O Lobisomem De Liveway

20 Capítulo 19 - Uma História de Três Séculos.


Notas iniciais
Eu sei que demorei para postar, mas é que, depois do jeito tenso com que acabei o capítulo passado, eu tive uma pequena crise. Eu sabia o que fazer, porém, eu não sabia COMO escrever... E então eu enfim consegui continuar!! Espero que me perdoem por isso! =P Agradeço aos reviews de: > Stefany_Zanoni!! > Alohomora! > Chi Ha Ru!! > Matry-Chan!! > larimartins! > Vmfb! > Hipsthan!! > Belle Duchannes! > Laladhu!! Bissus-bissus

Capítulo Dezenove – Uma História de Três Séculos.

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O mundo parecia girar e minha mente estava enevoada.

A sensação era pior do que aquela causada após uma noite de bebedeira. Enjoo, falta de equilíbrio, falta de ar... Eu quase arriscaria dizer que alguém havia me acertado no bulbo e que era um milagre eu não estar morta ainda. E foi por isso que eu não me levantei. Tudo girava, se eu me levantasse, cairia. Além disso, a escola poderia esperar enquanto eu tentava me lembrar do que eu havia feito noite passada para merecer esse tipo de coisa, afinal, eu não sou de beber. Acho estúpido.

No entanto... Qual era única coisa que eu me lembrava?

Ah, sim, carro... Hm... Estar no carro de Alexander para ir à casa de Roman. Seu olhar contidamente preocupado sobre mim... Meu desconserto e minha brincadeirinha sem graça... “Se acontecer alguma coisa... É só falar o meu nome. Não, o meu apelido”; “Sociopata?”; “Não, Alex”... Será que ele havia dito irritado ou um pouco divertido? Já nem me lembro direito, mas ainda estou me perguntando porque eu fui tão estúpida assim.

E o porquê eu estou me preocupando com isso!

De repente... O resto se desenrolou como um filme em câmera rápida. Eu e Thanatos, minha séria conversa com Roman, o quarto de Trevor, o ataque deste... Maldição, ele havia nos pego em uma emboscada! Ele havia ferido Thanatos! A raiva me fez tentar me levantar num rompante, sem me preocupar com a tonteira ou o enjoo.

Assustada, olhei ao redor... Algemas! Algemas me prendiam em uma cama que, agora eu percebia, não era a minha! Espera, espera... Rebobina! Por que eu estou algemada numa cama que não é minha e num quarto que não é meu?!

Sim, era um quarto um pouco sujo e precário. Havia somente a cama onde eu estava, uma de armações fajutas e enferrujadas, com um criado mudo ao lado e uma bacia com água dentro. O resto tudo era um espaço vazio de três metros da cama até a única porta. A distância, no entanto, aprecia infinita do lugar onde eu estava.

O desespero me dominou. Tentei puxar os meus pulsos, só para constatar que a algema em questão era resiste e não estava quebrada. Merda. Comecei a gritar.

– Ei! Ei tem alguém aqui?! Alôo! Tô... algemada, numa cama! E, diabos, isso machuca! – gritei em plenos pulmões.

Continuei a me debater. Eu tinha que sair dali... E me lembrar como eu havia ido parar naquele lugar. Trevor... Sean... Seja lá quem ele for! Tenho certeza que aquele maluco havia feito àquilo comigo! Aquele maldito caçador! Eu nunca tinha me deparado com um antes, mas, desgraça!, eu nunca gostei dele.

E então, me lembrei.

Ele havia colocado algo no meu pescoço. Algo que me desorientou e me fez desfalecer... Algum dispositivo... Que abalou o comportamento do meu bulbo, fazendo meu coração e meus pulmões falharem o suficiente para me fazerem desmaiar.

Ele havia dito: “Você não vai me impedir de te ajudar dessa vez, Jane Marie”. Me ajudar? Ou melhor, ajudar a minha mãe? Como esse Sean conhecia a mina mãe? Isso é impossível! Quer dizer... Ele deveria ser no mínimo um bebê quando ela estava viva. Depois... Como um caçador iria querer me ajudar? Isso não tem sentido. É um caçador! Deveria estar tentando me matar de um modo cruel e sanguinário.

Tentei puxar novamente os meus pulsos... Sem sucesso. Relaxei por um momento, e olhei para o aro que prendia o meu braço. Ouvi dizer que quebrando os polegares, dá para deslizar a mão para fora da algema... Será que eu conseguia fazer isso? Não. Não tenho nem coragem de puxar uma unha quebrada, imagine quebrar um dedo!

Bufei e olhei o teto. Pensando no que fazer... Tinha que me libertar... Será que se eu conseguisse usar magia de fogo eu conseguiria derretê-las? Raiva eu já tenho, e de sobra. Porém... E se eu acabasse queimando os meus pulsos?!

Alguém entrou no quarto.

Ergui a cabeça, raivosa. Nem precisei ver para saber quem havia entrado naquele quarto... Só o modo com que ele andava e o que havia se passado já me faziam acreditar que quem eu contraria no vão da porta, seria Sean.

– Bom dia, bela adormecida! Ou melhor, boa noite! – ela exprimiu com sarcasmo. Fechando a porta atrás de si. – Dormiu bem?

Eu quis rosnar, mas essa era uma habilidade somente para Alexander ou Roman.

– “Dormiu bem” é uma ova! Tire-me daqui agora! – mandei.

Um sorriso divertido brotou em seus lábios. E então ele riu. Um riso que me arrepiou todo o corpo de nojo e raiva. Ele era até bonito, mas eu não conseguia me simpatizar por ele. Eu havia dito alguma besteira para fazê-lo rir?

– Ah, eu realmente gosto de você – ele disse recuperando o fôlego. – Você está muito melhor do que era antigamente, Jane.

– Eu já te disse que eu não sou a minha mãe – eu disse irritada. – Agora me solta daqui antes que eu te dê um chute aonde dói!

Ele ficou sério de repente. Aproximou-se de mim e colocou suas mãos meio abertas na armação de metal perto daquela cama. Analisou-me com seus irritantes olhos azuis; quase lambendo o meu corpo e o meu rosto. Um arrepio desagradável percorreu meu corpo. Bem diferente de quando Alexander me analisou com preocupação.

Quase bufei de frustração.

Por que eu estava pensando naquele vampiro quando ele sequer havia cumprindo a sua promessa de vir atrás de mim quando eu chamasse o seu apelido? Agora que penso... Acho que foi a primeira vez que eu o chamei de Alex.

– O- o que foi? – perguntei desconfortável.

Eu não gostava dele. De seu rosto anguloso, e meio maroto, dos cabelos castanhos claros cortados à navalha, dos olhos claros... Ele me dava agonia. Como se estivéssemos destinados a nos odiar para sempre.

– Você... realmente não se lembra de mim? – ele perguntou, sério.

Eu ri com escárnio.

– Claro que eu me lembro, idiota. Você é o cara que veio para cima de mim com cantadas baratas e que me chamou para uma festa somente para me prender numa emboscada – eu respondi com sarcasmo. – Por que, há algo mais que eu deveria me lembrar?

Ele soltou a armação da cama e veio para perto de mim. Jogou o seu peso na beira da cama e eu arredei para o lado. Para longe dele. Só sendo impedida de mais distância pelas algemas nos meus pulsos. Mesmo assim, recuei o máximo que pude.

– Deveria – ele respondeu, espalmando suas mãos no colchão fino e desconfortável ao lado de meu corpo. Ele se apoiou nos braços e se aproximou de mim. – Deveria, afinal, estamos ligados pela eternidade, Anabelle. Ou Jane Marie.

Franzi o cenho. O que ele quis dizer?

– O que você... – ele me interrompeu.

– Você nunca se perguntou o porquê você é tão parecida com a sua mãe, Anabelle? Assustadoramente parecida? – ele perguntou.

Traguei a saliva.

– Não sei se você sabe disso, Sean. Mas a genética pode explicar a minha semelhança com a minha mãe – resmunguei, pensando num jeito de chutá-lo para longe de mim.

Minhas pernas estavam soltas...

Um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios.

– Oh, Anabelle! Sua semelhança com sua mãe é muito mais do que a genética pode explicar! – ele exclamou como se eu fosse uma criança boba, fazendo enganos fofos e adoráveis. Ele até segurou a minha bochecha num gesto de fofura.

Novamente, eu quis rosnar para ele... E pensei em várias coisas sarcásticas para lhe dizer, porém... Thanatos era melhor nisso do que eu. Fechei os olhos brevemente, querendo ouvir desesperadamente a voz do meu guardião na minha cabeça, mas só tive o silêncio. Até mesmo quando ele ganhou um corpo, o silêncio era quase inexistente.

Abrindo os olhos, sentindo-os ridiculamente marejados, eu perguntei:

– O- o que você fez com Thanatos?

Eu não queria soar tão fraca, tão vulnerável, e tão preocupada, mas era assim que eu estava naquele momento. A voz de Thanatos sumiu da minha mente e, acabei de descobrir, eu não gosto do silêncio. Além disso, ele era o meu irmão, não era? Ele cresceu comigo, na minha cabeça, e irmãos se preocupam com os irmãos.

– Não sei o que aconteceu com ele... Ele não era o meu objetivo – Sean respondeu com pouco caso. – Aff, você não odeia quando se deixa levar pelas emoções? Tudo fica tão confuso... Minha única preocupação, sempre foi, te manter segura, Jane, mas você é tão teimosa que... Hm, às vezes, eu tenho que te proteger de si mesma.

– Eu não sou a minha mãe-...

Ele se levantou como se não houvesse me ouvido e começou a andar pelo quarto. Sua expressão, muito pensativa. Como se decidisse algo importante. Mas tudo o que eu conseguia pensar era que... Ele havia falado sobre... Me proteger, não é? Tudo bem, proteger a minha mãe, mas para ele, aparentemente, eu era a minha mãe.

“De toda forma ele parece um psicopata planejando o próximo assassinato” ouvi uma voz conhecida na minha cabeça.

Quase sorri e suspirei de alívio.

“Thanatos?!”.

“O próprio”.

Suspirei. Quase quis chorar de alívio. Olhei para Sean, analisando se ele me percebeu, mas ele parecia muito perdido em pensamentos ou calculando uma nova fórmula matemática para se preocupar comigo.

“Pensei que você estivesse... Sei lá, morto” admiti, com alívio. “Estava preocupada”.

“Ah, qual é, sou um espírito, Bell. Não é uma luzinha forte que pode me destruir, sacou?” ele respondeu, divertido. “Agora... Não tenho muito tempo. Há algo que está enfraquecendo meus poderes, então... A festa de comemoração ficará para depois... Nós já vamos te tirar daí Bell. Você precisa distrair esse louco psicopata, acha que pode fazer isso?”.

Olhei para Sean quando ele disse:

– Hm... É... É isso – ele murmurou, voltando-se para mim num rompante. – Vou te contar uma história, Anabelle. Pronta para ouvir?

Engoli em seco, enquanto um arrepio desagradável percorria o meu corpo.

“Sim. Acho que posso... Espere, ‘nós’?”.

Ele não me respondeu. Soltei um suspiro de frustração, e olhei para Sean. Apesar de não ter paciência, eu deveria distrai-lo. Se bem que, às vezes, ele parecia tão narcisista que poderia ficar falando o tempo todo e eu não precisaria fazer muita coisa.

– Era uma vez, um jovem estudante de medicina que estava fazendo uma viagem pela Europa oriental – ele começou, sentando-se aos meus pés. – No meio de sua viagem, enquanto ele acampava numa floresta, ele e sua equipe acabaram sendo terrivelmente atacados por lobos... Ele poderia ter morrido, porém, enquanto ele corria e corria pela floresta... Os lobos pararam de persegui-lo. Os lobos pararam no meio do caminho como se respeitassem algo que havia naquele lugar.

Franzi o cenho. Nossa... Como ele ia direto ao ponto! Alice gostava de fazer mistério, tanto como ela fizera quando contou a história do meu tio, George. Ele tinha o jeito de quem já havia contado aquela história muitas e muitas vezes para alguém.

– Ele parou no lugar, e olhou para os animais... Ao longe, com a visão turva de cansaço e pela perda de sangue, ele jurou... Que por um segundo, antes dos animais desaparecerem, eles haviam tomado a forma de homens! Porém, a única resposta que ele achou foi que estava alucinando. Ele deveria estar ficando louco porque, lobos não se transformam em humanos, não é?

Ele olhou para mim... Como se esperasse uma resposta.

Eu sabia, mas não verbalizei. “Lobisomens”.

– Bem, ele desmaiou... Talvez por conta do sangue perdido, talvez por causa da dor, talvez de cansaço... Ele desfaleceu sobre a grama e se perguntando se mais alguém de sua equipe haveria sobrevivido. Acordou, somente, quando sentiu alguém mexer-lhe no corpo. A dor que a pessoa lhe causou era grande demais para ser ignorada. Ele resmungou um gemido.

“- Oh, Deus! Está vivo! – exclamou a pessoa; uma mulher. – Irmão, há um homem aqui! E ele está ferido!

“Ele não respondeu nada. Só pensava no quanto ela era bonita e tinha um rosto doce... Quantos anos ela teria? Dezesseis? Quinze? Catorze? Apesar de muito mais nova, sinceramente ele não se importava, afinal, Maria Antonieta se casou com catorze anos também. Logo depois, um rapaz, quase de sua idade, apareceu e lhe prestou socorro.

“- Precisamos leva-lo para o castelo, para podermos cuidar dele – ele havia dito à sua (bela) irmã. – Apesar de eu não gostar de abusar da hospitalidade do nosso anfitrião...

“- Ele é humano – ela murmurou para o irmão. – Não me parece uma boa ideia. Nossos amigos são gentis, mas pergunto-me até onde irá essa tolerância deles a respeito das pessoas de fora.

“Como você pode ver, não dava para entender porcaria nenhuma da conversa que os dois irmãos estavam tendo. Eles falavam do jovem como se ele não fosse um “igual”. Falavam como se ele fosse um animal, ou como se eles próprios fossem animais. Sempre falavam usando termos incertos: “eles” e “pessoas de fora”... O que significaria aquilo? Ele só foi descobrir mais tarde.

“- Não temos muita escolha. Se o deixarmos aqui, sem avisar aos donos dessas terras, certamente irão matá-lo – o rapaz respondeu à sua irmã. E então se decidiu: – Vamos levá-lo ao castelo... Decidiremos o que fazer depois.

“A garota pareceu um pouco contrariada, mas percebia-se que ela não era má. Só queria o que ele ficasse bem. Só estava preocupada com o ferido e essa foi uma das primeiras coisas que mais lhe encantaram nela. Linda e gentil. Uma combinação perigosa, não acha Bell?

Ele passou sua mão pelas minhas pernas e eu não pude me conter. Dei um chute em seu abdômen que o fez perder o ar e me olhar com uma raiva contida.

– Garota levada você, hein – ele resmungou. – Já disse que adoro como você está agora? Parece uma gatinha selvagem. Eu só vi esse seu lado uma vez, e ele ainda me encanta.

Novamente, o seu olhar parecia me enxergar como um delicioso pirulito POP de framboesa que ele estava morrendo de vontade de lamber. Novamente, estremeci. Algo nele deixava a visão muito nojenta. Ou talvez fosse porque eu conhecia parte de sua podridão.

– Dá para continuar a sua história? – perguntei irritada e com petulância. – É bem melhor do que ouvir suas cantadinhas baratas.

Ele riu, divertido.

– Bem... Eles o levaram para o castelo. Um castelo enorme, provavelmente construído durante o século XV. Todo feito em pedra, torres altas, janelas e portas largas... Grandioso, sem dúvida. Tal como o seu dono com mania de grandeza era. Um jovem rude e arrogante, porém, com uma sede enorme por conhecimento... Chamavam-no de Dragonulescu.

– Dragonulescu? – repeti achando engraçado.

– Filho do dragão – ele traduziu para mim. – É Romeno.

Meus pensamentos instantaneamente voaram à Alexander. Romeno... Onde será que ele estava? Será que ele teria ouvido o meu chamado? Será que os caçadores o haviam visto no carro e o atacado? Bufei para mim mesma... Tinha que parar de me preocupar feito uma... Garotinha apaixonada.

– Enfim... Eles o receberam, um tanto hesitantes, mas estavam certos de que o jovem atacado por lobos ficaria por pouco tempo. Deram-lhe duas condições: primeiro, ir embora assim que ficasse bom; segundo, e o mais importante, ele não deveria sair de seu quarto à noite – ele continuou, puxando-me de minhas preocupações.

– Nossa... Que chato – comentei. – Parece Drácula.

Sean deu de ombros, concordando.

– E essa não é a única semelhança... Se ele não tivesse as agradáveis visitas da moça que o encontrou e de seu irmão... Eles tinham tanto em comum! Ele como estudante de medicina se entendia muito bem com o outro que era um botânico. E sua irmã... Não demorou muito para se apaixonar pelo hóspede... – ele contou, novamente assumindo um tom presunçoso.

“Ele já estava quase que para lhe propor casamento... Quando, numa noite, ele resolveu dar uma volta pelo castelo. Já estava suficientemente curado para isso. Na verdade, havia decidido que no dia seguinte deixaria o lugar e procuraria os seus amigos. Ou o que teria restado deles... Porém... Foi quando ele descobriu a verdade sobre aquele lugar.

Sean fez uma pausa tensa, seus olhos se cravando em mim com decisão.

– Depois dos meus breves encontros com lobisomens... Eu havia ido parar num covil de vampiros... O temido clã Cluj.

Eu franzi o cenho e, então... Aos poucos, tudo foi se encaixando.

Como peças de Tetris caindo e se encaixando... Clã de vampiros Cluj... Não era o clã de Alexander? Que foi assassinado por caçadores? Onde minha mãe, tia Alice e tio George se alojaram? Mas, não é possível... A história da tia Alice havia acontecido no século XVIII. E a de Sean... Ele não disse. Não disse nem que era com ele, mas eu tinha certeza que era.

Meus olhos se arregalaram.

– Não é possível – eu sussurrei.

– É. É possível – ele insistiu. Debruçando-se sobre mim com as mãos espalmadas ao lado da minha cintura. – Essa... É uma história... Sobre como eu conheci a sua mãe, sua família e como eu consegui me tornar imortal... Há três séculos.