silêncio continuo reinava na biblioteca — era o momento do ócio criativo, como Thomas chamava os descansos em que a mente continuava funcionando. Eles não estudavam, mas liam alguma coisa por diversão. Eugênio até gostava desses momentos... Mas como diabos ele poderia se concentrar num livro com um homem usando roupas tão justas, marcando todo seu corpo, com pernas tão grossas e rosto tão... beijável... há menos de um metros de si? Talvez a última coisa que ele tenha lido com concentração total foi o título do livro — mas nem isso ele lembrava mais.
— Eugênio — Thomas chamou, inesperadamente, sem erguer os olhos do que lia. José Eugênio se surpreendeu e arregalou os olhos, surpreso. Eles nunca conversavam durante o ócio criativo, aliás, vendo por esse lado, eles mal conversavam como pessoas comuns, limitando seu contato as aulas, encontros casuais na mesa de café, almoço e jantar, e cumprimentos trocados antes de dormir (Já que faziam o mesmo caminho para o quarto, em silêncio, claro). A tensão entre os dois os tornavam animais assustados e covardes. Mas, então, Thomas disse seu nome durante um momento incomum.
— Thomas — Eugênio respondeu, forçando uma voz séria e centrada. Thomas ergueu os olhos do livro e encarou seu pupilo, com um olhar sagaz e direto, com uma sobrancelha erguida e um olhar desconfiado. Eugênio engoliu seco e sentiu partes do seu corpo enrijecerem.
— Você está pensando em ir naquela casa Bloom, não é? — ele questionou, por fim. Eugênio ergueu os olhos, surpreso e sem palavras. Pensou em inventar uma desculpa e mentir de cara, mas o olhar sério e direto de Thomas sobre si o desarmou por completo. O rapaz engoliu seco e alisou a nuca, correndo para desviar o olhar para o livro.
— Não... eu... não — respondeu, forçando uma convicção tão falsa quanto possível. Thomas suspirou.
— Bom, não está mais, pelo menos — Thomas afirmou, com um tom amargo e pesado nas palavras. Eugênio ergueu os olhos, leve e inesperadamente irritado com a maneira com que o tutor lhe falou — Não esqueça que minha continuidade aqui depende do seu bom comportamento tanto quanto do seu aprendizado. Se Lady Evayne descobrir ou sequer passar por sua cabeça que você foi num lugar desses, minha cabeça vai sair rolando pelas escadarias de Gardenhall, ou pior, ela pode simplesmente me botar pra fora.
— Você é inteligente, Thomas, por que tem tanto medo de perder esse emprego? — Eugênio questionou, direto nas perguntas que vinha teorizando já há alguns dias. O rapaz cerrou os olhos num semblante desconfiado, deitou a cabeça sobre as mãos e encarou o professor — Ou melhor, por que você tem medo de ir à Londres? — ele questionou. Thomas arregalou os olhos, surpreso, e ajeitou a gola da camiseta, que, momentaneamente, pareceu lhe enforcar como uma corda.
— Não é nada disso — ele respondeu, com uma veia saltando no pescoço. Era isso sim, Eugênio sabia — Você é jovem, senhor, não sabe dos perigos de um lugar assim. Só não quero que caia sobre mim a responsabilidade de algo que lhe aconteça. Sou seu tutor, mas também sou responsável por você.
Eugênio sorriu num tom de deboche.
— Então é só isso que eu sou pra você? Uma responsabilidade — ele engoliu seco, arqueou as sobrancelhas forçando um olhar decepcionado e suspirou — Nossa. Achei que você se importasse comigo de verdade, não só com o medo de perder seu emprego — ele disse, numa melancolia e numa carência afetiva extremamente exagerada, visivelmente teatral, quase como um dos dramas de diva de Catharine di Coucou. Thomas Blonte não se deixou abalar, encarou o rapaz com olhos inexpressivos, que, ao passo que significavam nada, podiam significar tudo, e nada disse. O silêncio foi se tornando de constrangedor para assustador, chegando um instante que Eugênio mal conseguia sustentar seu olhar, com um arrepio correndo por sua espinha.
— Senhor. José Eugênio — Thomas disse, cortando o silêncio. Tentava, absurdamente, se manter frigido e sério, não querendo transparecer os próprios sentimentos. Eugênio, com um olhar assustado e tímido como de um filhote, observou o tutor numa tênue suplica por coisas inalcançáveis. Suas írises negras extremamente agradáveis hipnotizavam Thomas e lhe preenchiam de um sentimento confuso — Eu, sim, me preocupo muito com você. Pois quando te vejo só consigo me enxergar quando mais novo. Me vejo muito em você, é o que tenho tentado dizer.
Eugênio riu, nervoso.
— Em que, exatamente? — ele questionou, num tom de deboche, tentando forçar graça em tudo aquilo. Thomas, por outro lado, se manteve calado e sério.
— Em muito. O mesmo ímpeto sagaz, a mesma vivacidade, a mesma inclinação para o questionamento do que já é aceito como comum... Me vejo em você nas inseguranças, na perspectiva de estar destinado a coisas que não sei exatamente se serei suficiente para cumprir, no medo de tropeçar no caminho e não conseguir me levantar, em estar cercado de víboras... — Thomas fez uma pausa e suspirou — Me vejo em você nos desejos que ficam explícitos pelos seus olhares. Talvez essa seja a parte que mais me dá medo, tanto de mim, quanto por você.
Eugênio estava sem palavras. Mal conseguia piscar, encarando o professor continuamente, sem sentir desconforto, vergonha ou medo, mas só uma grande tensão se construindo e aproximando seus corpos. Thomas tentava não demonstrar quaisquer sentimentos, mesmo tendo uma tempestade deles destruindo seu coração naquele instante.
— E não estou tentando presumir que aquilo que eu desejo é o mesmo que você deseja — ele disse, por fim, coçando os olhos — Mas, sendo ou não, me assusta como... me assusta como... — ele não tinha palavras, ou não tinha coragem para dizer o que queria dizer. Ele abaixou o rosto e encarou as próprias mãos — Só estou tentando dizer que eu já fui como você... E, se hoje, eu dependo exclusivamente da boa vontade de uma Lady e da cooperação de seu sobrinho para poder sobreviver, minimamente, pois já não tenho outras opções... é reflexo das minhas péssimas escolhas. Não quero que você as tome e acabe como eu, um dia.
— Por que você se mantem sempre tão afastado? — Eugênio questionou, inesperadamente. Thomas ergueu os olhos para ele e engoliu seco.
— Porque ainda posso errar — seus olhares se cruzaram no profundo de suas almas, como um eclipse dos dois astros reis. Lua e sol. Aço e fogo: reação perfeita. O negro e o azul de seus olhos. A escuridão que havia em um foi iluminada pela luz do outro. Magnetismo natural os envolvia. Havia tanta tensão naquela biblioteca, entre aqueles dois corpos, que moveria uma usina elétrica. — E isso é o que me dá medo, de verdade.
Eugênio se precipitou e deitou parte do busto sobre a mesa que os separava, deixando seus rostos bem próximos, com um olhar confiante e ausente de dúvidas. Thomas não recuou, mas precisou se segurar.
— Eu não tenho medo das consequências, menos ainda as minhas escolhas — ele disse.
Thomas riu, ergueu sua mão e passou o dedo indicador pelos lábios do seu aluno, com uma delicadeza contagiante e eletrizante, sem tirar seus olhos do dele. Depois, se afastou repentinamente, pegou o livro que lia e observou Eugênio de longe.
— Eu tenho. Pois quando estava no seu lugar não tive — ele afirmou, com um olhar ligeiramente entristecido — E olhe onde estou agora: te suplicando para que não vá a uma casa de prostitutas. Eu sei que você sente alguma coisa por mim, não estou presumindo o que é, pois tento não pensar muito nisso... Mas, por isso que você sente, eu peço que você não faça uma coisa estupida que vai machucar tanto a mim, quanto a si.
Eugênio olhava Thomas de longe, sentindo que havia deixado escapar por entre os dedos, enquanto ele deixava a biblioteca. O professor, todavia, voltou antes de sair, olhou para o pupilo e disse:
— Tenha certeza do que você sente antes de tomar qualquer iniciativa, aliás — afirmou, com um olhar meio sádico e diabólico — Se mantenha em Gardenhall, se mantenha na linha. Talvez voltemos a ter essa conversa... — e sorriu, com todo charme de uma sereia enfeitiçando um marinheiro desprevenido. Eugênio não percebeu o quanto aquilo havia o afetado até que caiu no chão, atônito, após ficar sem reação por alguns segundos, talvez minutos.
Aquele talvez mudou tudo — e, depois dele, José Eugênio mudou completamente de perspectiva sobre seus planos e sua continuidade em Gardenhall, para um lado bom, aliás. Ele vinha flertando com Thomas, observando seu professor e o “digerindo” com os olhos, mas nunca achou que passaria disso: uma brincadeira sem final feliz. Agora, todavia, aquele talvez voltemos a ter essa conversa... Definitivamente isso não era um “não, não teremos nada”, apesar de também não ser um “quero que você se deite comigo do nascer ao pôr do sol”. Todavia, a perspectiva de conseguir algo que muito desejava, não o felicitou tanto quanto ele imaginou que felicitaria — pelo contrário, fez nascer uma sementinha de angústia, dúvida e receio, que contaminou seu coração e passou a fazer o rapaz duvidar dos próprios desejos.
De qualquer maneira ele desistiu de ir à Casa Bloom — pelo menos naquele momento — e se concentrou a terminar suas tarefas, como um bom estudante. Leu seus livros, transcreveu suas lições de hierarquia e história, fez seus cálculos e terminou suas tabelas. Já era fim de tarde, começo do anoitecer, quando deixou a biblioteca e encontrou Archie Sprout no corredor, surpreendendo o valete.
— Senhor? Esteve aí a tarde toda? — ele questionou, curioso, observando em Eugênio uma aura aérea, pensativa e confusa, além de cansada e pedante, vítima de uma paixão platônica. O rapaz se explicou, resumiu o que fizera durante a tarde enquanto caminhavam pelos corredores de Gardenhall e estabeleceu uma calorosa conversa com o seu valete, soltando algumas risadas amistosas enquanto se recordavam da última fofoca de Cassandra Kieran.
— Esse Lorde Ravensword, como ele é? — questionou Eugênio, curioso. Archie limpou um pouco do suor no rosto do rapaz com um lencinho de pano, enquanto estavam diante das portas do salão, parados e conversando.
— É um homem muito certo, honroso — ele disse, com um olhar centrado e pensativo — Bem, mas construiu a própria queda. Duvido que continue com a boa fama e a reputação de outrora... O que é até meio hipócrita, já que a maioria dos Lordes visitam a Casa Bloom de vez em quando.
Eugênio riu.
— Hipocrisia é o que não falta nesse país, meu amigo, se me permite dizer.
Archie deu de ombros.
— Não discordo — ele respondeu, por fim, ajeitando a roupa de Eugênio — Meu deus, senhor, como você consegue ficar tão amassado e sujo fazendo absolutamente nada? — ele suspirou — Enfim, deve, inclusive, perder o cargo como presidente no conselho de Collins. Vai ser um grande desfalque para Lady Evayne, já que ele é um de seus principais aliados.
— Conselho de Collins?
— Sim, é um grupo de pessoas importantes, Lordes, na maioria, que decidem assuntos triviais sobre a cidade... Como impostos para a coroa, construções, reformas públicas, hospitais, festas, essas coisas... Mas, nas mãos de certos senhores e senhoras de influência, se torna um palco de guerras silenciosas de ego — Archie suspirou e olhou Eugênio no fundo dos olhos — Seu tio fez parte antes de Lady Macbeth. Um dia o senhor a sucederá... Mas... Agora quem será o novo presidente? Talvez Lorde Scarland... Não! Acho que... — Archie parou por um instante, ergueu as sobrancelhas, surpreso, e ficou com receio de falar — Sir. Smith.
— Quem é esse?
— Basicamente o principal rival de Lady Evayne. Era rival do Lorde e só serviu como empecilho para sua tia — afirmou, levemente irritado — Ele tem uma das herdades mais grandes de Collins, então tem muita influência, mas poucos amigos... Vive em pé de guerra para roubar o prestigio dos Evayne de Gardenhall para sua família, Smith de Manstreet. Ironicamente, o símbolo de sua casa é o Cravo.
Eugênio riu.
— Cravo e a rosa? Irônico até demais — Eugênio afirmou, chacoalhando a cabeça e atravessando as portas do salão, encontrando a Tia, Cassandra Kieran, Thomas e Catharine di Coucou dividindo uma mesa de chá. — Boa tarde, eu diria... — ele disse, com um tom de desconfiança e de ciúme por não ter sido convidado para o momento social. Lady Evayne tintilou a xícara no pires de chá, pensativa. Thomas evitou olhar para Eugênio. E Catharine mal o viu e já o repreendeu pela péssima postura.
— Ajeite a coluná!!! — ela gritou, erguendo o leque como uma espada.
— Estava contando para madrinha e os convidados a reação de todos quando souberam da cartinha deixada no painel dos segredos — Cassandra disse, com um olhar venenoso e malicioso. — Acabei encontrando Lady Catharine no caminho, então fiz questão que ela viesse.
Eugênio não estava tão interessado naquelas fofocas, mas viu naquilo a oportunidade de dividir com Thomas um sofá levemente apertado, que era o único com um lugar livre. Contendo sua própria animação e excitação, sentou-se ao lado do professor, sem se preocupar se seus corpos se tocassem — e tocaram, tocaram muito. Suas pernas, seus ombros e seus quadris. Thomas engoliu seco, envergonhado. José Eugênio se cobriu de uma energia eletrizante que atravessou seu corpo e deu um pequeno choque no seu coração. As damas estavam muito entretidas nas palavras de Cassandra para perceberem a aproximação levemente indiscreta dos dois.
— Como previsto, Madrinha, ele foi convidado a deixar o cargo de presidente do conselho — Lady Evayne suspirou, irritada.
— Que lástima. Deixando o lugar livre para o crápula de Sir. Smith. Smith! Eric Smith! Que nome genérico — ela disse, por fim, com um suspiro longo.
Eugênio aproveitou da distração — e do fato da mesinha com chá estar do lado esquerdo de Thomas — para atravessar seus braços sobre seu professor, esticando as mãos e tentando pegar uma xícara com chá servido outrora por Remsy. No caminho aproveitou a oportunidade para tirar uma lasquinha de Thomas, deixando sua mão boba tocar-lhe a perna, por alguns instantes na ida. O professor não teve reação, extremamente envergonhado e aflito. Na volta, em iminência de fazer a mesma carícia indiscreta — já segurando a xícara de chá —, Eugênio tocou delicadamente no peitoral do professor com as costas da mão, fazendo com que Thomas tivesse um sobressalto de espasmo, empurrasse a mão do rapaz com o tronco e o fizesse derrubar todo o chá quente sobre suas pernas.
Ai. Literalmente.
Thomas deu um salto, assustado, com as calças pegando fogo — e não da maneira boa. Eugênio se desesperou, pegou um lenço e começou a tentar enxugar as pernas do professor. As damas, assustadas, gritaram em uníssono e chamaram por ajuda, enquanto Thomas pulava de um lado para o outro com o inferno ardendo sobre sua pele.
Lady Evayne e Catharine di Coucou precisaram esconder os rostos com as xícaras de chá para que ninguém visse que elas estavam a ponto de rir. Eugênio estava desesperado, como se tivesse deixado o professor à beira da morte. Quando Archie chegou com água fria, o rapaz tomou a própria gravata, já que o lenço estava umedecido de chá o suficiente, molhou na água geladinha e começou a passar nas pernas, ainda de calça, do professor, repetindo continuamente um pedido de desculpas sinceras.
— Eugênio, Archie, levem Thomas para o quarto. Não é prudente que continuem cuidado dele aqui no salão —Lady Evayne ordenou, preocupada. Thomas se levantou com certa dificuldade, envolveu seu braço ao redor dos ombros de Archie e Eugênio, evitando ao máximo fazer movimentações bruscas com aquela parte da virilha, jaz queimada em virtude do chá quente. Juntos, subiram as escadas, com o professor murmurando palavras de dor, se esforçando para não chorar, e chegaram ao quarto mais próximo, já que Thomas não tinha mais forças para andar para o seu próprio. Bem, imagine que uma xícara de chá na temperatura de ebulição caísse sobre suas partes delicadas. Duvido que agiria de maneira diferente.
Entraram no quarto de José Eugênio e deitaram Thomas com delicadeza sobre a cama. Archie fechou a porta, se aproximou do homem e começou a desabotoar suas roupas e tirar suas calças. Eugênio ficou atônito por um instante, encarando o corpo de seu tutor ser desnudo diante de seu olhar, sem reação, extremamente surpreso. Bastou um olhar desesperado de Archie para que ele despertasse e se voltasse a ajudar o valete, pegando uma jarra de água fresca que ficava sobre sua penteadeira, envolvendo um lenço e umedecendo, para depois distribuir sobre as partes avermelhadas da pele de Thomas.
Começou pelas pernas, levemente peludas e torneadas, que estavam vermelhas como maçãs, passando o pano delicadamente na parte descoberta por suas roupas íntimas — em um instante Eugênio pensou, observando quase uma “segunda calça” sob aquela que foi tirada outrora, como ele desejaria que o professor estivesse usando “roupas de baixo” à brasileira, pois deixaria suas partes mais visíveis. Archie desabotoou a camisa de Thomas, deixando parte do abdome a mostra. Eugênio engoliu seco, levemente desconcertado. Próximo a passar o pano umedecido naquelas partes tão interessantes, foi interceptado pela mão do professor, que agarrou seu pulso.
Ergueu os olhos, levemente assustado e surpreso, e encontrou os olhos de Thomas, extremamente constrangido e envergonhado. Seu rosto estava tão vermelho quanto as partes queimadas pelo chá quente, dessa vez, contudo, por pura timidez. Archie parou o que fazia e observou a dupla, em silêncio, se encarando numa tensão imensurável.
— Eu cuidado disso. Obrigado pela ajuda, senhor — Thomas disse, por fim, com um tom de voz amargo e tímido. Todas as vezes que ele deixava de tratar Eugênio pelo nome e voltava a lhe tratar pelo título, o rapaz sentia um abismo que os separava e os afastava cada vez mais. Não entendeu, todavia, o porquê desse distanciamento inesperado, mas anuiu. Entregou o pano umedecido ao professor, se afastou da cama e apenas observou enquanto ele se aliviava.
Archie olhou para os dois, sem saber exatamente o que estava acontecendo. Ficou de pé ao lado da cama e também se absteve da tarefa, deixando todo trabalho nas mãos de Thomas.
— Se vocês puderem me deixar só... — Thomas suplicou, levemente irritado, absurdamente constrangido.
— Ah, claro, sim, hum — Eugênio disse, por fim, como se finalmente entendesse sua gafe. Fez menção a sair, mas voltou por um instante, pegou alguns papéis guardados sobre a cômoda e deixou na mesinha de cabeceira ao lado do professor — Isso é pra você. Caso melhore — e sorriu. Aquele sorriso, por um instante, foi a anestesia perfeita para Thomas, que se esqueceu completamente da dor de suas queimaduras, e sorriu involuntariamente em resposta, observando aquilo que ele havia deixado para si.
— Vou te trazer roupas limpas, senhor — Archie disse enquanto saía, com Eugênio atrás de si.
Lady Evayne parecia preocupada. Catharine di Coucou fumava um cigarro com toda delicadeza, enquanto ouvia as reclamações da amiga.
— Sem Ravensword na liderança do conselho... Temo pelo que possa nos ocorrer.
— De fato, foi um desfalque e tanto para o lado de vocês. Aguarde pensamentos retrógrados retornando à Collins à cavalô. Aqueles velhos liderados por Monsieur Smith? — Catharine riu em deboche — Só serão fantoches para os caprichos de um Lorde mal amado.
— É o que mais temo: eles se deixarem influenciar por todas as escolhas de Smith... E sabemos como Smith tenta destruir Gardenhall — ela afirmou, levemente irritada — Não tenho muitos medos, Catharine, mas...
— Eu sei, eu sei ma cherrie — Catharine respondeu, com um olhar distante — Não tenho dúvidas que você pode enfrentar dez Smith’s.
Lady Evayne riu, com um olhar preocupado.
— Temo o tempo em que não serei mais eu a enfrentá-lo — ela disse, pensativa — Não sei se Eugênio tem a força necessária para tal.
— Bom, eu achô que esse garçon tem muitas cartas na manga... E ainda vai nos surpreender.
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