O Lobisomem De Liveway

12 Capítulo 11 - O erro de George.


Notas iniciais
Oláaa
Estou aqui sem atrasos e para a felicidade de muita gente (ou não! xD)
Agradeço aos reviews de:
> Bellecat
> Matryoshka nu se simt (DONDE CÊ TIROU ESSE NOME?? O.o)
> Clara
> Dama de Prata (Aninha! *-*)
> Stefany_Zanoni
> Chi Ha Ru
> Queen K
> Kath Dragomir
Beijos e curtam o capítulo!!!
EUQOPÉ-ELLE3

Capítulo Onze – O Erro de George.

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- É melhor irmos tomar um banho quente.

O tom grave de Thanatos deveria ter me despertado daquele estado de transe em que eu me encontrava, mas não funcionou. Mesmo eu sabendo de tudo, minha mente trabalhava incansavelmente em busca de um bom motivo para negar o que eu descobri.

Mas não havia como.

Todas as evidências apontavam para o mesmo lado.

Será que Alice ou Alexander sabiam? Se não sabem, eu tinha que avisá-los. Faria isso assim que tivesse tempo.

- Anabelle! – Thanatos me pegou pelos ombros e pareceu incrivelmente bravo. Só voltou a falar quando teve certeza que eu prestava atenção nele. – Você vai para o seu banheiro tomar um banho de água quente. Agora.

Presa em seus olhos azuis, reflexos dos meus próprios, eu despertei. E vi que ele estava morto de preocupação comigo. Que fofo! Nunca pensei que ele viesse a demonstrar tanta preocupação com o meu estado mental.

- Ah... Você está preocupado comigo? – Sorri.

Seu olhar mudou para uma raiva tão intensa que eu quase senti como se suas mãos me estrangulassem. Resolvi, diante da ameaça não dita, fazer o que ele mandou. Ir tomar o meu banho quente, ainda mais porque eu estava morrendo de frio e poderia acabar ficando gripada.

Minhas roupas estavam tão pesadas e duras, que achei impossível eu ir até o banheiro. Mas quando eu cheguei lá... Quis dar um grito ao ver meu reflexo no espelho. Não que Thanatos estivesse me assombrando lá, como fazia antigamente, mas porque meu estado era deplorável!

Não era à toa que Thanatos estivesse preocupado.

Eu estava tremendamente pálida e como os lábios roxos por culpa do frio. Meu cabelo estava um desastre. Completamente bagunçado e duro. Seus cachos suaves estavam ondulados e pesados, como geralmente ficavam quando eu não usava o produto “quase” milagroso que eu passava. Sem contar que eu tremia de frio incontrolavelmente.

Nem precisei de uma segunda ordem para me livrar das roupas pesadas e ensopadas e ir para debaixo do choveiro.

Mesmo assim, minha mente voltou à Roman.

Por que ele não me contou? Ele realmente não conseguia mais confiar em mim? Ou será que ele acreditava que seria melhor para mim quanto menos eu soubesse?

Aquele encontro havia sido, não somente muito esclarecedor, como desastroso para César e Anne Claire. Não sei o que aconteceu, pois Thanatos me transportou para casa antes que fôssemos vistos pelos caçadores, mas eu rezava para que eles dessem notícias logo.

Pensando bem, foi a primeira vez que Thanatos me teletransportou com ele e me surpreendi em constatar que era uma sensação agradável! As sombras nos cobriam como se fossem um manto quente e macio. Espalhavam-se sobre o nosso corpo como se fosse um lençol de seda. E instantes depois, deslizavam novamente para dar espaço ao lugar para o qual tínhamos ido.

Era rápido e confortável.

- Eu não sei fazer nada, mas esse é o seu lanche da tarde – Thanatos disse quando eu entrei na sala de jantar.

Ele estava sentado em uma cadeira, comendo alguma coisa que eu não soube o que era. No entanto, eu olhei para cima da mesa, onde um salgadinho de embalagem amarela me encarava de volta. Era o meu preferido!

- Papai não está em casa? – perguntei quando percebi que, se ele estivesse, teria logo brigado, porque ele odiava o cheiro daquilo.

- Não. Deve estar na rádio... Ou com a Meredith – ele respondeu.

Não fiz comentários, mas estava começando a achar que papai estava dando atenção de mais à Meredith. Quando foi a última vez que eu pisei em casa e ele estava sozinho? Nem me lembro! Bem, se isso tivesse acontecido na época em que eu morava sozinha e entediada com ele, eu até reclamaria. Mas eu também me via imersa em meus próprios problemas para reclamar o sumiço do meu pai.

De repente, vi que eu não conseguia comer aquele salgadinho. Não que houvesse algo de errado com seu gosto – era ótimo! -... Mas minha preocupação, tanto com César quanto com Roman, fechava a minha garganta e não me deixava comer em paz.

- Precisamos falar com Alice... E depois com Roman – comentei com ele.

Thanatos revirou os olhos enquanto comia... alguma coisa. Não entendi o que era, mas cheirava mal para mim. E ainda fazia um “crak, crak” que estava começando a me dar nos nervos.

- O que você está comendo? – perguntei.

Com a boca cheia daquilo, parecendo um esquilo, ele respondeu.

- Nozes.

Fiz uma careta.

- Onde você conseguiu isso? Não me lembro de papai ter o hábito de comprar nozes – comentei.

Thanatos pareceu zangado.

- Eu pedi para ele comprar. Pode me deixar comer as minhas nozes sem abrir um inquérito policial agora? – brigou.

Cruzei os braços percebendo que ele soou muito petulante pra ser o meu Guardião.

- Claro. Coma as suas nozes, esquilinho – concordei. – Agora eu acho que você era o espírito de um esquilo que morreu ao atravessar a rua. Isso justificaria o porquê que você não gosta de pensar e age de modo tão extintivo.

Thanatos mastigou, mas não engoliu. Ao invés disse me deu língua e eu senti que eu fosse vomitar a minha comida. Às vezes ele era tão infantil e irritante! Só não respondi com uma grosseria porque o meu celular começou a tocar.

- Alô? – atendi.

- Ah, Alô? Anabelle? Que bom que você atendeu...

Sorri e suspirei aliviada. Levei a mão ao peito ao perceber que uma parte do enorme nó que lá se formara afrouxara um pouco. Era Anne Claire.

- Anne, vocês...

- Cala a boca e escuta – ela me interrompeu bruscamente.

Fiquei calada e resolvi ouvir. Ela demonstrara urgência na voz.

- Acho que César matou um deles, mas o outro fugiu. Anabelle, César e eu fomos descobertos, por isso é melhor irmos embora daqui agora. César vai para casa dele, mas a mãe está com Alice, cuidando de Alexander. Você precisa ir até lá e dizer, agora, que ela tem que ir para casa imediatamente.

Primeiro eu fiquei chocada, mas compreendi muito bem o que ela quis dizer. A cidade era pequena, bastava um dos dois perguntar pelo garoto e por Anne Claire para logo apontar onde eles moravam. Quem mais em Liveway teriam dois olhos de cores diferentes?

- Compreendo – respondi rapidamente. – E o feitiço?

- Eu e César daremos um jeito nele. De todo modo, se você quer descobrir alguma coisa, é melhor perguntar diretamente para Alice porque isso é ridículo – ela respondeu. – Preciso desligar. Vá falar com Atuérpia agora.

Quando ela desligou, levantei-me imediatamente da cadeira e percebi que Thanatos já se dirigia para a porta com as chaves de seu carro. Mesmo que, com o seu poder, ele não precisasse de um carro. E isso me pareceu a maior injustiça do meu pai.

Se Thanatos quisesse, poderia ir até a Austrália e voltar no mesmo dia!

No entanto, não reclamei na hora e entrei no banco do passageiro enquanto ele dirigia até a casa de Alexander com uma rapidez que me fez sentir medo pelas vidas das outras pessoas. Estava a ponto para dizer que ele não era Edward Cullen para sair voando em seu carrinho novo, quando ele estacionou enfrente da gótica casa.

Eu não esperei ele desligar o motor e fui logo para a porta, que, como se eu fosse esperada, se abriu. Fui recebida por duas mulheres de meia idade que pareciam bastante preocupadas.

- Senti que algo de ruim aconteceu – Alice explicou.

Eu respirei fundo e olhei para Atuérpia, seria mais difícil para ela.

- Hoje eu e César fomos visitar uma amiga dele, Anne Claire. Quando chegamos, ela disse que precisava de um ingrediente para uma poção e nos chamou para ir com ela até Green Falls. Quando chegamos lá, encontramo-nos com caçadores... Ninguém se feriu, mas um deles pode ter morrido e o outro fugiu. Vocês, a senhora e o César, precisam deixar Liveway agora – eu disse com uma rapidez que me surpreendeu.

Atuérpia escutou tudo com a boca levemente aberta por conta do choque. Demorou alguns segundos para que ela assimilasse tudo, e depois olhou para Alice quase com desespero.

- É melhor você ir encontrar com o seu filho, Atuérpia. Ele vai precisar de você – Alice respondeu com a voz de uma calma controlada. Depois olhou para mim: — E a você? Eles lhe viram?

Neguei com a cabeça.

- Thanatos conseguiu tirar-nos de lá antes que eles nos notassem – respondi.

Ela tentou não parecer tão aliviada quanto se sentiu. Apenas se despediu de Atuérpia, pedindo para ela entrar em contato mais tarde, e a outra bruxa teve que pedir para Thanatos levá-la porque ela não tinha um carro. Ele não se queixou, talvez no fundo ele gostasse de ser motorista de fuga.

Alice deixou-me entrar e suspirou aliviada.

- Acho que não devia, mas me sinto muito mais calma em saber que ele não lhe viu. César e Atuérpia só podem contar um com o outro, mas você tem uma família inocente e muitos amigos que nada têm haver com essa história. Eles poderiam acabar se prejudicando se você tivesse sido vista – ela confessou.

Eu concordei com a cabeça, pois eu havia pensado nisso também.

Meu pai não fazia nada e não passava de um humano, mas mesmo assim ele poderia ser penalizado somente por ser o meu pai. Quem garantiria que ele não tinha algo de mágico nele? E depois, ainda tinha a senhorita Nightray, só por ser namorada do meu pai ela poderia acabar recebendo alguma coisa também... E tinha os meus amigos.

- Eu... também pensei nisso – concordei. Então, lembrei-me que eu poderia até não gostar de fazer isso, mas havia pelo menos uma coisa que eu tinha que perguntar à Alice: — Gostaria de saber quem é George.

Alice não escondeu sua surpresa por eu saber daquilo.

- Como você...

- Quando eu disse que eu era sua sobrinha, Anne Claire comentou algo sobre ele, mas se calou quando percebeu que eu não sabia nada. E o mesmo aconteceu com Euphemia, a sereia de Green Falls – respondi.

Alice olhava em minha direção, mas não me via. Parecia que sua mente estava ocupada demais com velhas lembranças para me perceber. Por isso, eu acabei perguntando para trazê-la ao presente:

– Ele era... Seu irmão mais velho?

Ela ficou mais surpresa ainda.

Na verdade, eu supus que George se tratava de meu tio quando percebi que todo mundo que conhecia a família Franklin comentava sobre três membros: Alice, Jane Marie e George. Mas eu só tive certeza quando César disse: “Alice é a irmã do meio”.

A bruxa concordou lentamente com a cabeça depois de se recuperar do choque.

- George Charles Franklin era o filho mais velho de nossa família e o bruxo mais brilhante que eu conheci – Alice comentou em tom emocionado. – Capaz de transformar poeira, em coisas incríveis! Eu nunca admirei tanto um homem quanto o meu irmão...

Ela mostrou um sorriso radiante para mim, mas como alguém que se lembra de um fim trágico para uma bela história, o sorriso murchou em seus lábios. E ela se levantou. Subitamente, como se o mundo houvesse ficado muito barulhento e o ar rarefeito, ela se aproximou da janela e olhou para fora antes de continuar.

- Sente-se, pois essa é uma história um tanto longa – ela pediu.

Olhei para a sala de Alexander e escolhi o espaçoso sofá forrado de veludo vermelho. Parecia que tudo na casa de Alexander, ou era vermelho e madeira escura, ou era dourado e de madeira escura. Mas acho que ele tinha uma paixão pela cor vermelha, pois era o que mais predominava (e o que mais combinava com ele, é claro).

- Há muito tempo, durante o século XVIII, George deixou a América do Norte colonial, que na época estava começando a demonstrar revoltas, e partiu para a Europa a fim de estudar sobre ingredientes exóticos e raros. Na Romênia, o país que conquistou o seu coração, ele conheceu o clã de vampiros Cluj.

Ela fez uma pausa e explicou:

- O Clã de vampiros que Alexander fazia parte.

Ela sorriu e se virou para a janela novamente, voltando a narrar:

- Alexander era o chefe da família, tendo, pelo menos, quarenta pessoas sob sua proteção – Alice sorriu. – Alexandru, como era o seu nome em Romeno, era diferente dos outros vampiros.

- Diferente? – repeti me perguntando como ele seria diferente.

Alice riu.

- A maioria dos vampiros gosta de ficar somente com seus semelhantes, pois acreditam serem superiores do que qualquer outra espécie. Alexander não era assim. Nunca foi. Ele acreditava que havia muito que aprender com as outras espécies mágicas e achava que viver somente com vampiros era um tanto... Aborrecido. – Alice riu novamente. – Logo, qualquer criatura mágica que necessitasse de abrigo na Romênia, poderia encontrá-lo em seu castelo, no condado de Cluj.

- Ele não permitia humanos? – perguntei.

Alice negou fortemente com a cabeça.

- Humanos podiam criar desavenças entre os vampiros. De humanos, haviam somente os numerosos criados que jamais serviriam de banquetes. Para satisfazerem-se, o Clã Cluj dava festas escandalosas das quais nem eu podia participar por ser “muito inocente” – Alice riu, mas eu fiquei chocada. Então, seu riso morreu. – No entanto, para toda regra há a sua exceção.

Houve algo em sua pausa que me alarmou, e no modo que falou deu a entender que ele permitira um humano em seu castelo, e me levou a acreditar que algo de ruim havia acontecido. Que aquela deveria ter sido a única e última vez que Alexander permitira um hóspede que não fosse do “nosso mundo”.

Alice mordeu o lábio inferior como se quisesse se repreender.

- Desculpe, acho que mudei um pouco de assunto – ela murmurou constrangida. – De qualquer modo, George foi muito bem recebido pelo clã Cluj e se tornou muito amigo de Alexander. Eu não me surpreendi, uma vez que meu irmão fosse um homem muito inteligente e Alexander gostava de se ver cercado por pessoas inteligentes.

Soltei um som de desdém. Realmente, parecia que Alice estava falando de uma pessoa totalmente diferente para mim.

Ela somente me lançou um olhar a respeito do som que deixei escapar.

- Lá, na Romênia, ele estudou a fundo sobre a fauna e a flora locais e ficou fascinado ao descobrir que, na floresta que hoje é conhecida como Hoia-Baciu, habitavam dragões! – Alice exclamou.

Eu senti um aperto maravilhado no peito. Dragões? Eles existiam? Seres tão maravilhosos assim existe? Eu gostaria de saber, então, como eles fazem para se esconder, uma vez que sejam criaturas enormes.

- Dragões?! – perguntei sem conter um sorriso enorme.

- Sim! Um dia, quem sabe, você poderá conhecê-los e participar da Cerimônia do Fogo. É fantástica! Melhor que fogos de artifício! – Alice sorria como se se lembrasse da magia de assistir àquilo. Então voltou a falar sobre o que dizia. – No entanto, o que mais atraiu o meu irmão foram certos ingredientes “especiais”. Ingredientes que retardavam o envelhecimento... E a morte.

Deixei meu queixo cair, mas não a interrompi.

- De repente, meu irmão pensou: “Não seria ótimo se as pessoas não precisassem morrer? Tanta dor seria poupada, e nunca mais uma lágrima causada pela perda de um ente querido teria de ser derramada!”... Ele estudou, então, as propriedades daqueles ingredientes como nunca estudara nada na vida! Compreendeu todos os efeitos, todos os prós e os contras de se tomar aquele elixir, mas sabia que algo faltava... – A voz dela foi morrendo aos poucos.

Ela abaixou a cabeça por um instante e vi um brilho triste em seus olhos.

- Meu irmão... Sempre foi muito dedicado aos estudos, tanto que nunca encontrou uma esposa e todas as mulheres que tinham em sua vida, nada lhe significavam. — Alice suspirou. – Ele estava disposto a pagar, o que quer que fosse, para que seu elixir da vida eterna fosse completo e funcionasse. Pagar até mesmo... Com a sua alma!

“Estudando um pouco mais a fundo, George leu as leis naturais que regiam o manual da Deusa e do Deus. As coisas que eles proibiam, e tudo aquilo que eles abominavam. Lendo sobre o que se tratava, ele percebeu onde estava o que impedia seu elixir funcionar.

Há uma regra, na magia, que diz: ‘nunca controlar, com magia, vida ou morte’.

George, naquele instante, percebeu que cultuar uma Deusa e um Deus que lhe impediam de interferir no curso natural da vida somente o atrasaria. Jamais ele conseguiria um meio de burlar aquele juramento... Então ele pensou: ‘se meus Deuses não me dão poderes para controlar a vida ou a morte, neste vasto mundo, há um que sirva para esse fim’”.

Alice falava tão baixa e sombriamente que acreditei que ela estava envergonhada pela atitude do irmão. Por ter menosprezado os Deuses e Deusas que ela tanto amava e cultuava e que, provavelmente, toda a nossa família cultuara de geração em geração.

- Ele... Passou a usar... Magia negra – ela murmurou sem voz, tentando não chorar. – Meu querido irmão... Seu tio, Anabelle, é a pessoa importante que eu perdi para a magia negra! A pessoa... Que eu acredito que nunca haverei de tê-la de volta!