O Lobisomem De Liveway
19 Capítulo 18 - A Festa de Roman
Notas iniciais
Capíulo 18 – A Festa de Roman.
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– Isso é loucura.
Foi com essa saudação “calorosa” do motorista que eu entrei no carro de Alexander. Sinceramente, ainda agora eu me perguntava o que havia dado em mim para contar a ele, e não à Alice, sobre os meus planos perigosos. Ela era a minha tia, todavia, agora eu estou assombrada coma minha falta de confiança na sua pessoa.
Mas ouvi uma voz em minha cabeça (uma voz que eu quis muito que fosse Thanatos) dizendo que eu não lhe devia lealdade; ela não confiava em mim. E, se até mesmo Alexander, não contara o meu plano suicida, certamente era porque ela não precisava saber dele.
– Eu sei... – Suspirei, mas então eu sorri com curiosidade. – Mas você nem tenta nos impedir. Ao invés disso, diz que irá conosco... Por quê?
Thanatos entrou no banco de trás, havia demorado um pouco porque estivera checando a traseira reparada de seu carro (que voltara aquela tarde da oficina). Ele estava novinho em folha e mesmo assim o guardião não iria dirigir. Alexander fora bem claro em suas imposições: ele iria e iríamos no carro dele, que parecia ser mais resistente do que um canhão... Tá, talvez nem tanto.
De qualquer modo, Thanatos ficara um tanto inconformado.
– É. Sabe, geralmente você é o “estraga prazeres” – o meu guardião comentou.
Alexander suspirou.
Era incrível que, mesmo com séculos de existência, ele parecesse tão... Humano. Quando ela o conhecera, há uns bons meses atrás, era fácil acreditar que se tratava de um morto-vivo, mas, agora, era difícil. Duas noites atrás, ele parecera bem vivo. Com sentimentos. Algo além da frieza, da indiferença e, às vezes, a raiva. Ele estivera divertido e, até mesmo, preocupado.
– Alice... É uma bruxa temerosa agora – ele resmungou, dando partida no carro. – Estou surpreso e... admirado com a sua inciativa. Eu não esperava de você.
– Pasmem! Alexander Van Cruce ficou admirado com Anabelle... É hoje que o mundo acaba. O fim dos tempos! – Thanatos zombou segurando seu rosto em suas mãos.
No entanto, minha cabeça ficou presa na ênfase no “você”.
– O senhor acha que eu não sou capaz de tomar inciativa em nada? – perguntei cruzando os braços com força.
– Não. Não mesmo. Você é do tipo que se encolhe no canto e chora – ele respondeu com um meio sorriso nostálgico. – Sabe, como quando você ficou dois ou três dias trancada no quarto depois que eu contei sobre o Roman, Alice e eu éramos.
Meu rosto ficou vermelho.
– Ah, dá um tempo. Eu não estava no meu melhor momento, está bem? – eu respondi virando o rosto para a janela. – Imagine descobrir, numa única noite, que tudo aquilo que você cresceu sabendo era mentira. É aterrorizante.
Alexander não tirou seus olhos do caminho. Suspirou e mudou de assunto.
– Isso não quer dizer que sua ideia seja menos arriscada. Você não pensou em pedir para Roman executar esse trabalho de busca? Sabe, a casa é dele. Seria mais fácil.
Eu mordi o lábio inferior.
– Ele não foi à escola esses dias... – Thanatos explicou. – Está cuidando do pai...
Uma onda de raiva percorreu o meu corpo, e duvido que isso tenha passado despercebido de Alexander e, muito menos, de Thanatos (ainda mais quando esse podia ler minha mente e meus sentimentos). Naquele momento, eu pensava: “Pai? Até o meu pai, que é ausente (sempre atrás de um rabo de saia), é mais pai que aquele homem”. As palavras dele, na minha visão, soavam como veneno: ácidas, corrosivas...
“Ele pensa que somos loucos. Não compreende o nosso trabalho. E é justamente por isso que eu o desprezo. Você, Trevor White, é o filho que eu nunca tive” ele dissera em minha rápida visão.
O Sr. Langerark não liga para Roman e isso me enfurecia.
– Qual é o seu maior medo, Anabelle? – Alexander me perguntou de repente, enquanto dirigia pela rua que começava a se encher com vários carros de modelos e cores diferentes.
É. Todos os jovens da cidade (ou talvez até mesmo fora desta, ouvi dizer que Sean chamaria uns “amigos” e isso era o que mais preocupava Alexander, Roman e Alice) deveriam ter sido convidados, menos a melhor amiga daquele lobisomem ingrato.
– Por que te incomoda tanto que ele, Roman, se afaste?
Sinto um tom estranho em sua voz enquanto ele para o carro na frente da casa badalada daquele que, aparentemente, me esquecera. No entanto, eu me perguntava como de repente havíamos começado a falar sobre Roman e sobre os meus medos.
– Meu maior medo... É acabar sozinha — eu lhe respondi, com certo custo. — Já fui rejeitada pelo meu pai uma vez, e foi a pior sensação da minha vida. Já fui rejeitada pelos meus amigos de Nova York, e também não foi nada legal. Não posso perder Roman agora.
Não sei qual é a reação de Thanatos, mas percebo que ele ficou calado.
Alexander me fitou, com seus enigmáticos olhos cinzentos, porém, como nada respondeu, achei que havíamos encerrado aquele tópico. Ele apertou os lábios, deixando a apreensão que sentia com aquela situação estampar a sua face. Ele olhou para mim e depois, com dificuldade, para Thanatos.
– Vou dar meia hora para vocês – ele disse. – Se não voltarem, vou atrás de vocês.
Eu olhei para ele com surpresa.
– Você não vai conosco? – perguntou.
Ele negou com a cabeça.
– Sou um vampiro. Sou pálido, tenho olhos brilhantes demais, sou muito rígido e muito lindo – ele explicou. – Andar comigo seria como levantar uma placa neon dizendo: “pessoas que sabem de coisas sobrenaturais”.
– Não vamos nos esquecer que você também é muito modesto, não é? – Thanatos resmungou, mais para si mesmo do que para o vampiro.
Mas ele, obviamente, ouviu. Mesmo assim, ele não sorriu e nem esboçou isso.
Seus olhos intensos estavam em mim. Cravando-se em meu rosto, como espinhos envenenados com preocupação. Por que ele estava assim? Teria medo do que Alice poderia lhe fazer caso me perdesse? Caso me colocasse em risco? Não... Não tinha a ver com Alice. Pelo menos não naquele momento.
Como se percebesse um momento de tensão entre mim e o vampiro, Thanatos me chamou e saiu do carro, mas quando eu ia fazer o mesmo, Alexander segurou o meu braço. Sem força. Acho que ele estava se contendo.
– Se acontecer alguma coisa... É só falar o meu nome – ele sussurrou com seriedade. Sues olhos pareciam querer tirar algum segredo de dentro de mim. No entanto, ele pensou melhor e disse: — Não. É só chamar meu apelido.
Tentando brincar eu perguntei:
– Sociopata?
Ele franziu o cenho, parecendo ofendido.
– Não. Alex. Até você falar “Sociopata” ou Alexander pode estar morta.
Fiz um som de esclarecimento e concordei com a cabeça, descendo de seu carro alto logo em seguida. Como se eu quisesse fugir daquele momento constrangedor. Infelizmente, um calor desconfortável se apossou do meu rosto. Eu não acreditava em mim mesma.
O que deu em mim? Ele novamente estava falando com seriedade e eu querendo fazer gracinha! É como quando ele disse que era um vampiro e eu desmaiei. Ou seja, era totalmente ridículo!
Thanatos me esperava do lado de fora do carro, deu um meio sorriso ao perceber a minha raiva de mim mesma e começou a andar para me alcançar. Graças a Deus ele não disse nada. Se não eu o faria engolir as palavras, defecá-las e depois o faria comê-las novamente.
– Pensei que ele fosse te comer lá dentro – ele comentou com sarcasmo.
– Ele jamais me morderia – repliquei.
“Pelo menos eu espero que não”.
– Que inocência... – Foi só o que ele disse.
Passamos por alguns conhecidos que cumprimentamos educadamente. Eles nem se preocuparam em esconder a surpresa que sentiram ao nos ver ali, porém, nós dois não nos importamos. Não é como se nós fôssemos ser linchados dali porque Roman não nos queria frequentando a sua casa.
Fui atingida por uma onda de nostalgia ao entrar na casa de Roman. Parecia quase engraçado (de irônico) que eu só houvesse pisado lá uma vez, e fora também em uma festa, enquanto ele gostava de, pelo menos há um tempo, aparecer quando quisesse em casa.
Senti a mão grande de Thanatos segurar a minha.
“Não devemos nos perder” disse-me telepaticamente.
Concordei com a cabeça, pois aquele era um risco real. Todos nós (Alexander, Thanatos e eu) havíamos concordado que seria mais fácil nos camuflarmos se fôssemos mais tarde que o normal, quando todos já tivessem checado e estivessem “alegres” com a bebida distribuída livremente pela festa.
“Devemos procurar Sean e confrontá-lo?” pensei para Thanatos.
Ele negou com a cabeça.
“Vamos só encontrar esse caderno e ir embora” respondeu-me.
“Tá, e se o caderno estiver com ele?”
“Aí você tenta se aproximar como se não soubesse que ele sabe o que você é” Eu ergui uma sobrancelha. “Aí você joga um charminho, finge que se interessa por ele, rouba o caderno e o mata incinerado. Você é boa com fogo”.
“Sua mente terrível e ardilosa me comove” pensei.
– Anabelle!
Uma voz familiar chamou a minha atenção, mas eu não consegui ver direito quem foi que me chamou. Só percebo quando, de repente, a pessoa agarrou o meu antebraço e me arrastou pelas pessoas que dançavam aglomeradas nos espaços vazios; até a cozinha vazia e escura.
A pesar da falta de luz do cômodo, consegui ver o rosto de Roman.
E ele não estava feliz.
– O que vocês pensam que estão fazendo aqui?! – ele perguntou a mim e a Thanatos (aparentemente, o arrastara também).
– Nossa... Eu também estou muito feliz em te ver depois de tanto tempo. Como tem andado? Cansado? Nervoso? Realmente, não deve ser fácil mentir para os pais. Eu sei disso – eu me ouvi dizer com uma pontada de mágoa e sarcasmo.
Roman pousou as mãos na cintura e respirou fundo. De relance, vi que ele realmente estava cansado e nervoso, bem como eu dissera. Fazia tempo que eu não o via direito (na verdade, duas semanas mais ou menos, ou alguns dias), mas parecia uma eternidade. Ainda mais quando ele me tratava com indiferença.
Ou pelo menos tentava tratar.
Mesmo assim, parecia fazer uma eternidade que eu não o via. Parecia até que era a primeira vez que eu via os seus cabelos prateados, curtos atrás e longos na frente, seu rosto anguloso e magro, e seus olhos azuis marinhos. Havia quase me esquecido de sua maneira estranha (para os padrões de uma cidade pequena) de se vestir: calças jeans rasgadas, coturnos e camisetas simples, mas com um toque diferente.
– Então você já sabe? – ele murmurou, quase não ouvi a sua voz por debaixo da música alta que tocava (uma mistura de pop e rip hop). – Claro. Alice deve ter contado...
– Não. Ela não me contou... Quer dizer, sim e não... Eu suspeitei depois que tive uma visão não intencional sobre o seu pai. Depois, ele e seu “comparsa do mal” atacaram César e Anne Claire... Depois, César me contou da sua festa e sobre quem foi deixado de fora. Eu liguei os pontos – respondi. – Alice só serviu para confirmar tudo.
Roman fitou o chão por alguns segundos e de repente ergueu o olhar. Pousando as mãos nos meus ombros, ele me olhou nos fundos dos olhos. De uma maneira que me deixou meio constrangida, pois me lembrara dos sentimentos que ele nutria por mim.
– Então você sabe o porquê tem que ir agora, não é? – ele perguntou.
– Não. Não mesmo – eu disse com teimosia. – Estou aqui numa missão.
Roman arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços. De repente, um vislumbre de diversão surgiu em seu rosto. Foi quase como se a apreensão, que andara acompanhando-o recentemente, não existisse.
– Uma missão? Na minha casa? – ele perguntou com sarcasmo.
Eu concordei com a cabeça e Thanatos se manifestou pela primeira vez na cozinha.
– Aquele filho da puta que seu pai trouxe para casa roubou algo que Anne Claire havia deixado para nós. Algo que se parecia com um caderno antigo – meu guardião explicou, cruzando os braços. – Viemos pegá-lo de volta.
Roman arqueou as sobrancelhas, parecendo genuinamente surpreso.
– Sean fez isso? – ele perguntou com incredulidade. – Não me lembro de tê-lo visto com livro nenhum, se bem que, desde que meu pai foi atacado, eu estive no hospital então quase não vinha para casa... Isso é mal... Eu não deveria tê-lo perdido de vista por esse tempo, afinal, ele poderia estar chamando outros caçadores para Liveway e eu acabaria nem sabendo. Prometi à Alice que ficaria de olho nos movimentos deles...
Eu franzi o cenho e o garoto se recostou à beira de um balcão, como se estivesse reflexivo por um tempo.
– Meu plano, era não deixá-los descobrir algo a respeito de vocês, Alexander, César ou sobre o resto... – ele murmurou. – Se eles pensassem que não tivesse nada aqui, poderiam ir embora achando que a perda de seu caçador desaparecido fosse somente... Uma fatalidade.
– Caçador desaparecido? – eu perguntei confusa.
Roman franziu o cenho para mim e depois coçou a nuca em desconforto.
– O motivo... Do meu pai e seu maldito “discípulo” terem voltado teve a ver com o desaparecimento de um caçador que estava pelos arredores – ele me explicou. – Talvez você não se lembre do homem que... Alexander quase matou para te proteger... No bairro comercial. – Meus olhos se arregalaram com o lampejo da memória. Thanatos o matara. – Bem... Ele parecia um cara normal, mas não era.
Agora foi a minha vez de me recostar no balcão. Lembrava-me vagamente daquele homem. Ele teve o seu pescoço mordido por Alexander e seu sangue fora drenado até ele desmaiar. No entanto, quem o matara fora Thanatos. Eu não sei como ele morreu, mas sei que encontrei sua caixa enquanto conversava com o meu pai.
– Eu arranquei a cabeça dele fora – Thanatos me comunicou.
– Eu podia continuar vivendo sem essa informação, obrigada – retruquei. Então respirei fundo. – Merda. Eu os trouxe para cá.
Roman respirou fundo e colocou uma mão solidária em meu ombro.
– Ei, a culpa não foi sua. Hora ou outra eles iriam voltar – ele murmurou com pesar. – Era só uma questão de tempo... Eles são como... Uma gripe muito foda.
Eu quis rir. Roman não era muito de falar palavrão, mas quando falava era meio hilário. Meio... Estranho. De repente, ele suspirou. Chamando a minha atenção (e a de Thanatos).
– De todo modo, vocês dois, precisam ir embora. Hoje, Sean convidou uns amigos dele para a festa e não acho que eles vieram para debater política e nem dar em cima de garotinhas do ensino médio – ele nos avisou. – Acho que... Agora que eles descobriram que aqui tem algo... Vão investir e perseguir até não haver mais nada.
– Primeiro, eu não vou até recuperar o caderno que nem é meu – eu disse. – E segundo... Não gosto da ideia de te deixar aqui com esses caras malucos.
O lobisomem respirou fundo e coçou a nuca novamente, aproveitando para massagear o seu pescoço levemente. Ele parecia chateado, resignado... mas parecia estar se sentindo um pouco melhor. Como se a minha segunda frase houvesse lhe trazido um pouco de conforto.
– E depois você vem com aquele papo de “só amigos”- ele resmungou.
“Ih, ele já vai começar” Thanatos resmungou na minha mente.
Soltei um suspiro raivoso e cruzei os braços.
– Roman, você está sendo um babaca – eu disse com uma sinceridade que o chocou. – Namorados ou coisa do tipo não são as únicas pessoas que se preocupam com você. Seus amigos, os de verdade, também se preocupam. Você foi o cara que me ajudou quando precisei. É uma das poucas pessoas para quem eu não preciso mentir... Apesar disso, eu não posso fingir que sinto muito mais do que carinho e confiança por você. Mentir sobre isso não ajuda em nada, acredite.
Acho que minhas palavras o feriram, mas sei que teria lhe machucado mais se eu não pusesse aquele ponto final. Queria que minhas palavras trouxeram um pouco de conforto, mas sei que não era possível. Não quando eu estava pisando nos destroços do seu coração.
Mesmo assim, ele sorri. Triste, mas sorri.
– Eu sei – ele murmurou. – Mas você não sabe como é esperar que a única garota que você realmente gosta, te queira também.
Eu ia responder algo a Roman quando vi que ele já não estava mais olhando para mim. Seu olhar estava pousado em Thanatos, que estava com os olhos e ouvidos tapados. Mesmo assim, eu sei que ele vê o que se passa, nem que seja pelos meus olhos e ouvidos.
– Tudo bem, grandão. A D.R. terminou – Roman brincou dando um cutucão no ombro de Thanatos. Depois ele me olhou e disse: — Somos definitivamente amigos. Então, vou logo avisando que se eu receber uma ligação sua, querendo o meu corpo, no meio da noite... Juro que vou te mandar para os quintos dos infernos!
Vendo que ele falara sorrindo, eu fiz o mesmo.
– Isso não me passou pela cabeça Sr. Langerark – respondi empinando o nariz. – Se alguma vez eu fizer isso, pode me mandar para onde você quiser, até para um manicômio.
Thanatos fez uma carranca e cruzou os braços.
– Escutem, eu não gosto de ser estraga prazeres, mas... Bell, nosso tempo está acabando e precisamos procurar por esse diário antes que Sean... Trevor... Tanto faz, descubra que viemos para cá como ele queria – Thanatos lembrou com uma praticidade inesperada. – Então, se vocês quiserem se abraçar e selar essa paz de vocês, vocês podem fazer isso dentro de cinco segundos?
Roman e eu trocamos um breve olhar e ele parecia confuso.
– Trevor? Vieram como ele queria? Espere, ele convidou vocês para cá? – o lobisomem parecia confuso e chateado. Então ele balançou a cabeça. – Venham, eu vou levar vocês até o quarto dele. Se ele houver escondido algo em algum lugar, deve ser por lá. Não o vi com nenhum caderno esta noite.
Agradeci a sua ajuda e ele nos guiou de volta para a sua caótica sala-de-estar. Cumprimentou algumas pessoas conhecidas, fez brincadeirinhas e subiu pela sua escada sem corrimão. Thanatos o seguiu e eu olhei ao redor. Encontrei a cabeleira loira acastanhada de Sean em outro canto, mas ele não olhava para nós. Também consegui reconhecer os olhos curiosos dos meus amigos em algum canto, junto com os olhos selvagens de Elizabeth.
Num ímpeto infantil, fiz uma careta para ela e subi as escadas.
– Esse é o quarto dele – Roman disse abrindo a segunda porta do lado direito. – É tão organizado que dói a vista. Acho que ele deve ser um daqueles caras com TOC.
Thanatos e eu entramos no quarto e analisamos o ambiente.
Havia uma cama de solteiro em um canto, cuja cabeceira era enfeitada por um quadro de muito mau gosto, uma escrivaninha em outro, uma estante encostada contra uma parede... Tudo era extremamente organizado. Parecia até que nada estava mexido. Eu nem sabia por onde começar a procurar. Mas tinha que ser por algum lugar, não é?
– Qual é o lugar menos óbvio para alguém se colocar um caderno? – eu perguntei, analisando a estante organizada de livros.
– Acho que uma estante não é um deles... Tente atrás do quadro. É onde eu costumo esconder coisas que não quero que as pessoas encontrem – Roman sugeriu.
Olhei para ele de soslaio, perguntando-me que tipos de coisa um garoto teria para esconder. Mas então eu me lembrei de certas coisas que ouvi e cheguei à conclusão de que eu não iria querer saber. Não mesmo.
Pulei na cama de Sean e arredei o quadro horrendo para o lado.
– Como você sabia? – eu perguntei com suspeita para Roman.
– Segredos masculinos, Bell – ele retrucou com um sorriso de canto.
– Mesmo assim... Isso está fácil demais... Principalmente para um caçador – Thanatos murmurou com suspeita.
– Você é muito perspicaz Guardião – disse uma voz debochada vindo da porta.
Nós três nos viramos para encontrarmos San (Trevor?) encostado no batente da porta. Com os braços cruzados sobre o peito e o ombro apoiando o corpo na moldura da única saída e entrada, havia um crescente sorriso de deboche e satisfação em seus lábios. No entanto, o que mais me assustou, foi o fato de que seus olhos predatórios e maliciosos estavam sobre mim.
Sobre mim? Ou sobre o caderno?
Antes que ele pudesse avançar até nós e roubar o caderno de Anne Claire novamente, puxei o objeto de seu esconderijo e pulei de sua cama. Apertei-o contra o corpo e lancei-lhe um olhar que esperava ser capaz de dizer tudo: você não o tem mais.
No entanto, o sorriso não abandonou o seu rosto.
– Você está exatamente onde eu queria que estivesse – ele murmurou estalando os dedos.
E foi quando uma intensa luz invadiu o seu quarto.
Meus olhos arderam e eu tive que esconder o rosto com os braços. Ouvi Roman Soltar um palavrão, provavelmente ficara tão cego quanto eu mesma estava. No entanto, o que mais me assustou, foi ouvir o meu Guardião urrar de dor.
Isso foi estranho.
Thanatos não se machucava. Thanatos era formado por sombras... Por isso eu sempre acreditei que ele fosse invencível. No entanto, agora que eu pensava melhor, parecia óbvio que ele se machucasse com a luz, uma vez que ele fosse formado pelo oposto desta.
– Thanatos! – eu gritei, procurando-o entre a luz cegante.
De repente, eu toco em alguém. Ele estava parado a minha frente, mas não era Thanatos. Ele me agarrou com seus braços fortes e eu tentei me debater. Tentei abrir os olhos, mas eles arderam terrivelmente. Só vi uma silhueta.
– Me solta! – eu gritei, lutando contra o nada.
– Você não vai me impedir de te ajudar dessa vez, Jane Marie – Sean murmurou em meu ouvido, de repente.
Jane Marie? Então aquele cara de dezenove anos realmente conheceu a minha mãe? Mas isso é ilógico. Isso é... um absurdo. Ele teria de ser mais velho para ser aquele Trevor White de minha visão.
Lutei e acabei socando alguma coisa. Não sei o que foi. Mas ele teve que me segurar melhor para eu não fugir ou lhe atingir outra vez.
– Me solta seu louco! Eu não sou Jane Marie! Eu não sou a minha mãe! Meu nome é Anabelle! – gritei, lutando contra ele, mesmo não sabendo onde ele estava. – Me solta!
De repente, algo atingiu o meu pescoço e eu caí no chão, sem equilíbrio.
A luz já não me incomodava como antes... Eu estava desfalecendo.
Não sei porquê, mas num último resquício de pensamento, lembrei-me de Alexander.
– Alex... – murmurei, esperando que ele cumprisse sua promessa.
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