O Lobisomem De Liveway

3 Capítulo 2 - O Templo Da Deusa/Iniciação.


Notas iniciais
Agradeço às adoráveis garotas que comentaram no prólogo:
> Emanuelle
> Stefany_Zanoni
> Lilith
> Kath Dragomir
É muito bom revê-las aqui também ^ ^
E agradeço às doces leitoras que comentaram no capítulo um:
> Emanuelle
> Thalia
> Gaby_Mystie (prazer em conhecê-la ^ ^)
> Hina
> Lilith
> Miss Whatsername (bem vinda ^ ^)
> BJS2 (Prazer em conhecê-la ^ ^)
> Aninha Cia (Bem... Antes tarde do que nunca, certo? Prazer fantasminha camarada ^ ^)
> Kath Dragomir
...
Ahhh, é muito bom rever amigas aqui ^ ^ Só falta um review de meu amigo
*Vin, reviewze essa história se não agora a po*** fica séria!*
...
Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3

Capítulo II – O Templo Da Deusa/Iniciação.

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Andamos muito. Talvez eu nunca tenha andado tanto na minha vida... Não, acho que estava quase superando a vez que eu fui numa excursão ao Louvre. Com jeito de castelo antigo cheio de quartos, eu havia praticamente me perdido ali. Mesmo que fosse um lugar barulhento e lotado de turistas.

Mas enquanto eu andava ao lado de Alice, eu não sentia o quanto nós andamos. Eu só sentia algo pulsando dentro de mim. Algo que era como se fosse uma mão que me chamava. Uma imagem mágica e misteriosa que me atraía com a sua áurea de suspense.

Eu me sentia atraída por aquele caminho, tal como um inseto é atraído pela luz intensa das lâmpadas. Só esperava não acabar morta como eles.

- Isabelle! – Thanatos exclamou me segurando

Despertei-me de uma espécie de transe à tempo de ver uma cobra venenosa que se fazia um caminho bem à minha frente. Sabia que ela era venenosa por suas cores diferenciadas e por sua cabeça triangular, comum de cobras possivelmente peçonhentas. Eu acho que quase pisei nela.

- Você quase pisou nela – Thanatos disse. – Preste mais atenção!

- Oh, desculpe – pedi desconcertada.

- Queria ver você pedir desculpas depois de começar a se contorcer com o veneno dela no seu corpo – ele resmungou revirando os olhos.

Eu bufei.

- Bem, esse foi o seu verdadeiro trabalho como um guardião até agora. Dê-me graças a Deus. Sua vida está muito fácil – retruquei dando língua.

Ele se irritou, mas não voltou a dizer mais nada. Só tomou a frente e começou a andar como se ele tivesse alguma ideia do caminho. Alice só passou a mão por meu braço e sorriu.

- Eu sei, eu também sinto Isabelle – ela comentou tomando a frente com Alexander. – É forte.

- Mamãe não me falou que era tão forte assim – César disse me encarando. – Ela me disse que era como um instinto e não como se algo estivesse possuindo o seu corpo.

Alice suspirou para o garoto e ainda andando ao meu lado, disse:

- Bem, certamente sua mãe não foi trazida para cá aos dezesseis, mais sim aos doze. Como todo mundo.

É. Eu fiquei curiosa. Parecia que a maioria dos bruxos e bruxas era oficialmente vista como tal quando completavam doze anos de idade. Mas eu já tinha dezesseis. Perguntei-me se não seria problemático se eu fosse oficializada como bruxa em plenos dezesseis anos. Não faz mal? Digo: eu ser oficializada como bruxa em minha idade? – perguntei com receio.

Alice me olhou e deu de ombros.

- Não. Na verdade, é como se dentro do seu organismo houvesse pequenas partículas mágicas que lhe ligassem ao Templo da Deusa e com elementos mágicos. Com o passar dos anos, elas vão ficando mais agitadas. O único jeito de realmente controlá-las e sendo inicializada no ritual – respondeu titia.

Engoli em seco.

Não gostava da palavra “ritual”.

- Quando você menos esperar, poderá até mesmo sentir quem é humano e quem é uma espécie mágica — ela comentou.

Nem eu e nem Thanatos dissemos nada porque de repente, senti um solavanco em meu peito. E percebi que meu guardião e o vampiro, que iam à nossa frente, haviam parado no lugar. Pedindo silêncio.

Era uma sensação estranha. Era como se meu coração estivesse comprimido no peito de uma maneira desagradável. Como se ele tentasse bombear e barras grossas e espessas de ferro estivessem envoltas nele. Era desagradável. Acho que era um mau pressentimento. Ou uma dor.

Lembro-me de tê-la sentido quando meu pai me menosprezava.

- Hm, Alice, por acaso o Templo da Deusa continua em pé? – perguntou Alexander baixinho, parecendo chocado.

Alice franziu o cenho e tentou passar pelos dois, mas eu fui mais ágil e passei por entre eles.

A paisagem que se estendia à minha frente era de pura destruição.

Se algum dia, um templo fora erguido ali, na beira de um rio largo cuja outra margem era quase invisível, já não havia mais nada que lembrasse ou memorasse a existência de uma Deusa. Havia apenas ruínas.

Ruínas brancas do que um dia pareceu ser uma construção grandiosa. A única coisa que pareceu permanecer em pé fora uma fachada branca de colunas grandes e arco maior ainda. Eu não sabia o que havia acontecido. Eu não sabia se haviam tacado fogo ou se haviam simplesmente pegado um guindaste e derrubado. Mas sabia que doía, em mim, ver aquilo.

Aproximei-me da área e toquei o que parecia ser uma espécie de mármore branco. Como as antigas construções gregas.

- Isabelle... – Thanatos me chamou com preocupação em sua voz.

Eu não quis olhá-lo, porque, por algum motivo, eu estava chorando.

Eu não conhecia a minha ligação com aquele lugar. Eu não sabia o meu lugar ali e não sabia o que poderia ter feito por eles... Mas eu sabia que estava pisando em uma segunda casa para mim. Eu me sentia como uma criança que volta para a casa depois de um longo tempo e descobre que ela já não existe mais.

Tive cuidado ao passar por um destroço de coluna e passei pelo arco de entrada.

Escutei passos atrás de mim e não precisei olhar para saber que era Thanatos. Acho que se ele pudesse me seguiria até o inferno. O que por um lado não era tão ruim. Afinal, eu não matei um bando de gente sozinha.

Lá do outro lado não tinha nada muito demais. A única coisa que me separava de César, Alice e Alexander, era uma baixa barreira que um dia poderia ter sido uma parede enorme. Bem em minha frente tinha uma mesa de pedra quebrada ao meio e o que pareceu ser duas enormes tochas de bronze derrubadas ao lado.

- Thanatos – eu o chamei, recebendo somente um “hm?” como resposta. Então eu perguntei: – O que eu estou sentido?

Ele pareceu ficar confuso.

- Sei lá... Tristeza? Raiva? Não sei. Seus sentimentos estão me dando dor de cabeça – ele respondeu. – Por quê?

- Porque eu também estou confusa – respondi. – Eu não sei o que estou sentido. Já que você sabe o que eu sinto, pensei que você poderia... Dizer-me o que se passa em meu coração.

Pelo ar pesado que ele deixou escapar por seus lábios, acho que ele deu de ombros e eu me agachei no chão. Abracei minhas pernas e tentei pensar.

Eu estava empolgada em conhecer o lugar, mas talvez fosse apenas decepção. Ou não. O que eu sentia ia além de decepção. Era tristeza. Uma tristeza profunda. Não do jeito que eu fiquei quando visitei ruínas em Mérida. Não do jeito que eu fiquei quando eu visitei Roma. Mas do jeito que eu ficava sempre quando eu me despedia das minhas casas temporárias – já que papai viajava muito.

Aquele lugar mexia profundamente comigo.

- Eu acho que estou triste – respondi. – Profundamente triste. Como se eu houvesse perdido uma casa.

Senti a mão de Alice no meu ombro e ela se abaixou ao meu lado.

- Eu também o sinto Isabelle – ela disse acariciando meu ombro. – É como um aperto nostálgico no peito.

Eu concordei com a cabeça e me levantei. Passei a mão por meu rosto molhado e tentei respirar fundo. Levei então as mãos à cintura e perguntei:

- O que faremos agora? Cancelamos e vamos para casa?

Ela se levantou também e cruzou os braços.

- Acho que não – respondeu parecendo confusa. – Quer dizer, tecnicamente, aqui ainda é um solo sagrado para nós e ainda temos um pouco da estrutura inicial...

- Que está em ruínas – Thanatos complementou.

-... E ainda temos uma mesa...

- Partida ao meio – Thanatos completou revirando os olhos.

- E duas tochas...

-... Derrubadas, quebradas e bem apagadas, obrigado – ele fez questão de completar.

Alice olhou para ele e depois para mim. Ela reclamava mentalmente, mas não era ela quem tinha que lidar com esse “estraga-prazer” toda hora. Tudo bem, o único problema de Thanatos era que ele era “realista” e pessimista. Via tudo no agora e para ele a palavra “conserto” parecia não existir.

- Garoto, se você não deixar Alice falar, eu vou te virar do avesso. Sem me importar o quê ou quem você é, fui claro? – Alexander disse em seu tom intimidante.

Eu fiquei intimidada porque, quando Alexander falava naquele tom baixo que mal passava de um sibilo, eu quase podia imaginá-lo pulando e se atracando no pescoço de Thanatos – ou no meu próprio, porque eu sempre entro de gaiato nas coisas. Mas eu acho que não podia esperar menos por essa violência. Afinal, ele era romeno e veio da terra de Vlad III, o empalador*.

- Você quer encarar sanguessuga? Eu acho que meus poderes são mais fortes do que o seu – respondeu Thanatos à altura.

O.K. Tudo o que eu menos precisava agora era de uma batalha mortal travada entre um vampiro e um Guardião Sombrio. Claro que eu supus que seria difícil andar com esses dois por aí, juntos. Eles se pareciam tanto que poderiam se casar. Ambos não abaixavam a cabeça, não levavam desaforo para casa, resolviam tudo na ignorância, gostavam de trocar xingamentos...

E agora era como se dois machos alfas estivessem lutando por um território.

- Chega – eu pedi empurrando Thanatos para o lado e tentando afastar Alexander. Ambos se encaravam quase soltando faíscas. – Não é momento para isso agora... Alice tem razão, talvez dê para salvar alguma coisa. Se eles conseguiram destruir tudo, ou ao menos acham que destruíram, eu duvido que eles voltem agora. E acho que isso é importante.

Eles bufaram ao mesmo tempo e se deram as costas.

- Sabe o que eu acho? – perguntou César retoricamente, sentando-se em uma ruína. Mesmo ninguém respondendo, ele disse: — Eu acho que nós teremos preocupações maiores do que os caçadores de bruxas com esses seus dois amigos aí.

Eu dei de ombros, pois sabia que era verdade.

- O que precisamos fazer primeiro, Alice? – perguntou Alexander, postando-se enfrente a ela.

- Bem... – ela disse olhando ao redor, confusa e deslocada. – Acho que primeiro precisamos erguer essas tochas... Precisaremos acendê-las.

Alexander concordou com a cabeça e olhou para Thanatos. Mesmo que sua expressão deixasse bem claro que ele preferiria ficar desdentado a pedir ajuda ao meu guardião, ele perguntou:

- Você pode me ajudar com a outra tocha ou o seu pessimismo vai te impedir de levantá-la?

Thanatos cruzou os braços e jogou seus cabelos negros para trás em um movimento semelhante ao de um cavalo. Com a mesma arrogância e ignorância de Alexander, ele lhe respondeu:

- É difícil para você dizer “por favor” ou simplesmente tem medo de que todos os seus dentes caíam e que seu veneno jorre para fora do seu corpo com essa simples palavra mágica?

- Se você soubesse contar, saberia que “por favor”, não é uma palavra mágica, mas sim duas – Alexander respondeu.

- Garotos não comecem! – eu pedi incomodada. – Se vocês vão passar a noite toda trocando farpas então eu levantarei uma tocha e Alice levantará a outra... Às vezes os homens são tão ridículos...

- Alex, Thanatos, Isabelle tem razão – Alice concordou. – Aqui nós temos três horas de fuso-horário, não podemos gastar muito tempo. Alex, Thanatos, por favor.

César não se meteu. Ele era alguém ficava recluso em seu canto. Ficou apenas sentado em cima do que um dia foi uma pilastra assistindo ao circo de camarote.

Os dois quase trocaram rugidos grotescos e se viraram para ajudar.

Alexander aproximou-se de uma delas caída. Percebi que tinha uma forma parecida com um castiçal. De um dourado reluzente – que eu me perguntei ser de ouro – o vi erguer e tentar colocar no lugar. Até perceber que fora quebrado ao meio. Thanatos pareceu ter esse mesmo problema.

- Hm, vossa bruxeza imperial – Thanatos disse com o que pareceu ser sarcasmo. – Parece que as suas importantíssimas tochas não conseguem se aguentar sozinhas.

Alice pareceu ficar decepcionada, mas então César pulou do seu lugar e disse:

- Não seja por isso.

Eu não acreditei nos meus olhos quando, sem esforço nenhum, raízes grossas de árvores criaram vida própria e se enrolaram pela extensão do enorme castiçal. Não somente enraizando-os no solo, como também lhes dando a sustentação necessária. Fiquei maravilhada e acho que soltei um suspiro estupefato.

- Uau, isso foi incrível... Obrigada! – eu disse maravilhada. Mas então, eu tive que perguntar diretamente. – O quê você é?

O garoto — de cabelos negros e de um olho vermelho e outro verde — encurvou-se e levou as mãos aos bolsos dianteiros de sua calça jeans. Em um ar despreocupado, ele deu de ombros.

- Tem vários nomes para o que eu sou. Mas há quem diga que sou metade elfo – ele respondeu parecendo desconfortável.

- Elfo? Tipo, orelhas pontudas e beleza quase que de semideus? – perguntei surpresa.

Bem, ele não tinha nada do que eu esperava. Sei lá. Imaginava um elfo com longos cabelos platinados, peritos em arco e flecha, muito belos... Não imaginava um garoto alto, de cabelos negros mal penteados e que tinha um olho vermelho e outro verde.

Elfos eram tudo o que César certamente não era... Será que era por isso que ele se sentia desconfortável ao revelar o que ele era.

- Tudo bem, tudo bem – ele suspirou. – Eu não sou o melhor exemplo de Elfo... A verdade, é que minha aparência “bizarra” eu herdei da família bruxa da minha mãe, mas a minha afinidade com a natureza, eu herdei do meu pai. Satisfeita? Agora pare de me olhar como se tentasse encontrar orelhas pontudas.

Ele finalizou revirando os olhos e suspirando. O tom dele não era de decepção, mas sim de raiva. Um leve rancor por ele não ter a “beleza” comum dos elfos. Bem, talvez ele fosse complexado com isso. Pois eu sei que eu seria. Imaginem. Dentro de mim há um coração elfo, mas por fora uma aparência de bruxo...

- Isabelle, pare de pensar! Está me dando dor de cabeça – pediu Thanatos. – Como alguém é capaz de pensar tantas coisas ao mesmo tempo... Alô. Eu tenho que lidar com os seus pensamentos e com os meus!

- Oh, então você pensa? – Alexander perguntou intrigado.

Revirei os olhos.

- Passo dois, Alice? – pedi antes que voltassem a brigar.

Minha tia, que já havia se sentado em uma pilastra caída, respondeu:

- Acho que concertar essa mesa... Se não, limpá-la daí.

Alexander revirou os olhos e suspirou. Bastou um empurrão dele para que a mesa quebrada de pedra voasse para longe. Fazendo um estrondo que causou um revoar de pássaros coloridos quando se chocou a uma árvore.

- O.K. Fácil. Passo três? – ele perguntou cruzando os braços.

- Exibido – resmungou Thanatos. – Eu podia fazer isso sem precisar ser um vampiro sugador de sangue.

O vampiro resolveu nem dar atenção e voltou a olhar para Alice.

- Descansem, acho melhor eu e Isabelle assumirmos de agora em diante – ela respondeu se levantando e vindo para o meu lado. – É melhor vocês ficarem de guarda. Não sabemos o que se passa na cabeça dos caçadores.

César, Alexander e Thanatos concordaram com a cabeça. E se dispersarão pela área grande. Thanatos não podia se afastar muito de mim, então ele apenas se limitou em se encostar a uma parede um pouco afastada e ficar ali com cara de um monstro espreitando pelas sombras.

Alexander se limitou a subir – em um só pulo! – no arco velho e quase acabado. Tive medo que derrubasse com o peso do vampiro, mas não. A construção parecia continuar bem sólida. E dali de cima, ficou espreitando.

Quanto a César... Ele simplesmente sumiu.

- Acho melhor assumirmos de agora em diante. Se depender deles, irão destruir o pouco que restou – ela sussurrou para mim, mesmo que eu achasse que eles ajudaram bastante. Ela explicou: — Eles chamarão atenção demais se continuarem a fazer coisas espalhafatosas assim.

Então percebi que era verdade e concordei com a cabeça.

Se não queríamos chamar a atenção de caçadores, então teríamos que ser discretos.

- O que faremos agora? – perguntei à Alice analisando o local.

- Acho que já podemos começar – ela respondeu com um suspiro.

Como eu não sabia o que faríamos, e muito menos tinha uma leve ideia do que aconteceria ali, deixei que Alice me guiasse. Percebi ter tomado o lugar daquela mesa partida ao meio. Ela me colocou em um lugar entre as duas tochas, que se encontravam apagadas.

Alice se virou para mim, com um sorriso pesaroso no rosto. Pondo as leves e pálidas mãos em meus ombros, olhou-me profundamente em meus olhos.

- Você está certa disso? Ainda está em tempo de voltar atrás e desistir – ela avisou.

Eu não hesitei.

Por que o faria? Minhas chances de ser uma “humana normal” já eram quase nulas. Sejamos realistas: eu tenho um espírito (que tomou a forma humana) que me protege! Minha mãe foi morta por caçadores de bruxas e minha família materna é formada por um clã milenar de bruxos e bruxas. Ah, e meu melhor amigo é um lobisomem.

Depositei minhas mãos sobre as dela.

- Alice, transforme-me em uma bruxa – pedi.

Ela sorriu por um instante, emocionada. Acho que porque eu queria e aceitava ser uma bruxa como ela. Bem, não era questão de escolha. Era... Fascínio. Pois esse mundo – mesmo que perigoso – era fantástico. Mas também tinha uma questão de mágoa e ressentimento no que dizia respeito a minha mãe.

- Então vamos trabalhar! – exclamou ela, com animação, recuperando-se do seu repentino ataque de sentimentalismo.

Esperei, com a curiosidade me corroendo, para ver o que ela iria fazer. Confesso que eu tinha um pouco de medo de magia, mas de uns tempos para cá eu acabei me encantando por este mundo novo. Como eu disse o “fascínio”. E nem me preocupei em saber que não podia se acreditar em Deus e em bruxaria ao mesmo tempo, afinal, minha família toda era ateísta.

- O quê é isso? – perguntei gesticulando para uma pequena vasilha em suas mãos.

- Tinta – ela respondeu. – Tire a sua roupa.

Fiquei vermelha.

- O quê?! – perguntei sem ter certeza do que eu ouvi.

- Tire a sua roupa – ela falou compassadamente.

Fiquei em choque e olhei ao redor procurando pelos garotos e por um olhar irônico de Alexander. No entanto, o vampiro havia sumido com César – acho que no fundo ele sabia! – e Thanatos estava encostado à mureta. Querendo rir da minha cara.

- Sai daqui Thanatos – mandei envergonhada.

- Por que se, de qualquer, jeito eu vou ouvir seus pensamentos? – ele perguntou sorrindo provocativo.

Eu realmente não queria responder àquela pergunta, principalmente porque ela tinha sentido. Mas não me agradaria tirar a roupa na frente dele... Urgh, seria muito estranho e bizarro.

- Por favor... – eu pedi.

- Vou dar uma volta – ele cedeu rindo. – Mas você já parou para pensar em como seria se ao invés de César, Roman estivesse aqui?

Eu fiquei mais vermelha ainda. Quase pude visualizar uma cena em minha cabeça, mas optei pelo silêncio. Eu não queria pensar muito em Roman, principalmente porque as coisas ainda estavam confusas para mim... Para nós. Eu estava envergonhada e ele tentava soar natural, mas não estava dando muito certo.

Quase dei um sorriso de vitória quando o vi se afastando, mesmo assim, esperei alguns segundos para me despir do vestido. Mas pensei – com vergonha – o que Thanatos sabia sobre o meu corpo, levando-se em consideração que ele está comigo desde que nasci?

Sei de muitas coisas...” respondeu em tom enigmático, e rindo depois.

Ah, não. Eu pensei que havíamos passado desta fase.

- Você já não o odeia mais como no início? – perguntou Alice, olhando pelo caminho que ele trilhou.

- Ele é bonzinho agora. Não tenho porque odiá-lo – respondi dando de ombros.

Alice sorriu e passou aquela tinta preta e gosmenta em meu corpo.

Eu não sabia se ela havia feito ou frequentado aulas de pinturas como a minha mãe, mas era estranho. Eu nunca fiz uma tatuagem em meu corpo (nem a de henna) e, agora, ela estava fazendo uma pintura corporal muito esquisita. Lembrou-me às pinturas rupestres.

- Alice... Existem bruxas más? – perguntei.

Senti sua mão paralisar em minha pele.

- Posso saber o porquê desta pergunta? – pediu com a voz baixa.

- Foi algo que passou pela minha cabeça... É que, Atuérpia e você parecem ser boas... Mas me pergunto se todos são assim – respondi.

Ela me olhou e sorri, mas vi um brilho triste em seus olhos cristalinos.

- Todos os bruxos e bruxas veneram uma Deusa e um Deus, Isabelle. Nossa Deusa é a natureza, vista como a nossa mãe. Enquanto nosso Deus é o espírito, nosso pai. Com Deuses tão bons, como podemos ser maus?

- Do mesmo modo que tem muitos Cristãos que matam e roubam – respondi.

Ela suspirou e concordou com a cabeça.

- São poucos, mas há, sim, bruxos malvados. Pessoas que foram corrompidas pela ideia de poder e egoísmo. Essas pessoas são tristes. Deixaram de praticar nossas magias naturais para tornarem-se servos da magia negra – ela respondeu com pesar.

- Mamãe usou magia negra para selar Thanatos em mim...

- Mas ela sabia que não tinha chances e que ia morrer. Foi um ato de desespero – ela respondeu com a voz cortante. – E veja no que deu.

Eu quis ter ficado calada, mas vi perguntando:

- Você conheceu alguém que se “perdeu”, Alice?

Ela olhou para mim e deu um sorriso pesaroso. Um sorriso tristonho e, por um instante, eu jurei que ela fosse chorar na minha frente, pois seus olhos ficaram irritados. No entanto, ela resolveu encerrar com aquele assunto. E encerrou me dando uma lição de moral:

- Bem, Isabelle. Saiba que o caminho da magia negra é muito perigoso e traiçoeiro. Muitas pessoas o preferem porque os resultados são rápidos e eficientes, mesmo que catastróficos. Certamente, não é um caminho que eu desejo para você. Lembre-se que a regra da bruxaria é, acima de tudo, “Desde que não prejudique o outro, faça o que quiser”.

Lembrei-me das poucas introduções de magia que Alice me deu:

Estávamos em seu escritório aos fundos do Mausoléu e ela andava de um lado para o outro, falando:

- As bruxas e bruxos têm crenças que existem desde os primórdios da humanidade, muito anteriores ao cristianismo. Por isso, bruxas e bruxos não cultuam o diabo, uma vez que o diabo seja uma criação da religião Cristã e nada tenha haver com a nossa. No entanto, assim como há uma parte de pessoas que cultuem o “anticristo” há, em nossa religião, também uma parte que cultua o mal e, este, é um caminho que eu não desejo nem ao meu pior inimigo.

Perguntei-me se este era um caminho que ela já trilhou alguma vez e se era por isso que ela parecia tão triste e nostálgica ao falar sobre ele, mas achei que talvez fosse melhor não tocar neste assunto por hoje. Ela parecia estar muito incomodada com suas lembranças e terminou de pintar parte de meu corpo.

- Bem, agora podemos começar oficialmente – ela disse com um suspiro.

Deu-me a mão e fechou os olhos. Eu a imitei. E ela pediu para que eu repetisse tudo o que ela dissesse:

Não te preocupes com a noite fria,

Com as sombras no escuro,

Com as vozes que ecoam no ar e perturbam teu sono.

Eu arfei ao me lembrar de que já ouvira recitando aquilo algumas vezes. Poucas vezes na verdade, eu pegava só um pedaço. Mas quase soltei um grito quando senti uma brisa gélida perpassar por meu corpo. Fazendo-me estremecer de leve.

Não te preocupes com o chão escaldante que tens que pisar,

Nem com o relâmpago que corta os céus

Estrondoso e impaciente...

Magia não era somente algo sobrenatural. Era algo assustadoramente desconhecido para muitas pessoas, principalmente para mim. Que me assustava com qualquer coisa. Como Alexander tinha o costume de dizer, eu era uma “fraca”. E quase fiz uma careta de susto ao sentir o chão sob meus pés parecendo se esquentar e um trovão soar perto.

Quis puxar minha mão e desistir, mas Alice a segurou com força. Eu e ela sabíamos que eu estava fraquejando – era comum eu fazer isso quando de repente me via perdida – e por isso ela não me deixaria desistir. Afinal, eu havia pedido a ela também.

Estarei aí contigo,

Cobrindo-te com meu véu de luzes

E enviarei minhas criaturas amadas

Para sustentar teu fôlego,

Para te enveredar pelo caminho certo.

Criança minha, confia nas minhas promessas,

Eu jamais deixo de cumpri-las

A uma das minhas mais amadas que me servem...

Eu sou tua mãe, tua amiga, tua conselheira...

Olha para o céu à noite

E verás meu semblante no espelho prateado da lua...

Assim seja, e assim é!

Eu suspirei ao me sentir mais calma quando tudo ao meu redor parou. Mas então, uma dor dilacerante invadiu o meu coração. Era uma dor opressora que me fez me encurvar e soltar um som que eu nem distingui. Minha pele e a tinta sobre ela queimava como fogo.

Alice passou a mão em minha cabeça como se soubesse que aquilo estava doendo, e se ajoelhou comigo quando minhas pernas cederam ao peso do mundo. Céus! Como doía! Eu sentia a tinta se mover sobre a minha pele e rastejar como uma cobra de fogo. Enroscando em meu corpo e se concentrando em um único ponto.

Entre meus seios. Ou em cima do meu coração.

E se intensificou. Agora, era como se a mão de um gigante apertasse meu coração e isso me causou vertigem. Até que, de repente, tudo parou.

Do mesmo modo repentino que aquela sensação opressora houvera me acertado, ela houvera ido. Deixando meu corpo dolorido largado nos braços de Alice. Olhei para ela com alívio, e ela sorria de volta.

- Você é uma borboleta – ela murmurou.

Fitei-a confusa.

- O quê?

Ela não respondeu e sorriu.

- Estou cansada – sussurrei.

Ela concordou com a cabeça.

- O lado bom, é que acabou – disse pegando o vestido que eu deixara no chão e me ajudou a me vestir. – Você vai se sentir debilitada, fadigada e cansada por um dia, mas logo estará novinha em folha.

- Alice... Era mesmo necessário eu fazer isso quase nua? Isso foi vergonhoso – eu comentei com um suspiro.

- Na verdade, eu prefiro assim. Faz a energia fluir melhor – ela respondeu.

Levantei-me do chão a usando como apoio.

Meu corpo parecia pesar como chumbo. Acho que pediria para Thanatos me levar para casa porque eu mal me suportava. No entanto, algo por entre as árvores me chamou atenção.

Um rosnado grave e selvagem chamou a minha atenção e a de Alice.

E o que mais me preocupou foi saber que não era Roman.

Notas finais
Desculpem meeesmo, na minha opinião a iniciação poderia ter sido melhor. Tipo, eu sou muito perfeccionista, mas - como eu não estou acostumada com muita magia - é difícil para mim fazer cenas mágicas.
Não fui feliz com a cena que fiz, prometo melhorar para as minhas leitoras agradar! ^ ^
Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3
...
*Vlad III, o empalador. Era conhecido por sua crueldade, Tinha o costume de mandar empalar súditos ou inimigos e até mesmo famílias inteiras. Situações em que o mesmo ordenou que os mensageiros de Mehmed II tirassem seus turbantes. Contudo eles se recusaram em referência ao respeito de sua cultura. Com isso, Tepes ordenou que pregassem os turbantes nas cabeças dos mensageiros.
Mas ele também fez coisas "boas" pois conseguiu reduzir os furtos através de grande repressão e medo, teria também conseguido acabar com a pobreza em 1 dia, onde ele convidou todos os pobres do reino para um jantar em seu palácio e ao chegarem foram trancados em um recinto onde Vlad ateou fogo.