O Lobisomem De Liveway
6 Capítulo 5 - Intruso.
Notas iniciais
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Eu pretendo excluir o meu capítulo de avisos porque, até onde eu sei, é proibido no nyah mas mesmo assim vou agradecer às garotas:
> Thalia
> Gaby_Mystie
> Emanuelle
> isaah-cris
> Lucy347
> Pollyana
> Elizabeth Marke
> Yeahitsmomo
> geovana_nina
> Hina
> Stefany_Zanoni
> Isabelle
> Sarah Cristiana
> Kath Dragomir
> LahErly
> BelleCat
> miss yuki
> GioGio Luna
> Chi Ha Ru
> Lilith
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Muito obrigada ^ ^
FIcou pequeno e muito meia-boca, mas eu prometo que o próximo será bem melhor.
Capítulo Cinco – Intruso.
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O dia que meus amigos haviam reservado para mim foi simplesmente incrível. Não sei dizer se isso foi algo bom ou ruim, só sei que houve suas desavenças. O sol estava morno e a brisa fresca, mas eu sabia que de noite ela ficaria fria e insuportável. Eles brincaram, riram e comeram, mas eu estava um pouco perturbada com... Bem, tudo.
Eu prestava atenção em tudo e em suas brincadeiras e tentava sorrir e não me sentir preocupada, mas era difícil. Eu pensava em minha mãe, cuja vida fora dada em nome da minha e do meu pai, e em Alice, que um dia fora casa e tivera uma filha, mas não estava com eles.
O que poderia ter acontecido? E diante disso, o que pode acontecer comigo? Ou com meu pai, Thanatos e meus amigos?
Tentei não deixar que essas preocupações não tomassem a minha alegria perto de meus colegas, mas era difícil. Eu sempre criticava as menininhas dos livros que abandonavam seus amigos humanos só porque descobriram um mundo novo – na verdade, me parecia meio injusto -, mas agora eu entendia que talvez não fosse só egoísmo, mas sim proteção.
- Você parece muito preocupada hoje, Anabelle – comentou Érika enquanto experimentava uma roupa na loja de Sra. Evelyn. Era quase fim de tarde e depois emendaríamos para Eletric Chapel. – Está pensando em Roman?
Encolhi-me, claro que eu pensava nele indiretamente – ele estava agregado ao meu subgrupo de “amigos” -, mas só suspirei dando de ombros. Agora que Elizabeth fazia questão de ficar me espetando, por algum motivo que eu já estava começando a querer perguntar qual era, eu me sentia realmente culpada.
- Na verdade, estava pensando se Thanatos vai ficar bem vendo CDs com os garotos – desmenti rindo em imaginar. – Eles não parecem estar aceitando bem a presença do meu irmão gêmeo ao grupo.
Érika riu e logo Anabeth riu também, se aproximando dos provadores.
- Garotos... Estão tão bobos e ciumentos – murmurou a gêmea com mecha.
- Ah, mas há de convirmos que seu irmão e um gato. Miau – Érika brincou.
- Bem, acho que vocês também não gostariam se de repente eles aparecessem com uma garota gostosa dizendo ser “amiga” deles – comentei tentando soar divertida.
- Ah, mas nem que Josh sonhe! – reclamou Érika.
- Nem que Dan pense! Eu o castro – bufou Anabeth.
Dei de ombros e nos calamos assim que Elizabeth se aproximou. As garotas desconversaram e começaram a criticar as roupas uma das outras enquanto eu tentei permanecer em silêncio. A outra gêmea estava uma bomba relógio e eu não queria que ela explodisse em minhas mãos.
Deixei as garotas conversando lá no provador e me afastei para ver algumas roupas para mim. Como a dona da loja gorducha não tinha o melhor bom gosto do mundo, eu tive que procurar bem até encontrar algo que se valesse a pena uma segunda olhada.
Para o meu alívio, a ruiva que trabalhava na loja, e que me atendera das últimas duas vezes, estava lá e pareceu feliz em me ajudar.
- Dificuldade para encontrar algo? – ela perguntou parecendo divertida.
- Hm, é. Eu acho que sim – eu comentei um pouco sem graça.
Ela sorriu e me chamou com o dedo.
- Bem, sua tia esteve aqui semana passada e pediu para que eu fizesse algo para você. Vem cá.
Talvez eu nunca tenha mencionado como é a loja de Evelyn, mas é uma loja em grande parte de madeira com um primeiro piso com o caixa, os provadores e as araras cheias de roupas coloridas e vibrantes até as monocromáticas. Enquanto no segundo andar, que seguia por uma escada estreita e discreta, eu descobri naquele instante, tinha um atelier de costura.
- Alice pediu para que você fizesse algo para mim? – perguntei surpresa.
- É... Por algum motivo ela disse que para que eu fizesse pensando em você. Não neguei porque eu fiquei feliz. Em geral, tia Evelyn não me deixa fazer roupas, ela me julga incompetente – disse a ruiva. – Ela não gosta do meu “senso de moda”.
Eu quase quis rir com a voz remendada que ela fez e também com a ironia da coisa. Eu achava que a atendente entendia um pouco de moda. Ela se maquiava esplendidamente, seus cabelos eram de um ruivo vermelhão bem cuidado e com movimento, seus olhos eram de um verde intenso e seu corpo era magro e esguio. Parecia uma verdadeira modelo.
- Então você faz roupas também? – perguntei.
- Sim. Eu quero ser uma estilista... Antes eu morava em Milão, mas meus pais me mudaram para cá para ficar com a titia – ela resmungou, parecia chateada.
Bem, eu também ficaria tendo uma tia como ela.
No segundo andar, tinha o atelier. Com janelas largas, mesa para desenhar modelos e manequins com vestidos acabados ou não. O meu, talvez para um clima de suspense, estava coberto com um pano branco o que me fez olhar para a ruiva como se ela fosse louca.
- Gosto de suspense – ela justificou dando de ombros. A atendente andou até o manequim e segurou a ponta do pano.
Concordei com a cabeça. Esperar e ter surpresas não eram mais as prioridades da minha vida adolescente nada comum.
Meu desânimo não a deixou menos empolgada e ela puxou o tecido de uma vez só e logo me vi quase sem palavras para dizer o quão bonito era o vestido que ela fizera para mim. O belo modelo era forrado com um tecido nude róseo, com uma renda preta e brilhante por cima. Era um modelo longo, de alça única e cintura marcada.
Só me perguntei onde eu usaria isso ou por que Alice pediria um vestido de gala para mim.
- Ele é... Maravilhoso, mas porque a minha tia pediria um vestido de gala para mim? E, ainda por cima, sob medida – comentei.
A garota deu de ombros
- Provavelmente é para a festa dos fundadores de Liveway – sugeriu a ruiva tirando o vestido do manequim. – É uma festa que Alice Franklin participa todos os anos, assim como a minha tia.
- Festa dos Fundadores de Liveway? – perguntou confusa.
Em momento algum Alice mencionara um evento destes para mim. Provavelmente queria fazer surpresa, assim como o vestido. Bem, a atendente certamente não deveria ser boa em guardar segredos, ou ela apenas queria evitar perturbações e correções no último dia.
- É. Sabe, a família Franklin, Florence e Grew foram os fundadores de Liveway e, uma vez por ano, eles organizam uma festa em comemoração ao aniversário da cidade. Será daqui a dois meses e sua tia me pediu para que eu fizesse um vestido para você. Ué, ela não te contou?
- Não – respondeu Isabelle.
- Opa, parece que eu estraguei a surpresa dela então. – Ela deu um sorriso amarelo. – Mas eu acho melhor que você saiba porque aí você experimenta logo e ajustamos!
Ela me deu o vestido, muito bonito por sinal, e me empurrou para um provador que tinha lá em cima mesmo.
- Vamos aproveitar que a titia deixou a loja sob meus cuidados! – ela exclamou.
Não reclamei muito e segui para um provador que estava lá. Pensei que aquele tipo de roupa não iria ficar bem em mim quando percebi os brilhos nas flores da renda. Eu não gostava muito de brilhos, mas, quando o vesti, percebi o quão bonita eu fiquei.
Ele caia delicadamente pelo meu corpo e parecia que realmente havia sido feito para mim. Isso me fez sorrir ao me ver no espelho do provador. Só que a barra ficou muito grande.
- Com ficou? – perguntou a ruiva.
- Um pouco longo de mais – respondi arredando a cortina e andando até ela.
Ela me estendeu um salto alto, bem alto, e me puxou para um banco de madeira. Tudo bem, eu comecei a me perguntar quando foi que eu virei uma equilibrista para ficar me equilibrando com salto alto em cima de um banco – que ainda estava bambo por sinal.
Ela ajeitou a barra e me mandou descer. Quando pisei no chão, a sola do salto alto escorregou no vestido e quase caí. Mas tudo bem, eu não me machuquei. Havia um garoto lá que amorteceu a minha queda.
Ele tinha cabelos curtos e arrepiados. Não parecia uma cacatua, estava mais para porco-espinho. Eram de um castanho achocolatado de dar inveja. Seus olhos eram verdes como esmeraldas e seu corpo era forte de pele corada.
- Opa – disse ele, aparando-me. – Um anjo caiu do céu, foi?
Eu corei totalmente. De onde foi que ele surgiu? Não estava ali antes.
- M-me desculpe – pedi envergonhada.
Eu ia me ajeitar e me afastar quando um rosnado chamou a minha atenção. Não, não era um rosnado de um animal, mas de um garoto. Senti meu rosto ficar mais vermelho ainda quando vi Roman parado na porta junto com todo o grupo que nos olhava com olhos arregalados.
- N-não é o que parece! – exclamei, pois foi só nisso o que eu pensei.
- Claro que não é o que parece! – disse o meu amigo irritado.
Era impressão minha ou Roman havia mudado? Ele parecia um pouco mais alto, talvez fosse impressão da posição em que eu estava, sobre o outro garoto. A franja de seu cabelo oxigenado estava visivelmente maior. Com aquela franja jogada para o lado batendo até o seu queixo – não, não era uma franja “emo” – e o resto bem aparado.
- Solte-a, por favor, Sean – pediu Roman com condescendência, mas seus olhos estavam tão escuros que nem pareciam azuis.
- O que foi? Ela é sua, é? – perguntou o garoto que me amparava.
Eu me afastei dele e tentei manter a pose.
- Ei. Desculpe aí, meu filho, mas eu não tenho dono – eu disse ultrajada. Porque há homens que parecem animais e gostam de perguntar se alguém é de alguém? – Quem é esse metido à besta, Roman? – perguntei com raiva.
- Anabelle, este é Sean Valentin. Ele... Veio com o meu pai. – Algo no tom de voz de Roman me deixou bem claro que o lobisomem se desentendia com ele. – Tem dezenove anos e agora meu papai acha que ele deve sair comigo e meus amigos, mas eu, particularmente, não gosto de andar com um garoto me seguindo como se fosse o meu rabo.
Uma imagem assustadoramente engraçada se passou na minha mente de Roman em forma de lobo correndo atrás de seu próprio rabo. Tive que conter a vontade de rir, pois eu não queria abalar o clima mais do que tenso que estava entre nós.
Vi que Elizabeth queria dizer alguma coisa, mas ela se conteve ao olhar para Roman e me olhava com raiva de novo.
- Uou, esse é um vestido muito bonito Anabelle – Thanatos mudou de assunto indo para perto de mim. – Onde foi que você o conseguiu?
Ele olhou para a ruiva um pouco afastada com uma pontada de interesse. Ela era bem baixinha se comparada a ele, mas também, quase todas as garotas eram pequenas e raquíticas comparadas ao meu guardião sombrio.
- Ela fez para mim – respondi, mesmo sabendo que nem era necessário responder. – Titia Alice encomendou para mim.
- É muito bonito – disse ele, sorrindo para a ruiva. – Parabéns.
- Valeu – ela respondeu descolada.
Oh, por Deus não me digam que meu guardião estava flertando com a atendente!
- Sou Cecille Belmont – cumprimentou-o estendendo a mão.
- Thanatos Malback – ele respondeu apertando-a.
- Como a morte da mitologia grega? – pergunto interessada.
Ele deu um meio sorriso que eu quase chamo de “Edward Cullen”. Oh, Deus. Ele estava mesmo flertando com a atendente, o que era engraçado porque a ideia de um espírito se apaixonando por uma garota era quase absurda para mim. Ainda mais quando esse espírito era como o “Que vá a merda tudo” Thanatos.
- Realmente, é um vestido muito bonito, Bell – as garotas elogiaram. – Você vai à festa dos fundadores com ele?
- Então vocês sabiam? – perguntei surpresa.
- Todo mundo sabe. Eles vão começar a pregar cartazes pela cidade semana que vem! – exclamou Érika. – Minha mãe os está fazendo. Como Liveway é muito parada eles fazem coisas assim de vez em quando... É legal. Só para quebrar o clima de vez em quando. Essa cidade é muito monótona.
- Mas roupa de gala? – perguntei cruzando os braços.
- É. Parece que vai ser na prefeitura desta vez. – Sorriu Anabeth. – O meu vestido está separado, mas agora que eu estou vendo o talento de Cecille. Eu deveria ter pedido para ela fazer o meu. – Fez biquinho.
Sorri e me encolhi ao perceber o quanto Roman me encarava. Nós dois sempre ficávamos nos estranhando ultimamente. Não era do tipo que nos faria corremos um para o outro e nos agarrarmos como dois desesperados, mas do tipo que me fazia encolher até querer sumir do seu olhar. Era estranho ter um amigo que era apaixonado por você, e você sabe disso.
- Você ficou bonita nele – ele me elogiou.
Fiquei vermelha. Teve muitas vezes em que Roman me elogiou: na festa dele, em momentos sem nada em especial... Mas era estranho tê-lo me elogiando quando eu sabia que ele gostava de mim. Eu tinha medo de dar quaisquer tipo de esperanças à ele então eu me retraía. Estúpido, eu sei.
- Para você até se ela ficasse nua seria bonita – resmungou Elizabeth.
- Eliza! – reclamou Anabeth.
As gêmeas se encararam e Elizabeth se afastou com raiva, e Anabeth pediu licença ao Daniel e foi atrás dela. Sean olhava para tudo como se fosse parte de um espetáculo. Dei de ombros e suspirei. Não entendia o que estava acontecendo com Elizabeth, mas eu achava que era pessoal. Talvez não só comigo, mas comigo e Roman. Será que Elizabeth gostava dele?
E o clima ficou tenso de novo.
- Cara, seria mesmo – Roman brincou coçando a nuca e todo mundo riu, menos Thanatos. Ele fez uma carranca e quase pude imaginá-lo pegando meu amigo pelo pescoço para tirar satisfações.
Ter um guardião que vive brigando ou colado com o seu pai tem suas desvantagens.
- Acho que para todo mundo – comentou Sean com um sorriso de canto.
Eu fiquei vermelha e ri para descontrair também. Resolvi ir trocar de roupa, não aguentaria mais ficar exposta daquele jeito, e pedi para que eles descessem. Mesmo que tivesse um provador bem privativo, me agoniava ter tanta gente em um único ambiente. Thanatos teve que descer e eu me perguntei o que ele pretendia com a ruiva.
Cecille me ajudou a descer o zíper do vestido novo e disse que ficaria com ele para ajustar e me pediu para que não dissesse para Alice que ela havia dado com a língua nos dentes. Apenas concordei e fui embora com meus amigos.
- Então... Vocês todos nasceram aqui? – perguntou Sean para todo o grupo. – Você não precisa responder, Roman. Já sei de sua vida toda.
- Oh, então quando meu pai está com você ele ao menos se lembra que tem um filho? – ele perguntou parecendo irritado. – O que ele fala? Que eu sou a maior decepção da vida dele?
Todo mundo trocou olhares e se afastaram dos dois.
- Na verdade, ele fala que você é um milagre. Ele nunca achou que Deus pudesse criar um ser tão irresponsável e cabeça dura quanto você. – Sorriu.
Roman rosnou e ficou muito chateado.
- Ô vocês dois. A mãe de vocês não disse que roupa suja se lava em casa? – criticou Thanatos revirando os olhos. – Quase todos nós estávamos nos divertindo até pouco tempo e vocês estão conseguindo deixar um clima desagradável.
Roman concordou com a cabeça e bufou para o outro, Sean.
- Que seja – murmurou.
Fiquei surpresa ao vê-lo colocar as mãos no bolso com raiva e dar de ombros. Eu nunca imaginei ver Roman com raiva antes. Ele sempre leva tudo na brincadeira e tenta não se importar com quase nada, mas ser chamado de grande decepção pelo pai deve ser chato.
Mas, então, se Roman não gostava do pai dele – ou o pai dele não gostava dele — por que ele passava um tempo com o seu pai? Por que ele se afastava do cemitério e um pouco dos amigos para ficar ao lado do pai? Será que ele tinha alguma doença?
- Então... Como você soube que estávamos na loja? – perguntei tentando aliviar o clima.
- Encontrei com os garotos na loja de CDs – ele respondeu retraído e de aspecto calmo e deu um meio sorriso. – Fazia tempo que eu não saía com vocês, não é?
- É! – exclamou Érika em tom acusatório.
- Bem vindo de volta – brincou Daniel dando um tapa no ombro do amigo.
Sean revirou os olhos e fez cara de quem ia vomitar.
Perguntei-me o porquê daquela rixa entre os dois e bastou uma rápida olhada para Thanatos para perceber que ele pensava a mesma coisa também. Pela primeira vez, percebo que a vida de Roman é estranha. Principalmente a relação dele com a família. Será que o pai dele sabe o quê ele é?
- Uh, essa é uma boa pergunta – meu guardião murmurou para mim.
- Que pergunta? – perguntaram os garotos se virando para nós.
- Er... Eu tava perguntando para o Thanatos se... Já não estava na hora de eu tomar o meu remédio – menti, e fingi uma tossida. – Essa gripe havia me deixado mofina.
Eles olharam para mim e deram de ombros.
Fomos para o Eletric Chapel em meio à brincadeiras que Sean encarou como sendo infantis. Ele nos perguntou se não havíamos tido infância e Thanatos havia respondido: “Parece-me que você foi quem não teve”. Eu tinha que admitir que até o meu guardião era um pouco brincalhão às vezes.
Eu senti pena ao ver Anabeth de um lado para o outro e ainda encontrando tempo para conversar conosco de vez em quando. E eu que achava que ser garçonete era fácil...
Na volta para casa, voltamos Roman, Sean, Thanatos e eu pelo caminho, porque nossas casas ficavam no mesmo quarteirão. Foi silencioso o que era estranho, pois uma volta para casa nunca era silenciosa com Roman. Ele falava pelos cotovelos!
“Thanatos, você consegue distrair Sean um pouco para eu conversar em particular com Roman?” pedi. Sim, comunicação telepática tinha lá as suas vantagens.
Meu guardião concordou discretamente com a cabeça, fingindo que ia estalar o pescoço e disse que tinha algo para mostrar à Sean. O cara pareceu desconfiado, mas me deixou sozinha na frente de casa com Roman por um tempinho suficiente.
- O que está havendo? – perguntei sem hesitar.
Meu amigo fez-se de desentendido.
- Do que você está falando? – perguntou.
- Roman, você está... Diferente. Parece triste e parece estar evitando todo mundo.
Ele deu de ombros.
- Talvez eu só esteja um pouco cansado. Afinal, tive que passar a tarde toda com aquele filho da mãe colado em mim parece um carrapato – ele resmungou.
Eu quase quis rir com a leve ligação à animais, “carrapato”, e me perguntei se ele fazia isso de propósito para tirar graça com ele mesmo e com o que ele era.
- Você gosta do seu pai? – perguntei.
Ele deu de ombros de novo e cerrou os lábios. Pensei que ele estava ponderando se ia ou não me responder, mas percebi que ele estava mais era decidido a não me contar.
- Ele sabe o quê você é, Roman? – perguntei em tom ameno.
Ele bufou e cruzou os braços.
- Não. – Ele respondeu com a voz dura. – Não se preocupe. Eu tomo cuidados. Quando é lua cheia, digo que vou dormir na casa de um amigo e vou para a casa de Alice ou Alexander... Ele se importa tanto comigo que é como se eu nem existisse.
- Se ele não se importa com você, então porque você insiste em afastar todo mundo quando ele está na cidade? – perguntei pousando minha mão em seu braço.
Fiquei surpresa quando ele se esquivou como se meu toque queimasse a sua pele. Ou a manga de seu casaco e me vi quase ofendida.
- E você se importa? – perguntou ele, eu acredito que sem pensar.
- Claro que eu me importo, afinal, você é o meu melhor amigo – eu disse.
Minha resposta não pareceu satisfazê-lo e nem ser o que ele exatamente esperava. Ele fungou com ironia e olhou para cima soltando um nostálgico: “claro, amigo”. E, pela primeira vez, perguntei-me se depois de dar um fora nele, não poderíamos mais continuar como amigos. Ou se eu o magoava agindo desta forma.
Seria melhor eu me afastar dele também? Será que ele estava tentando se afastar de mim quando se afastava dos outros? Seria o pai apenas um pretexto para ficar longe de mim? Essas ideias me magoaram, principalmente, porque era legal ter um amigo que passava por coisas parecidas que eu. Um amigo que sabia de outro mundo que eu acabara de conhecer.
Abri a boca para perguntar mais alguma coisa, mas ele disse que tinha que ir para casa e chamou por Sean. Não sei o que Thanatos falou para ele, mas ele mal me olhou na cara e isso me preocupou.
Mais havia algo que mais me preocupava naquele momento: Roman.
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