O Lobisomem De Liveway
21 Capítulo 20 - Besta Negra.
Notas iniciais
Capítulo Vinte – Besta Negra.
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– C-... Como? – eu perguntei quase sem voz.
Sean me mostrou um sorriso que teria feito qualquer garota delirar, no entanto, eu estava chocada demais para sentir qualquer coisa além uma enorme vontade de espaço. Ele estava muito próximo, muito debruçado sobre mim... Sufocante. Como se percebesse, ele se afastou. Levantando-se da cama, ele vagou calmamente pelo espaçoso (e pouco mobiliado) quarto. Enquanto isso, minha mente lampejava perguntas. Sedenta por respostas.
– Quando eu descobri o que eles eram... Ou o que parte deles eram, informei à George e à Jane, sua mãe e seu tio. As duas pessoas que haviam me encontrado quase morto – ele contou. – Sua tia, Alice, sempre foi uma garota distante que queria o máximo de distância possível de mim... Ela tem afinidade com o dom da vidência, e dizia para quem quisesse ouvir que eu ainda seria a desgraça daquele clã... Não que ela fosse levada à sério. Para esse mundo mágico, ela não passava de uma criança boba.
Eu respirei fundo e ouvi. Que raro eu ficar calada... Mas era o melhor.
– E então eu soube... Soube que, desde sempre, aqueles dois sabiam onde estavam me metendo. No meio de vampiros! Como se quisessem que eu fosse o seu... lanchinho!
O jeito que ele falava... Era como se ele sentisse asco. Nojo de que seus dois salvadores e do cara que havia permitido que ele ficasse se recuperando na sua casa.
– Duvido que minha mãe tivesse essa intenção – me ouvi dizendo, com dureza.
Ele se virou para mim, com um sorriso largo surgindo em seus lábios.
– De fato! Sua mãe jamais teve essa intenção... Mas George... Eu não sei. Ele praticamente beijava por onde aquele vampiro nojento pisava... Dragonulescu assobiava e seu fiel cachorrinho ia logo atrás! No entanto, assim como todos, o “chefe dos Cluj” não passava de um garotinho mimado e entediado...
– Ei! – eu gritei de repente.
Não sei de onde surgiu a raiva que brotava em mim, mas ela estava ali. Alexander não era nenhum “garotinho mimado e entediado”... Quer dizer, talvez fosse. E quem disse que eu o conhecia bem? Mas desde que eu o conheci, vejo que ele se esforça para agradar a Alice. Ele faz tudo e talvez saiba magia até mais que eu mesma, que sou uma bruxa (iniciante)!
Ele não merece esse título... Talvez eu mereça, mas não ele.
– O quê? – ele perguntou divertido. – Toquei... Em alguma ferida, Bell?
Cara, se decida, ou eu sou a “Bell” ou eu sou “Jane”.
– Oh, é claro... Assim como a sua família toda, Jane também babava em cima do vampiro – ele resmungou, andando de um lado para o outro. – É claro que você deve ter herdado dela alguma espécie de... Sentimento por esse vampiro... Mas a questão é, você se lembra dele e não se lembra de mim?
Havia uma enorme irritação no tom da sua voz.
A questão é que eu o conheço a mais tempo que você!, eu pensei.
– Você não me contou como conseguiu ser “imortal” – eu pedi, mudando radicalmente de assunto. – E o que você quer dizer com esse lance de minha mãe e eu!
Sean novamente se apoiou na moldura de ferro da cama. Fitando-me como um predador fita uma presa. Perguntei-me quanto tempo Thanatos demoraria em vir atrás de mim... Eu estava começando a me cansar. E a ficar com medo que, ao fim, Sean não me contasse o que ele pretendia me deixando viva (e presa naquela cama).
– Tudo bem... Vou falar de uma vez – ele respondeu. – Fui eu... Quem roubou o elixir de vida eterna do seu tio. Antes de partir, eu o roubei.
Tá, de certo modo, eu já esperava por isso... Mas meu estado de “aceitação psicológica” não era capaz de me impedir de sentir uma raiva fora do comum. Ele havia traído a confiança do meu tio e da minha mãe... E mesmo assim tive que me controlar.
Algo me dizia que aquilo não era tudo.
– E você o bebeu. – Não foi uma pergunta.
Sean me olhou como se minha afirmação fosse ridiculamente boba, e de fato era. Que tipo de ser humano recusaria a vida eterna se esta já estava em suas mãos?
– O bebi... Mas não sou tão egoísta quanto você está me julgando agora – ele respondeu. – Eu ainda queria, ah, como queria... Casar-me com Jane Marie. Sendo assim... Eu deixei um pouco para ela também... E sempre soube que, se no fundo ela me amasse tanto quanto eu a amava, ela beberia também e viria atrás de mim.
Minha mente deu voltas.
– E, pelo visto, ela bebeu – ele comentou com um sorriso de quem vencia um jogo. Ele apontou para mim com suas mãos. – Afinal, você está aqui. A cópia dela...
– O fato de eu estar aqui não tem nada a ver com o suposto amor que a minha mãe tinha por você – eu ladrei imediatamente. Cara, esse homem estava viajando demais! – E eu digo, suposto, porque aparentemente é um “amor” que apenas você enxerga.
Ele riu de mim... De novo.
– Você pensa isso agora... Mas assim que eu te explicar como funciona o lance da imortalidade, tenho certeza que você vai mudar imediatamente de ideia – ele explicou.
Eu ergui uma sobrancelha. “Thanatos! Thanatos querido, cadê você? Estou com uma vontade enorme de socar esse cara e minhas mãos estão acorrentadas” choraminguei mentalmente. Oh, sim, eu queria enfiar meu punho na cara de Sean até afundá-la. Ver se consigo curar a loucura dele.
– Então... Como funciona? – eu perguntei, apesar de estar desinteressada.
Ele se sentou na beira da cama. Perto dos meus pés.
– Bem... Diferente do que eu acreditava, o elixir não servia para dar imortalidade ao corpo humano – ele começou. – Trata-se da imortalidade da alma. Quando eu morro, minha alma pode ser reencarnada num receptor mais próximo. E com “receptor” quero dizer: pessoas que morreram há pouco tempo ou pessoas em morte cerebral.
– Então você... Meio que reencarna? – questionei.
Sean ergueu o olhar, reflexivamente.
– Pode-se dizer que sim – ele respondeu.
Um arrepio desagradavelmente gelado percorreu a minha espinha. De certo modo, essa baboseira toda explicava o porquê na minha visão “Trevor White” era bem diferente desse “Trevor” que estava à minha frente. Só acho que não explicava o porquê eu tinha a cara da minha mãe... Se ela havia (o que eu acho que não) bebido o elixir, ela deveria ter reencarnado, não? Não ter dado à luz a alguém que era a sua cara...
– O.K... E eu pareço com a minha mãe porque... ? — forcei.
– Ela bebeu o elixir – ele respondeu. – Será que é possível que você não saiba sobre a crença das bruxas a respeito de engravidar? Que elas acreditam que parte de sua alma é doada para o filho herdeiro, ou herdeira, de magia?
Trinquei o maxilar. Valeu, Alice... Até um caçador sabia mais que eu.
– Digamos que dois meses não seja o suficiente para eu entrar nessa parte de “Bruxas e seus costumes” – eu respondi, sentindo-me patética. – Não sei quase nada de magia... Bem, supondo-se que eu tenha uma parte da minha mãe, continue com sua excelente explicação.
– Eu nunca vi nada assim antes... Mas acredito que, sendo assim, sua mãe não iria mais reencarnar em outro corpo ou outra vida... Como ela te teve antes de morrer, acredito que, de algum modo, você já fosse a reencarnação dela.
Olhei para ele, atônita.
Oh, Deus, isso era tão bizarro! Sério, mesmo, que ele acreditava naquilo?! Essa era a sua grande ideia?! Essa ideia estúpida e bizarra... Que de algum modo, parte de mim podia até acreditar, estava certa?! Por que ela estava tão confiante naquela noite? Por que ela não fugiu quando Trevor foi buscá-la? Ela não tinha medo da morte... Ou já sabia que seu futuro estava garantido?
Não. Esse homem é maluco, Bell! Ele tá delirando!
Assim como eu acreditei que Alice era uma maluca também? Ela estava certa...
Ele e Alice são pessoas totalmente diferentes... Alice é boa e gentil... E ele é... É... Um traidor! Um puto traidor que roubou o elixir do meu tio, aniquilou o clã de Alexander (alô, tenho neurônios! Liguei os pontos)... Ele é um imbecil que merece muitas coisas... Coisas ruins.
– Sabe, Bell... – Não gostei de ouvir meu apelido sendo dito por ele. – Se tem uma coisa que eu aprendi naquela noite... Na noite em que fugi daqueles bandos de vampiros... Foi a nunca dá margem para erros. Um para menos, ou um para mais... São dúvidas que não podem existir para caçadores.
Franzi o cenho, vendo-o puxar uma faca. Não, uma faca não. Faca era eufemismo comparado com a arma cortante que ele puxou. Estava mais para uma espada. Uma pequena espada de gume curto, mas, aparentemente, muito bem afiada. Ela poderia cortar até mesmo seda só com o simples escorregar do tecido sobre sua lâmina.
Um arrepio percorreu a minha espinha.
– O- O que você vai fazer c- com essa coisa? – perguntei, querendo afundar-me no colchão; fugir dele.
Ele se levantou, lentamente, da beirada da minha cama. Seu olhar estava sombrio. Quase enegrecido com pensamentos que dei graças a Deus por não ser capaz de ouvir. Algo me dizia que, ou envolvia sexo selvagem e sujo, ou tinha algo a ver com morte. Muitas e muitas mortes.
– Acabar com as minhas dúvidas – ele respondeu, parando em pé, ao meu lado.
– H- hein?
Ele ergueu a sua espada com os braços tensos. Parecia até que ia fazer um sacrifício.
Oh, Deus! O homem ia me matar!
Um rugido ecoou pela minha cabeça. Diferente de tudo o que, alguma vez, eu já havia ouvido (e eu já havia tido muita coisa na minha cabeça). Aquele era um rugido animal de pura fúria. Um rugido que me causou arrepios de medo. Thanatos?
– Não! Não! O que você vai ganhar me matando? E se eu não for a reencarnação da minha mãe e morrer de vez?! Você vai ter matado um inocente! – exclamei.
Ele deu um sorriso sinistro.
– Errado. Eu terei matado uma bruxa – respondeu-me ele, falando o nome com nojo.
Então ele desceu a faca... Em direção ao meu peito.
Fechei os olhos em puro reflexo. Bem apertados e rezei por qualquer coisa. Qualquer coisa que pudesse em salvar naquele momento de minha morte certa... Mas a lâmina não me tocou.
E novamente ouvi o rugido. Dessa vez, não na minha cabeça.
Quando voltei a abrir os olhos, uma enorme besta negra estava debruçada sobre mim. Não sei que tipo de animal era aquele. Sua anatomia, suas formas... Lembravam muito a um ser humano em posição de animal, e acho que havia até mesmo pele revestindo o seu corpo. Todavia, havia muitos espaços vazios de onde se via a cor escura. Como se ele fosse vazio por dentro... E a pele que sobrara, estava vermelha.
Que bicho era aquele e porque diabos ele estava me defendendo?
Não que eu esteja, reclamando, claro. Qualquer aliado agora é bem-vindo.
– O que diabos... ? – Sean começou.
Foi a vez da criatura não dar margem para erros. Antes que o homem pudesse sequer terminar a pergunta, o bicho preto pulou em cima dele com a ferocidade de um animal violento, fazendo Sean ter que se defender com o seu antebraço, que foi logo mordido.
– Merda! – Sean gritou, tentando enfiar o punhal na lateral do pescoço do animal.
Ele se defendeu dando um tapa no antebraço do homem (fazendo o punhal voar para longe) e o segurou no chão. O bicho rugiu uma terceira vez, fazendo até mesmo que eu sentisse medo.
– Você. Nunca mais. Vai. Encostar. Nela! – ele gritou em frente à face de Sean.
Ei... Essa voz me é familiar... Thanatos?
Sean não respondeu nada, só franziu o cenho e deu uma cotovelada no rosto do meu guardião, fazendo-o ficar desorientado por um tempo. Tempo suficiente para o homem com o braço sangrando da mordida se jogar para o lado e reaver o seu punhal.
– Venha me impedir então – o caçador o desafiou.
Ambos se encararam por alguns segundos. Ódio pingando dos olhos negros de Thanatos irreconhecível e dos olhos verdes claros de Sean. E então eles se lançaram numa batalha violenta de cortes, arranhões, mordidas... Chutes e socos.
A porta de repente se abriu com força. Quase sendo arrancada das dobradiças.
Não sei se fiquei feliz por minha atenção ter se desviado de uma batalha violenta e muito baixa (que estava começando a me deixar enjoada) ou se fiquei feliz por encontrar Alexander no vão da porta.
Pela primeira vez, ele estava completamente desalinhado. O que diabos aconteceu com a sua blusa?! Ele estava sem ela! (não que isso fosse algo necessariamente ruim), mas chegava ao cúmulo de ser nojento quando o vampiro estava coberto de sangue. E é sério. Havia sangue respingado em seus belos cabelos castanhos avermelhados, em cada centímetro de sua pele branca e pálida exposta e acredito que em grande parte do que restou de suas roupas.
Sean paralisou quando viu o vampiro lá.
Eu sabia porque, mas duvido que Alex (ou quem sabe Thanatos) soubessem.
Foi essa paralisia que fez com que Thanatos pudesse dar a volta por cima. Antes, Sean estava pressionando meu guardião na parede, agora, quem o estava fazendo era o próprio e socando o rosto de Sean repetidas vezes. Incansavelmente... E quando Sean já beirava a inconsciência, Thanatos acabou com ele.
Enfiando o seu braço através do peito dele.
Alex escolheu esse momento para se meter na minha frente e arrancar com um puxão as algemas. Olhei para ele, irritada, frustrada e aliviada. Eu não sei se estava pronta psicologicamente para ver um cara morrer de verdade, na minha frente.
– O- o que aconteceu com Thanatos? – perguntei.
– Longa história – ele respondeu enquanto quebrava a algema direita.
– Você está coberto de sangue! – observei.
– Desde que não seja o meu... – ele disse, dando de ombros, quebrando a outra.
Assim que me vi livre, o abracei forte. Enfiando meu rosto na junção de seu pescoço ao ombro. Deus, como ele era frio! Mas como sua forma era aconchegante muito bem vinda para mim. Quase que eu chorei de emoção. Então eu me dei conta que era real. Eu havia realmente estado à menos de um metro da morte e se não fosse por aqueles dois eu estaria morta agora.
Quem diria que era tão fácil matar uma bruxa?
Quem diria que eu ainda fosse tão inútil?
– Não tire o seu rosto daí, tá? – ele sussurrou.
Franzi o cenho e quase o fiz, mas relanceei o corpo de Sean caído num espaço daquele quarto enorme e perdi a vontade de desobedece-lo. Alex me pegou no colo e se dirigiu para a porta. Chamando Thanatos, que de algum modo estava se divertindo mutilando o cadáver.
– Ei, Besta das Sombras, hora de ir. A diversão acabou por aqui.
Thanatos bufou e nos seguiu porta a fora.
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