O Lobisomem De Liveway

11 Capítulo 10 - O Mágico Lago Green Falls


Notas iniciais
Olá!
Vou postar capítulos todas as sextas-feiras. Então, sendo esta uma sexta-feira, eu estou aqui! E só Deus sabe o como foi difícil para mim me segurar e só postar o capítulo agora. Eu queria antecipar (porque eu já estou dois capítulos à frente no word) mas sabia que não podia - -'
Tive que reprimir minha ansiedade duramente.
E ainda estou com uma internet que não está me ajudando!
...
Bem, agradeço às minhas queridas musas dessa história. Não seria nada sem vocês:
> Clara
> Stefany_Zanoni
> Hina
> Lilith
> Dama de Prata
> Chi Ha Ru
> Queen K
Beijos com chocolate,
EUQOPÉ-ELLE3

Capítulo Dez – O Mágico Lago Green Falls.

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Enquanto eu olhava ao redor, pensava que estava sonhando acordada.

Pisando ali, em pleno outono de ventos gélidos, eu não parava de imaginar o como ele seria no verão. Com o sol brilhando nas árvores e arbustos, cobrindo-os com sua luz e intensificando a cor de suas folhagens. Talvez, Green Falls estaria com suas águas mornas descongeladas e atrativas para os banhistas e turistas.

Ou quem sabe em plena primavera, quando as árvores davam frutos e as flores brotavam, fosse mais bonito. Talvez desse para ouvir o cantar dos pássaros apaixonados e ver os beija-flores se alimentando dos polens das flores. Seria um clima bastante romântico... Um clima perfeito para se ficar obsevando as flores com a pessoa amada.

- Credo, você está treinando para ser poetiza? – zombou Thanatos, lendo meus pensamentos mais íntimos novamente. Corei. – Ou estava pensando com a pessoa com “A” novamente?

Eu ri com escárnio.

Sabia que Thanatos estava com a ideia louca de que eu estava apaixonada por Alexander. E daí que eu achava que o garoto tinha o belo estilo da banda Versailles (claro que é mais casual)? E daí que eu sentia dó (e até inveja) de vê-lo correndo loucamente atrás de Alice? Qualquer pessoa sensível sentiria o mesmo por ele!

“Pelo visto, menos Alice” eu completei mentalmente, sentindo-me mal logo depois. Alice deveria gostar de dar o fora em Alexander, tanto quanto eu havia gostado de pôr o fim nos sonhos românticos de Roman. Ou seja, ela deveria odiar tanto quanto eu.

- Se você quer dizer que eu estou pensando que Alice poderia me ensinar bastante sobre a biodiversidade desse lugar, acertou, Thanatos – respondi imediatamente ao perceber que César me olhava desconfiado.

Talvez Anne Claire não percebesse, mas César conhecia Alexander e essa não era a primeira vez que Thanatos fazia uma menção quase direta ao revoltado vampiro.

César parou perto da cachoeira e eu a contemplei.

Ela deveria ter em torno de uns dezesseis metros! Suas águas verdes não estavam congeladas, porque ainda não era inverno. Estávamos no outono e os ventos em Liveway eram cortantes. Mas a água do rio fluía, e não foi difícil para César ultrapassar a placa pouco fiscalizada de “proibido banho nesta época do ano” que separava a trilha que percorremos do estacionamento em que deixamos o carro.

Ela parecia ter um tom azulado quando escorria de lá de cima, no entanto, quando caía, parecia se tornar verde! Bonito, foi quando o sol apareceu raramente, depois de ter sido encoberto pelas nuvens, e mostrou um belo arco-íris.

- É lindo! – murmurei estupefata. – Como eu nunca vim aqui antes?

- As pessoas de Liveway não costumam vir aqui – respondeu Anne Claire. – Os nativos odeiam os turistas. Quando eles dão suas “rápidas passagens” por aqui, parecem que emporcalham tudo! Sem contar que nas férias fica sempre lotado de pessoas – Fez uma expressão de desgosto.

Compreendi o que ela quis dizer.

Lembro-me de Londres, e o como durante as férias era insuportável ficar naquela cidade, porque tantas pessoas iam visitar a Inglaterra que os metrôs (que já vinham lotados) ficavam insuportáveis! Lembro-me que papai sempre me levava para o interior nesta época.

- Tudo bem... Então... Ou a sua pedra mostra a sua utilidade agora, ou algum de nós vai mergulhar nessa água fria e irá buscar as ervas... Claro que ainda tem o problema da falta de ar – Thanatos comentava com ceticismo. – Isso parece ser profundo...

Anne Claire empinou o nariz como se estivesse se sentindo desafiada.

- Sua pouca confiança em mim, me ofende – ela murmurou. – Veja e observe.

A garota levou os dois dedos indicadores aos lábios e soltou um assovio alto que ecoou pelo bosque que cercava a cachoeira de Green Falls. Pareceria até o assovio de um falcão se não soasse tão doce.

A princípio, nada aconteceu.

Exceto uma coisa que eu percebi: o barulho da água caindo com força da cachoeira, parecia ter se tornado mais abafado. Como se caísse em algo bem diferente do que rochas.

Ao ver o rosto cético de Thanatos, Anne Claire disse, aproximando-se da borda:

- Euphemia! Sou eu. Não precisa ter medo!

Fiquei curiosa para saber com o quê ela falava.

E foi quando de repente, eu vi.

Sob a água que caía fortemente da cachoeira, apareceram dois olhos verdes esmeraldinos, que pareciam se fundir à pele cor verde claro e aos cabelos tão verdes e vivos quanto às das plantas que cercavam.

Seu rosto não estava totalmente para fora do lago, e a água que caía da cachoeira sobre sua cabeça parecia não incomodá-la. Ela fitava Anne Claire com certo receio quando, ao perceber que se tratava dela mesmo, nadou para a borda com a rapidez de um peixe.

- Você precisa ter cuidado – alertou a criatura à Claire. – Tem gente estranha rondando esse lugar e eu não gosto disso.

A essa altura, ela estava apoiada com os dois braços esbeltos sobre uma pedra.

Parecia uma sereia!

Seus cabelos eram lisos e pareciam estar permanentemente molhados. O que fazia todo sentindo uma vez que ela fosse uma criatura da água! Seus cabelos lembraram-me à cipós lisos e escorregadios. Sua pele esverdeada não a tornava uma criatura feia, pois seu rosto era delicado como o de um anjo.

Pelo modo com o qual se escondia atrás das pedras que cercavam o lago mágico de Green Falls, dava a entender que ela estava parcialmente nua. E constrangida com a presença de dois homens ali.

- Gente estranha? – perguntou Anne Claire em tom de preocupação.

A bela criatura concordou com a cabeça. Trocando olhares nervosos entre Thanatos, César e eu. Seus olhos demoravam por demais em mim, como se já houvesse me visto antes e tentasse se lembrar de onde. Provavelmente ela conhecera a minha mãe e também se assustava com a semelhança.

- Sim. E não era nenhum deles – ela respondeu em seu tom rápido e baixo. – Eu não gostei deles. Cheiravam à encrenca.

- E como eles eram? – perguntou Anne Claire.

- Não sei ao certo. Fiquei com medo de sair e que eles me vissem. Mas, confesso-lhe Claire, não gostava deles! Não mesmo! Um soltava fumaça pela boca! – ela comentava expressando horror agora.

César cruzou os braços e olhou para mim, depois para Claire.

- Não se preocupe. Não deixam que eles lhe vejam e...

- Claire, nós não viemos aqui para uma visita social – cortou-lhe César com secura. – Estamos nos desviando de nosso objetivo.

A garota riu com desdém.

- Para quê a pressa? Ainda temos muito tempo para recolher os ingredientes – ela lhe alfinetou. E se virou para a amiga com olhar de arrependimento. – Desculpe, Euphemia, mas não viemos aqui para uma visita social.

A criatura de Green Falls não pareceu surpresa.

- Foi o que eu imaginei. Afinal de contas, a senhorita teria vindo sozinha se assim fosse – ela sorriu compreensiva e seu olhar pousou em mim. – Surpreendo-me apenas que tenha trazido Jane Marie consigo, até onde eu me lembro, ouvi boatos de que ela estava morta!

Eu sorri envergonhada.

- Não sou Jane Marie – eu disse e ela pareceu chocada. – Meu nome é Anabelle Malback... Franklin. Sou filha dela.

Hesitei em usar o sobrenome de minha mãe, mas sabia que dizer que sou Anabelle Malback de nada serviria para eu contar vantagens no mundo deles. Ela olhou para mim impressionada, depois pareceu triste. Espalmou as mãos nas pedras frias.

- Filha? – Ela sorriu. – Então ela realmente se casou com o garoto Henry?

- Você conhece o papai? – perguntei confusa.

Ela sorriu e concordou com a cabeça.

- Marie era uma grande amiga minha. Como vivia de modo muito solitário, por ser uma bruxa e ter muito medo de ser descoberta, sentia-se à vontade quando me fazia companhia aqui em Green Falls. Claro que... Eu também gostava de sua companhia. Essas águas ficam muito solitárias durante as estações que esfriam.

César soltou um bufar impaciente, mas fiz um sinal para que ele esperasse mais um pouco. Eu nunca tinha muitas chances de ouvir as pessoas falarem de mamãe. E, aqui em Liveway, era sempre em tom vago: “Marie, sim me lembro dela. Era uma garota muito bonita e inteligente”. Ou, “Lembro-me que Henry era louco por ela”.

Papai também nunca falou muito de mamãe, porque doía nele. E o mesmo acontecia com Alice.

- Conte-me mais! Por favor! – pedi. – Eu não conheci mamãe!

A criatura do lago sorriu.

- Marie lia para mim o que ela chamava de “Os grandes clássicos da literatura Inglesa”. Como você deve imaginar, minhas mãos estão sempre molhadas, então é difícil, para mim, pegar em um livro sem encharcá-lo totalmente. Um dia, percebi que ela vinha com menos frequência do que com costume. Nada comentei porque eu não queria que ela achasse que me devia alguma satisfação...

“Foi um belo dia em que ela chegou para mim com um sorriso e um olhar brilhante e leu com tanta emoção que eu sabia que algo havia mudado dentro dela. Demorou ainda alguns dias para que ela voltasse e conversasse comigo sobre o que estava acontecendo.

- Eu estou apaixonada, Euphemia! – ela dissera sem receio e sem medo, com as faces coradas.

Fiquei surpresa. Em geral, Marie era introvertida e tímida, no entanto, naquele momento, ela se mostrava a pessoa mais feliz e radiante que eu já vira na vida! Acho que é impossível haver uma garota mais bonita que ela.

- E quem é o garoto? – eu tinha que perguntar!

Ela sorriu e se sentou nesta mesma pedra em que estou apoiada agora.

- Seu nome é Henry Malback – O nome dele parecia virar mel em seus lábios só pelo modo doce e apaixonado em que ela murmurou. – Ele tem uma má fama no colégio... Mas acho que o estou concertando aos poucos! Ele disse que gosta da cor dos meus olhos! E também do negro dos meus cabelos! E fez até uma música chamada Cher Jolie, Marie! Em homenagem à parte de meu sangue francês!

Ela parecia estar nas nuvens. Tanto sonhava e o elogiava que eu me senti a pior pessoa do mundo em trazê-la de volta à realidade tão bruscamente ao fazer uma única pergunta:

- Ele sabe o quê você é?

Foi como se o sol fosse coberto por um eclipse repentino. Uma nuvem que custaria a passar. De repente, vi a flor da felicidade de Marie murchar bem à minha frente.

- Ele não sabe – ela admitiu em um tom que apertou meu coração. – E, se Deus quiser, nunca saberá!

Mas nós duas sabíamos que um dia, ele teria de saber a verdade sobre a família de Marie e sobre tudo o que ela poderia representar de perigoso para a vida dele. No entanto, pelos lábios de minha amiga, eu sei que não foi.

Um dia, em que chovia muito, houve um terrível acidente.

Um caçador que estava de passagem pela cidade descobriu a verdade sobre Alexander, Alice e ela. Infelizmente, na ocasião em que ele atacou o cemitério sorrateiramente, Marie havia levado Henry para conhecer a irmã.

O vampiro atacou o homem e o matou, tomando todo o cuidado para que o corpo fosse parar em um acidente de carro no meio da estrada e carbonizou o corpo do homem. Só para não chamar a atenção de outros caçadores. No entanto, diferente de todos os que se feriram com a tragédia, Henry era o único humano!

Infelizmente, César e sua mãe não moravam aqui na época. E não havia um modo de explicar racionalmente, sem precisar dar queixa na polícia, como uma bala de madeira foi ficar encravada no abdômen do pobre garoto.

Marie então fez tudo o que estava em seu alcance e o trouxe até mim.

Não sei se vocês sabem, mas as águas do rio Green Falls atraem muito turistas principalmente porque há quem diga que ela possui propriedades curativas. O que não é totalmente verdade, pois, quem opera a magia, sou eu!

Enfim, eu o curei.

E quando Marie viu que Henry recuperava a consciência, ficou mais que aliviada. No entanto, sentiu, também, medo. Muito medo. Sabia que ele a culparia por sua quase morte e que ele a odiaria para sempre. Tratando-a como uma aberração.

Pelo menos era isso o que ela esperava.

Por isso, enquanto ele despertava e tomava consciência do lugar em que estava e de tudo o que acontecera, Marie mostrou-se altiva. Erguera o queixo como se estivesse pronta para aceitar a sua sentença de morte.

- Sinto muito pelo o que aconteceu, Henry – ela disse com sinceridade. – Infelizmente, é isso o que eu sou. Uma bruxa. Um ser que vive constantemente caçado e que precisa viver em segredo. Foi por minha culpa e de minha família que eu lhe pus em perigo. Sinto muito e entenderei se você não quiser mais saber de mim. Tudo o que eu peço, para o seu próprio bem, é que guarde segredo.

Ela falara com tanta rapidez que ele não pareceu entender metade do que ela dizia. O vi piscar inúmeras vezes para ver se conseguia captar pelo menos metade das palavras que ela dizia.

No entanto, declarou para si mesmo que não era necessário todo aquele esforço.

- Você, porém, salvou a minha vida – ele disse de um modo que eu descreveria como sendo “bem bobo”.

- Não fui eu. Foi Euphemia! – Marie apontou para mim, mas eu não parecia existir para ele. – Não. Escute, foi por minha culpa que você foi ferido! Eu sou um perigo!

Ele riu!

- Eu pensei que você soubesse que eu gosto de coisas perigosas – ele respondeu.

- Henry! Você não está me ouvindo! Eu vivo na clandestinidade! Sou obrigada a me esconder porque eu sou uma bruxa! – ela falou com lentidão para ver se ele refletisse melhor. – Esse ferimento foi apenas uma prova do que pode estar por vir!

Ele riu novamente e olhou, pela primeira vez, para a cicatriz em seu abdômen.

- Ótimo, parece que teremos boas histórias para contar aos nossos netos! – ele disse com um otimismo que eu nunca vi em homem algum.

Eu percebi naquele momento, que ele estava tão, ou mais!, apaixonado por ela, quanto ela estava por ele.” – Euphemia terminou sua narração.

Em um dado momento, eu pensei que fosse me desfazer em lágrimas e por isso me sentei em uma pedra próxima à dela. A história me tocou em um ponto que eu não conhecia. Ou talvez tinha uma vaga ideia, mas não gostava de mexer naquele lugar. Por que eu sabia que era um tanto vazio e doloroso.

- Papai parecia gostar muito da mamãe – eu murmurei.

- Ele era louco por ela! – Euphemia disse dando um leve tapa na pedra. – Duvido que seu pai seja capaz de amar outra mulher, não importa o quanto o tempo passe!

Eu quase concordei, mas, então, eu me lembrei de Meredith Nightray.

- Mas ele está namorando agora com outra pessoa. Com a Meredith, e parece que está feliz com ela... – eu murmurei, lembrando-me de como ele ria quando estava com ele.

Euphemia riu.

- Todo o homem precisa de uma mulher para aquecer o outro lado da cama, Srta. Malback. Mas duvido e aposto que ele não será capaz de amar essa tal de Meredith como ele amou a sua mãe – a criatura da água disse com convicção. E então, com se lembrasse da presença de todos ali. Ela disse: — Bem, agora que saciei a curiosidade de minha nova conhecida de honra, gostaria de saber o motivo que os trazem até aqui.

César murmurou algo parecido com “Aleluia!” e Thanatos apenas ficou olhando para mim como se fosse capaz de sentir o peso que aquelas palavras haviam exercido sobre meu coração.

Ele permaneceu em silêncio.

O garoto se aproximou da criatura da cachoeira e lhe mostrou uma lista das ervas que ela tinha que pegar e que estavam no fundo do lago.

- Precisamos que colha estas ervas especiais para nós – ele disse sem rodeios.

A criatura leu tudo e depois olhou para ele com os enormes e penetrantes olhos verdes esmeraldinos. Eles pareciam brincalhões e maliciosos agora.

- Não espero que você seja ingênuo para acreditar que eu farei isso de livre e espontânea vontade – disse ela. – Sou uma sereia e, para mim, negócios são negócios. Como tal, não arredarei as barbatanas daqui até que você me mostre algo que você esteja disposto a me dar em troca.

Ela estava subornando-nos?!

Mas Anne Claire já esperava por isso e se aproximou da mulher, mostrando-lhe o colar com a pedra da lua. Aquilo certamente prendeu a atenção da sereia, que pareceu hipnotizada e curiosa.

- Estamos dispostos a lhe dar isso, Euphemia. É uma pedra da lua. Muda de cor de acordo com as fases da lua e é muito raro de se encontrar. Acredito que nenhuma de suas amigas sereias terão uma igual – comentou Claire em um tom divertido.

De repente, a tristeza perpassou pelo rosto da criatura.

- Infelizmente, eu não tenho “amigas sereias” – ela murmurou com pesar. – Acredito que, desde que começamos a ser caçados com mais intensidade, muitos animais mágicos passaram a se esconder. E as sereias foi um deles. Por isso minha vida é tão solitária aqui que necessito de hibernar no inverno.

Então ela olhou para Claire e sorriu.

- Tudo bem, eu pegarei. É bonito e eu aceito – a sereia disse pegando a pedra da mão de Claire. – Esperem-me aqui. Devo trazer grandes quantidades, ou o suficiente para uma poção para uma pessoa?

- Traga bastante – apressei-me em dizer, fazendo todo mundo me olhar. Justifiquei-me: — Sou novata nisso e podemos acabar cometendo erros. É melhor trazer bastante de uma vez do que pegar somente o que necessitamos no momento.

Claire concordou com a cabeça.

- Sensato – César concordou.

- Tá ficando inteligente nesses assuntos! – Thanatos zombou.

- Você fica mais bonitinho calado – eu retruquei para ele.

Ele deu um riso sarcástico para mim e depois revirou os olhos com desgosto. Cruzou os braços e ficou dando uma observação ao redor.

- Você consegue imaginar seu pai fazendo e dizendo aquilo? – perguntou-me depois de um tempo, com um sorriso no canto de seus lábios.

- Sinceramente, é tipicamente o que papai diria – eu respondi rindo. – Ele sempre foi assim, meio irresponsável e meio otimista... Só estou surpresa por ele nunca ter me contado essa história antes.

- Talvez seu pai não queira que você conheça o seu “lado romântico” – respondeu Anne Claire. — Sinceramente, achei que ele deve ser alguém bem corajoso para aceitar tudo aquilo porque amava sua mãe. A vida de um humano ao lado de um bruxo muitas vezes pode ser desastrosa.

Concordei com a cabeça. De fato, meu pai era tudo isso.

Instantes depois, Euphemia voltou e deixou muitas ervas afiadas, finas e verdes escuras sobre as pedras e ainda disse que tinha mais. Por um instante, me arrependi por ter pedido tantas ervas. Mas César pareceu ter vindo preparado. Ele trouxera uma sacola grande onde começou a guardar algumas.

- Anabelle, esta é chamada como Erva de Memphis. Suas propriedades mágicas foram descobertas pelo bruxo Augustus Memphis há muito tempo. Ela é a erva mais importante para nós, pois é ela quem irá rastrear o pai de César – explicou Anne Claire, e nunca me senti tão ignorante como naquele momento.

- E sua amiga não vai estranhar que precisemos desta erva? – perguntou Thanatos. – Ela mencionou Atuérpia, o que me leva a crer que ela a conheça. Não corre o risco de ela dedurar César para a mãe?

Olhei para o meu guardião surpresa. Era a primeira vez que ele se mostrava tão perceptivo! Mas até mesmo quando ele falava com seriedade, parecia ter um pouco de grosseria e desdém em sua voz.

- Euphemia sabe ficar em silêncio nos assuntos que não dizem respeito a ela – respondeu Claire com confiança. – Podem confiar nela, mesmo sendo uma sereia e as sereias sendo conhecidas como falsas e egocêntricas. Ela é diferente.

Dei de ombros. Realmente, ela não me parecera ser uma má pessoa.

César já tinha guardado todas aquelas Ervas de Memphis quando Euphemia voltou com mais algumas outras. Essas possuíam um tom profundo de lilás e pintinhas de um tom estranho de roxo escuro. Como se estivessem com hematomas.

- Pronto – a sereia disse satisfeita. – Acredito que isso seja mais que o suficiente.

- Obrigada, Euphemia – Claire sorriu para a amiga enquanto ajudava César a guardar as ervas roxas. Lembrou-se então de me ensinar sobre elas: — Essas são as ervas de Larks. Muito útil quando se trata de captar os rastros de um ser mágico. Se sobrar, você pode ficar com um exemplar das duas ervas para estudar melhor com Alice.

César olhou feio para Claire, como se estivesse pensando que ela ia dedurá-lo para Alice ou para Atuérpia. A garota teve que completar:

- Claro que você deve pedir para Alice lhe ensinar depois que César tiver encontrado o pai e ido ao seu encontro.

Concordei com a cabeça. Pretendendo não me meter na briga daqueles dois.

- Caso você queira ouvir algumas histórias sobre a sua mãe. Volte para cá. Posso lhe contar do primeiro quadro que ela pintou ou quando ela pediu para que eu pousasse para ela – Euphemia sorriu para mim. – Seria um prazer imensurável ter alguém para conversar durante as estações que fecham o lago.

Eu sorri aceitando o convite.

Seria maravilhoso ouvi-la falar sobre a minha mãe, mas perguntei:

- E precisarei pagar algo por isso?

Ela negou com a cabeça e fez um gesto com a mão.

- Claro que não! – Respondeu deslizando pelas águas. — É sempre um prazer, para mim, falar sobre Jane Marie, e seria mais do que um prazer conquistar a amizade da filha dela. Sempre achei que a sua parte da família era a mais simpática. Alice é meio reservada e George representava um perigo para qualquer criatura que apresentasse formas femininas.

Franzi o cenho, confusa. Novamente, certa pessoa chamada George era mencionada e eu não tinha ideia de quem ele era. E pela expressão de culpa que Euphemia demonstrou, César e Claire olhavam para ela como se houvesse dito algo que não deveria.

- Quem é George? – perguntei.

Ela não respondeu e olhou para os dois que me acompanhavam.

- Desculpem-me, eu não sabia que ela não sabia. Achei que Alice houvesse lhe contado sobre ele como um exemplo que não se deve ser seguido – respondeu a sereia. Depois olhou para mim verdadeiramente com tom de desculpa nos olhos bonitos. – Perdão, Srta. Franklin. Acho que falar sobre George é algo que Alice deve fazer. Pergunte a ela e se ela não quiser lhe falar sobre ele, insista. Sei que é doloroso para ela, mas você precisa saber.

Como se a sereia nada mais tivesse para dizer, nadou de volta para a cachoeira e por lá desapareceu do mesmo modo que havia surgido repentinamente.

- Quem é George?! – perguntei frustrada.

- Parece que você vai ter que perguntar à Alice – respondeu Thanatos pondo a mão em meu ombro. – Vamos. Está passando da hora do almoço e eu estou morrendo de fome. Talvez possamos passar no Eletric Chapel à caminho de casa...

De repente, de súbito, um estouro ecoou pelas árvores que rodeavam Green Falls e Thanatos se atirou sobre mim e nos jogou para o lado com uma velocidade e reflexos incríveis. Só que ele, provavelmente, não calculou que fôssemos cair dentro do lago gelado!

Foi tão repentino que eu me vi sendo afogada no lago.

A sensação de nadar em uma água gelada era terrível. Parecia que navalhas ameaçavam me cortar em pedacinhos, e doía tanto que eu não encontrava forças para mexer os músculos enrijecidos. O ar me faltava e eu me vi engolido muita água. Não fazia ideia de o quanto aquele lugar era fundo!

Do lado de fora do lago, as figuras pareciam distorcidas e sons estranhos chegavam abafados debaixo da água. Mas eu sabia que tinha que lutar. Por isso, eu tentei nadar até a superfície, por mais que meus músculos doessem ao me mexer.

Para a minha sorte, talvez Thanatos não sentisse aquele desconforto. Ele me pegou pela cintura e nadou até a superfície.

Sentir os ventos cortantes do outono foi um pesadelo, mas sentir o oxigênio novamente foi um alívio para os meus pulmões. No entanto, o ar puro não pôde ser sentido como deveria, porque Thanatos logo tapou a minha boca com a sua mão.

Olhei para ele confusa, mas tudo o que Thanatos fez foi um som degradante para que eu ficasse quieta e gesticular para fora do lago.

Além das pedras que cercavam o lago formado pelas quedas das águas Green Falls; além das enormes pedras que nos escondiam dos olhos de quem estava do lado de fora, percebi que César e Anne Claire não estavam sozinhos. E bastou uma olhada rápida para a figura verde e temerosa que olhava por debaixo da cachoeira, para saber que as visitas não eram pessoas agradáveis.

- Ora, o que temos aqui? — perguntou uma voz que eu jurei já ter ouvido em outro lugar.

Eu quase pude imaginar um sorriso sarcástico se esgueirar pelo rosto de César antes que este dissesse:

- Um elfo, uma bruxa fracote e... Claro, um humano muito intrometido e tolo.

Perguntei-me se Anne Claire teria ficado ofendida por ter sido chamada de “bruxa fracote”, mas ela nem se manifestou. Depois, quis agradecer e beijar César só por ele não ter mencionado nem a mim ou Thanatos, mas porque será que César nem Anne se esconderam? Eles não viam o perigo?!

“Anabelle, é o César” ouvi Thanatos responder em minha cabeça: “Ele gosta de perigo!”.

- Novamente brincando antes de atacar, Trevor? — ouvi alguém dizer. E era outra voz desta vez. — Pensei que você já tivesse aprendido com aquela Banshee, de Dakota do Sul.

Trevor? Era deste modo que o pai de Roman se referia a Sean!

Então minha ficha caiu naquele instante.

Sean, ou Trevor (seja lá qual for o seu nome), é um caçador.

Logo, o pai de Roman também era!

Agora tudo parecia se encaixar. O pai de Roman estar sempre ausente; o pai de Roman dizer que “trabalhava para deixar o mundo mais seguro para ele”; quando Roman disse: “pode parecer confuso agora, mas é melhor para ambos que eu me afaste de você”; o fato de Roman não convidar nem a mim e nem a Alexander para a sua festa...

“Some dois mais dois e me diga o resultado depois” eu ainda ouvia César me dizendo isso.

Tive vontade de dizer à Cesar que eu somei os dois mais dois... E o resultado acabava em problemas. Muitos e muitos problemas!